Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

William Parker – Double Sunrise Over Neptune (2008; AUM Fidelity, EUA)

William Parker é um dos nomes mais importantes do jazz de vanguarda contemporâneo. Nascido no bairro do Bronx, em Nova York, ele é compositor de formação clássica e multiinstrumentista, tendo domínio pleno do baixo (seu principal instrumento), do corá, do shakuhachi, da tuba, das palhetas duplas, do doson’ngoni e outros. Começou sua carreira no início da década de 70, se apresentando em diversos clubes nova-iorquinos ao lado de mestres do jazz vanguardista. Em 1981 passou a fazer parte do conjunto de Cecil Taylor, com quem colaborou ao longo de toda a década. Essa passagem foi importante para firmá-lo tanto como líder dos grupos In Order to Survive e The Little Huey Creative Music Orchestra, quanto para iniciar uma seqüência discográfica que, hoje, se estende por mais de 20 títulos. Parker já tocou praticamente com todos os principais nomes do jazz de improvisação americano e europeu. A lista é extensa e para citar alguns nomes, além de Cecil Taylor, Davis S Ware, Bill Dixon, Sunny Murray, Rashid Ali, Alan Silva, Don Cherry, Peter Brötzman, Henry Grimes, John Zorn, Han Bennink, Tony Oxley, Derek Bailey e por aí vai. Participou da Blues Series, projeto de Matthew Shipp já citado anteriormente no blog, aparecendo em discos de Scotty Hardy, Spring Heel Jack e Antipop Consortium. Ele também é escritor e lançou recentemente o livro “Who Owns the Music?”. Double Sunrise Over Neptune foi gravado ao vivo com uma orquestra, em junho do ano passado, no Vision Festival XII, em Nova York, e lançado pela AUM Fidelity, selo para o qual o músico vem gravando regularmente desde 2006. (TF)

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A escolha de Double Sunrise Over Neptune para figurar entre os discos da semana foi quase como uma auto-sabotagem incosciente da minha parte. Nos últimos posts tem sido inevitável abordar a questão Ocidente/Oriente na música contemporânea. Seja com o dubstep de Dusk + Blackdown ou com um disco de Gilberto Gil, da década de setenta, essa relação dicotômica entre os dois lados do mundo, situada no âmbito musical, é alvo constante das minhas análises. É então que ao ouvir o disco de William Parker, que eu próprio indiquei, me encontro novamente preso a esse dualismo intercambial. Pois bem, é impossível falar de Double Sunrise Over Neptune sem levar em consideração a sua fusão musical tão bem explorada, que opera com técnicas extremas e opostas, alcançando um resultado nunca visto antes.

O disco foi inteiramente gravado ao vivo, há mais de um ano, com uma orquestra de mais de quinze músicos. Os intrumentos utilizados são: trompete, sax alto, palhetas duplas, sax tenor, clarinete, sax barítono, violino, viola, violoncelo, guitarra, banjo, oud, bateria e doson’ngoni, além da participação da cantonra indiana Sangeeta Bandyopadhyay. Todos os integrantes foram conduzidos por William Parker, que compôs a base musical das faixas e escreveu as letras cantadas em inglês por Sangeeta. Todavia, o instrumento tocado por Parker não é seu tradicional baixo, mas a palheta dupla e o doson’ngoni. É minimamente admirável a versatilidade desse artista, que consegue dominar instrumentos musicais de técnicas tão diversas, como o doson’ngoni e o corá, oriundos da África e o shakuhachi, flauta de bambu criada no Japão. Isso demonstra sua grandeza de espírito, capaz de apreender sons externos e dialogar com as formas culturais mais distintas, o que, certamente, fica posto em evidência em Double Sunrise Over Neptune, concerto que englobou músicos de diferentes locais com linguagens musicais das mais diversas e que foi capaz de criar um som único, indistinto, que comunica com a alma. Talvez Parker tenha alcançado seu objetivo de ser somente o porta-voz de uma música que, essencialmente, vem de um só lugar e não é inventada pelo ser humano – este tem a função apenas de se deparar com essa música e trazê-la à tona.

Não é possível analisar minuciosamente as músicas do disco, pois estas são de uma complexidade imensa, nem sempre permitindo o ouvinte distinguir cada membro. É possível, no entanto, fazer uma análise da estrutura das músicas e destacar os devidos instrumentos. Double Sunrise Over Neptune é constituído de quatro faixas, sendo duas de mais de 20 minutos, uma de 15 e um interlúdio de meio minuto. Um fraseado crescente de baixo, de poucas notas, permeia quase todo o disco e parece ser o esqueleto das composições, que variam em torno desta linha melódica. Vale a pena sublinhar a performance da baixista Shayna Dulberger, que ocupa o lugar habitual de Parker com muita dignidade, emprestando ao seu instrumento um minimalismo seguro e rigoroso. Os vocais de Sangeeta, também presentes ao longo do disco, trazem equilíbrio espiritual e melódico para as improvisações e são de arrepiar de tão belos, penetrantes e afiados. Outro destaque vai para a guitarra de Joe Morris, sempre bem colocada, dialogando permanentemente com os instrumentos de sopro e utilizando timbres limpos. Quanto à estrutura das músicas, esta parece seguir uma mesma linha, que começa devagar, com a melodia repetitiva do baixo, ao passo que os outros instrumentos vão entrando e mais para o meio da improvisação aparece a voz, entoando mantras, ou textos de Parker, ou simplesmente improvisando. Em seguida há uma ebulição total dos instrumentos, que ficam cada vez mais altos e explosivos, para depois tudo se acalmar e começar novamente. Double Sunrise Over Neptune é um caso raro de músicos de improvisação que se escutam, que tocam de acordo com si – apesar da presença do condutor, que facilita a dinâmica grupal. E é incrível como Parker soube reger com tanta maestria uma orquestra tão grande, e mais notoriamente, teve a habilidade de extrair uma unidade sólida e inabalável disso tudo. Fica aqui um dos registros sonoros mais bonitos e comoventes lançados neste ano de 2008. (Thiago Filardi)

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Quando eu olhava para as capas de alguns discos clássicos de jazz como Mingus Ah Um de Charles Mingus ou Time Out do Dave Brubeck Quartet, coloridos e abstratos com formas geométricas doces, eu imaginava que aquela música de alguma forma era trilha sonora para um mundo extraterreno expresso na capa, porque por algum motivo uma música tão exuberante e expressiva não poderia expressar o mundo comezinho, repetitivo e chato das atividades rotineiras do cotidiano de todas as gentes (para isso, infelizmente, a gente conhece bem a trilha sonora, marcada por easy listening, pop convencional, os gêneros da moda…). Com Double Sunrise Over Neptune não precisou nem da capa, bastou o nome: definitivamente uma música alienígena, de um mundo com vários sóis e várias auroras, um mundo em que nossos amparos culturais/culturalistas não servem e as políticas de identidade claudicam. É bom notar o termo double empregado no título desse disco, porque há nele uma falsa dualidade a ser colocada e uma verdadeira. Sigamos.

A falsa dualidade é a relação entre instrumentos e tradições musicais do oriente e do ocidente. Eles existem no disco, sem dúvida, mas absolutamente não fazem questão. Acoplam-se tão bem que a gente atenta que é nosso olhar que está viciado em compartimentações estanques e improdutivas do ponto de vista da criação. Em Double Sunrise Over Neptune a música é una, totalmente integrada e cheia de ressonâncias internas. Flui tão desenvolta que espanta. A verdadeira dualidade, e que o disco resolve de forma incrível, é uma tensão que afronta o jazz (particularmente o free jazz) desde os anos 60 e permanece atual até os nossos dias: a balança entre os vôos mais radicais do espírito e a acessibilidade. Não que o disco seja mamão com açúcar mesmo para ouvidos incautos, mas existe nele tanta sensualidade, tanta exuberância e vibração que elas compensam facilmente os momentos mais estridentes, loucamente polifônicos ou dissonantes.

A armação, muito simples, coloca contrabaixo, bateria e percussão mantendo sempre uma pulsação firme e envolvente, dançante quase. É sobre ela que os instrumentos solistas farão seus ataques, com destaque para os metais, violinos e especialmente a voz da indiana Sangeeta Bandyopadhyay. É um disco que se constrói acima de tudo pela dinâmica do conjunto e da composição, já que os momentos de solo propriamente dito são poucos e contidos. Em algum momento, nos vem até a idéia estapafúrdia de uma mistura de Fela Kuti com McCoy Tyner anos 70. Mas isso se explica: de alguma forma, o que era vislumbrado por esses artistas, e que tem de sobre em Double Sunrise Over Neptune, é a música como experiência ritualística, como forma de celebração. Aqui, existe um intenso clima de festejo. Desafiador, certamente, mas ainda assim um festejo, um banquete de prazeres vindos dos lugares mais recônditos e organizados de forma que a comunicação entre os elementos seja total. É um disco que inebria pela profusão de detalhes, pela riqueza de texturas e idéias sonoras, pela beleza ao mesmo tempo expansiva e oculta. Um disco que tranqüilamente encontrará seu lugar no panteão dos lançamentos do ano, possivelmente até da década. Uma paixão. (Ruy Gardnier)

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Sim, existem ainda aqueles artistas que ultrapassam os ditames da indústria, que não compactuam com a suposta mesmice que apregoam os que se encontram perdidos na selva de referências do dias de hoje; artistas que exercitam a mais honesta criatividade, que produzem uma música para além dos rótulos e das concepções mais ordinárias; artistas, enfim, que mais desafiam do que conservam, mais questionam do que confirmam, e no entanto, ainda assim, deleitam, elevam. William Parker é um desses artistas. Por isso, cada novo trabalho que ele edita é motivo de curiosidade atenta, para não dizer nervosa por parte dos que gostam de música nova e criativa. Pois bem, Double Sunrise of Neptune contém quatro faixas gravadas ao vivo, imediatamente inscritas no que de melhor foi realizado no mundo da música em 2008. Convém lembrar que aqui, trata-se do William Parker maestro, compositor, soando ao mesmo tempo “livre” e rigoroso, com uma forte alusão à música oriental, particularmente a indiana, fato que valeu para sua música o rótulo “ethno-jazz fusion”. Desta vez, ele utiliza o ostinato como método, isto é: parte de uma escala que, repetida inúmeras vezes, serve de horizonte para que os instrumentos se imbriquem numa delirante miríade sonora. Como por exemplo, na seqüência melódica realizada pelo contrabaixo de Shayna Dulberger, que pontua a faixa de abertura, “Morning Mantra”, e se estende por mais de treze minutos, enquanto, sobre ela, os instrumentos desenham movimentos inusitados, abruptos. Destaca-se a voz de Sangeeta Bandyopadhyay, que, em meio a todas as outras “vozes”, desfila seu canto policromático com uma naturalidade assustadora. A faixa culmina em uma tensão abstrata, intensificada pelo solo de banjo, que evoca o shamisen japonês. A contribuição do canto hindu com instrumentos orientais de outra cepa torna ainda mais robusta e profunda a música de Parker. A segunda faixa, um tour de force de vinte e sete minutos entitulado “Lights of Lake George”, é mais complexa, e conta com uma pegada ainda mais indiana. A sessão percussiva reproduz um desenho rítmico que se aproxima do ritmo indiano, chegando a lembrar uma tabla, dividida nas peças de bateria do jazz. Enquanto isso, os instrumentos de sopro não ficam atrás, explorando ao máximo a polifonia e o policromatismo, buscando não somente reiterar a marcação do contrabaixo, mas relativizá-lo em meio às diversíssimas possibilidades de cada instrumento. Em alguns momentos, percebemos como que inserções, pequenas composições e intervenções pré-concebidas, como o naipe de metais que, lá pelos vinte minutos, emerge em “Lights of Lake George”, prenunciando o caos que se seguirá.

Entre o rigor e o descontrole, a música de Double Sunrise over Neptune não pode ser arrolada como produto de um crossover, como se Parker propusesse a mera transposição e assimilação do background da música indiana para enriquecimento ou simplesmente adorno do free jazz. Não. Antes, trata-se de uma música total, uma profunda e sincera busca por uma sonoridade que (re)conecte passado e futuro, oriente e ocidente, som e música, natureza e cultura… (Bernardo Oliveira)

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Que William Parker é um fabuloso instrumentista e que além de produzir uma pletora de excelentes álbuns, ele é daqueles colaboradores que sempre trazem aos projetos em que participa algo muito mais raro que a mera execução de sua parte. Parker é verdadeiramente uma força propulsora e, apesar de não gostar de alguns dos projetos em que participa, sua intervenção é sempre destacada, mesmo quando submersa no caos da banda.

Neste Double Sunrise Over Neptune chama a atenção a forma como o leque de estilos e referências reunidas são unidos. Mesmo que reconheçamos a procedência do estilo indiano da cantora Sangeeta Bandyopadhyay, nada faz pensar em uma canção indiana. A banda leva às últimas conseqüências um dos grandes trunfos do que se entende por free jazz: a possibilidade de expandir para qualquer lado e dimensão o idioma sem que esse deixe de ser reconhecido. E isso se coloca quase como um paradoxo; mesmo com tal experimentação, o disco é acessível, melodioso e agradável. Em alguns momentos desconfiamos que a banda escondeu uma canção dentro do caos; em outras ocasiões, linhas melódicas transformam-se em motivos recorrentes, ora escondidas entre tantas outras possibilidades, ora ganhando corpo e destaque para revelar características insuspeitas. Isso fica óbvio desde “Morning Mantra”. Mas falar das características do álbum é apenas um exercício de leitura; Double Sunrise Over Neptune é, primeiramente, uma entidade sólida.

Não gosto de dar valor adicional ao fato de um álbum ser gravado “ao vivo” ou ser objeto de construção no estúdio, pois acredito que se trata apenas de escolhas técnicas que podem interferir no resultado, mas que não implicam necessariamente na qualidade. O caso é que Parker reuniu cerca de quinze músicos para gravar suas criações, dando a usual liberdade e, pela multitude, o risco é um componente importante do álbum. Claro que tratamos de músicos experientes e que se conhecem, mas ainda assim o resultado é empolgante. Se não alcança o resultado criador de alguns músicos do passado, a energia ali despendida é suficiente para nos convencer de que não estamos diante de um lançamento vulgar, tanto digno de figurar como um dos principais de Parker e talvez, um dos melhores da patota que ele faz parte. Digo isso porque, mesmo reconhecendo a capacidade dos músicos que, por exemplo, gravitam em torno do selo Thirsty Ear, não posso deixar de ficar entediado com o resultado de muitos dos lançamentos deles. Parker fica longe disso e junto a Scrapbook e Sound Unity, Double Sunrise Over Neptune compreende mais um capítulo desse livro de maravilhas que é sua obra. (Marcus Martins)

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Publicado às 25 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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