Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Dr. John, the Night Tripper – Gris-Gris (1968; Collector’s Choice Music, EUA)

Dr. John é o pseudônimo de Mac Rebennack. Nascido em Nova Orleans, desde jovem foi exposto à diversidade cultural de sua cidade e dali forjou uma personalidade musical que não apenas revelava sua história pessoal como era reflexo de seu meio. Começou como músico de estúdio até lançar-se em carreira solo com Gris-Gris que, para muitos, consiste em sua verdadeira contribuição à música norte-americana, em virtude da inconsistência de sua caudalosa produção posterior. Dr. John continua produtivo até hoje, apesar de não receber muita atenção de público e crítica. Em 2008, com 67 anos, lançou City That Care Forgot. (MM)

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Fraude ou (re)invenção? Os dois estremos não apenas são separados por divisão mais tênue do que muitas vezes se supõe como em muitas oportunidades convivem de forma complexa e cambiante. As acusações ou constatações muitas vezes dizem mais sobre quem aponta o dedo que sobre o objeto. As concepções estanques não servem para analisar realizações que transitam por um terreno mais instável.

O interesse do assunto aqui vai do ponto em que a transformação pela qual Mac Rebennack passou para assumir a persona do Dr. John e catapultar sua carreira com Gris-Gris é fundamental para entender e ouvir sua música. Dr. John não é apenas um pseudônimo, é apropriação impregnada de ethos. No mesmo sentido estão as apropriações exóticas que as sonoridades estrangeiras (para os estadunidenses) tiveram desde décadas posteriores e imiscuíram-se de forma indelével na música popular. Assim, o que de início eram discos coloridos com os sons caribenhos, brasileiros, asiáticos, hindus ou provenientes do Oriente Médio, dos “mares do sul”, ou de outras galáxias, serviam para proporcionar a um mercado ávido a possibilidade de viajar sem sair de casa, de forma segura e atendendo expectativas delimitadas. Alguns músicos romperam a fronteira do exotismo puro e passaram a realizar investigações sérias destas culturas, ou tornaram o que era exótica em uma manifestação de sua própria individualidade. Exemplos podemos formar um arco de Yma Sumac a Tom Waits a Sun Ra.

Mac Rebennack nasceu em Nova Orleans com um grave defeito: era branco mas estava mergulhado em uma cultura essencialmente negra. Sua formação desenvolveu-se como se negro fosse. Inicialmente era músico de estúdio, tocava guitarra em grupos de blues, mas como seu caminho não poderia ser convencional, um dedo atingido por um tiro o impediu de continuar com a guitarra que foi substituída pelos teclados e com o definhar da cena de Nova Orleans com o surgimento de gravadoras como a Motown e a Stax, mudou-se para Los Angeles. Foi ali, enquanto cedia seus serviços a Sonny & Cher que assumiu a persona de uma figura do século XIX que proclamava-se príncipe de algum país do leste da África, fazia vudus, vendias porções (gris gris), predizia o futuro. O gosto de Rebennack pelo vudu e por toda sorte de rituais africanos tinha características de atração pelo exótico, visto que em momento algum tentou se aprofundar na “matéria”. Uma forma peculiar e pessoal do que viria a grassar o planeta com a nova erística e o culto à espiritualidade estrangeira.

E apenas distante de Nova Orleans e mergulhado em buscas pela alteridade, camuflado por outra identidade, Rebennack conseguiu encontrar, inventar, transformar e resolver suas origens. De volta ao R&B das ruas, as misturas rítmicas pouco ortodoxas e a percussão visceral, um canto que misturava celebração, lamento, júbilo e mistério. Reunindo uma constelação de músicos de sua cidade natal, o ponto alto do disco não é o virtuosismo da execução (que é soberbo), mas a forma como Rebennack produziu um disco que mais parece um registro de uma festa extásica que refletisse o caldo cultural local e a idiossincrasia de seu criador. Sendo igualmente um álbum de estúdio e o registro de reuniões iluminadas, pois contou com toda a tecnologia que os estúdios da época podiam lhe proporcionar (valendo aludir que Rebennack freqüentava o estúdio Gold Star onde nasceu a Wall of Sound de Phil Spector) e ainda assim preservou a espontaneidade de músicos mais do que habituados a tocar pela cartilha.

O disco já começa arrebatador com a perfeição de “Gris-Gris Gumbo Ya Ya” e segue na mesma intensidade até a conclusão com “I Walk On Gilded Didimus” — a percussão é conduzida pelas congas e o canto mistura gritos e sussurros, sempre com respiração pesada típica dos rituais. Com tal descrição poderia-se pensar em longas jams, improvisação e energia dissipada, mas somos brindados com um assombro de contenção e precisão para executar tamanha complexidade. Através de todo o álbum temos construções percussivas complexas e improváveis, acompanhadas por cornetas e oboés que desenvolvem linhas melódicas sinuosas, estranhas, ora evocando as tradições da música negra americana, ora apontando para as formas e usos do Oriente Médio. Além dos arranjos pouco convencionais de Harold Battiste e algumas soluções como o uso de uma “condor box” que filtrava o som do saxofone ajudaram a criar o som ímpar do álbum. É claro que para alcançar tal resultado não bastava apenas o apelo ao estranho, mas a presença de um músico do naipe de Plas Johnson para tocar o sax. O currículo dele passava de tocar o tema da Pantera Cor-de-Rosa para Henry Mancini a participar da gravação de Freak Out de Frank Zappa e tocar com luminares como Ike & Tina Tunner, Eta James, Little Richards, Screamin’ Jay Hawkins, Fats Domino e toda uma constelação de músicos e cantores e esse é apenas um exemplo da formação da banda. E mesmo assim, vale mais uma vez frisar, trata-se de sessões em que os músicos foram tudo menos profissionais. Se exteriormente tínhamos todo o aparato exótico, na execução tivemos a busca de algo mais íntimo e livre. Uma obra catalizadora que serviu como meio de alcançar uma comunicação com raízes culturais e paisagens interiores. Não deixa de ser por isso que o disco alcançou sua estatura de obra fundamental para toda forma de miscigenação musical, seja no R&B, no rock psicodélico e toda música que almeja alguma forma de amplitude, do Captain Beefheart ao Animal Collective.

Gris-Gris é isto: a fabricação de um personagem, o uso ‘irresponsável’ de toda música disponível, uma maquinação de estúdio, uma babel de exotismos, uma reunião de músicos de primeira linha, um caldo de derivações e acima de tudo um objeto artístico único e genuíno que criou seu próprio espaço – um gris gris repleto de verdade. (Marcus Martins)

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Chega a ser covardia comparar Gris-Gris com os lançamentos do mesmo período. Há quarenta anos chegavam ao mercado clássicos absolutos do rock, como o Álbum Branco dos Beatles, Astral Weeks, de Van Morrison, The Kinks Are the Village Green Preservation Society, Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, Odessey & Oracle dos Zombies, Beggars Banquet, dos Stones, White Light/White Heat, do VU, Music from Big Pink, do Band, primeiro dos Mutantes, primeiro do United States of America, S.F. Sorrow, do Pretty Things e a lista continua… Sem contar os inúmeros singles e discos de bandas psicodélicas e de garagem, que depois seriam documentadas na coletânea Nuggets. Foi também o ano de estréia da Tropicália e, além dos Mutantes, outros tropicalistas, como Gil, Caetano e Tom Zé – artistas que dialogavam diretamente com essa cena estrangeira – lançavam seus discos homônimos.

Lembro disso tudo, pois, antes de tirar o mérito de Gris-Gris, fazendo a analogia devida com seus contemporâneos, Dr. John ficou longe de criar uma obra-prima do gênero. Talvez a maior qualidade do disco, sob um ponto de vista muito particular – além de belíssimo e único dentro do contexto da época – é o fato de, assim como o Captain Beefheart, ter me feito duvidar da autenticidade de Tom Waits. A primeira vez que ouvi esse cantor, achei que se tratava de uma das coisas mais singulares da música; mas estava enganado: o jeito de soltar a voz como se estivesse embriagado – que tanto o caracterizou a partir dos anos 80 – ele pegou de Don Vliet; o estilo de empostação da voz e de proferir as palavras rapidamente, ele aprendeu com Dr. John; e o tom de voz rouco e grave é totalmente derivado de Louis Armstrong.

Deixando Tom Waits de lado e de volta ao disco: Gris-Gris possui uma atmosfera um bocado estranha, corroborada pela mixagem, com altos e baixos, que preza pelo contraste do vocal com o instrumental e deixa propositadamente (ou não) alguns canais bem baixos e pouco audíveis em quase todas as faixas. O baixo, por exemplo, não tem um som constante; é abafado e algumas notas se sobressaem em relação às outras. Os arranjos, cortesia de Harold Battiste, que também tocou vários instrumentos (percussão, baixo, clarinete e outros não listados), apesar de muito bons – e possivelmente os responsáveis por essa atmosfera misteriosa e fascinante do LP – se tornam cansativos conforme audições seguintes. Talvez seja esse o motivo principal, pelo qual não considero Gris-Gris um clássico: os clássicos não enjoam. (Thiago Filardi)

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A música de Gris-Gris é insidiosa como um feitiço. Ela carrega sua sensualidade à flor da pele, a atmosfera de um ritual proibido e cheio de excessos, uma exaltação das profundezas. O disco mete tudo na mistura: blues, r&b, ritmos caribenhos, africanos, pop, jazz. Tem uma série de destaques individuais, o primeiro deles sendo o estilo de vocalização de Dr. John, um pouco falado, um pouco sussurrado, criando uma sensação de cumplicidade quase perturbadora com seu ouvinte. Sua voz é ajudada pelos coros, masculinos e femininos, entre soul e África, que constroem algumas deliciosas dinâmicas de chamada e resposta, criando um vasto painel de prazeres. E tem os instrumentos: a percussão vibrante, as flautinhas e o cravo da fantástica “Crocker Courtbouillon”, a guitarrinha de “Gris Gris Gumbo Ya Ya”.

Claro, parte do caldeirão de Dr. John faz parte da própria tradição local de New Orleans – tradição que, confesso, desconheço quase totalmente, excetuadas as generalidades que todo mundo conhece. Mas a música de Gris-Gris não tem nada de tradicional. Ao contrário, ela é desabusadamente excêntrica. Ela remete tanto a um espaço geográfico preciso, New Orleans, quanto a localidades e a tempos inexistentes, que só existem através da arte e da imaginação, produto da sensibilidade e do talento do artista. Algumas faixas funcionam como toadas que lembram mantras, como a suprema “Gris Gris Gumbo Ya Ya”, grudenta, com fartas repetições, criando uma forte sensação de espaço. Os arranjos são sarapintados de detalhes de melodia e percussão, desses em que a gente se perde de tão gostoso que é pinçar cada retoque e sentir ele dentro da composição. Algo que não se podia elogiar demais é a enorme variação de estratégias de composição de faixa para faixa. Gris-Gris é um disco muito coeso, e ainda assim cada faixa tem sua integridade, seu mistério próprio (é um disco bem misterioso, aliás), com arranjos e moods bem diferenciados. É um desses discos vividos como um ar de celebração, exalando toda a exuberância da música vivida como experiência ritualística.

A propósito: nunca tive muita paciência para as relações do rock e do blues com o diabo, os pactos de encruzilhadas, os flertes com religiões profanas. Só vi graça quando senti que a música de fato dava essa sensação pegajosa e algo ameaçadora das liturgias de magia. A primeira vez foi com “Dambala”, música genial do mitológico e obscuro Exuma. Dr. John não tem tantas semelhanças assim sonoramente, mas a energia destilada ao longo dessas sete faixas de Gris-Gris é totalmente comparável. Quem gosta de um tende inevitavelmente a gostar do outro. E, sendo ajuizado, gostará, porque é excelente. (Ruy Gardnier)

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Formidáveis anos sessentas! Época de peças raras, figuras atentadas pelos demônios mais perniciosos, pelas convicções mais comunitárias e, ainda assim, por uma individualidade acirrada. Um verdadeiro hospício, esses anos sessentas! Pensar que em uma só década tivemos trabalhos decisivos de nomes como Zappa, Hendrix, Coltrane, bem como manifestações mais subterrâneas, reveladas com a progressiva  universalização do P2P. Nomes estapafúrdios como Van Dyke Parks, Moondog, Captain Beefheart, Sun Ra… Entre ele, podemos contar sem medo de errar com esse álbum de estréia de Dr. John. Gris-gris é, por várias razões, um álbum perturbador. Por insinuar uma sensualidade bizarra, carregada na pimenta da música dos cajuns e da já diferenciada música negra da sua cidade natal, Nova Orleãs, como se pode ouvir em “Danse Fambeaux” e na faixa de abertura, “Gris Gris Gumbo Ya Ya”: ao sobrepor o toque malemolente da música cajun com a energia da soul music, Dr. John evoca um ambiente de lascívia e estranheza que caracteriza o Mardi Gras com suas máscaras de gesso e enormes cocares ornamentais. Notáveis também as texturas criadas pelas cordas, pelos arranjos vocais e pelas intervenções de Dr. John – que em “Danse…” faz presença com um inexplicável e beefheartiano “badumbadum”… Uma outra característica que espanta é a amplitude do leque de colaborações culturais que se pode contar no disco: são elementos da música hindu, marroquina, chinesa, latina, brasileira, etc, seja na simples utilização de instrumentos característicos, seja na emulação de timbres e ritmos como forma de reportar a determinado “lugar sonoro”: na latinidade de “Mama Roux”, nos rompantes meio orientais, meio free da inacreditável “Crocker Courtboullion”, e na música mais intrincada do disco, “Danse Kalinda Ba Doom”, que conta com influências da música chinesa, espanhola e caribenha… Caminhando por esses meandros, Dr. John encontra seu espaço entre os mais estranhos artistas da mais estranha das décadas. E sendo Gris-gris sua obra-prima, nada mais temos a fazer se não aplaudir e lamentar que sua carreira não tenha seguido a ousadia dos primeiros álbuns (pelo menos até a homenagem a Nova Orleãs, contida no excelente Dr. John’s Gumbo, de 1972). (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 14 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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