Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Guizado – Punx (2008; Diginóis Records/Urban Jungle Records, Brasil)

O projeto Guizado é capitaneado pelo trumpetista Gui Mendonça, uma das expressões mais representativas da nova música paulistana, junto a nomes como Hurtmold, Bodes e Elefantes, Maurício Takara, São Paulo Underground, Curumin, entre outros. Punx foi gravado por Curumin e Maurício Takara, que se revezam na bateria; por Régis Damasceno e Ryan Batista, guitarista e baixista da banda Cidadão Instigado; pelo Trio Esmeril, formado por Mendonça, Takara e Junior Boca; e por participações especiais da banda DonaZica e de Lucas Santtana. (BO)

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Instigante e provocante. Estes seriam alguns adjetivos bem apropriados para descrever a música que emana do primeiro álbum do projeto Guizado. No entanto, estas características parecem coextensivas a outros artistas próximos ao projeto, muitos deles já comentados aqui na Camarilha mais de uma vez, que na minha opinião representam uma nova inflexão da vanguarda paulista: um grupo de músicos originais, aplicados na exploração e miscigenação de diversas correntes musicais, entre elas a tradição instrumental brasileira, que tem em Moacir Santos e Hermeto Pascoal suas expressões mais celebradas; a cultura hip hop, e, mais especificamente, as colagens delirantes de Guillermo Scott Heren e do Prefuse 73; o black rock (sic) de Hendrix e Clinton; a música africana, notadamente o afrobeat de Fela Kuti e Tony Allen; o jazz de Miles Davis, John Coltrane e Charles Mingus, mas também suas inflexões free e fusion… A despeito do fato de não ser a poesia o foco principal desta turma (à exceção talvez das letras de Curumin, como “Kyoto”, por exemplo), penso que muito têm a ver com a verve de Itamar, Arrigo e Tatit. As ambições parcimoniosas de Takara, Curumin e Guizado, no que diz respeito à motivação experimental, à curiosidade e à exploração vertiginosa da música atestam a semelhança. Mas há também o seguinte aspecto: ambos os movimentos constituem respostas concretas e contundentes a problemas culturais específicos. Enquanto que, com a vanguarda que habitava o teatro “Lira Paulistana”, tratava-se de uma espécie de “desrepressão” estética frente à afasia mental ocasionada pela ditadura, no qual os artistas buscavam propositalmente a estranheza como forma de dissolver um suposto rebaixamento do gosto e da produção cultural da época, a “nova lira” constitui, guardadas as devidas proporções, uma resposta à banalidade alimentada pela indústria musical, atônita diante do advento de um público exigente, cultivado pela acessibilidade irrestrita dos formatos digitais e do cipoal de referências que, por sua vez, alimenta não só o gosto mas também a produção propriamente dita. O declínio da indústria abriu um caminho irreversível, que se ramifica em segmentos específicos, muitas vezes eles próprios ligados à faixa popular, como no caso da Banda Calipso e de fenômenos localizados, como o techno brega. Neste contexto, Guizado e Punx atestam que a “nova lira” se fortaleceu a ponto de representar um dos pólos mais interessantes da música instrumental da atualidade, de modo amplo e consistente. Hurtmold, Bodes & Elefantes, M. Takara, Curumin, São Paulo Underground, Anelis Assumpção, Beto Villares e mesmo o trabalho mais antigo do Instituto e de alguns artistas ligados à gravadora Trama, representam uma liberdade e um cuidado no trato com a concepção sonora que tanto exprime este contexto, como o extrapola.

Em Punx podemos ouvir o melhor dessa turma: é um poderoso trabalho instrumental, caótico e experimental, mas que, ao mesmo tempo, reflete um esmero na composição, apresentando harmonias e melodias fortes, saborosas e assobiáveis. Quando escrevemos na Camarilha sobre o São Paulo Underground, foquei o meu texto numa característica do álbum que é a capacidade de reportar a uma síntese entre duas dimensões, instintiva e lógica, o trabalho dos músicos se caracterizando pela criação gradativa de uma espécie de caos controlado. Há também em Punx um aspecto de equilíbrio entre o free e as estruturas harmônicas e melódicas, mas devo notar que se trata de um “outro” equilíbrio. Enquanto o trabalho do São Paulo Underground tende à desconstrução radical, o trabalho de Guizado pode se resumir mais pela utilização simpática da elementos históricos, por assim dizer. Assim, “Zonzo” e “Afroka”, as faixas que finalizam o álbum, referem-se, sim, de forma direta e quase respeitosa, ao legado de Fela Kuti e Manu Dibango. Digo “respeitosa” não pelo resultado, absolutamente original, mas pela clara intenção em respeitar a unidade rítmica que fornece a referência. O rock’n’roll está presente na levada malemolente de “Miragem” e nos rompantes funk-rock de “Rinkisha”. Com sua percussão abrasiva, quase marcial, e seu baixo marcado, “Maya” tem uma melodia que lembra bastante as melodias de Miles Davis. Mas a faixa que mais impressiona, tanto pela lindíssima harmonia, como pelo crescendo que culmina em zoeira, é “Sagitariu’s Dream”: não sei se pelo modo como foi gravada, ou se por algum efeito, esta música possui uma ambiência que faz os metais ressoarem de uma maneira diferenciada, aludindo tanto às orquestras, como ao free jazz e ao krautrock.

A unidade de um disco composto a partir de tantas referências advém da manipulação criteriosa com que o Guizado constrói cada peça. Apesar de surpreender pelos timbres abrasivos, pelos ritmos quebrados e pelo improviso e espontaneidade, sua música poderia ser resumida numa síntese entre a beleza simples e eficaz de Moacir Santos, com a ousadia de On the Corner. Já seria grande coisa, mas, além disso, o Guizado produz sem os maiores cacoetes da música brasileira contemporânea: não é auto-indulgente como os trabalhos atuais da velha MPB, nem simplório como a nova MPB, não se deixa aprisionar por rótulos, representações vazias ou dinâmicas de mercado. Ao contrário, exprime uma tranquilidade, uma parcimônia diante de um mundo tão rico em manifestações musicais, cada vez mais deflorado e recortado pelas redes digitais, cada vez mais ciente de sua diversidade. Ao mesmo tempo, exprime a certeza de que é possível pensar para além das influências, com criatividade e altivez. Uma altivez que há muito não vemos na música criada e produzida pelas bandas de cá. (Bernardo Oliveira)

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É curiosa a evolução e proliferação da “cena” musical que cerca o Hutmold. De um grupo anômalo no Brasil a um propulsor de idéias. Apesar de ainda permanecer restrito a um círculo pequeno e ser virtualmente ignorado, o trabalho que este grupo vem fazendo é de polinização ou contaminação bem à moda dos experimentadores mais atuais com sua produção em crescimento exponencial. Neste contexto som do Guizado parece uma cruza daquele tipo de pós-jazz praticado pelo Hutmold e em outro registro pelo São Paulo Underground com as brincadeiras eletrônicas e rítmicas da carreira solo de Maurício Takara.

Temos padrões associados ao free jazz, à canção com ênfase no groove, ao som industrial e à música eletrônica (em especial àquela datada dos anos 70 – Kraftwerk em início de carreira e até algum Tangerine Dream pré-new age) com uso predominante de sintetizadores associados a marcas da produção digital recente. A partir de variações e combinações desses padrões, temos a construção de faixas que devem menos à improvisação (que aparentemente existe) que à tentativa de criar contextos sonoros peculiares – climas resultantes do choque destes elementos. As faixas passam menos idéias que sensações e referências e ainda assim transmitem sensação de euforia e vivacidade. Mais ainda que no disco do São Paulo Underground, os músicos demonstram estar no melhor de sua forma.

O defeito do disco talvez seja o fato de que tudo é construído com muita competência, talento e inventividade mas também é excessivamente seguro, fácil de desconstruir – as referências estão saindo das mangas. Faz lembrar um pouco a crítica feita ao disco do Oneida há pouco tempo, apesar daqui não termos a mesma mesmice dali. Músicos excepcionais que tocam de olhos fechados, tranqüilos, mas que nunca perdem certa segurança. Você não houve nada muito parecido com a música do Guizado por aí, mas a música constante de Punx é semelhante a muitas coisas reunidas e misturadas (mesmo que em alguns momentos lembrem a música de Kieran Hebden, problema que afeta com mais força a carreira solo do Takara). O resultado é ruim? De forma alguma. É especialmente agradável perceber que eles nunca se prendem a um único formato e seu arsenal é amplo. Não há grande ousadia formal ou de execução em lugar algum, mas a diversidade é tanta que apenas no exercício crítico tal coisa pode ser apontada. Fica um misto de frustração, pela certeza que eles têm um grande disco pronto a ser lançado e a empolgação por, mesmo diante das ressalvas, termos talvez aqui o melhor disco brasileiro lançado em 2008.

O que distancia tais músicos de uma obra de grandes proporções é algo difícil de apontar. Seria fácil dizer que trata-se de falta de ambição, mas a música que ouvimos refuta tal possibilidade. Parece mais quem deseja pular de uma árvore usando pára-quedas. Falta aquela ousadia ou rigor que caracteriza os grandes artistas, a capacidade de ser extremo e ser exato; buscar a raiz estética ou ambicionar os grandes afrescos. Como diria o grande George Clinton, “free your mind… and your ass will follow“. (Marcus Martins)

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Um dos focos de maior interesse na musica brasileira contemporânea é São Paulo, onde surgiu o notável Maurício Takara, seus demais projetos (Hurtmold, São Paulo Underground, M. Takara 3, etc), Curumin, Müvi, etc. Pela primeira vez na música do país parece se engendrar uma cena de músicos que buscam fundir meios eletrônicos a ritmos nacionais através de um processo tão natural que a incorporação desses elementos se torna inextricavelmente orgânica ao som. Já houve outros grupos, como a Nação Zumbi, que agiram por meio do mesmo preceito, mas nunca uma cena inteira com um dicurso tão coerente. Por exemplo, na mesma época em que esses artistas apareciam, tornavam-se conhecidos a um público maior grupos com influências do electro e do funk carioca, como o CSS e o Bonde do Rolê, que ao contrário de Takara e sua turma, reduziam a música a meros remixes e justaposições de gêneros, quando muito. Nos piores momentos não havia sequer a coexistência de gêneros tradicionalmente brasileiros com ritmos estrangeiros – letras em inglês e um electro-rock de quinta categoria eram indícios de uma música limitada, vazia e repleta de estrangeirismos mal-assimilados.

A dificuldade de acesso a equipamentos eletrônicos de qualidade é um real problema para os músicos da seara paulistana. Como evoluir a linguagem musical e realizar novas experimentações se o alcance é limitado? Uma problematização que remete aos tempos de Beatles e, no Brasil, dos Mutantes, quando era preciso superar a tecnologia vigente para alçar a música a novos patamares. Ao passo que naquela época o problema era, principalmente, a tecnologia precária, hoje, é o poder de compra reduzido em detrimento do alto valor cambial de certos equipamentos sonoros que acomete esses músicos. Mesmo na era da digitalização e do “faz-se tudo no computador” há diversos aparelhos de gravação, mixagem, equalização, instrumentos musicais e amplificadores, dos quais o artista necessita para sua criação, que ainda são muito difíceis de se obter no Brasil.

Para Gui Mendonça, músico que leva à frente o nome Guizado, e trompetista, a aquisição de aparelhos eletrônicos mais avançados pode não parecer um problema a princípio, mas Punx prova o contrário. Trata-se de um disco cheio de efeitos e texturas eletrônicas. O trompete é o instrumento solista, mas por trás de suas melodias há uma batida pesada e pulsante incrementada por diversos barulhos e escapes eletrônicos, assim como as guitarras e o próprio pistom. O álbum possui situações rítmicas bem trabalhadas e exala uma excitação do início ao fim. Talvez os únicos aspectos negativos sejam algumas escolhas de timbres e efeitos eletrônicos – escassez de equipamento adequado? -, que dentro de tanta sofisticação rítmica e matizes sonoras tão bem mescladas, possam soar um pouco toscos ou feios; soluções melódicas e harmônicas convencionais também destituem o disco de maior brilho. Afora isso, é um sopro de criatividade na pasmaceira atual da música brasileira. (Thiago Filardi)

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Primeira faixa: “Vermelho”. De cara uma batida forte, eletrônica, que na maneira como recorta o ritmo lembra as geniais invenções de Four Tet e do Prefuse 73 em seus momentos mais criativos. Depois temos intervenções de outros instrumentos, guitarra com melodia deliciosa, sintetizador anos 70 e ao final um trompete meio ao longe, discreto, jogando sons agudos e fortes. Passemos direto à quinta, “Rinkisha”, também com base de batida eletrônica e linha de graves distorcida que dá um peso ao som. Aos poucos, a faixa descamba para um riff à moda de Tom Zé 92, sobre o qual mais uma vez um trompete sola, também discreto no mix. São as duas faixas que eu destacaria num disco cheio de faixas notáveis, e que revelam o que há de melhor em Punx, primeiro álbum do Guizado: um som instrumental que bebe do eletrônico, do jazz e do rock mantendo a contemporaneidade do primeiro, a vibração do segundo e a pegada do terceiro. São músicas que não ficariam deslocadas se, num playlist, as colocássemos depois de um Flying Lotus, de um Hermeto, de um Tortoise, de um Liars, de um disco da Blue Series.

O melhor de Punx parece funcionar em três níveis diferentes. O primeiro é na construção da cozinha, sempre viva, inventiva, pulsante, bebendo tanto do hip-hop e do soul quanto do math rock. O segundo está no arranjo, cheio de detalhes minuciosos enchendo o som e apresentando muitas coisas em que prestar atenção a cada momento: é um som vivido muito mais como conjunto do que como casa para os instrumentos solistas (separação que, aliás, costuma chegar às raias do ridículo quase sempre que se mistura jazz com rock). O terceiro está na composição dos temas, nos timbres utilizados e na maneira como eles evoluem dentro da progressão das faixas. Elas brotam com simplicidade e brilho imediato, sem receio de serem assobiáveis, como em “Areias” ou “Órbitas”. Aos poucos, vamos percebendo como o trompete de Gui Mendonça é a figura de maior destaque no disco, mas isso só acontece de maneira muito discreta, nada impositiva, à medida que vamos tomando mais intimidade com o disco. O que é um tremendo elogio: seu instrumento está inteiramente inserido no fluxo melódico e rítmico, flui junto com os outros sons do disco, não acima.

Que pareça por momentos com Hurtmold na forma da composição, ou lembre algumas estratégias da Nação Zumbi ou de Tom Zé, só vejo como motivo de elogio. É uma música com estilo tão próprio, soando como mais ninguém soa, que as influências só tendem a acrescentar. Aliás, é uma música que sustenta comparação com esses três pilares da música contemporânea inventiva brasileira, e vive no mesmo espírito de experimentação com pegada em que eles se baseiam. “Afroka” e “Zonzo” fecham o disco de modo festivo, mais claramente sensual, cortesia das batidas de andamento rápido (respectivamente africana e soul 70’s) e das melodias mais diretas. Aviso logo que Punx é uma audição viciante, que adiciona um tempero novo à música instrumental brasileira e que tem lugar certeiro entre as coisas mais interessantes surgidas neste ano de 2008. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Guizado – Punx (2008; Diginóis Records/Urban Jungle Records, Brasil)

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Publicado às 6 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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