Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Stereolab – “Chemical Chords” (2008; 4AD, Reino Unido)

Não há satisfação maior que ouvir um disco novo do Stereolab e, principalmente, quando se trata de um trabalho com um vigor de expressão que não se ouvia há muito na carreira do grupo. “Chemical Chords” é a faixa-título deste novo álbum e uma das mais bonitas (se não A mais bonita, vide a escolha). As novidades não são muitas: um tecladinho cheio de efeito insistindo em um mesmo acorde em staccato, fundamental para uma tensão harmônica ainda por vir; fraseados simples de uma guitarra limpa; um belo arranjo de cordas; vocais macios de Laetitia Sadier, abusando nos falsetes e cantando com um acento britânico muito forte, mas com um jeito de cantar proveniente da chanson française; e todos esses componentes embicando para as referências sessentistas continuamente presentes na sonoridade da banda. Logo, vocabulário mais stereolabiano impossível. Então qual seria a relevância do Stereolab para o mundo de hoje, se tanto o modus operandi quanto o feitio de sua música são facilmente identificáveis? Primeiro, porque está cada vez mais raro encontrar canções pop como esta: simples, bem timbrada, bem arranjada, bem composta, bem cantada, de harmonia bem pensada e, ainda assim, imediata, capaz de impressionar o ouvinte instantaneamente. Segundo, porque se o Stereolab possui uma sonoridade bastante identificável (o que é de se louvar, pois são poucos os grupos detentores de uma identidade tão própria e tão marcante), isso não significa que eles sempre se abasteceram de fórmulas; muito pelo contrário, das bandas de linguagem pop, porém propensas ao experimentalismo a surgirem na década de 90, o Stereolab era a mais cheia de referências, e as últimas sempre se fizeram notar ao longo de sua carreira – de bossa nova a krautrock, de música francesa a rock psicodélico dos anos 60. E se Chemical Chords não é de seus trabalhos mais ousados, também não é motivo para ser desprezado: o enfoque é a canção em si e seu poder de comunicação certeiro com o ouvinte. Por mais que o disco não mantenha o mesmo nível na segunda metade e que audições subseqüentes possam tornar-se cansativas (dois problemas recorrentes na discografia do grupo), há singularidades a serem destacadas e que fazem toda a diferença. Em uma época tão escassa de boas canções, é a singularidade do Stereolab que se sobressai. (Thiago Filardi)

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Publicado às 29 de agosto de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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