Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Oneida – Preteen Weaponry (2008; Jagjaguwar/Brah, EUA)

Oneida é um trio de rock originário de Brooklyn, Nova York. Sua formação inicial, como quarteto, era Papa Crazy (voz e guitarra), Bobby Matador (teclados), Kid Millions (bateria) e Hanoi Jane (baixo/guitarra). Eles estrearam em disco em 1997, com A Place Called El Shaddai’s. Enemy Hogs, o segundo, marca a estréia na gravadora Jagjaguwar. Daí em diante, a cada EP (incluindo um split com a banda Liars) ou álbum lançado, a banda vai progressivamente ganhando mais atenção da imprensa alternativa, com discos bastante diferentes na estética, mas mantendo um padrão de rock pesado de garagem e psicodélico. Depois de Each One Teach One, considerado um dos melhores do grupo, Papa Crazy deixou a banda, que continuou como um trio. Preteen Weaponry é o nono álbum do Oneida, e é anunciado como o primeiro de uma trilogia por vir. (RG)

* # *

Há uns dez anos, parecia que a idéia de transe associada ao rock estava inteiramente encerrada. O legado de bandas como Amon Düül, e da idéia de execução musical como uma jam com pequenos elementos sendo acrescidos à repetição, parecia um capítulo terminado na história do rock. Se quiséssemos ver gente inspirada em La Monte Young, em Terry Riley, em Steve Reich, teríamos que buscar na música eletrônica e mais em nenhum lugar. No entanto, de um tempo para cá, tudo mudou: o rock descobriu o drone, e com ele uma possibilidade de redescobrir formas ainda não exauridas em tempos de hipersaturação e desgaste da canção de rock. Para um bando de grupos, em diversos cantos do mundo, hoje é mais importante lapidar um som, um timbre, instalar uma atmosfera, do que compor uma melodia: isso no campo do rock instrumental, com Lightning Bolt, Acid Mothers Temple, Black Dice, como no rock cantado: Liars, Animal Collective. Essa guinada, certamente imprevista há alguns anos, certamente reatualiza os grupos alemães vendidos nos anos 70 sob a chancela do termo krautrock. Tidos como progressivos, eles geralmente buscavam uma antiprogressão, uma música muito mais próxima da ritualística da repetição e de uma sensação hipnótica provocada pela intensidade do mesmo.

Preteen Weaponry, nono disco do Oneida e espécie de retomada do lado mais pesado do grupo, está totalmente imbuído nesse panorama. São três faixas que na verdade compõem três movimentos de uma única peça, nomeadas apenas I, II e III. Em todas elas, as mudanças são mínimas: um começo de barulhos algo informes, uma confusão de sons até que um padrão percussivo começa a se impor e domina a faixa, que passa a ter os outros elementos reorganizados a partir da levada de bateria; ao longo de uma média de 12 minutos, algumas variações são apresentadas, o suficiente para manter o interesse vivo e a energia no ápice, até que a percussão desaparece, deixando novamente os barulhos, de guitarra ou teclado, falarem sozinhos por alguns segundos. O clima geral é como se estivéssemos ouvindo um disco do Acid Mothers Temple em que, ao invés dos feedbacks de guitarra de Makoto Kawabata, o que organizasse o som e estivesse em evidência fossem as células percussivas. O que, na verdade, proporciona uma viagem totalmente diferente, um psicodelismo tribal e coeso que, apesar de evocar muitas coisas (o trabalho de Jaki Liebezeit nos discos clássicos do Can, Tortoise), na verdade não tem muita similaridade com as coisas que existem por aí.

A primeira faixa é a mais trabalhada do disco. Frenética, de andamento rápido, ela distila uma energia incrível ao utilizar duas (ou três?) baterias, ficando uma responsável pela levada contínua e outra pontuando com novos ataques de momento em momento. Aos poucos se estabelece uma melodia de teclado, dura um pouco e pára. Já ao final, uma levada quase épica de baixo aproveita a cavalgada da batida com toques firmes e dosados, dando ao disco seu momento de clímax. Sozinha, é das melhores coisas que esse ano já deu até agora.

O segundo movimento, mais ameno e de andamento pronunciadamente mais lento, é construído através de uma batida seca, que lembra as pancadas duras em metal do rock industrial. Aos poucos, barulhos fortemente distorcidos de guitarra e sintetizador vão crescendo sua participação na faixa e sem percebermos o esporro já está instalado.

A faixa final começa como uma daquelas trips de sintetizador do Neu! (“Hallogalo”, “Isi”). Os barulhos agudos de sintetizador são semelhantes e a pulsação da bateria também opera em níveis similares. No entanto, a diferença se impõe: a menina dos olhos desse terceiro movimento são os elementos de bateria processada eletronicamente, que impõem uma nova e inaudita dinâmica percussiva.

Preteen Weaponry é um disco minuciosamente pensado, mas tem a vibração, a execução e o espírito de uma jam. Sua maior qualidade é a imersão que proporciona: é um disco fácil de entrar, pela sensualidade percussiva, mas difícil de sair, operando golpes hipnotizantes e colocando o ouvinte em transe. Que venham logo os outros dois da série. Quem descartou o Oneida por seus últimos dois discos, trate de colocá-los de novo no caderninho. (Ruy Gardnier)

* # *

Já comentei aqui quão engraçada é a rotina do indivíduo interessado por arte nos dias de hoje. Um dia, alheio às vezes a contextos inteiros, e no outro, familiarizado até mesmo com suas mais recônditas ramificações. Há que se afeiçoar por reviravoltas, nuances, minúcias… Ou lidar com as constantes sensações de déjà vu, tão atreladas à instância mais reacionária do espírito humano, o gosto. Como munir a reflexão de modo a não prolongar o blá blá blá auto-indulgente da intelligentsia institucional, que ainda chora a balela hegeliana de uma suposta “morte da arte”? Como evitar o desânimo diante de tantas opções, tantos gêneros e sub-gêneros, tantos mash ups e melting pots? Como evitar o tédio? Quem costuma fazer essas perguntas geralmente crê que não existe hoje um critério razoável que dê conta da pluralidade de opções. Isto é: para essas pessoas, a pluralidade significa instabilidade. Mas, posso garantir-lhes: não é bem assim! Em meio a esse tiroteio, existe sim, alguns traços de continuidade, algumas tendências mais ou menos contínuas, embora quase sempre o que se percebe é a própria heterogeneidade da cultura. Ouvindo o Oneida, (mas não só o Oneida), penso uma equação mais ou menos assim: barulho + psicodelia + minimalismo + pós-punk + free improv = Preteen weaponry. Embora até faça algum sentido, esta equação não substitui a experiência de ouvir o disco. E me parece que aí reside o grande barato de Preteen Weaponry: Por mais que remeta a uma série de referências, talvez referências demais, ainda assim consegue supreender pela pertinência de suas repetições, pelo instrumental firme e pelas múltiplas formas de soar barulhento que o grupo exibe nas três faixas que compõem o disco. Ao contrário do Black Mountain, que com seu In the Future, não conseguiu ultrapassar a celebração mimética do passado, o Oneida burila as formas prévias, compondo a partir daquilo que lhe convém, seguindo uma pesquisa própria. O grupo reafirma um dos traços a que me referi acima, qual seja: não é a partir de gênero, movimento ou quaisquer expressões de cunho organizativo que se deve compreender a dinâmica da arte que se faz hoje, mas à sua expressão ao nível da experiência própria da audição. E, nesse quesito, a melodia que marca a tamborzada da parte um, as timbragens da parte dois e o noise desesperado da parte três comprovam a consistência da música do Oneida. Ainda que, nem sempre, de uma forma “pura” e incisiva, como ocorre por exemplo quando ouvimos uma faixa de Shackleton. (Bernardo Oliveira)

* # *

Duas coisas são facilmente perceptíveis ao ouvir o som do Oneida. Trata-se de músicos que dominam à perfeição seus instrumentos e parecem sempre conscientes do que tocam, mesmo nos momentos de aparente improvisação caótica. Outro ponto é que as referências do grupo parecem sempre expostas, explícitas em cada uma das faixas de cada um de seus álbuns, como se não houvesse qualquer receio nessa nudez. Então dificilmente ouviremos um disco do Oneida que possamos classificar como ruim, mas dificilmente seremos surpreendidos por algo que eles façam e isso não impede a apreciação de seus trabalhos. Nos momentos menos inspirados da profícua carreira da banda, tivemos aquelas faixas em que podíamos dizer, “ah, essa é a faixa kraut do álbum”, “essa outra é mais progressiva,” “uau! olha o momento heavy!”, ou qualquer coisa parecida; as faixas não eram necessariamente ruins, mas pareciam músicos virtuosos tocando pelo manual. Quando o Oneida acerta, como o faz com grande felicidade na primeira parte de Preteen Weaponry, podemos perceber as diversas referências (kraut/psicodelismo/post-rock/rock de garagem/eletrônica analógica), mas essas vêm envoltas por tamanha verve e contundência que não há como negar a autoria – é em primeiro lugar uma faixa do Oneida e o fato de dialogar com diversos momentos da história do rock é apenas uma das formas de leitura. Até mesmo porque, para identificarmos cada uma das referências, é necessária a desconstrução da faixa, vez que cada uma das matrizes é tão intrincadamente misturada que o que inicialmente identificamos é a força da execução e a qualidade da composição. Outro fato que destaca a riqueza da faixa é que, apesar de possuir seu groove constante e intenso, eles souberam inserir nesse fluxo elementos diversos que em momento algum soam alienígenas, sejam ruídos estranhos, intervenções eletrônicas, loops dos mais díspares, instrumentos que invadem a “narrativa” e desaparecem com naturalidade. A destacar o trabalho do baterista Kid Millions e o baixo de Bobby Matador, que não deixam a banda perder o foco em momento algum, mantendo intensidade em ritmo de delírio. Apesar do destaque da “cozinha”, um dos detalhes que devem ser comemorados é a forma como todos os elementos foram mixados. Nenhum destaque excessivo, mesmo nos momentos em que o feedback e a estática ganham destaque; não deixamos de ouvir nenhum dos outros instrumentos de forma satisfatória e isso não implica em perda de qualidade do som – um equilíbrio difícil.

Verdade é que o resto do álbum não alcança o mesmo nível da primeira parte; ficamos com a impressão muitas vezes que a banda confunde experimentar e fazer improvisos com lançar material pouco desenvolvido ou descaradamente tosco. E não digo isso para solicitar um álbum inteiro naquela toada (ou qualquer outro que obtivesse sucesso), mas como tratamos de um álbum que consiste de uma única faixa dividida em três partes, fica evidente o fracasso em manter o mesmo nível por todos os trinta e nove minutos de duração. O que resta é esperar pelas partes restantes do projeto e ver se será apenas mais do mesmo. (Marcus Martins)

* # *

Preteen Weaponry é uma espécie de Drum’s Not Dead na carreira do Oneida. Para que vem acompanhando o desenvolvimento do grupo nos últimos anos, este novo disco vem como uma surpresa: é composto somente por três faixas, predominantemente instrumentais e que apostam todas as suas forças na bateria. As melodias acessíveis foram deixadas de lado e o sintetizador forte e preponderante foi preterido em favor da percussão, que é o objeto primordial do disco. Daí sua comparação com o Liars, que em 2006 lançou um trabalho cujo eixo central eram a bateria e a busca por novas texturas rítmicas. Preteen Weaponry é, provavelmente, o trabalho mais próximo que o Oneida realizou de Each One Teach One, sem dúvida, o seu melhor disco até hoje. Todavia, é ainda mais conciso e coeso que aquele de 2002, o que não implica em uma superioridade. Aqui eles exploram um território mais progressivo, cheio de variações e com um encadeamento mais preciso – onde uma faixa termina é onde começa a próxima. E a comparação com o Liars não poderia ser mais apropriada, já que os dois grupos são os únicos remanescentes de uma geração que ficou só na promessa. Falo do revival que tomou conta do rock no início da década e que foi responsável pelo aparecimento de grupos como Strokes, Rapture, Interpol, Walkmen e LCD Soundsystem (assim como o selo DFA). Por mais que a originalidade não fosse o ponto forte destes conjuntos, era como se uma injeção de viço e brilho tivesse sido introduzida no rock – ainda que a origem do Oneida remonte ao final da década passada, Each One Teach One ficou guardado como um dos melhores discos de rock do início deste século. E enquanto a maioria perdeu um pouco o fôlego com o tempo, ao menos Oneida e Liars mantiveram uma evolução constante, até hoje lançando discos de grande interesse. No caso, Preteen Weaponry, apesar de toda sua consistência e experimentação, não representa uma melhora na qualidade da música. As duas primeiras faixas são excelentes e verdadeiramente imersivas. Porém, quando chega a terceira música é que se sente toda a fragilidade do grupo. “Preteeen Weaponty Part 3” não passa de uma chupação das mais canastronas do krautrock, especialmente de um Neu!, era 75. À bateria minimalista são adicionados efeitos de loop e há ainda uma atmosfera cósmica que persiste ao fundo. Uma enganação que, infelizmente, põe tudo a perder. É mais um daqueles casos de influência mal assimilada, mal desenvolvida, etc, que tanto permeiam a música atual. Uma pena. (Thiago Filardi)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 1 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: