Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Anthony Braxton, Milford Graves, William Parker – Beyond Quantum (2008; Tzadik, EUA)

Anthony Braxton (Chicago, 1945) é um multiinstrumentista de sopros, em geral saxofone, na ativa desde o final dos anos 60. Fez parte da Creative Construction Company, gravou o primeiro disco inteiro para sax solo (For Alto, 1968) e tocou desde o começo dos anos 70 com uma infinidade de artistas, sendo seus parceiros mais fixos Dave Holland e Barry Altschull, nos anos 70, e Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway nos anos 80 e 90. Milford Graves (Nova York, 1941) é um baterista com aprendizagens em música oriental e ocidental, e desde o final dos anos 60 toca com artistas decisivos na vanguarda do jazz, como Albert Ayler, Paul Bley e Rashied Ali. Gravou relativamente muito pouco, tanto como acompanhamento quanto com seus projetos solo; dentre esses últimos, Stories (2000) é o mais afamado. William Parker (Nova York, 1952) é um baixista de jazz. Acompanhou notadamente Cecil Taylor, David S. Ware e Peter Brötzmann, além de capitanear projetos (entre os quais Double Sunrise Over Neptune, comentado nesta camarilha na semana anterior) e colaborar com uma infinidade de projetos e artistas distintos. Beyond Quantum é a primeira vez que os três instrumentistas se reúnem. (RG)

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Existe o John Zorn músico, eclético experimentador que vai do clássico ao extremo, e algum dia há de ser comentado com maior fôlego por esta camarilha. Mas, tão importante quanto, existe o John Zorn congregador, líder do selo Tzadik e louvável patrocinador de idéias e artistas excêntricos e/ou pouco difundidos. A existência de Beyond Quantum depende dele, assim como a “descoberta” de Milford Graves, que através de seu selo e de algumas datas agendadas (como o aniversário de 50 anos do próprio Zorn) e encontros como esse terá multiplicada sua carreira discográfica, bastante magra para um artista de seu quilate.

E apesar de Anthony Braxton ser a figura que mais aparece em Beyond Quantum, por seus timbres, por seu estilo convulsivo e por sua versatilidade, o grande espanto surge pela maneira como Milford Graves se relaciona com seu instrumento ao longo dessas cinco faixas. Não sei se eu já ouvi um disco em que se faça tanto uso dos tontons: isso em parte revela muita coisa sobre a estratégia de Graves, que às células mais retumbantes da bateria (pratos de ataque, caixa, bumbo) prefere os mais discretos sons, ativados freneticamente como se fosse um homem-polvo e criando uma parede percussiva non-stop. Coisa de maluco. Anthony Braxton é também de tirar o chapéu. Aqui, todas as acusações de cerebralismo caem por terra diante de um homem com instinto para navegar seja por fraseados típicos de jazz, seja por gritos de seus instrumentos (sax alto, sopranino e outros) alternando violência e sutileza, em cada instância sempre muito inspirado e jamais parando para tomar fôlego (as paradas são para trocar de instrumento apenas). William Parker é o que aparece menos no set, menos pelo volume no mix do que por sua decisão de apenas acompanhar os outros dois músicos em suas trips com seus instrumentos. Parker só aparece com mais clareza na quarta faixa, em que toca seu instrumento com arco, à maneira de um cello, e dialogando com os sopros de Braxton, e na quinta faixa, em que ele abandona as cordas pelo sopro, e junto com Braxton faz a zoeira de um coreto inteiro.

Beyond Quantum é composto por cinco “encontros”, os quatro primeiros com mais de dez minutos e o último contando com apenas cinco. Nenhuma estrutura fixa, nenhum acordo composicional nem “escultural” do andamento. Absolutely free, como diria Frank Zappa. Geralmente há duas estratégias para discos regidos por este princípio. O primeiro, mais comum, é o vandalismo total. O segundo é um minimalismo estudado. Beyond Quantum, misteriosamente, não vai para nenhum desses lados (apesar de, ou talvez por isso, poder agradar fãs de ambos caminhos): seu enorme trunfo é saber trabalhar a energia necessária e insuperável do free sem necessariamente convertê-la em decibéis, mas em feeling. Elegância não é um termo muito comum em textos que versam sobre improvisação livre, mas aqui ela é completamente aplicável. Não porque haja qualquer tipo de comedimento da parte dos instrumentistas – isso estragaria a razão de ser do projeto – mas porque eles conseguem formas mais versáteis e matizadas para alcançar a vitalidade para fazer explodir seus instrumentos em mil sons. Trata-se de um disco em que as trips pessoais e a maneira como o conjunto soa são tão impressionantes que é comum que a gente se pegue hipnotizado por Graves e ignorando Braxton, catando as notas do baixo de Parker e ignorando os tontons de Graves, delirando em Braxton até que nos deparamos com uma incrível dinâmica baixo-bateria que nos dá ímpeto de voltar atrás para recuperar o que eles estavam fazendo antes. Extremamente visceral e ainda assim nuançado, rico, Beyond Quantum passa por todos os caminhos e derruba um por um, com a agilidade de um Chris Paul e a força de um Usain Bolt. (Ruy Gardnier)

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Esqueçam a capa tenebrosa e concentrem-se na curiosa metáfora que batiza esse encontro. Ela reforça uma aliança longeva entre o free jazz e a idéia de “expansão”: reviravoltas políticas e revoluções científicas se afinam ao ideário free com uma naturalidade ímpar. Curioso também o emprego do epíteto “meeting”, reiterando o compromisso do trio que encabeça este album não só com o pensamento libertário que marcou o nascimento do free jazz – na medida em que não subordina a música aos limites do disco -, mas também reforçando a idéia de que o gênero não é propriamente “livre”. Antes, o free jazz demanda dos músicos o compartilhamento de uma assombrosa capacidade de adivinhação: eles não só se adiantam ao que os parceiros executarão, quais caminhos escolherão, mas, também, se colocam de modo a materializar a composição. Autores como Braxton, Coleman, Ayler, Sharrock, Taylor demonstram uma habilidade “mediúnica” para promover esses encontros musicais nos quais vigoram a interseção de aspectos lógicos e instintivos, ora seguindo linhas prévias, ora deixando soar a imaginação mais imediata. Geralmente, se percebe aqueles característicos momentos em que todos os instrumentos solam alucinadamente, uma espécie de clichê do free jazz. Mas a excelência de Beyond Quantum reside no equilíbrio com que eles sondam o caos: cada faixa vai como que esculpindo uma linha de “argumentação” sonora dentro de uma ampla gama de possibilidades, produzindo modulações e texturas surpreendentes.

No segundo “meeting”, esta característica pode ser percebida mais agudamente nos primeiros minutos, quando um dos três, possivelmente Graves, dialoga literalmente com o sax de Braxton, emitindo sons guturais; e lá pelos oito minutos, quando a faixa se aquieta e a bateria nervosa de Graves, juntamente com o contrabaixo “escorregadio” de Parker, diminuem o volume para que Braxton desenvolva uma melodia bela e sinuosa. A música segue e, quando nos apercebemos, já estamos no quarto “meeting”, como que envolvidos por uma nuvem sonora. Já o quarto e o quinto “meetings” parecem ter sido construídos com o intuito de explorar a variação das dinâmicas. No quarto, mais lento e parcimonioso, Parker utiliza o arco, abrindo um diálogo com Braxton que resulta num polifonia absolutamente surpreendente. No quinto encontro, um coro de espirros se entrelaça: Parker abandona o contrabaixo para, junto a Braxton, intensificar este duelo tão rico quanto perturbador. Mas o destaque do álbum é o percussionista, professor, acupunturista e herbalista Milford Graves, ex-baterista de Albert Ayler, Don Pullen e John Zorn, que surpreende pela criatividade com que manipula os tambores, praticamente determinando o direcionamento das faixas. E, assim, não me parece um acaso que num album tão comprometido com a expansão da música, da consciência, etc, sejam os tambores o principal destaque: pois todos os instrumentos aqui parecem soar com o vigor e a agressividade dos instrumentos de percussão, seja a inteligência “harmônica” do sopro de Braxton, sejam os devaneios de Parker. Inclusive, devo notar que Parker está muitíssimo bem cotado para as listas de fim de ano. Pelo menos aqui na Camarilha. (Bernardo Oliveira)

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Braxton é nome central no free jazz e no jazz contemporâneo, do pouco que conheço de sua extensa discografia, não sei posicionar a importância deste lançamento que pode ou não contribuir para a apreciação de sua obra. Não foge muito do que ele já produziu em muitas outras oportunidades. Sendo que Braxton e Parker já tocaram juntos. A novidade aqui é a presença do legendário Milford Graves, que já tocou com Albert Ayler e não costuma ser tão profícuo quanto seus outros dois companheiros. Até poderíamos estar diante de um “mais do mesmo” para Braxton e seus parceiros, mais um disco entre tantos. Ocorre que isso não significa que temos um disco qualquer, pois a performance de cada um supera com facilidade a maioria de seus contemporâneos, conseguindo aliar destreza com abandono, precisão e turbulência. Braxton sopra seu instrumento como se estivesse próximo das últimas coisas, como se não lhe restasse tempo (ainda assim toca sem pressa) e quisesse explodir uma última barreira com seus pulmões. Os outros músicos o acompanham em inventividade (Parker está especialmente inspirado), mas ainda assim, permanecem discretos. Já na primeira faixa, diferentemente de muitos discos de free jazz que se apresentou aqui na Camarilha, Beyond Quanum deixa evidente que é disco de uma estrela. Apesar do brilhante trabalho de William Parker e de Milford Graves, que tem espaço para apresentar sua habilidade mais que comprovada, a cada momento em que Braxton abre espaço para os outros músicos, o que mais se faz notar é sua ausência ou recolhimento. Ali permanece mesmo que ocupando o espaço negativo de sua ausência. Apenas na segunda temos a adição de vocais (do próprio Braxton?) abstratos que funcionam como mais um instrumento de improviso. O papel central de Braxton não desequilibra a música e mantém sua execução distante de muitos grupos atuais que priorizam um som coeso mas que em muitas oportunidades resultam em drone pouco inspirado. O fato de ser um autêntico líder não esconde a alegria que é presenciar Graves saindo de seu exílio voluntário. Uma reunião que teremos dificuldade em ver repetida e por isso mesmo é das mais caras. (Marcus Martins)

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Derek Bailey uma vez disse que não entendia a cultura de ouvir discos: “para onde você olha? Você olha fixamente para uma parede quando ouve discos? Normalmente, o que os compradores de discos fazem? Eles compram o disco, levam para a casa, ficam esperando o próximo… Eu quero dizer, os discos podem durar por 74 minutos! Os ouvintes ficam lá sentados por 74 minutos? Não lavam os pratos? Apenas sentam, olham para algo, ou fecham os olhos? Se você pudesse tocar um disco apenas uma só vez, imagine a intensidade que teria de trazer para tal audição! Do mesmo jeito que se eu tocar algo, só posso tocá-lo uma única vez. Pode até haver certa similaridade entre cada vez que toco, mas não posso repetir a mesma coisa. Se você pudesse ouvir um disco apenas uma vez só, não acha que concentraria mais os tímpanos?”.

Cornelius Cardew acredita que “gravações de música de improvisação são essencialmente vazias, em vista que preservam, sobretudo, a forma que alguma coisa adquiriu e dão, no máximo, um leve indício quanto ao sentimento daquilo e não podem certamente expressar qualquer senso de lugar e espaço. É impossível gravar com qualquer fidelidade um tipo de música que é, na verdade, derivada de um quarto no qual está tomando lugar – seu tamanho, forma, propriedades acústicas, e até a vista da janela. Esse tipo de música não é ideal para uma audição caseira. Não é um pano de fundo adequado para tal comunicação social. Além do mais, esse tipo de música não ocorre em um ambiente caseiro, e sua força depende, até certo ponto, da reação do público”.

Já Jim O’Rourke detesta ir para concertos de música improvisada: “eu só quero comprar o disco. Quero dizer, você tem pessoas que estão tocando para você, que têm anos de idéias e experiências e erros em relação a esse tipo de música. O que eles estão lhe dando é uma informação tão densa que, ao menos que você seja estupidamente brilhante, não vai compreender todos os possíveis raciocínios que estão acontecendo”.

Sem querer ser imparcial, não concordo em plenitude com nenhum dos músicos supracitados. Mas se tivesse que aderir a algum dos pensamentos, seria o de Cardew, com o qual compartilho certa empatia. O que ele fala é da impossibilidade de transpor para uma gravação a atmosfera de um show de improvisação. Há sempre algo a se perder. É preciso estar lá para sentir o clima do ambiente, a energia dos músicos, como eles ocupam o espaço, sentir o cheiro do local, o estado de espírito das pessoas, etc. Existe toda uma construção de atmosfera que não pode ser compreendida se a música é ouvida fora do contexto do qual foi criada. Sequer a música será a mesma, pois sua ressonância nos tímpanos depende da acústica do local e da maneira como se está posicionado diante dos músicos e do palco. Uma gravação implica em perdas e ganhos no áudio. É possível modificar a altura dos instrumentos através da equalização e a sonoridade final desses mesmos instrumentos depende da forma como o microfone foi colocado em relação a eles – qual distância, posição, etc.

Ao mesmo tempo, não acho que seja tamanha tragédia ouvir a gravação de um concerto de improvisação. Como Bailey disse, a música não é a mesma, mas é parecida. Estou certo de que estou ouvindo algo bem próximo daquilo que foi executado. Sem contar que não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e há uma infinidade de shows que perdemos diariamente. Gravá-los é apenas uma maneira de permitir aos que não estavam lá de sentir minimamente o clima do local e a energia dos músicos. Perde-se bastante, é verdade, mas imaginem quantos concertos seríamos impedidos de ouvir se o gravador magnético não fosse inventado. A apresentação ao vivo seria um privilégio para poucos.

Beyond Quantum não é exatamente o disco ideal para se ouvir em casa. Citando O’Rourke (mas invertendo a aplicação), é uma música densa e cheia de raciocínios que não somos capazes de pescar, ao menos que fôssemos estupidamente brilhantes. Entretanto, não se pode deixar de notar a dinâmica impressionante do grupo, que em cinco faixas fulminantes, destila o que de melhor pode haver no gênero. É um belo disco, sem sombra de dúvidas, mas eu trocaria qualquer cópia ou audição caseira por uma apresentação ao vivo desse trio. (Thiago Filardi)

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Publicado às 29 de setembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , .
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