Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Dorival Caymmi – Eu Vou p’ra Maracangalha (1957; Odeon, Brasil)

Afirmar a genialidade do baiano Dorival Caymmi é pouco diante de sua grandeza. Em pouco menos de setenta anos de carreira, Caymmi criou um universo musical decisivo para a música brasileira. Artista múltiplo, foi um grande cantor, ator gracioso, pintor sui generis, violonista sem par na história do violão brasileiro. Como Cole Porter e Cartola, Caymmi foi um compositor generoso, que soube como poucos sintetizar o universo musical baiano em uma série de canções antológicas que variaram de sambas-canções a sambas de roda, passando por canções praieiras e cantigas populares. Pai de Nana, Danilo e Dori, Caymmi lançou cerca de quatorze álbuns, entre os quais duas parcerias com Ary Barroso e Tom Jobim. Eu vou p’ra Maracangalha é seu quarto álbum. (BO)
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Não pretendo aqui tecer comentários acerca do engenho e da perfeição que caracteriza as canções de Caymmi, nem mesmo as que compõem esse álbum. Mas estou certo de que há “algo mais” em seus discos que, por motivos diversos, fica soterrado pela originalidade de songwriter. Arranjos, formatos de exposição, design de capa, etc, também indicam a verve perfeccionista do autor, sem prejuízo da descontração, claro. Gostaria, assim, de situar Eu vou p’ra Maracangalha não somente em relação à discografia de Caymmi, mas, sobretudo, às tendências estéticas explicitamente trabalhadas nos primeiros álbuns.

Posso estar errado, mas não creio que em 1957 a idéia de álbum conceitual já havia se difudido no Brasil. Primeiramente, o rótulo ficou atrelado a Tommy, do The Who, e ao rock progressivo, e neste caso cada faixa desempenhava parte de uma estória. Mais tarde, em um disco como Remain in Light, dos Talking Heads, ou, ainda, na trilogia de Berlim da dupla Bowie/Eno, o “álbum conceitual” adquiriu uma outra dimensão, pois neles trata-se de uma unidade estética deliberadamente planejada. Pois bem, não quero com isso afirmar que Caymmi é um precursor do “álbum conceitual”, mas é curiosa a concatenação dos quatorze títulos que compõem sua discografia. O primeiro disco, de 1954, Caymmi interpreta suas canções praieiras com a habitual dramaticidade, emoldurado por camadas, texturas e climas de seu originalíssimo violão. Conceitual tanto no aspecto temático como na concepção estética, Canções Praieiras espanta pela síntese arrojada de modernidade com o tema, marcadamente regional. No ano seguinte, no álbum Sambas de Caymmi, com arranjos do grande maestro Luiz Arruda Paes, o cantor preconiza a bossa nova do lado A e, no lado B, expõe toda a graça e originalidade de seus sambas, adaptações criativas dos sambas de roda do recôncavo baiano, com um forte sotaque carioca. Em 1957, Caymmi lança dois álbuns. O primeiro, Caymmi e o Mar, traz uma surpresa: um enorme pot-pourri de suas canções praieiras, com participações de Silvinha Telles, Lenita Bruno, entre outras cantoras da época. O resto do álbum alterna canções arranjadas com orquestra do maestro Leo Peracchi, e outras somente ao violão. E o segundo, seu quarto álbum de estúdio, Eu Vou p’ra Maracangalha, talvez seu disco mais conhecido, talvez seu melhor disco, desfila clássicos absolutos com arranjos maravilhosos (e ousados!) do mesmo Leo Peracchi e de Alexandre Gnattali, irmão de Radamés. O fato é que estes dois álbuns são repletos de experiências, tanto no aspecto temático como no direcionamento estético, e como que prolongam as ousadias dos primeiros.

A começar pela belíssima capa de Lan: a exemplo do existencialismo moreno manifesto na foto de capa em Caymmi e o mar, as capas de Caymmi são sempre graciosas, sempre trazem algo mais do que a mera identificação do conteúdo musical. Neste caso, uma caricatura que reitera o tema da partida, como convém ao título do disco, mas que também “acariocou” o autor, situando-o no Rio de Janeiro e aproximando-o do contexto musical no qual Caymmi despontou. Devemos observar brevemente que, embora o samba tenha nascido na Bahia, é no Rio que ele adquire a forma com a qual veio a se popularizar a partir dos anos 30. Esta preponderância do samba carioca possibilitou que o samba baiano corresse por fora e mantivesse uma distância saudável do samba carioca, conservando suas características principais. E eis que numa dessas reviravoltas geniais ocasionadas pela dinâmica das trocas culturais do século XX, Caymmi sintetiza sua releitura do samba baiano junto a elementos precípuos do samba carioca, como a escola de samba e o pandeiro estridente que abre o disco na faixa-título, lembrando a Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Se por um lado, todas as faixas fazem referência de alguma forma à Bahia, por outro os arranjos refletem a mais arrojada música carioca daquele momento. A segunda faixa, “O samba da minha terra”, assim como “365 igrejas” e “Acontece que eu sou baiano”, somente ao violão, reitera a síntese entre Rio e Bahia, e conduz a pensar sobre o modo como Caymmi reinterpretou o samba de roda e, depois, transpôs sua levada para o violão, trocando as palmas pelo contrabaixo (não seria justamente o mesmo procedimento utilizado pelo também baiano João Gilberto para criar a batida da bossa nova, sendo que, no caso, João Gilberto teria se inspirado nos tamborins das escolas de samba?) Um outro momento intrigante do disco é a introdução de “Fiz uma viagem”, cujo arranjo de Alexandre Gnattali remete aos arranjos tropicalistas de Rogério Duprat: a estranha percussão imita algo como um relógio, enquanto o oboé, estranhamente abrasivo, e o violão dolente desenham a melodia. Essa tendência pelo acabamento esmerado das formas de disposicão do disco enquanto uma obra inteira, corre em paralelo com o vigor estético dos arranjos e o alto controle e determinação dos temas, das harmonias e dos climas que Caymmi imprime nas canções. Eu vou p’ra Maracangalha não só levou essas inclinações ao paroxismo, como também antecipou muito do que boa parte das diversas vertentes da música brasileira dos anos 50, 60 e 70 viriam a realizar, tanto musicalmente como em aspectos periféricos.

Eu Vou p’ra Maracangalha é um disco curto, com apenas vinte e poucos minutos. Mas neste pouco tempo, Caymmi encontrou espaço suficiente para criar a summa de seu trabalho. Lá estão, de forma enxuta, todos os elementos que notabilizaram seu imenso talento, e que, além disso, anteciparam mudancas que viriam a transformar a música brasileira como um todo. E, neste caso, não se trata de uma frase de efeito: da bossa nova à retomada do samba de morro, passando pelo tropicalismo, os Novos Baianos, e até mesmo o proto-rock brasileiro dos anos 80 (que, pelas mãos de Gilberto Gil e Liminha, recriaram o clássico “Marina”), muitos foram de alguma forma influenciados não só pelo compositor Caymmi, mas por seu rigor, economia, e, ao mesmo tempo, sua inigualável descontração. (Bernardo Oliveira)

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Disquinho de oito músicas com pouco mais de vinte minutos de duração. Quase nada. E mais não era necessário para fazer um dos discos mais perfeitos e incontornáveis da história da MPB. Caymmi consegue encapsular diversas facetas de suas música como quem não faz quase nada. Escondida na narração de coisas simples, quase comezinhas, ele constrói a mais pitoresca e ressonante representação da Bahia de sua juventude, elevada ao patamar da mais fina ficção. Pode-se quase dizer que Caymmi inventou uma certa baianidade à qual a realidade apenas fez o favor de se ajustar. Isso de modo muito mais sutil que outro famoso criador de arquétipos baianos, Jorge Amado, que em boa parte das ocasiões apelou para o grotesco e o exagero, como se a simples observação não pudesse encontrar recepção. Caymmi não cairia nesta armadilha; seu jeito galante esconde a revolução que perpetrava.

Caymmi foi um dos principais artífices da transição, à partir da década de 40, de um certo modo de cantar e abordar a canção, que viria a ser aprofundado nas décadas seguintes e faria o esteio da música brasileira. Sua voz forte e de grande alcance transmitia doçura não muito comum para a época, com suas vozes empostadas (dizem que por culpa dos microfones que não captavam tão bem os sons e faziam necessárias as notas altas para a melhor audição). Caymmi sempre foi o trovador que se equilibrou tranqüilamente em águas turbulentas, daquelas que levaram muitos de seus pescadores e seu modo de cantar, transição que foi apenas um de seus exemplos. Cantou a Bahia, o mar e os pescadores, mas alcançou beleza universal. Sempre pregou a simplicidade e a economia musical, mas suas melodias e harmonias estão entre as mais ricas da música brasileira e não é por menos que João Gilberto sempre que pode anuncia que aprendeu tudo com Caymmi e não deixa de sublinhar, como se fosse segredo, o apelo ímpar de suas composições.

Eu Vou p’ra Maracangalha começa logo com três músicas que estão entre suas mais famosas e apresentam repertório distinto das canções praieiras dos primeiros discos. Não havia nada mais “de vanguarda” que suas composições para o violão, como o andamento absurdo de “Samba da Minha Terra”; aliás, poderíamos dizer que aqui nasce João Gilberto. Bebendo de sambas, choros, modinhas e todo o repertório da época, Caymmi esculpe melodias e arranjos que oscilam entre a boemia e a melancolia da saudade, mas que são sempre concisos e complexos na construção. Aqui não temos apenas o violão de Caymmi, mas ricos arranjos para orquestra que ressaltam o espírito celebratório do álbum através de soluções inovadoras. “Acontece que eu sou baiano” dá uma dica para a música de Caymmi: “Acontece que eu sou baiano / Acontece que ela não é/ Mas tem um requebrado pro lado/ Minha Nossa Senhora /E ninguém sabe o que é”. Pois então, a música de Caymmi tem tal requebrado pro lado, de leve, que ninguém sabia o que era. Caymmi não legou discografia, deixou monumento daquele que ainda está longe de esgotar sua capacidade de encantar e fornecer inspiração, se é que isso será possível. Se ele já nos abandonou e foi lá prá Maracangalha, agora na companhia de Stella Maris; que festa danada não deve acontecer. (Marcus Martins)

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A morte recente de Dorival Caymmi colocou em voga novamente sua obra e sua história. E as mesmas coisas foram ditas: um dos grandes menestréis da cultura brasileira, o que mais soube representar o povo e as tradições da Bahia, ao lado de Jorge Amado, artista único, obra pequena em tamanho, mas de valor inestimável, etc, etc. E, realmente, é difícil falar de Caymmi sem cair nas armadilhas do lugar comum. Em coluna recente no jornal O Globo, o também baiano e amigo do músico, João Ubaldo Ribeiro, escreveu um artigo contando sobre histórias de sua vida que tiveram Dorival como um dos protagonistas. No final, o escritor fez questão de ressaltar que tentou fugir dos clichês ao reportar sobre algo pessoal, e talvez esta seja a única maneira original de falar sobre o cantor. Como não sou grande conhecedor de sua obra, muito menos seu amigo pessoal, fica difícil escrever uma resenha crítica sobre um disco de um artista tão dissecado e de músicas tão consagradas. Resta falar sobre o que sua música causa em mim.

Demorou que a música de Caymmi (por Caymmi) fizesse parte da minha vida. Em casa nunca se escutou muito – os de execuções mais assíduas eram seus filhos e outros que interpretavam sua obra, mesmo assim, no montante final, as músicas do baiano representavam uma quantia ínfima se comparadas às relativas dos favoritos da casa (Gil, Caetano, Milton, Djavan e Alceu). Foi por conta própria que busquei os discos de Dorival e qual não foi minha surpresa em descobrir um disco tão maravilhoso quanto Caymmi e Seu Violão. Primeiro pela lucidez das letras e das canções, depois pela pungência e sinceridade com as quais Caymmi entoa sua voz e empenha seu violão. Ouvir um disco seu é como escutar música pela primeira vez, assim como disse Duras a respeito do cinema de Bresson. É tão original, tão arrebatador, tão repleto de franqueza, tão direto, que é como se o artista tivesse brotado de algum lugar remoto em que não existia música. Estas características me fazem pensar em Baden Powell, John Fahey e Robert Johnson – instrumentistas que passam a impressão de terem, desde o nascimento, a música como algo intrínseco de si mesmos – bastava pegar o violão e soltar a voz (Fahey e Powell não entram nessa) que algo de belo e passional sairia dali.

Eu Vou p’ra Maracangalha é um disco que remete a um deslocamento de espaço e tempo e a lembranças de outros lugares, outras épocas. É uma obra que está sempre remontando a movimentos, seja externos ou internos. Há aquelas que tratam de viagens propriamente ditas (“Maracangalha”, “Acontece que Eu Sou Baiano”, “Fiz uma Viagem”), as que lidam com viagens da própria imaginação, devaneando acerca da terra natal (“O Samba da Minha Terra”, “Saudade da Bahia”) e as que se situam entre os dois tipos ou em outros níveis de deslocamento (“Vatapá”, “Roda Pião” e “365 Igrejas”). Trata-se de um disco de dez polegadas, aproximadamente vinte minutos e que possui várias pérolas da música brasileira, como “O Samba da Minha Terra”, que teve gravações mais que dignas de Lúcio Alves, João Gilberto e dos Novos Baianos, “Saudade da Bahia”, “Vatapá” e o quase-hino nacional “Maracangalha”. Praticamente metade do disco já foi gravado por João Gilberto, o que só põe em evidência o quanto Caymmi foi importante também para a criação da Bossa Nova, através do seu jeito de tocar violão. Mas este é outro lugar comum a respeito de sua obra. A verdade é que Eu Vou p’ra Maracangalha é um deleite do início ao fim e que só nos leva a reiterar algo, sempre importante de se lembrar, embora, diante do reconhecimento amplo de sua importância para a música brasileira, não exija muitas explicações: Dorival é gênio absoluto. (Thiago Filardi)

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Primeiro a voz: um modernismo absoluto. É claro que isso é facilitado pelo dom natural da voz encorpada, forte, que não precisa dos floreios e das empostações típicos dos cantores de vozeirão que dominaram a canção brasileira até o final da década de 50 (e cuja tradição se manteve viva com Nelson Gonçalves, Nelson Ned e outros). Mas não é só questão daquilo que é dado, mas como se utiliza o que é dado: e nisso Dorival Caymmi é de uma destreza infernalmente deliciosa, cantando firme mas ainda assim deixando sua voz maleável à ginga necessária ao melhor samba. É uma prosódia que esbanja fluidez, marotice, irreverência. Uma voz que sai quase sem trabalho, e que pelo próprio desprendimento carrega a gente. A notar em especial nesse 10″ maravilhoso (que muito me orgulho de ter em formato original) que é Eu Vou p’ra Maracangalha, repleto de sambas, o modo como o canto de Caymmi burla a marcação do ritmo, antecipando ou atrasando palavras e versos, o que depois seria uma marca registrada de… João Gilberto.

Falo da voz primeiro para falar de uma evidência: apesar das composições de Caymmi serem deslumbrantes, verdadeiros monumentos de concisão e simplicidade, é raro ver versões de suas músicas que na voz de outros mantenham a mesma intensidade (ok, excetuamos João Gilberto, Carmen Miranda e Novos Baianos, os suspeitos comuns). Por isso, ouvir Dorival Caymmi cantando suas próprias canções é ouvi-las de novo pela primeira vez. Devia ser assim que um ouvinte de 1957 ouvia esse LP, que efetivamente só tinha três músicas inéditas, “Maracangalha”, “Saudade da Bahia” e “Fiz uma Viagem”, o resto datando do final dos 30 ou dos anos 40, gravado pelo próprio Dorival ou por outros artistas (ou ambos).

Mas não é só a novidade da voz do autor. É também o arranjo. “A gente põe orquestra, cordas, regional, o Raul de Barros no trombone, uma zoeira, ninguém vai entender”, sugeriu o produtor Aloysio de Oliveira ao cantor para “Maracangalha”. E se o disco não segue a mesma ousadia de misturar elementos vistos como contrastantes (a “zoeira”), não fica muito atrás. Quase todas têm acompanhamento de orquestra (menos “365 Igrejas”, “O Samba da Minha Terra” e “Acontece Que Eu Sou Baiano”) bastante inventivos, pontuando discretamente a melodia com instrumentos isolados. A maior surpresa não é a versatilidade, no entanto, mas a concisão: tudo que é acrescido à música parece fundamentalmente necessário a ela. Fica difícil algum disco postular bater o lirismo melancólico e vibrante de Canções Praieiras como o maior disco de Caymmi, mas Eu Vou p’ra Maracangalha chega perto.

O próprio Dorival sabia bem como operava. Foi ele mesmo seu melhor crítico, então só nos resta reproduzir: “Tenho ânsia de ser o autor do mais simples, do mais puro. Parto para encontrar a forma mais doce de dizer as palavras e a música duma canção, num estribilho que você segure na cabeça, que trauteie, que assovie. Meu sonho é chegar à perfeição de ser o autor de uma ‘Ciranda-Cirandinha’, uma coisa que se perca no meio do povo.” (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Dorival Caymmi – Eu Vou p’ra Maracangalha (1957; Odeon, Brasil)

  1. karine
    30 de junho de 2010

    idiota

    • bernardo
      1 de julho de 2010

      “idiota” por que?

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Publicado às 9 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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