Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Grails – Doomsdayer’s Holiday (2008; Temporary Residence Limited, EUA)

Grails é um quarteto americano (Portland, Oregon) de rock instrumental. Formado na virada da década com o nome Laurel Canyon, o grupo passou por diferentes formações e assumiu o nome Grails em 2003, quando lançou seu primeiro álbum, The Burden of Hope, e fixou sua formação com Emil Amos (bateria), Alex John Hall (guitarra), William Zakary RIles (guitarra, violão) e William Slater (baixo, piano). Entre os lançamentos de destaque da banda estão os três volumes de Black Tar Prophecies (2006) e Burning Off Impureties (2007). A banda é associada a outros grupos instrumentais psicodélicos americanos que flertam com post-rock, o folk e com o metal setentista, como o Om e o Red Sparrowes. Além de Doomsdayer’s Holiday, em 2008 o grupo também lançou o disco Take Refuge in Clean Living. (RG)

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No final de 2007, várias listas de melhores do ano apontavam Burning Off Impureties, do Grails, como um dos melhores lançamentos do ano. Foi como conheci inicialmente o grupo e fiquei impressionado com sua aparente paradoxalidade: era um grupo cuja sonoridade remete diretamente ao blues, ao hard rock, a uma série de gêneros já por demasiado consumidos e desgastados, mas ainda assim tinha um tipo de preocupação absolutamente contemporânea na criação de atmosferas, na lenta reiteração e crescimento dos temas (o que o colocava direto em território post-rock) e no preciosismo com timbres e sua exaustão, o que lembra os drones embora a banda não se utilize muito deles. O que diferencia, aliás, os Grails dentro desse panorama é a afeição por melodias belas e límpidas, com notas entre intervalos longos, que dão um clima quase-épico (ainda que não forçadamente “importante”) às canções. “Silk Rd.” e “Dead Vine Blues” estão certamente entre as coisas que eu mais ouvi no verão e na virada 07/08, e definitivamente eu concordo com todos aqueles que colocaram o disco dos Grails entre os melhores do ano.

Como o Om, seria meio inútil buscar alguma novidade clara no som da banda. Sâo artistas que até agora fixam suas preocupações mais na intensidade da sonoridade e na dinâmica entre os sons já encontrados do que no acréscimo de novas preocupações e influências. É sob esse aspecto que devemos encarar Doomsdayer’s Holiday, assim como já o era com Take Refuge in Clean Living: diferentes modulações dentro de um mesmo esquadro de referência.

Ainda assim, que capacidade de variação! “Doomsdayer’s Holiday”, a primeira faixa, explode com um volume altíssimo, um baixo distorcido e um fraseado de guitarra de metal. O final da faixa responde com retomada do tema pelo piano, células de bateria tocadas ao contrário e uma massa sonora que vai tragando tudo. “Reincarnation Blues” começa com uma melodia de cítara, explode quando a guitarra toma o tema para si e a bateria vai lá no alto, depois amansa quando o baixo retoma a melodia e conduz a faixa a uma morte calma, como uma dança de espectros. “The Natural Man” é uma balada guiada por delicadas notas dedilhadas e, ainda que a sonoridade de fundo seja cheia de atmosferas soturnas, o arranjo e a melodia conseguem transformar a faixa no que há de mais solar feito pelo grupo. “Immediate Mate”, guiada por uma melodia de baixo, é o momento mais climático e solto do disco, em que a falta de uma estrutura precisa possibilita intervenções improvisadas em que se destaca o trabalho percussivo de Emil Amos.

Se há algo a destacar nos discos dos Grails, é a meticulosa busca de ritmo interno à passagem das faixas. Pois, depois de um momento mais solto, eles emendam com “Predestination Blues”, a mais exuberante faixa do disco, e precisa como um relógio. É mesmo um modelo de composição já típico dos Grails: uma melodia forte, tocada simultaneamente por dois instrumentos e atingindo um momento de clímax até que a faixa vai para outro lugar – aqui sons vocais de mantra, sons espectrais e uma marcação de tempo sumária – até voltar com tudo no momento final, inicialmente morninha até a guitarra ligar a distorção e transformar a música numa massa sonora impressionante, tão pesada quanto rica em detalhes de arranjo. Depois do momento de clímax, o disco fecha com dois momentos mais amenos, “X-Contaminators” e “Acid Rain”, a primeira uma faixa climática guiada por um contratempo pulsante e a segunda uma linda balada que retoma um pouco o som de “The Natural Man” para expandi-lo em poder de evocação, e termina docemente deixando as notas amplificadas desaparecer. Ainda que não exceda Burning Off Impurities como o grande lançamento do grupo até agora, Doomsdayer’s Holiday é um excelente testemunho de um grupo que, entre o clássico e o pós do rock, representa como poucos o dilema contemporâneo de um gênero saturado que luta por renovação. (Ruy Gardnier)

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Não conhecia o Grails. Assim que o Ruy indicou o novo álbum do grupo, mesmo antes de ouvi-lo, fui buscar referências na internet, tentar entender o contexto, tomar conhecimento da formação, das influências, etc. Me surpreendi pela primeira vez ao constatar que o segundo álbum do grupo, Everything comes and goes, é um tributo ao Black Sabbath, o que me deu a primeira indicação: o metal. Depois de ler algumas matérias, pus o disco, e ai veio uma confirmação: os gritos aterrorizantes, abafados, que introduzem a faixa-título, e a levada pesada e arrastada que se segue, atestam a vocação do Grails para dar prosseguimento à herança do Black Sabbath e de grupos como o Soundgarden, que, a partir do início da década de 90, assumiram a influência de Ozzy, Iommy e companhia. O que me chamou a atenção a esta altura foi a desenvoltura free com que Alex John Hall, William Zakary Riles, William Slater e Emil Amos costuram a faixa, ressaltando as escalas menores características do Sabbath, adicionando texturas noise e outros upgrades… O final surpreende, com o aquietamento do barulho tenebroso e a sua transformação na introdução da segunda faixa, que reitera o formato da anterior: um riff parecidíssimo com “Supernaut”, entrecortados por momento em que a melodia é executada por uma cítara (ou um fole, não sei…). Mais uma faixa se vai com mais de um minuto de sons climáticos, e o conceito do álbum permanece na chave da reavaliação do metal. E, por assim dizer, finca seu pé nele, já que os violões de “The natural man” lembram seus momentos mais plácidos, “Immediate mate” e “Predestination Blues” evocam sua influência bluesy e “Acid Rain” lembra mais uma releitura das pretensões românticas embutidas nas faixas mais melodiosas do Sabbath como “Changes”. Ao final, chego a conclusão de que os Grails são algo mais que ótimos músicos, cientistas empenhados na reelaboração minuciosa de certos aspectos do vocabulário metaleiro em prol não exatamente de uma reavaliação, como sugeri no início, mas da reativação e recombinação de princípios recalcados do metal. E, de fato, o que confirmei com a audição de Burning off impurities, o disco anterior, foi que não se trata de um diálogo com o metal, mas com suas fontes primevas: o blues de pub inglês dos anos 60, o folk americano pré-Dylan dos anos 50, as melodias com intenções medievais e/ou orientalizantes. O som do Grails, assim, poderia ser situado entre o trabalho de Grizzly Bear e Stephen O’Malley; e Doomsdayer’s holiday representaria não uma guinada para o metal, mas a continuidade de um projeto que tem no metal sua fonte de inspiração, tendendo nitidamente a desfigurá-lo com o auxílio de elementos ligados à música contemporânea, como por exemplo o drone e os momentos abstratos que pontuam várias de suas faixas. (Bernardo Oliveira)

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Doomsdayer’s Holiday é um disco estranho e parece com pouquíssimos outros que você vai ouvir em 2008. Fato comum na discografia do Grails, lembro de mesmo não gostando de discos anteriores, sempre ficar pensando: “que diabo!”. Cada uma de suas faixas é uma explosão de criatividade e contundência, misturas improváveis e citações inesperadas, algumas vezes atropeladas. Digo atropelada quando penso nas intervenções mais convencionalmente ligadas ao metal que sufocam os outros elementos – em especial na primeira faixa. Eles não têm qualquer escrúpulo em empregar o que quer que seja para alcançar sua visão musical. O disco é cheio de soluções brilhantes e a forma como ocorrem algumas mudanças de ritmo dentro das faixas propicia uma audição instigante. Pena que muita dessa energia é perdida na pouca qualidade de várias das composições. A ousadia e a variedade escondem a pouca consistência das músicas e em alguns momentos a única forma que encontram para resolver esse problema é empregando um riff musculoso e correr para a galera, aumentando o volume, no lugar de valorizar suas qualidades, como a capacidade de criar bons climas. Diga-se a favor da banda que muitos dos elementos do metal que ela utiliza são retrabalhados de forma a ganhar aparência nova, até algum frescor. Talvez a coisa que mais incomode seja a guitarra – nada de novo e especial – e toda vez em ela fica muito projetada na mixagem, derrota para a música. Existe um grande disco escondido em Doomsdayer’s Holiday, mas não consigo gostar especialmente de nenhuma das faixas (Talvez as mais densas, “Immediate Mate” e “The Natural Man”), mas nenhuma é ostensivamente ruim. Ainda não foi desta vez. (Marcus Martins)

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Mesmo acompanhando a carreira do Grails há pouco tempo, já é possível falar de uma evolução no som da banda. Não que Doomsdayer’s Holiday seja superior aos lançamentos anteriores (Burning Off Impurities, do ano passado, permanece como o melhor trabalho do grupo), mas é certamente o mais sintético, coeso e eclético. Neste álbum, o flerte com o heavy metal é notavelmente escancarado. Cada faixa carrega um peso maior, seja referente à intensidade do som ou apenas à densidade na construção de cada música. O mini-LP, de 2005, e relançado neste ano em um vinil de doze polegadas, demonstra todo o ecletismo do conjunto americano, que escolheu três faixas de bandas completamente distintas dos anos 60 e 70 (Byrds, Gong e Flower Travellin’ Band) para conceber-lhes versões próprias. Na sonoridade do Grails tem um pouco de tudo: folk, rock psicodélico, progressivo, post-rock, blues e heavy metal – pós-post rock? É possível até.

O disco segue muito bem nas faixas em que a banda alterna o peso da guitarra com momentos mais climáticos e abstratos. E “baladas” que a princípio possam soar bonitas por seu caráter singelo como “The Natural Man” e “Acid Rain”, são desvendadas em audições subseqüentes e tornam-se nada menos que extremamente irritantes por suas referências explícitas (conscientes ou não) à placidez de um Pink Floyd da época de The Dark Side of the Moon, cujas canções Julian Cope definiu tão bem em seu livro Krautrocksampler como mantras-fórmicas. Essas músicas de resoluções fáceis e estrutura previsível não chegam a comprometer seriamente o resto do álbum que, como poucos, consegue dispor de elementos díspares entre si, mas possíveis de serem congregados. Trata-se de um disco pesado, climático, melódico, singelo, abstrato e intenso nas medidas exatas. (Thiago Filardi)

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Publicado às 28 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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