Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Æthenor – Betimes Black Cloudmasses (2008; VHF Records, EUA)

Æthenor é um grupo de improvisação formado por Stephen O’Malley (guitarra e eletrônicos), Daniel O’Sullivan (piano elétrico) e Vincent de Roguin (órgão e sintetizador). O’Malley é um dos nomes mais importantes da música experimental e faz parte de diversos projetos, dentre os principais: Sunn 0))), KTL com Peter Rehberg, Khanate, Burning Witch, Pentemple e Gravetemple (os dois últimos com Oren Ambarchi), afora discos solos e splits com Boris, Earth e Nurse with Wound. Fundou em 1998, juntamente com Greg Anderson – também integrante do Sunn 0))) -, o selo Southern Records, especializado em doom metal, drone metal e metal experimental, que vem lançando os discos mais interessantes dos gêneros ultimamente. Daniel O’Sullivan é integrante do Guapo e Vincent de Roguin do Shora. Betimes Black Cloudmasses é o segundo álbum do Æthenor e possui colaboração dos percussionistas Alex Babel e Nicolas Field, além da participação especial de Krtistoffer Rygg, do Ulver, nos vocais. (TF)

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Stephen O’Malley é uma das figuras mais idiossincráticas do heavy metal. Seu conjunto principal, o Sunn 0))), começou como uma banda cover de Earth e ele nunca se importou em revelar suas influências. Mas enquanto o Sunn 0))) permanece resguardado (o último álbum de estúdio é de 2005), ele se dedica aos seus outros projetos, como o Khanate, o KTL e o Pentemple, que neste ano lançou um disco avassalador de doom metal improvisatório. As marcas deixadas por O’Malley no cenário musical contemporâneo são substanciais e ele é influência até para artistas veteranos como o Portishead, no seu último disco Third, e, quem diria, Scott Walker, que, há dois anos, lançou The Drift, o disco mais pesado de sua carreira, escancarando o flerte com o drone e o doom metal. O próprio Earth, depois de anos de inatividade decidiu voltar, porém com uma sonoridade mais calma e melodiosa, talvez como uma tentativa de destoar do próprio Sunn 0))), que chupou o máximo que pode da fase inicial do grupo de Dylan Carlson. Outros artistas emblemáticos da música experimental dos anos 80, como David Tibet (do Current 93) e Stephen Stapleton (do Nurse with Wound) deixam transparecer as influências de O’Malley nos seus trabalhos mais recentes, da mesma forma que dividiram splits e projetos colaborativos com o mestre do metal vanguardista. Dando continuidade ao Æthenor, que lançou seu primeiro álbum em 2006, O’Malley progride com um grupo que, de todos que ele já arregimentou, é detentor de uma sonoridade das mais interessantes. O nome Betimes Black Cloudmasses é tirado de um poema do sueco Strindberg e o disco é extremamente sombrio e instigante, cujas músicas são todas improvisadas, não possuindo, portanto, uma forma pré-definida.

Betimes Black Cloudmasses é divido em três faixas (nomeadas I, II e III respectivamente) de pouco mais de trinta minutos. A primeira começa com um som grave e cintilante e alguns efeitos ao fundo, dentre eles uma guitarra distorcida mixada em volume baixo e um órgão misterioso. Depois de alguns minutos, uma mudança brusca ocorre com um estalido e outro som bem agudo. Os pratos se sacolejam e o barulho grave e cintilante do início diminui de ritmo e se torna ainda mais sombrio. Os estalidos, que agora se assemelham a uma corrente, continuam e é como se as baquetas da bateria fossem substituídas por essa corrente. É possível ouvir vários efeitos ao fundo, alguns que parecem vozes assustadoras advindas do além. O piano fender rhodes emite notas suaves. Uma freqüência aguda aparece e os estalidos e batidas violentas ao fundo continuam. Barulhos de metal vêm à tona, como se fossem chaves ou ferramentas pequenas sendo remexidas dentro de uma caixa. É neste exato momento que começa a segunda faixa do álbum, que logo abre espaço para acordes contínuos no órgão. Os barulhos de metal seguem de maneira intrigante e vários efeitos se confundem: eletrônicos são misturados a barulhos de címbalos e das caixas. A bateria fica mais intensa e, com ela, a própria música. O barulho grave fica mais pesado e entram também efeitos estridentes, parecidos com os de um teremin. A intensidade só aumenta e, logo após, o clímax, quando também surge uma voz grave. Os percussionistas parecem tocar de modo aleatório e dividem o espaço com notas suaves, tocadas incessantemente, que não se sabe ao certo se vêm do fender rhodes ou de um sintetizador. Lembram “Sweet Love for Planet Earth”, faixa de abertura do disco do Fuck Buttons. As percussões ficam mais fortes e se resguardam por algum tempo. Entra um drone cheio de efeito e elas voltam de forma mais improvisatória ainda. O drone fica mais contínuo e outro efeito agudo aparece. Depois o mesmo drone desaparece e é como se restassem apenas microfonias e o barulho dos címbalos, com alguns toques nos bumbos. O drone retorna inconstante, mas logo se firma e se junta aos demais efeitos. Os toques nos pratos se tornam mais ininterruptos e alternam de volume com o drone. A faixa segue seu rumo ao fim – um som ambient toma conta e o baixo permanece ao fundo engasgado e distorcendo as caixas de som. Os efeitos de metal do início voltam e surge a terceira faixa, com notas reticentes no piano elétrico. Os vocais de Rygg aparecem de forma quase fantasmagórica. A improvisação é total, nenhum dos instrumentos segue uma linha lógica. A voz de Rygg reaparece rouca e balbuciando, como um Tom Waits insano. Depois é como se ele emitisse um grito bem agudo, mas fica a dúvida se não é algum efeito. Novamente a música é tomada por um som ambient, ainda mais suave, mas não menos sorumbático. Os efeitos de metal retornam, assim como o som grave e hesitante. Outros gaguejos surgem e tem-se a impressão de ouvir Rygg novamente, porém nada é certo. Um efeito suave aparece ao fundo e vai crescendo. As percussões também voltam, mas logo são cessadas. O efeito que tentava se sobressair toma forma e um silêncio quase que toma a música por completo. Porém, ainda se podem ouvir barulhos bem baixos ao fundo e o piano lança notas delicadas até, inesperadamente, suspender as atividades. O silêncio toma conta novamente e, com ele, o fim de um belíssimo disco de improvisação soturna e abarcadora. (Thiago Filardi)

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Quando no futuro alguém fizer a história de como a partir dos anos 90 o metal expandiu seus limites para territórios sonoros mais experimentais, abstratos e como fundiu sua prática à de outros braços da música extrema – free jazz, drone, free improv, noise – naturalmente o nome de Stephen O’Malley deverá vir à tona. Ele está continuamente envolvido em projetos musicais tão díspares quanto instigantes: Sunn O))), Khanate, KTL, Pentemple, Ginnungagap. O Æthenor, especificamente, parece responder a um interesse em trabalhar os drones de baixa freqüência característicos de O’Malley, e assinatura do doom metal, ao terreno free form da música abstrata sem amparos estruturais muito precisos.

E de fato ouvir Betimes Black Cloudmasses é acima de tudo ser envolvido por uma atmosfera lúgubre, viscosa, densa e ameaçadora, sem saber exatamente para onde essa aventura sonora vai te levar. A primeira das três faixas (todas elas, aliás, sem nome) começa com uma pulsação típica do drone doom de O’Malley, que vai ganhando texturas envolventes de teclado até mais o menos o quarto minuto, quando entram sons de chicote e um grito de mulher. O silêncio então passa a ser determinante, ele torna algo soltos, aleatórios os sons que vêm em seguida: gongo, pratos estridentes, barulhos de choque com metal, sinos, talheres (alô Mutantes) e outros sons sintetizados. Quando salta da primeira para a segunda faixa, a dinâmica já é inteira dada pela percussão. Ela aos poucos vai adensando o som até chegar, ali pelos três/quatro minutos, ao clímax de volume do disco, com bateria quebrando tudo e teclados estridentes estourando. Depois do tempo forte a faixa conta com um teclado singelo à la caixinha de música, enquanto outras fontes sonoras, computador e bateria, adicionam barulho ao caldo. Progressivamente a faixa vai novamente ganhando em violência, atingida paradoxalmente de forma bastante sutil. Quando o disco deságua para a terceira faixa, já entrou em modo mais ameno, atmosférico mas com nuvens pouco carregadas. Algumas vozes emulando sons animalescos, samples de natureza, bateria incisiva dando ênfase aos pratos e teclados climáticos dão o tom de um disco que acaba serenamente, quase como o reconhecimento de um trabalho minucioso cumprido à risca.

Mais uma vez aqui na Camarilha, depois de Kevin Drumm, temos um caso dessa exploração do metal em outras searas, tão desgarradas a ponto de fazê-lo transformar-se em outra coisa. Não é à toa: as investigações do drone, do ponto de vista do repertório do metal, constituem hoje um dos campos mais interessantes a serem pesquisados no rumo de novas sonoridades e experiências musicais. Ainda que Betimes Black Cloudmasses não apareça com a pujança de um marco, é uma audição única e propõe níveis impressionantes de imersão recompensadores. (Ruy Gardnier)

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Em pouco mais de seis meses de Camarilha, apenas três artistas foram citados mais de uma vez entre as escolhas da “redação”. O multiinstrumentista Maurício Takara, através do Hurtmold e do São Paulo Underground; Shackleton, com suas reviravoltas e esculturas sonoras; e Stephen O’Malley, um dos três membros do Æthenor, mas também de nomes importantes do metal contemporâneo como o Khanate e o Sunn 0))). Da minha parte, o que mais fascina nesses três nomes é o poder de transfiguração, a capacidade de manipular diversos contextos “gramaticais e sintáticos”, tanto circunscrevendo uma identidade própria como atribuindo diferentes nuances a certas formas pré-existentes. No trabalho de Shackleton, o dubstep constitui uma espécie de leitimotiv a partir do qual se condensam elementos do dub e dos ragas hindus. Maurício Takara, por sua vez, opera sobre a polifonia do jazz, mais especificamente trabalhando com estruturas modais, improvisos, sobreposições e intervenções digitais. No caso de O’Malley, esta forma básica é o metal em todas as suas vertentes, o que muito impressiona. Porque, até meados da década de 90, ainda vigorava a certeza de que o metal estava inevitavelmente preso a uma falsa selvageria de espírito, a um conservadorismo belicista e, além disso, a um senso de ridículo imperdoavelmente deficitário – vide as capas e roupas, bem como a fascinação por cérebros, demônios e pela Idade Média. Junto ao apavorante Om, de Al Cisneiros, e à insanidade de Aluk Todolo, o trabalho de O’Malley representa uma inflexão experimental do metal, inflexão esta tomada pela transfiguração de elementos canônicos do gênero como os ambientes tenebrosos, explorados através de tons menores e dissonâncias, os sons mais estridentes ou que lembrem a tensão de tiros e vidros quebrados, e, para o bem e para o mal, alguns teclados adocicados e repetitivos – pois como afirma corretamente um amigo, “em cada disco de metal, existe uma balada reprimida…”

Dando prosseguimento a essas experiências, o segundo disco do Aethenor opera num campo mais perigoso que o do Sunn 0))) e do Khanate. Pois enquanto nos dois primeiros trata-se de desarticular o metal por dentro de suas estruturas de composição, Betimes Black Cloudmasses explora o gênero manipulando os climas e os momentos abstratos com uma parcimônia maliciosa e, por vezes, contraditória. O perigo reside na suposta contradição entre a juvenilidade do metal e a apropriação conceitual levada a cabo pelo Æthenor. Entretanto, nas variações e nuances que constituem os demoníaco improvisos drone de Betimes…, esta suposta juvenilidade é alçada a uma outra esfera criativa. E neste ponto me lembro de um outro amigo que, odiando o heavy metal, me perguntava: mas então, se se trata de apavorar o ouvinte, porque não explorar profundamente as dissonâncias e os ritmos sincopados, ao invés de chafurdar na pasmaceira tonal e “cancioneira” que marca o gênero? Betimes… constitui uma resposta incisiva a este amigo, pois representa, de fato, uma dimensão mais abrangente e complexa do gênero. E aqui, sim, funciona aquela distinção preconceituosa que atribui o rótulo Intelligent a algumas manifestações da música eletrônica: chegou a hora do IHM (Intelligent Heavy Metal). (Bernardo Oliveira)

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Mais do que qualquer outro “gênero” musical, o metal consegue ser aquele pelo qual tenho a maior aversão. Confesso já ter tentado ouvir com boa vontade várias das pedras fundamentais de várias vertentes, mas quase nada conseguiu sustentar uma audição. Paralelamente a isso, nos últimos anos, venho me surpreendendo com interesse em produção que muitas vezes é qualificada como “doom metal” e similares. Verdade que a maior parte dos álbuns que chega a me agradar é apenas tangencialmente ligada ao gênero, ou tem entre seus realizadores músicos ligados a tais cenas. Talvez a atração seja pelo lado mais experimental, ou menos agressivo de tal produção, e se um nome dentre todos se destaca, é o de Stephen O’Malley, participante de tantos projetos quanto possíveis, sempre alcançando resultados que colocam seu nome no panteão dos artistas fundamentais do século XXI. O’Malley é uma espécie de Jim O’Rourke do doom e não apenas pelo sobrenome iniciado com O’.

Æthenor é um de seus projetos que, aos poucos, vem ganhando destaque e corpo. Além de se destacar pelo lado experimental, a presença do metal é mais restrita à referência e ao paralelo que aos resultados sonoros. Longe da densidade única do Sun 0))), o Æthenor prima pelos detalhes. Álbum curto constituído de três faixas que somam trinta e quatro minutos, facilmente identificamos alguns elementos básicos. A guitarra de O’Malley e diversas camadas de órgãos e sintetizadores que criam a atmosfera soturna e tensa que permeia todo o disco. Vocais espectrais e sombrios aliados a diversas formas de percussão invadem o fluxo musical e, especialmente, por volta dos cinco minutos da primeira faixa, sua intervenção é de suspender a respiração. Por coisas como essa é que o álbum assemelha-se à forma condensada de um filme de suspense em áudio. Mas não pensemos nas referências clássicas para álbuns que criam tensão. A chave aqui é de extrema contensão e rigor. Um dos diferenciais do projeto é uma certa aura classicista que o envolve, um domínio pleno que desafia a idéia de que se trata de um projeto de improvisação e, mesmo em momentos de execução mais livre como por volta do terceiro minuto da segunda faixa, não existem equívocos ou excessos, apenas intensidade. (Marcus Martins)

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Um comentário em “Æthenor – Betimes Black Cloudmasses (2008; VHF Records, EUA)

  1. Tiago Campante
    25 de agosto de 2008

    Penetrar no universo sonoro do tríptico gutural erigido em “Betimes Black Cloudmasses” é um pouco como entrar numa caverna repleta de som. A cada passo que se dá, uma nova sonoridade se apresenta. Há drones intensos, chiados e estalidos de sonoplastia, som de correntes de arrastando e, por que não?, até voz humana. Ao mesmo tempo que dá calafrios – tamanha é a determinação dos músicos em cumprir a missão do projeto desenvolvido pelo trio Vincent De Roguin, Stephen O’Malley e Daniel O’Sullivan –, o disco tem um caráter surpreendentemente aconchegante.

    Certo é que pelas veias do Aethenor corre sangue metálico, de cores psicodélicas, algo que se percebe logo na primeira música. A entrada é densa, um ambiente escuro que parece pedir ao ouvinte que apague todos os sentidos e deixar somente a audição ligada. Então, uma série de ruídos estabelece a paisagem sonora da construção. Mas, à medida em que o som ameaça ficar pesado, vem então uma chuva de sonoridades que dissipa a neblina e abre brechas de luminosidade, como é o caso do desfecho da faixa “II”. Quando se chega à terceira música, o forte investimento nas improvisações de percussão, acompanhadas sonoridades selvagens, são de arrepiar. Um disco de uma sutileza impressionante, camuflada na forma de nuvens pesadas.

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Publicado em 25 de agosto de 2008 por em Uncategorized.
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