Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Steinski – What Does It All Mean? 1983-2006 Retrospective (2008; Illegal Art, EUA)

Steve Stein era supostamente um traficante que virou um publicitário e que apareceu para o mundo do hip-hop em 1983, quando participou de um concurso da Tommy Boy para remixes denominado “Hey Mr. DJ Play That Beat Down by Law Switch the Licks Mastermix Contest”. Ali surgiu sua primeira “Lesson” , denominada “The Payoff Mix” e que havia sido produzida com seu parceiro Double Dee, com quem ainda produziria mais duas lições, a “James Brown Mix” e a “History of Hip Hop”. Stein adotou o nome Steinski e, mesmo continuando a trabalhar no mercado publicitário, criou um modo peculiar de unir seus samples, que influenciaram a produção do hip-hop. Ele é precursor do que veio a ser conhecido como mash-ups. (MM)

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Um dos objetivos da Camarilha dos Quatro é alternar a apreciação de lançamentos recentes com outros que tanto podem ter sido lançadas há um ano como há muitas décadas. Isso não apenas porque achamos que o antigo é melhor, mas por mera apreciação, por entender que tal objeto nunca recebeu atenção merecida, ou lançar novas luzes sobre algo que ouvimos atualmente. Observando apenas a primeira página do site isso se mostra claro a partir de comentários sobre o Faust e o The Residents (especialmente o último, cujo texto é importante para a contextualização de certos comportamentos atuais e pertinente devido à falta de reconhecimento amplo de suas realizações).

Isso para chegar na recém-lançada coletânea What Does It All Mean? do DJ Steinski. Há alguns anos, pesquisando sobre o DJ Shadow cheguei nas três lições de Steinski e as achei divertidas e criativas. Ainda não estávamos na era das colisões, dos mash-ups, de Prince Paul, dos Avalanches, do Girl Talk, do DJ/Rupture ou do Danger Mouse. A coletânea é das mais compreensivas e bem sucedidas dos últimos tempos, além de conseguir abranger a produção de Steinski, consegue se organizar de forma a produzir uma audição das mais ricas e como é próprio de Steinski, proporciona um passeio vertiginoso pela história do hip-hop e da música negra americana.

Mas a importância de Steinski não reside em sua capacidade de pesquisador assim como o interesse por sua produção não se resume ao fato de ser o avô dos mash-ups. Verdade que a música de Steinski apenas era possível antes da guerra dos direitos autorais iniciarem e seu modo de produção não tinha os propósitos políticos de um Danger Mouse ou Girl Talk (é natural que seu posicionamento a esse respeito tenha vindo posteriormente, e o segundo disco, com a íntegra do álbum Nothing To Fear, feito à partir de uma sessão para a BBC, é elucidador). A política em sua produção era mais literal e aguda, usando as técnicas de colagem para produzir música como forma de ensaio, versando sobre assuntos como o assassinato de JF Kennedy, o 11 de setembro americano e ações belicistas do mesmo país. Sua música era política na essência: o modo de produção refletia um posicionamento tanto quanto à música e ao hip-hop – que ainda estabelecia seu espaço -, quanto ao estado de coisas; uma certa desconfiança da mídia tradicional.

Talvez Steinski não seja o mais virtuoso dos artistas de colagem, especialmente pelo fato de à época em que realizou suas composições mais famosas, ainda não se contava com a tecnologia que possibilitou a Gregg Gillis fazer suas sobreposições com tanta precisão e tornou-se viável a qualquer um montar um mash-up engraçado. Mas ainda assim, é impressionante como o fluxo de suas composições é natural. Apesar de usar músicas de origens diversas e incluir found-sounds e samples de áudio de filmes e discursos, nada parece fora do lugar ou forçado: uma verdadeira leitura histórica. Ouvindo a progressão do primeiro disco, percebemos como ele foi evoluindo da produção de faixas extasiantes e que mantinham um clima permanente de euforia, para faixas que possuíam um inédito senso de narrativa, algo pouco encontrado, inclusive nas produções contemporâneas – talvez apenas o The Avalanches tenha conseguido, analisando por inteiro o Since I Left You, criar um sendo narrativo que enriqueceu sobremaneira a audição. Faixas como “The Motorcade Speed On” estão distantes de serem apenas curiosidades, usando samples de notícias sobre o assassinato de Kennedy para criar uma narrativa tão rica quanto a criada para “I’m Wild About That Thing”, de conteúdo deliciosamente sexual – para retornar ao paralelo com os The Avalanches, “I’m Wild…” é legítima precursora deFrontier Psychiatrist” no uso de samples vocais. Mas não esqueçamos que no meio da faixa alguém informa tanto que “Sex is fun” quanto “It isn’t a sex thing / It is a political thing“. O primeiro disco fecha com a perturbadora “Number Three on Flight Eleven” que usa samples de ligações telefônicas de vítimas do 11 de setembro.

O segundo disco, que inclui a íntegra de Nothing to Fear, leva tais procedimentos mais longe e além de funcionar à maravilha musicalmente é daqueles álbuns que é difícil de prestar atenção de tão hilário. Claro que no lugar de uma faixa-narrativa de quatro ou seis minutos, temos uma mixtape de mais de uma hora e, assim, é inevitável alguma perda de concisão. Mas isso sem comprometer seriamente o resultado final.

What Does It All Mean? Bem, significa que temos a sorte de ter acesso a um documento que é vital para a história da música popular do final do século XX e início do século XXI, e a uma obra rica, instigante e divertida. (Marcus Martins)

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É curioso. Nessa tarefa de escrever para a Camarilha, a indicação de What Does It All Mean? marcou a primeira vez em três semanas que eu ouvi músicas com letras que eu tinha alguma chance de entender. Sim, eu admito que não domino o finlandês do Paavoharju e ainda estou devendo o texto do Kasai Allstars, que está portanto fora de questão no momento. Mas é curioso que este “retorno” tenha sido justamente através de uma coletânea old school de hip hop. Afinal, como produtores que utilizam o sample como parte do seu alfabeto, Steinski e seu parceiro Double Dee operam a arte do reconhecimento na chave dupla: para além do imediato encontro com sons que já se conhecia antes, trata-se de uma espécie de re-conhecimento, qual seja, encontrar por outro ângulo algo que já se conhecia.

What Does It All Mean? reúne material clássico, como as três lições que abrem o disco. “The Payoff Mix”, “Lesson 2 (James Bronw Mix)” e “Lesson 3 (History of Hip Hop)” são um prazer aos ouvidos pela incrível capacidade de reunir uma enciclopédia de música dentro de “arquivos” criados com a habilidade de cortar, copiar, colar e editar trechos e sons de forma a renová-los de dentro para fora. E isso numa época em que não havia internet e a briga por direitos autorais era ainda mais encardida. Já seria suficientemente bom ficar com as colagens inteligentes e os grooves sagazes de faixas como “Jazz” e “Ain’t No Thing”, sem falar na irresistível “Voice Mail (Sugar Hill Suite)” e em “The Big Man Laughs”, que me fez rir junto com o referido Big Man. Mas então vem o segundo disco, uma mixtape do tipo que dá alegria seja ouvindo com fones de ouvido, atento e compenetrado; seja ouvindo no quarto, com a cabeça feita; do tipo que dá vontade de ir para a quadra jogar basquete. Como ponto fora da reta, “Number Three On Flight Eleven”, tema elaborado à luz do 11 de Setembro, é um momento em que a direção muda e talvez seja simplesmente difícil extrair a alegria da máxima tristeza nova-iorquina, por assim dizer. Mas, numa boa, não dá para reclamar. Muito pelo contrário. (Tiago Campante)

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Coletâneas podem variar em relevância. Existem as essenciais, aquelas que demarcam momentos da carreira de artistas ou servem como propósito de desfazer as distorções de mercado e distribuição (caso, por exemplo, de Basic Channel, compilação de faixas lançadas pelo selo homônimo unicamente em formato de vinil de 12”), ou para mostrar como certos artistas irregulares em seus discos de carreira são capazes de momentos de brilhantismo (caso específicos de artistas pop de canção). Mas no geral é apenas um propósito nada artístico de fazer uns tostões a mais. What Does It All Mean? não é exatamente nada disso, mas é algo mais importante. É o tipo de coletânea que inventa um artista e o inscreve decisivamente na história de um gênero. Steve Stein é, ou era, desconhecido da grande maioria dos entusiastas de música, mesmo dos fãs específicos de hip-hop e colagens. Ao mesmo tempo, é alguém referenciado por luminares do gênero, como DJ Shadow e Cut Chemist, e ouvindo a essa coletânea vemos alguém pela primeira vez traçando caminhos que hoje são considerados tendências das mais interessantes dentro da música. Pelo pioneirismo de Steinski, essa coletânea já seria um item obrigatório, mesmo como ampliação da compreensão de um panorama artístico. Em se tratando de faixas que tiveram sua circulação totalmente vetada devido a problemas com direitos autorais, e que só a partir da existência dessa coletânea passam a ter uma projeção mais ampla, a coisa toda já ganha dimensões de acontecimento. Mas é difícil escrever sobre acontecimentos. Basta dizer que é um acontecimento. E é.

Mas, ao mesmo tempo, a vontade é de se falar da música. Do talento específico de Steinski e daquilo que torna sua obra distintiva. What Do You Mean? é todo compartimentado em grupos muito precisos, mas algo como uma assinatura parece permear toda a audição: a astúcia na inserção de fontes vocais de naturezas distintas e de charme inequívoco. Filmes, propagandas, falas de políticos, documentários institucionais, tdo é pretexto para entrar na salada criada por Steinski. A ponto de algumas faixas serem exclusivamente coleções de falas sobre temas específicos, televisão, política, sexo.

A progressão das faixas do disco 1 aponta uma guinada do soul breakbeat dos anos 70 e do hip-hop nos primeiros anos para os big beats típicos de meados dos anos 90. O essencial desse disco duplo, em termos de invenção e também em influência histórica, está nas primeiras faixas, as três lições e as faixas “Jazz” e “Voice Mail”, com colagens insanas e com aquele sentimento vertiginoso que só um repertório inédito de procedimentos sendo construído possibilita. A qualidade continua alta até o final do segundo disco (um outro destaque é “Is We Goin Under”, com Chuck D do Public Enemy), mas não sem uma sensação de reiteração. O segundo disco é a mixtape Nothing to Fear – A Rough Mix, de 2003, que, se não atingem o brilhantismo e a invenção dos melhores momentos do primeiro disco, também não fazem feio e são excelentes instrumentos de feelgood e suíngue.

O sujeito pavimentou o caminho para uma plêiade de artistas, alguns que sem dúvida excederam o inspirador – facilmente DJ Shadow e Avalanches –, além de todos os cultores de mash-ups da linhagem 2 Many DJs e Girl Talk. What Does It All Mean?, no entanto, não se ouve com a aura de um museu, mas com o frescor de uma arte viva e duradoura. (Ruy Gardnier)

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Em tempos de P2P, até o cara que se supõe antenado tem seus dias de neófito. Certos artistas, embora saídos do túnel do tempo, aparecem de um dia para o outro com uma inequívoca representatividade no cenário musical do século. Antes da universalização ocasionada pelo intercâmbio digital, admirava, em sua maioria, artistas standard como Led Zepellin, Bowie, Velvet, Stooges e até mesmo Brian Eno. Mas simplesmente não conhecia outros tantos como Nick Drake, Fela Kuti, Boredoms ou Merzbow, que aos poucos foram se revelando muito mais do que a vidinha tijucana dos anos 90 poderia supor. E é com sinceridade que devo admitir: não conhecia também o trabalho de Steinski, não estava ciente de seu pioneirismo como virtuose das colagens musicais. Eu não sabia que no cerne do turntablism e da cut and paste music de DJ Shadow, Avalanches e no recente Girl Talk residia a marca indelével de Steve Stein e Doug Di Franco, dois técnicos de estúdio que se especializaram em combinar trechos de grandes clássicos do funk e da disco com diálogos de filmes noir, criando uma influente forma de composição musical. O método pode ser descrito mais ou menos assim: na faixa “Voice Hall (Sugar Hill Suite)”, uma clara homenagem ao trio americano Sugarhill Gang, ouvimos aquela batida inconfundível do clássico “Rappers Delight” mixado a uma série de intervenções de outras faixas do grupo. Em “Lesson 3 (History of hip hop)”, Steinski cumpre exatamente o que promete o título, ainda que sua história do hip hop seja mais autoral do que propriamente historiográfica, recortando inúmeras faixas de diversos trechos não só do hip hop, mas de seus precursores como James Brown, por exemplo. A música de Steinski, essencialmente guiada para fins de festa e requebros em geral, no entanto é memorial e inovadora. O efeito é o de um irresistível turbilhão sonoro, cada trecho criando uma relação ambígüa com o ouvinte, ativando sua memória, mas simultaneamente procurando surpreender seus sentidos. Esta coletânea-retrospectiva, composta por boa parte das faixas lançadas pelo produtor, possui o poder de repor a novidade ao neófito temporário, conscientizá-lo da importância e da ousadia do autor e, sobretudo, levá-lo a um estado de graça e da mais pura e desinteressada alegria. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 19 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , , .
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