Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Russell Haswell – Second Live Salvage (2008; Editions Mego, Reino Unido)

Assim como Maryanne Amacher e Phillip Jeck, comentados aqui no blog, o inglês Russell Haswell é um artista multimídia que transita pelas artes visuais e sonoras com igual desenvoltura, através de instalações e apresentações em galerias de arte e afins. No que diz respeito à música, sua ênfase é na eletroacústica, como uma forte influência da obra do compositor grego Iannis Xenakis. Com Florian Hecker, gravou três albuns, mas colaborou também com artistas do naipe do Aphex Twin, Earth e Masami Akita, o popular Merzbow. Second Live Salvage é seu segundo álbum solo. (BO)

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Me parece que Second Live Salvage é mais do que uma compilação de apresentações do artista multimídia Russell Haswell, batizadas pela descrição de suas respectivas cidades, locais, ano e tempo de duração. Apesar de ter sido absolutamente improvisada, se afigura como uma obra minuciosamente pensada, elaborada e construída e, nesse sentido, uma verdadeira obra conceitual. Cada uma dessas faixas constitui, filosoficamente falando, uma escultura sonora que se desenha num tempo e espaço determinados, mas que, agrupadas no formato do disco, se desembaraçam de seu sentido histórico e acabam por evocar uma rede de experiências de relativização do tempo e do espaço. E isso podemos deduzir do próprio título do álbum, que remete diretamente ao sentido do happening e seu correlato “salvamento”, possibilitado pelo registro.

Ocorre, no entanto, que Second Live Salvage não se concentra exatamente em experiências com o tempo e o espaço, mas nas aproximações possíveis entre esses dois elementos. A sonoridade fora de controle, caótica, exclusivamente extraída da manipulação de softwares e de um DJ mixer, dialoga paradoxalmente com uma organicidade radical. Cada uma das seis faixa de Second Live Salvage traz um experimento musical que remete imediatamente a sonoridades “naturais”, por assim dizer, às vezes remetendo a tempestades, movimentos geológicos, sons de animais, etc. É claro que este é um recurso manjado para explicar obras abstratas que tem na exploração da cacofonia, do microtonalismo e da polifonia seu maior trunfo. É assim com a obra de Xenakis, influência confessa de Haswell, de quem ele tomou emprestado o UPIC, um sistema digital de conversão de dados gráficos em informação sonora (à semelhança do Unitxt de alva noto, mas em sentido inverso). Mas o que impressiona nas composições de Haswell e no modo como ele apresenta essas faixas é a presença do imponderável: seu trabalho surpreende não somente pelo fato de reportar às “forças da natureza”, mas também por seu registro datado, geográfico; pela inclusão das manifestações do público, que realçam a ambivalência entre natureza e cultura, especialmente na faixa “1837.59, 2004, Engine Rooms, Brighton” onde a fala dos presentes é como que incorporada à faixa; e pelas inflexões mais “musicais” do trabalho, como alguns acordes sugeridos na primeira faixa (“08:12.14, 2000, Museu de les Ciències, Valencia”), os zunidos microtonais, xenakianos, que perfazem a segunda faixa (“1053.82, 2002, Färgfabriken, Stockholm”). É claro que temos também as faixas puramente cacofônicas, com forte influência de Merzbow, como as duas últimas, especialmente na abrasividade aguda e inegociável de “1012.81, 2007, Ikki, Kita Kyushu”.

Second Live Salvage pode ser incluído numa nova modalidade musical, o “salvage”: o artista dá um sentido fonográfico à experiência que propõe in loco. Incorpora toda a ambiência, misturando-a mesmo à composição. Propõe também que o “salvage” não constitua simplesmente um registro que salva a experiência do apagamento no vão do tempo, mas uma renovação da experiência. A audição do álbum não é propriamente prazerosa, mas impactante e incômoda, embora sugestiva do ponto de vista “musical”. Certamente uma das pérolas deste ano, um pérola bruta, irascível, mas não exito em afirmar que dá ao seu ouvinte uma sensação inominável, única no cenário contemporâneo. (Bernardo Oliveira)

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Se eu não conhecesse este tipo de música, se já não tivesse ouvido outros discos de Haswell e, estando preso em algum compartimento isolado ouvisse tal barulho pela primeira vez, teria certeza da morte próxima ou algo quase tão extremo. Brincadeiras à parte, a música de Haswell não conhece alívio, nada é construído. O que presenciamos é pura destruição. No lugar de escultores sonoros como Philip Jeck, William Basinski e Tim Hecker, que capturam a lenta deterioração do áudio, Haswell trata de provocar destruição. Ele é agente imprescindível desse universo caótico onde não há estabilidade e, daí, sua diferença fundamental em relação a um Basinski, que captura a lenta desintegração (para fazer menção ao título de sua principal obra) de suas próprias composições.

Todas as faixas do álbum são retiradas de apresentações dos últimos oito anos, como o título explica, e exemplificam como Haswell conseguiu alcançar um nível elevadíssimo de sofisticação em suas manipulações. Apesar da unidade de sua estética, nenhuma das faixas se parece – somos apresentados a todos os tons de cinza que existem. De todos os artistas que praticam tal modalidade limite do noise, Hasswell consegue uma proeza para concertos: sua música é complexa e variada, repleta de nuances.

A melhor forma de ouvir a obra de Haswell é comparecendo a uma de suas apresentações, mas na falta de alternativa, os headphones não são uma boa opção – aqui temos sons que precisam de espaço (bem à maneira das experiências de Amacher, mas com outros propósitos) e não aceitam dividir atenção. ‘Sentir’ fisicamente a experiência de receber o impacto do som é elemento fundamental; uma forma de emoção tátil.

Não consigo me perceber como um fã desta sonoridade, não imagino chegar o momento em que pensaria: “ah, seria bom ouvir um pouquinho de Haswell agora”. Mas ainda assim trata-se de música de vital importância para o panorama atual da música experimental – daquelas que expandem limites sem cair no inaudível (procure ouvir o pavor que é um Sissy Spacek). É música para experimentar e depois viver com aquela bagagem, para ouvir com esquecimento, para abandonar todo o resto e entregar-se à devastação que ela propõe. Talvez depois de ouvir quase uma hora de sons da destruição possamos ter um pouco mais de noção de nossa própria fragilidade ou derrelicção. (Marcus Martins)

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Second Live Salvage é um relato impressionante e perturbante de música noise. Gravado ao vivo em cinco cidades de cinco países diferentes, o disco contém algumas das performances mais originais e intensas ouvidas na música abstrata ultimamente. Todas as faixas, mesmo criadas exclusivamente através de um software, têm vida e poder próprios, recusando qualquer contra-argumentação de que, em noise, é tudo igual, tudo é barulho puro. De fato, trata-se de um álbum de barulho puro, mas somente um ouvido leviano ou surdo não perceberia as mudanças drásticas que ocorrem de uma faixa para outra – seja na textura, seja na agressividade com a qual Haswell opera seu programa.

É interessante, não apenas em nível de análises sociológicas e antropológicas, mas musicais, perceber as diferentes reações das audiências locais. Em Valência, a performance é passada num museu, portanto não se trata de uma platéia fixa e, sim, passageira. Há burburinhos de pessoas curiosas que estão somente passando pelo local e há também aqueles mais atentos ao som, tanto que nos momentos de silêncio e, no final, o artista recebe palmas. O público de Estocolmo é o mais quieto e concentrado e, em alguns momentos, nos perguntamos se tem alguém ali realmente ouvindo aquela barulheira. Já em Frankfurt e, mais radicalmente, em Brighton a reação da audiência parece ser mais adversa. São as duas apresentações mais longas e ruidosas e daí se espera um pouco menos de tolerância das pessoas presentes. Ouvem-se gritos, muita falação, risos e todo tipo de reação possível quando se trata de um contato direto, físico e multisensorial com uma música tão extrema e que tem como arma principal a crueza austera do som.

Mais fascinante é a maneira como Haswell fez questão de deixar bem audíveis na edição final os barulhos emitidos pelo público. O som ambiente de pessoas cochichando, conversando, gritando, zombando, ignorando e delirando fazem tão parte do álbum como as improvisações de Haswell no seu software. Second Live Salvage é uma audição única e destrutiva, essencial para quem admira o som na sua forma mais pura. (Thiago Filardi)

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A música noise apresenta possibilidades infinitas, e um terreno ainda pouco desbravado, considerando todas as suas potencialidades. No entanto, um terreno parece algo saturado, graças à prolífica produção dos artistas do gênero, e em especial a torrente de discos lançados pelo Merzbow: as sonoridades de freqüências extremas vindas apenas de uma fonte, com variações guiadas pelo ímpeto do artista no momento. Podemos inventariar os sons: britadeira, broca de dentista, liquidificadores, turbina de avião, pós-explosão de bomba e por aí vai. É claro que uma das coisas que se busca em sonoridades extremas assim é o peso. Second Live Salvage certamente é pesado, e também é certamente uma audição proveitosa para os fãs do gênero. No entanto, não tem nada que se ouça nele que não possa ser ouvido em discos de artistas da mesma lavra, com idéias mais interessantes norteando as seqüências de sons.

Se algo parece variar nesse Second Live Salvage, são as sonoridades da platéia, em conversas, gritos de aprovação ou ruídos de fundo. Elas chamam uma presença física que pode tornar as cosias mais interessantes, em especial quando existe uma dinâmica de ruídos e silêncios intermitentes, como na terceira faixa, que transforma o público em parte constitutiva da composição. Os barulhos aparecem quase como espasmos, variando um pouco o procedimento das outras faixas, que optam pelo barulho nonstop. Hoje, quando o noise passa por formulações suntuosas de estrutura (Kevin Drumm), timbre e lirismo (Fennesz) ou múltiplas camadas (Black Dice ou as colaborações entre artistas noise/glitch da turma da Mego), os sons extraídos por Russell Haswell de seu equipamento certamente são altos, ameaçadores, extremos, mas destituídos de uma sonoridade própria ou de uma personalidade mais discernível. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 8 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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