Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gangbé Brass Band – “Ajaka” (2001; Contre-Jour, Benin/Bélgica)

Comecemos pelo fato histórico que, além de esclarecedor, auxilia no deslocamento da percepção etnocêntrica, evitando aquele deslumbre pelo exótico que mais atrapalha do que ajuda. Antes de ser colonizado pela França no século XIX, por muitos séculos Benin (antiga Daomé) foi um reino africano próspero. Durante os pouco mais de cento e cinquenta anos de colonização, sofreu todas as expropriações comuns a este processo, envolvendo-se inclusive em guerras que não eram suas, empregando sua força de trabalho em favor do welfare state que não chegariam a usufruir. O produto histórico deste percurso não constitui novidade para ninguém, mas esconde um paradoxo difícil de aceitar: conforme a economia e a política adquirem um aspecto nefasto, a constituição cultural, embora atribulada e mal documentada, ainda assim exprime profunda riqueza criativa. E aqui proponho uma reflexão: a grande música, assim como a grande cultura, nasce do caldeamento de populações que vivem em situações extremas, ou oriundas de uma estrutura material adequada ou de grandes e desgraçadas lacunas. Quero dizer, a grande cultura não emana da classe média, ou melhor, de uma economia libidinal regular e utilitária, ávida por prazeres anestésicos, calmantes e, portanto, já decodificados. A música jamaicana, brasileira e americana, produto da diáspora africana, traz em seu cerne tanto as trocas e sínteses culturais características da colonização, como também as péssimas condições de vida ocasionadas por contextos sociais e políticos racistas; no mesmo sentido, pode-se dizer que, em países abastados como a Inglaterra e a Alemanha, a música vive hoje uma espécie de reflorescimento com o dubstep e as variações do techno. No que diz respeito a constituição histórica da música de Benin,  assemelha-se a do jazz, não por acaso também nascido da apropriação criativa de velhos instrumentos de sopro que compunham as fanfarras militares (em inglês, brass bands) na Guerra da Secessão. Vejo como uma comprovação desta estranha ciência das relações entre a criatividade e as condições materiais, o fato de as brass bands de Benin também constituírem, dos restos da guerra, uma cultura rica e multifacetada. “Descobertos” pelo selo belga Contre-Jour, os dez membros da Gangbé Brass Band exprimem de forma contundente esta realidade complexa, que só agora, com o alargamento do espectro de difusão musical, começa a aparecer de fato. No dialeto Fon que vigora em Cotonou, gangbé significa “som do metal”, que tanto faz referência aos instrumentos de sopro (saxes, trumpetes, trombones) como a algumas percussões utilizadas pelo grupo. Como Benin faz fronteira com a Nigéria, sua música herda não somente a polifonia das fanfarras e do jazz, como também as mesmas fontes musicais que alimentaram o afrobeat de Fela Kuti, o juju e os ritmos religiosos vodu. “Ajaka”, segunda faixa de seu segundo disco, Togbé, é uma viagem indescritível pelos meandros dessa combinação. Como um cego na escuridão, tateio elementos do jazz e da juju music, mas percebo também um ritmo estranho que marca o início e o meio da faixa, possivelmente religioso. Sobre uma fascinante cama de percussão – em um andamento que minha pouca competência para teoria musical não soube identificar – vocais e tambores se entrelaçam em desenhos rítmicos sincopados; os metais pontuam uma melodia fúnebre, ao que parece, também religiosa. A influência do jazz é notória nos temas dos sopros, mas se posiciona de forma modesta na paisagem sonora, compartilhando seu traços fortes com uma série de pequenos detalhes, como a inusitada prosódia da canção até às variações de ritmo e o modo como as vozes as acompanham. Lá pelos 40 segundos finais, um arranjo de metais, doce porém dissonante, no melhor estilo Moacir Santos, dialoga com a chocalhada da percussão, coroando um exemplo espetacular de música altamente expressiva da hiper-fragmentação da cultura contemporânea. O fato de que a Gangbé Brass Band assume a trágica origem militar me parece uma troça, uma forma alegre de superá-la – tal como faz o negro americano com o termo nigger. Mas essa história não se resume na palavra superação, ao contrário. Porque o que a Gangbé, como todas as culturas oriundas de extremos sociais, nos mostra é a assimetria dos processos culturais contemporâneos, onde a invenção é sempre fruto de uma perspectiva. Posso estar fazendo uma pergunta perigosa, mas, ciente de que há um problema muito maior aí, me arriscarei: será que a formação de indivíduos nivelados nos moldes do estado de direitos e na economia de mercado contribui para quaisquer tipos de efervescência cultural? Será que vivendo no tal “mundo globalizado”, preenchido por sociedades ideais, criaríamos dinâmicas sociais capazes de fomentar uma arte tão complexa como o jazz ou o dubstep? (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 28 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , , .
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