Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Maryanne Amacher – Sound Characters 2 (2008; Tzadik, EUA)

Maryanne Amacher é compositora, artista multimídia e performática, tendo sido aluna de Karlheinz Stockhausen e George Rochberg, além de colaborar com nomes como John Cage, Thurston Moore, dentre muitos outros; possui destacada carreira acadêmica e é especialista em instalações sonoras, sendo seu trabalho voltado à investigação das relações entre som e espaço e como tal interação influi no que ouvimos e como reagimos a isso – no que se convencionou denominar “ilusões psicoacústicas”. Apesar de compor desde o final dos anos 60, Sound Characters 2 é apenas o segundo álbum contendo composições suas, sendo continuação de Sound Characters (Making the Third Ear), lançado também pela Tzadik em 1999; além de ter um trecho de uma composição sua incluído na abrangente e ilustrativa coletânea OHM: The Early Gurus of Electronic Music, dentre outras aparições em coletâneas de divulgação limitada.

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Um dos pontos quase indiscutíveis da história do registro fonográfico é da impossibilidade da gravação e reprodução fiel das apresentações ao vivo. Mesmo que exista registro melhor ou pior sucedido, de maior ou menor fidelidade, que consiga ou não captar a “energia” da apresentação, ainda não foi possível encontrar uma gravação que replicasse a experiência de uma apresentação. O que, por diversas razões é impossível. Daí temos a mitologia de artistas que nunca conseguiram produzir em álbuns com a qualidade presente em seus shows, seja através de gravações de estúdio ou captura do áudio de concertos.

À partir disso, é importante deixar claro que as composições de Amacher não foram especialmente construídas para a audição doméstica comum, menos ainda para a audição através de fones de ouvido. Isso por que, mais que qualquer outro tipo de composição, o espaço pelo qual a música reverbera é tão ou mais importante que a qualidade do som, sendo suas peças usualmente criadas para execução em locais específicos, levando em consideração as características da arquitetura e das condições da apresentação. Em suas apresentações Amacher costuma incentivar os espectadores a transitar pelo espaço, como forma de estimular a percepção da música no espaço.

Dito isso, Sound Characters 2 consiste de uma peça em quatro partes denominada Teo! A Sonic Sculpture que foi premiada com o Prix Ars Electronica de 2005 na categoria de música digital. As peças foram criadas em colaboração com os cientistas do Sun Pyramid of Teotihuacan. Como já havia acontecido com a poderosa música de Sound Characters, a música de Teo foi composta para provocar a audição e o resultado aqui é ainda mais efetivo, vez que no lugar de uma coleção de composições não necessariamente vinculadas, temos uma peça única, com desenvolvimento e variações, que a aproxima de trabalhos mais convencionais sem perder as qualidades que fizeram Amacher ser reconhecida.

Assim, apesar das inegáveis limitações da audição ordinária da obra de Amacher, basta a possibilidade de ouvir a mesma em algum ambiente de razoável proporção e em volume elevado para percebermos que a despeito de toda a ‘academicidade’ estamos experimentando música capaz de nos transportar a outro patamar de percepção, ativando o que Amacher denominou de terceiro ouvido. A audição deixa sua aparente passividade para não apenas interferir em nosso corpo como também nos leva a reagir a estes sons. A sensação deixa de ser exclusivamente auditiva para tornar-se igualmente táctil: o som é “percebido no ambiente” e no corpo. Em condições ideais, em momentos extremos, a sensação seria de que a música sairia do interior na caixa craniana, algo como um invasor de corpo querendo sair.

A própria Amacher explica seus procedimentos da seguinte forma: “When played at the right sound level, which is quite high and exciting, the tones in this music will cause your ears to act as neurophonic instruments that emit sounds that will seem to be issuing directly from your head … (my audiences) discover they are producing a tonal dimension of the music which interacts melodically, rhythmically, and spatially with the tones in the room. Tones ‘dance’ in the immediate space of their body, around them like a sonic wrap, cascade inside ears, and out to space in front of their eyes … Do not be alarmed! Your ears are not behaving strange or being damaged! … these virtual tones are a natural and very real physical aspect of auditory perception, similar to the fusing of two images resulting in a third three dimensional image in binocular perception … I want to release this music which is produced by the listener …” ¹.

Assustador como nenhum doom metal conseguirá ser, as reações a suas apresentações costumam ser intensas ao extremo de provocar pânico, mas dificilmente isso seria conseguido fora das condições necessárias. Ademais, é notório que o material de seus álbuns não são réplicas de suas apresentações, mas seleções de material semelhante e de alcance reduzido. O que não deixa de ser estimulante, pois o que nos é dado ouvir é música poderosa e de altíssimo nível de sofisticação. Em alguns momentos é rarefeito como o ar no topo de montanhas, em outros preenche todo o espaço como se tivéssemos sido atingidos por uma avalanche. Ouvir Amacher é como escalar uma montanha acidentada. (Marcus Martins)

¹ Trecho de depoimento retirado da Wikipedia. Para uma entrevista mais abrangente com Amacher, clique aqui.

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É preciso estabelecer um modo de audição específico para que se escute Sound Characters 2 da maneira correta. E este modo não deve ser totalmente passivo. Explico-me: em alguns momentos da composição “Teo!”, dividida em quatro partes neste álbum, é possível modificar a freqüência ou a ressonância do som emitido com um simples movimento da cabeça. Isso significa que “Teo!” não deve ser executada através de fones de ouvido, mas por meio de caixas de som potentes, situadas em um espaço aberto. Necessita-se que deixe a música se espalhar e ecoar neste espaço, da mesma forma que se deixe o indivíduo modificar aquilo que está ouvindo – a distância das orelhas em relação à caixa de som e o modo como a cabeça está posicionada são importantíssimos para a configuração e delineamento daquilo que se ouve.

Tendo dito isto, Sound Characters 2 não é um disco de audição fácil. Nas duas primeiras partes de “Teo!”, Amacher trabalha com freqüências extremas de som e timbres. “Teo! Part 1” começa com um zumbido grave e penetrante, até que é cortada abruptamente por estalidos agudos muito fortes. E é assim por todo o resto da faixa. A segunda parte da composição é quase inaudível e necessita de ouvidos atentos para entender o que está acontecendo – uma alternância em baixo volume de sons graves e freqüências mais agudas. Já a terceira parte é constituída por um drone que permeia toda sua duração. Nesta, especificamente, é que se pode sentir o poder de intervenção do ouvinte, este sendo capaz de formar novas freqüências, tonalidades, efeitos e deformar o resultado final – na sua própria mente, claro. A quarta e última parte é a mais longa e que requer um pouco mais de paciência, pois são cerca de vinte e cinco minutos de drones ramificados que pouco variam e não são exatamente “bonitos” de se ouvir. É nesta última seqüência que Amacher parece encontrar um equilíbrio entre suas freqüências extremas. Aqui prevalece a sonoridade médio-aguda, sem grandes choques e interrupções.

A música de Amacher não é, portanto, do tipo prazeroso, que fará o ouvinte voltar a ela constantemente. A artista trabalha, principalmente, com a crueza do som e sua essência mais pura. É uma música de contornos pontiagudos e textura áspera, que preza mais pela experiência do som e da maneira como o mesmo pode impregnar no espaço e no cérebro do indivíduo, do que com o desenvolvimento de melodias e harmonias – já que ritmo e tempo são características inerentes à música. Para quem procura expandir a mente e desenvolver capacidades mais largas de apreender novas sonoridades, é um prato cheio. (Thiago Filardi)

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Confesso que essa é a primeira vez em que a dinâmica da Camarilha – aproximadamente uma semana para ouvir no mínimo três vezes cada um dos discos – foi totalmente insuficiente a mim para pode construir uma idéia palpável sobre aquilo que escrevo. É claro que o quase esoterismo das teorias e condições de percepçao acopladas à figura de Maryanne Amacher ajudam: a gente fica buscando a percepção fugidia, a gente se questiona se as condições de audição são aceitáveis ou se só se perde tempo ouvindo dessa forma, e às vezes mesmo a gente se pega desatento à própria música acontecendo. Sei, no entanto, que Sound Characters 2 é um disco totalmente instigante e provocador. Algo que parece se posicionar num limiar entre a extrema concisão e elegância de Terry Riley ou Steve Reich e o mesmo poder detonador de um Matt Elliott em seu período de Third Eye Foundation ou Alec Empire. O disco começa trabalhando a dinâmica entre o silêncio e o ruído, fazendo irromper de vez em quando jorros estridentes e altíssimos numa mansa e baixa cama de graves. A intermitência dos ruídos, assim como as percepções dos resíduos que vão morrendo aos poucos, causa um desconforto pra lá de cativante. A segunda faixa, a única realmente curta (5min), também trabalha com sons que aparecem e somem no silêncio dominante: a faixa começa esporrenta e os sons tendem a abaixar. A coisa começa a ficar realmente densa na terceira parte do disco, em que ruídos realmente agudos – que evocam estranhamente uma gaita de fole processada – se movimentam por sobre um drone permanente parecido com som de sinfonia de grilos. A gente só vai percebendo como ficou viciado no som quando ele vai morrendo calmamente até a faixa acabar. E por fim temos o final, um rompante glorioso de 25min de transe, que evoca o Acid Mothers Temple tocando um mantra de Terry Riley. Barulhento, denso, cheio de texturas, um pântano de ruído nesses que a gente se perde deliciosamente e não quer voltar. Sound Characters 2 é um disco desafiador e misterioso, com seu quê de impenetrável e com sua aura de experimento sui generis que impõe condições de escuta. No entanto, dentro de todo esse clima de exigência, aparece um disco de propostas firmes e de sensorialidade impressionante. (Ruy Gardnier)

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Não admira que este segundo álbum da veterana Maryanne Amacher apareça quase dez anos após o primeiro. E mesmo o primeiro, Sound characters 1, foi editado em 1999, quando Amacher já somava mais de três décadas de experimentação em instalações sonoras eletroacústicas, particularmente vinculadas à otoacústica. Sua música, ou, mais precisamente, seu pensamento musical, reporta mais a uma experiência comuntária in situ do que à relação unilateral da fruição doméstica. Suas apresentações são apocalípticas, os corpos sendo tomados de diversas formas pelo som, imersos numa dimensão “tátil” do som. São “ventanias”, “insetos”, “tempestades”, “nuvens” e outras ilusões sonoras que, de acordo com o volume e a emissão, produzem sensações que variam do leve incômodo ao pavor absoluto. Com suas peças, Maryanne pretende despertar no ouvinte uma percepção multissensorial da música, tanto na relação do artista com o ouvinte, quanto na do ouvinte consigo próprio, o que certamente se efetiva mais adequadamente de corpo presente (como Thurston Moore comprova aqui). Mas o fato controverso é que Maryanne lança discos. Através deles, no entanto, ela não demonstra o desejo de traduzir o conteúdo experiencial de suas obras para o formato do disco, como se quisesse disponibilizar ao ouvinte a reprodução das propostas realizadas nas apresentações. Pelo contrário. Sound characters 2 firma a aposta do primeiro volume, expondo uma dimensão mais contemplativa de seu trabalho. Nas duas primeiras faixas, a continuidade e o equilíbrio em favor do transe drone; nas duas últimas, a instabilidade que instiga os que se interessam por sons abstratos e desafia a paciência dos que não se interessam absolutamente. Ora entrecortado por rompantes sonoros, ora tomado por modulações imprevisíveis, Sound… joga com as respostas mais imediatas da percepção, atingindo o ouvinte com violência, conduzindo-o a um estado de falso relaxamento, para logo depois pregar-lhe uma peça. Se estou certo quanto à proposta do álbum, o primeiro Sound Characters soa mais coerente, embora este fato não tire a elegância limitada deste segundo. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 16 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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