Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gilberto Gil – “Oriente” (1972; Phonogram, Brasil)

A diferença primordial entre a música ocidental e a oriental, além da concepção de tonalidade, da configuração de escalas e da separação de notas, é a fluidez dos sons. A música oriental é baseada em um fluxo contínuo de sons e notas, enquanto a ocidental é caracterizada pelo excesso de pausas. “Oriente” é a última faixa do lado B de Expresso 2222, álbum que marcou a volta de Gilberto Gil para o Brasil, depois de dois anos de exílio em Londres. Lá o músico entrou em contato com novas culturas e experiências musicais, o que, terminantemente, teve uma influência positiva para sua música, vide a amplitude sonora do disco, que institui novas fusões na musicalidade gilbertiana, como o advento do rock pesado e da música oriental, entretanto, sem perder a brasilidade em momento algum – se fazem presentes estilos dos mais diversos como o baião, forró, maracatu e a canção popular. Em vista disso, o exílio de Gil serviu tanto para implantar novos horizontes na sua música, quanto para fortalecer sua relação com a cultura brasileira.

“Oriente” foi gravada apenas com voz e violão e começa com Gil empenhando solos bluesianos em seu instrumento, de fluidez próxima à cítara. Ele entoa uma melodia nasal, igualmente contínua, sugerindo mais uma vez a influência da música indiana. Os versos se iniciam com “Se oriente rapaz” e aqui a semântica de “oriente” é ambígua, pois possui o valor de verbo, mas, como no título indica, é advinda de um substantivo. Há dois sentidos embutidos em uma mesma palavra: o sentido geográfico, de espaço, de localização e o sentido de se guiar, de se direcionar para algum lugar, o qual é o próprio substantivo “oriente”. É como se Gil dissesse que a novidade está do outro lado, um local a leste que deverá servir de parâmetro para o jovem moderno. Além de rimas geniais como “Se oriente rapaz/Pela rotação da Terra em torno do Sol/Sorridente rapaz /Pela continuidade do sonho de Adão”, sente-se todo o despojamento e intimidade de Gil com seu instrumento. Tocando de maneira improvisada (a faixa deve ter sido gravada em poucos takes, ou apenas um), o violão funciona como uma extensão do seu corpo – voz e violão estão em sintonia plena.

A música e o álbum Expresso 2222 fazem parte de um dos melhores momentos da carreira do cantor e compositor, que dois anos mais tarde, com dificuldades para lançar material novo por conta da censura, chegaria a seu ápice com o disco Ao Vivo. No ano seguinte viria Refazenda, seu trabalho mais convencional em muitos anos. Já a segunda metade da década de 70 marcaria uma queda de criatividade com tendências ainda mais exacerbadas para o pop, deixando totalmente de lado o experimentalismo. Fica aqui um dos mais belos registros de um artista genial e imprescindível para o entendimento da música e da cultura brasileira dos últimos quarenta anos. (Thiago Filardi)

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Publicado em 5 de setembro de 2008 por em Uncategorized.
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