Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pere Ubu – Dub Housing (1978; Chrysalis, EUA)

Pere Ubu é um grupo americano de Cleveland, Ohio. O nome é tirado do personagem principal da peça de teatro Ubu Rei, de Alfred Jarry. O Pere Ubu foi formado em 1975, e depois de alguns compactos de certa repercussão (encontráveis na compilação Terminal Tower), gravaram em 1978 seu LP de estréia, The Modern Dance. No mesmo ano, saiu Dub Housing e, no ano seguinte, New Picnic Time. A partir daí, a banda terminou e recomeçou diversas vezes, com inúmeras trocas de membros. A formação clássica é David Thomas (vulgo Crocus Behemoth) nos vocais (e verdadeiro líder do grupo), Tom Herman (guitarra), Tony Maimone (baixo), Allen Ravenstine (teclados/sintetizadores) e Scott Krauss (bateria). A sonoridade do Pere Ubu é basicamente rock alternativo, ainda que outros rótulos, pós-punk ou art-punk, também possam ser usados para definir o som da banda. Apesar das idas e vindas, o Pere Ubu se mantém na ativa até hoje; o último disco, Why I Hate Women, é de 2006. (RG)

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Entre os fanáticos por Pere Ubu, existe uma discussão sobre qual dos dois discos que a banda lançou em 1978 é o melhor do grupo. A diferença de opiniões geralmente reflete interpretações distintas para o trabalho deles. Quem prefere The Modern Dance sublinha o aspecto rock do grupo, e vê as esquisitices acrescidas a som como retoque inessencial mas charmoso; já quem dá sua escolha a Dub Housing chama a atenção para a integração entre aspectos mais pop e outros menos acessíveis, em torno da construção de uma atmosfera densa e, para usar uma sinestesia apropriada, viscosa. E já que fica clara a preferência deste que escreve, vamos direto ao ponto dizendo que The Modern Dance pode ir mais direto ao ponto, mas Dub Housing é o disco em que o conceito do grupo fica mais claro, os membros estão mais à vontade para dar vôos radicais e cria-se uma perfeita harmonia entre loucura e assovio.

Talvez a maior prova disso seja a voz de David Thomas. Nos primeiros compactos e em The Modern Dance, fica muito clara a tensão e a ansiedade que ele injeta em seus vocais. Mas é só em Dub Housing que ele se presta a realmente soar insano, desde o começo com os vocais alongados de “Navvy” até o fim em “Codex”, em que parece um retardado fazendo uma declaração de amor. Thomas é o verdadeiro fio desencapado do grupo, mas ele encontra eco nos sons quase aleatórios que saem dos sintetizadores de Allen Ravenstine e, em alguns momentos, nas improváveis guitarras de Tom Herman.

Do outro lado, mais convencional, existem as melodias e a construção de certas canções. O coro está quase sempre presente, como para criar um contraponto aos vocais de Thomas, e criar uma certa aura de cantoria de taberna (“Caligari’s Mirror”, “Navvy”). Mas o coração das composições está nos riffs, de guitarra (“(Pa) Ubu Dance Party”, “Drinking Wine Spodyody”, “Navvy”) ou de teclado (a viciante melodia de doze notas que se repete deliciosamente em “On the Surface”, o atmosférico piano de “Dub Housing”). Os riffs tornam a comunicação imediata e fornecem, de certa forma, livre terreno para Thomas delirar com sua voz sabendo que tem algum instrumento acariciando a sensibilidade do ouvinte.

O disco apresenta ainda duas faixas mais abstratas, “Thriller!” e “Blow Daddy-o”, em que o grupo dá vazão à distorções e aos sons dos sintetizadores de Ravenstine. Apesar de não serem destaques individuais, casam muito bem no disco, dando o timing preciso e engrossando o caldo de confusão e estranheza extremamente possante do grupo.

Dub Housing soa diferente de tudo que havia naquele momento. A agressividade do disco não é punk, é a do inesperado, da declamação estridente de David Thomas, dos arranjos soturnos, como “Dub Housing” e “Codex”, e das faixas de teor quase paródico (“On the Surface”, “Caligari’s Mirror” e seu refrão). Mas, ao mesmo tempo, a violência sonora está filtrada pela propensão pop das composições, que colam diretamente no ouvido, e criam um equilíbrio soberbo entre acessibilidade e radicalismo. Como tudo isso cola perfeitamente em Dub Housing, ninguém sabe, é um mistério. Um mistério que faz com que em momentos o grupo possa ter influenciado de Joy Division a Einstürzende Neubauten a Zumbi do Mato, mas que ainda assim mantém-se único em sua sonoridade e na loucura de sua proposta. (Ruy Gardnier)

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Por algum tempo, o rótulo new wave (ou pós-punk, como queiram…) serviu como um eufemismo útil para distinguir bandas que, embora não se utilizassem da agressividade característica dos Ramones e das bandas inglesas que os seguiram, também jogavam de alguma forma com o do it yourself do punk. Sob esta pobre designação (nova onda? de onde? nova em relação a o que?), foram classificadas bandas como Talking Heads, Gang of Four, Devo, Pere Ubu e, mais tarde, Minutemen e Siouxsie, todas trazendo, cada uma a sua maneira, um frescor inegavelmente atrelado ao ideário do punk rock. O resultado deste contexto é uma pluralidade sonora imposível de se abrigar sob um único rótulo, a menos que se deseje criar marcos para fins de referência histórica e compreensão. Como um belíssimo exemplo desta diversidade, Dub Housing comprova que o que unia as bandas do new wave era, em primeiro lugar, um certo espírito de renovação do rock, e, depois, a certeza de que esta renovação viria não pela confirmação de seu caráter festivo, tal como apregoavam os Ramones, ou por sua dimensão política, como fazia o Clash, mas algo além desses dois aspectos, próximo da burilação estética e das vanguardas do início e de meados do século XX. Para boa parte das bandas que foram designadas sob o rótulo new wave, a revolta punk se realizaria a partir de uma inteligência construtiva, e não do niilismo meramente destruidor dos Sex Pistols, reinterpretado mais tarde pelo hardcore. O livro Mate-me por favor conta essa história em detalhes, embora eu não me recorde a presença do Pere Ubu… O fato é que Dub Housing é um dos discos mais intrigantes desse período, certamente mais coeso e, portanto, melhor que seu predecessor, The Modern Dance. Nas dez faixas que compõem o álbum, uma sucessão de momentos que impressionam pela qualidade sui generis de suas canções e arranjos, e pela presença deste estranho e admirável vocalista, David Thomas. Ele salta as oitavas no transcorrer da música, indo do grave ao agudo em segundos e, assim, adicionando microtons de forma a oscilar inclusive na definição das notas, o que causa grande estranhamento, especialmente em “Drinking wine Spodyody”. Quanto aos arranjos, não me recordo nenhuma banda new wave que faça arranjos comparáveis aos do Pere Ubu em termos de originalidade, especialmente em Dub housing. Às vezes entrevemos algumas referências, como um possível Frank Zappa em “Codex”, ou o Television de “Navvy”, mas é miragem. Nada se parece com a coda onírica de “Caligari’s mirror”, com os tecladinhos inacreditavelmente pentelhos de “On the surface”, com as chicotadas e progressões de slide guitar em “Thriller”, com o rife da já citada “Drinking wine Spodyody”… Mas o que me deixou com a pulga atrás da orelha ao reouvir o álbum foi a recordação de uma displicência: a primeira vez que ouvi Dub Housing, era o lado A de uma fita cassete que continha Fear of music, dos Talking Heads, no lado B. Algumas audições apressadas e desgostosas me fizeram crer por muito tempo que o Pere Ubu se resumia a um pálido prolongamento do XTC, que também lançou seus dois primeiros álbuns em 1978. Na verdade, e isto eu ofereço como uma hipótese, o XTC intensificou o aspecto avant-garde em seu terceiro álbum, de 79, Drums and wires, muito por conta de uma dinâmica impressa por David Thomas e sua turma. Quanto a mim, ainda estava preso aos ditames do rock’n’roll tradicional, contra o qual o Pere Ubu parecia se posicionar de forma tão saudável quanto veemente. (Bernardo Oliveira)

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Oh, o teste do tempo! E dizer que Dub Housing já foi tratado como um dos grandes álbuns experimentais do rock dos anos 70! Passados trinta anos de seu lançamento, o álbum envelheceu bastante e deixou de ser ameaçador. Mas não é que a idade fez bem ao álbum? No lugar da estranheza que aparentemente causou nos anos 70, tendo chamado apenas a atenção de alguns poucos interessados, hoje podemos dizer que Dub Housing soa gloriosamente familiar. Aliás, mesmo existindo até hoje, a banda não consegue mais soar tão urgente, precisa e atual quanto nesse álbum. Talvez pela própria influência que suas experimentações tenham deixado no rock, é certo que a música ali constante não mais agride; na verdade, ela empolga. Imagino um adolescente que aprecie alguma das muitas bandas que praticam alguma forma de atualização da new wave ou do pós-punk, que depara-se com o álbum pela primeira vez: “Ah, tava tudo ali, apenas com muito mais pungência”.

E, para mim, toda a experimentação reflete-se na necessidade da banda transmitir algo impossível ao vocabulário do rock da época. Então experimentar não foi apenas um estudo, vanguarda; foi necessidade e risco. Uma forma de transcender as amarras do rock e encontrar algo que se equiparasse às ambições da banda. Assim, do vocabulário convencional vêm a verve e a violência punk que dirigem as faixas sempre à frente, uma força propulsiva que domina a primeira parte do disco, em especial “Navvy”, com sua linha de guitarra charmosa enterrada no caos. O sintetizador de Allen Ravenstine e a guitarra de Tom Herman convidam a dançar, mas há tanta coisa entre a base convencional, os ruídos estranhos e as intervenções de música concreta que a contemplação nos clama de outro lado. Essa instabilidade dá o tom do desconforto que pode vir de um encontro desavisado com o álbum: nada parece estar muito tempo no mesmo lugar, ou pior, onde deveria estar. Um senso de paranóia parece percorrer todo o álbum, mas nem isso é convencional. A abordagem é francamente surrealista, para honrar o nome da banda. Surrealismo que talvez só encontre adversário nas pirações do Captain Beefheart. A própria voz de David Thomas já encarna o suficiente da demência para que, mesmo com um som convencional, o Pere Ubu ficasse a grande distância do establishment.

Quando pensamos que uma faixa nos conduzirá a um clímax catártico, uma mudança brusca nos leva a outro lugar. Faixas como “Dub Housing” parecem feitas para frustrar expectativas tolas. Um dos motivos para a pouca importância que a banda termina por receber em apreciações da década de 70 talvez seja a dificuldade em enquadrar seu som em alguma das linhas do rock (o mesmo tendo ocorrido com contemporâneos como Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire e outros). Outra faixa como “Drinking Wine Spodyody” tem uma levada funk que camufla a confusão de sentimentos da faixa e sua letra desorientadora. “Ubu Dance Party” engana como quase celebração pop. Se achássemos necessário enquadrar o Pere Ubu, poderíamos dizer que foram os legítimos modernistas do rock e que seu Dub Housing é como um daqueles quadros que causaram sensação no início do séc. XX e que hoje não entendemos o porquê da celeuma: são tão lindos. Ainda assim, seria ingênuo imaginar que uma faixa como “Codex” fosse tocar no rádio em qualquer época e é por essas e outras que não ouço rádio há uns quinze anos. (Marcus Martins)

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Pós-punk não chega a ser um termo equivocado para cunhar os primeiros álbuns do Pere Ubu. Mesmo tendo surgido em meados da década de 70, juntamente com outras bandas que viriam a ser definidoras do gênero (Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire, The Residents, Devo), o grupo de David Thomas não é necessariamente enquadrável como proto-punk, pré-punk, ou qualquer outra expressão que venha caracterizá-lo como precedente do punk, ou seja, que contribuiu para a antecipação de sua ideologia e arquitetação de sua forma. Esses rótulos são mais apropriados para artistas do final da década de 60, como Stooges, MC5, Velvet Underground e, até mesmo, expoentes do glam-rock, como David Bowie, Roxy Music, T-Rex e New York Dolls. Os fatores determinantes para a inserção do trabalho inicial do Pere Ubu no pós-punk e não no proto-punk ou no punk propriamente dito, são significativos; o fator comercial, por exemplo, é imprescindível de análise: ao ter um primeiro disco vendido nas lojas apenas em 1978 (apesar dos primeiros compactos datarem de 1975) fez com que o Pere Ubu fosse assimilado imediatamente como posterior ao punk, já que todos os “manifestantes” desse movimento tiveram seu début em 1977, assim como o ano de surgimento da banda já é tardio para serem encaixados como proto-punk; o Ubu também não foi influência para o punk, pois seus compactos, apesar de alguma notoriedade, não chegaram a atingir a linha de fronte do gênero, que tinha dívidas maiores com o glam-rock e o rock de garagem; a inconformidade estética do grupo também é mais facilmente relacionada aos seus colegas do pós-punk – os vocais esquizofrênicos de Thomas, o contexto pós-industrializado de Cleveland, cidade da qual são originários, a presença de sintetizadores no conjunto sonoro e uma intelectualidade burguesa assumida. O pós-punk foi, na verdade, um termo utilizado para englobar um número abrangente de bandas que surgiram junto com o punk, ou imediatamente após, mas que se diferenciavam do mesmo por guardarem uma ideologia menos imediatista e mais vanguardista, intelectualizada. As preocupações estavam para além da reutilização de fórmulas prévias: era necessário olhar para frente, experimentar, dilatar o escopo sônico do rock. E, para isso, o artista não precisava seguir uma determinada linha cronológica – bastava que houvesse cumplicidade estética e ideológica.

O estado de Ohio não foi exatamente um caldeirão de criatividade do rock na segunda metade da década de 70, porém tanto Devo quanto Pere Ubu, duas bandas importantíssimas para o desenvolvimento artístico do pós-punk, coincidentemente, são advindos de lá. Dub Housing foi lançado apenas alguns meses após o surgimento do primeiro LP do Ubu, The Modern Dance. E foi neste mesmo ano que o Devo lançou seu insuperável álbum de estréia, Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! Algo acontecia de muito interessante no rock americano: um novo vocabulário era inserido, experimentações no nível sonoro e conceitual eram feitas e músicos influenciados por um lado mais obscuro do rock progressivo (Zappa, Van der Graaf Generator), direcionavam críticas ao homem de classe média moderno, industrializado, consumista, através de performances teatrais, músicas diretas, mas de paisagens abstratas e letras satíricas, surreais. De The Modern Dance a Dub Housing, cujo nome surgiu em uma situação em Baltimore, quando o grupo chegava de carro e algum membro avistou uma linha de casas parecidas e disse “Veja, dub housing”, há uma enorme diferença. Enquanto o primeiro disco é mais agressivo, o segundo possui riffs e refrões grudentos, e canções que até poderiam ser chamadas de pop, não fossem os vocais psicóticos de Thomas e o sintetizador vanguardista de Ravenstine. É um disco que vai do rock/pop transfigurado de “On the Surface” e da faixa-título até o abstracionismo puro de “Thriller!” e “Blow Daddy-O”. Trata-se de um trabalho visionário e único, que se engendrado há trinta, vinte, dez, cinco anos, ou até mesmo ontem, não faria diferença – soaria igualmente atualíssimo e maravilhoso. (Thiago Filardi)

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Publicado às 1 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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