Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Funkees – “Point of No Return” (1974; Amba, Nigéria)

Formado por Mohammed Ahidjo (vocal), Jake Sollo (guitarra, órgão e pianola), Harry Mosco (guitarra), Danny Heibs (baixo), Chyke Madu (bateria), Sonny Akpabio (congas) e Roli Paterson (bongôs), The Funkees é um daqueles grupos africanos que, como o BLO, apostou no afrobeat com uma pegada mais roqueira que jazzística, configurando um estilo hoje chamado preconceituosamente de afro-rock (como se o aspecto geográfico pudesse denotar traços estéticos… logo nos dias de hoje!…) Fundado originariamente como uma banda de exército e, em 1972, radicados em Londres, o Funkees lançou apenas dois discos. Mas, a exemplo do já citado BLO, desenvolveu nesse curto espaço de tempo uma linguagem híbrida, aliando gêneros como o afrobeat, o rock, o calipso e outros ritmos, mas ao mesmo tempo irredutível a eles. “Point of no return”, faixa homônima ao primeiro álbum do grupo, é o exemplo perfeito de como esta combinação, capitaneada pelo legendário produtor serroleonês (sic) Akie Deen, pode surtir um efeito mais que surpreendente. O início da faixa já deixa a orelha em pé: um combo de bateria e percussão, recortado num andamento mais próximo do afrobeat e pontuado por um riff naquela tradicional guitarra anglo-saxã. Mohammed Ahidjo entra com um vocal vigoroso, no melhor (ou pior, depende…) estilo Ian Gillan, quando ocorre a virada para uma harmonia menor e a faixa é tomada por solos de guitarra e muita percussão até o final. A música do Funkees é digna do mais atento interesse, e não somente porque é um rock interpretado à maneira nigeriana.

Me pergunto entretanto a respeito da significação desta recente revalorização de grupos de rock nigerianos, congoleses, etc? Para mim, o contato com a música oriunda da África traz, além da diversidade, a certeza de que o aspecto tradicionalista e folclórico que essa música evoca em certas publicações e contextos sociais, bem como o hábito equivocado de considerá-la numa perspectiva generalista (como se houvesse apenas uma África), revelam, ainda assim, um etnocentrismo encarniçado e renitente. Mesmo num contexto simpático a essas manifestações, ainda se percebe aquela benevolência, aquela curiosidade “superior”, característica das tentativas de se pensar a cultura de uma forma não-etnocêntrica. Um exemplo disso é a “surpresa” com que se recebem as inovações do Konono e do Kasai Allstars, ou mesmo a idéia de que o sound system e inúmeras técnicas de gravação e reprodução hoje utilizadas nos países desenvolvidos foram criadas na Jamaica. Mas estas questões não interessam aos milhões de sites de vendas especializados em “música do mundo”, que aparecem diariamente com suas “novas descobertas”, geralmente obtidas com algum colecionador apto financeiramente a adquirir, nos bolsões de pobreza do mundo, uma gama inacreditável de lancamentos e raridades. São as limitações do capital: de um lado ele leva ao famigerado “crescimento”, mas de outro impõe a mais severa lógica do moinho, no qual o sumo é retirado, mas o bagaço permanece intacto.

Existe, sim, um outro aspecto: hoje, o dub e o afrobeat são representados por brancos dos países ricos, hiper-informados, super-antenados. Kokolo, Akoya, Nomo e outros grupos de afrobeat são formados por brancos canadenses e americanos, e mesmo o já esquecido Vampire Weekend se diz influenciado pelo afro-rock… Toda esta boa vontade para com a música pós-colonial, bem como a “pós-colonialização” da música americana e européia, não esconde uma realidade tão desesperadora quanto fecunda: sendo o capital, para o bem e para o mal, o último bastião dos valores que construíram o Ocidente, até mesmo os supostamente indesejados como o etnocentrismo, será que o mero amor pela música, o amor “desinteressado” pelo maravilhamento proporcionado pela arte, tem poder de criar uma nova mentalidade, uma solidariedade verdadeira e, sobretudo eficaz? Será que o amor pelo afrobeat fará europeus e americanos formarem economistas menos sensíveis aos apelos do mercado? Será que após a sua morte, Fela Kuti conseguirá sensibilizar Europa e Estados Unidos para a tragédia que representam os subsídios agrícolas? (Bernardo Oliveira)

Anúncios

2 comentários em “The Funkees – “Point of No Return” (1974; Amba, Nigéria)

  1. hghf
    22 de agosto de 2008

    ZzZzZZZZzzzzzzzzzz

  2. didi
    19 de novembro de 2008

    ZzZzzZzzzZZZzzz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 21 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , .
%d blogueiros gostam disto: