Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lucky Dragons – Dream Island Laughing Language (2008; Marriage Records, EUA)

Lucky Dragons é um coletivo firmado em Los Angeles de formação totalmente aberta, que tem como membros fixos Luke Fischbeck e Sarah Rara. Suas apresentações ao vivo são baseadas na interatividade com a audiência e qualquer pessoa que venha a colaborar musicalmente pode ser considerada parte do conjunto, conforme os preceitos de Fischbeck e Rara. O nome foi inspirado em um evento nuclear, ocorrido em 1954, quando um barco de pesca japonês, chamado Lucky Dragon, foi contaminado por radiação devido a um teste com bombas de hidrogênio feito pelo governo americano, no atol de Bikini. Dream Island Laughing Language é o vigésimo lançamento fonográfico (e sexto LP) desse duo-coletivo. (TF)

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A primeira dificuldade imposta ao ouvir Dream Island Laughing Language é como defini-lo ou como inseri-lo dentro de um gênero específico. Música eletrônica, rock, folk, hiphop, ambiente, vanguarda? Mesmo relacionado a todos esses estilos, o Lucky Dragons não se enquadra especificamente em nenhum – ou melhor, digamos que todos fazem parte de seu vocabulário. A questão principal a se abordar em torno da dupla californiana é a sua quebra de barreiras em relação à autoria e gêneros. Nas suas performances ao vivo o grupo enfatiza a relação tênue que existe entre artista e audiência, ao deixar a última participar do evento tanto quanto eles próprios, permitindo-a igualmente a tocar os instrumentos e produzir sons de diversas outras formas. A não-delimitação de tecnologias também é uma proposição essencial na linguagem do coletivo. Um dos objetivos principais do disco é operar através da confluência de dois meios completamente distintos: o digitalizado (no uso de softwares, principalmente no trabalho de edição) e de instrumentos acústicos, ou até de não-instrumentos (a pedra é um dos artigos de luxo na construção de sua sonoridade).

Dream Island é o nome de uma ilha artificial situada na Baía de Tóquio, a qual já abrigou o barco Lucky Dragon depois de sua exposição à radiação, assim como outros detrimentos tóxicos. Laughing Language advém de uma discussão filosófica entre Fischbeck e Rara sobre o sentido e a função da linguagem e o seu futuro no mundo moderno; discussão esta que parece estar exemplificada em forma de música neste álbum. Em Dream Island Laughing Language não se sabe quem toca o quê e de que modo, já que foram horas de improvisação com inúmeros instrumentos e suportes, digitais, acústicos ou inventados, que passaram por um processo escrutinizado de edição – é possível até que eles tenham gravado e colocado trechos de pessoas anônimas da audiência tocando algum tipo de aparelho sonoro; não se sabe. Mesmo assim há de se imaginar que a dinâmica entre os dois é algo de extraordinário, a exemplo das mini-faixas que constituem a obra. É como se argumentações verbais fossem transformadas em signos musicais, que explicitam tanto o teor político quanto filosófico do discurso da dupla. A própria incapacidade de identificar o grau de atuação de cada membro e o suporte usado já estabelece um desígnio de cunho filosófico, no qual se discute a relação entre homem e tecnologia e, principalmente, a naturalização dos computadores que, segundo Fischbeck, constitui o futuro das máquinas. O principal aqui é a falta de discernimento; não é preciso identificar os instrumentos, seus suportes e que os opera, mas o que vale é a audição em si e de que modo o material será interpretado por cada um. Quanto à inclinação política do coletivo, já fica óbvia através do nome “Dragões Sortudos”, que remete a este barco de pesca japonês, cuja tripulação se viu diante de uma explosão nuclear nas Ilhas Marshall e, obviamente, não saiu ilesa – todos os membros e as caças foram contaminados, assim como o líder da embarcação, que morreu alguns meses depois. E quem entrar na home page do grupo se deparará com a enorme frase “Obama Please”. Mas não é preciso se ater às eleições americanas ou a eventos históricos para definir um viés político no Lucky Dragons, que cita o artista brasileiro Hélio Oiticica como um das principais influências – as apresentações ao vivo, nas quais o público colabora com a criação musical através de um sistema em que o simples toque de pele entre pessoas da audiência é transformado em signos auditivos por um computador, também podem ser consideradas como formas políticas de se fazer música.

Afora as discussões políticas e filosóficas, a música do Lucky Dragons é de qualidade impressionante. Os ritmos percussivos são claramente o principal centro de exploração de Dream Island Laughing Language, que também é capaz de sustentar momentos de incrível beleza melódica e harmônica. O disco é formado por pequenas faixas, modelando um todo bastante coeso que, no entanto, não destitui cada trecho de qualidade individual. A partir da sexta música, “Desert Rose”, é que o disco realmente engrena e conduz ao extremo as experimentações com timbres rítmicos, por meio de pedras, vozes, palmas, loops e outros tipos de percussão pouco convencionais. As influências se espalham ao longo das faixas, mas não é possível apontar algum nome que se manifeste com mais proeminência. “Clipped Gongs” lembra as faixas de piano preparado de Aphex Twin; “Starter Culture” e “Realistic Rhythm”, de efeitos estranhos e timbres estridentes, se assemelham a algo feito pelo Black Dice no disco Load Blown; “Drinking Dirty Water”, “Mirror Friends” e “Wooden Cave Loop”, com loops e murmúrios melódicos, parecem com o Caribou dos últimos discos e The Books – a última diria até que em certo momento de sua duração passa a inserir batidas digitais de dancehall à la The Bug; as faixas de percussão mais enfática como “Morning Ritual”, “Typical Hippies” e “Wander Birds” sugerem Konono No. 1; as batidas aceleradas de “Desert Rose” se parecem como o .snd; “Givers” e “I Keep Waiting for Earthquakes”, repletas de scratches, batidas repetitivas e tresloucadas, trazem à mente o hiphop abstrato do Prefuse 73. Ou seja, Fischbeck, Rara e companhia nos remetem aos nomes mais interessantes da música contemporânea e ainda são capazes de nos presentearem sua sonoridade inquieta e bem articulada, operando em níveis musicais, filosóficos e políticos. Todo esse conjunto apenas nos leva a crer que estamos diante de uma experiência transestética, e única. (Thiago Filardi)

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A primeira audição de Dream Island Laughing Language provoca sensações curiosas. Ao mesmo tempo evoca inicialmente um disco-relatório com o resultado de pesquisas de timbres de instrumentos inventados ou modificados. Algo entre Uakti e Aphex Twin em composições como “Logan Rock Witch”. Aos poucos, no entanto, vamos nos familiarizando com o som do grupo e entendendo, ou ao menos intuindo/presumindo, as preocupações musicais desse duo/grupo: mexer sim, com os timbres, sempre numa chave rítmica forte (mesmo quando a percussão não é incisiva, a marcação do ritmo é o que leva a faixa), e trabalhar em faixas microscópicas, vinhetas mesmo, alguma idéia simples e clara, geralmente com dinâmica de apenas dois tipos de célula sonora. Um tal parti pris pede a teimosia de manter-se no mesmo procedimento ou a versatilidade de vir sempre com coisa nova. Os Lucky Dragons apostam na segunda chave, e nesse disco evocam ritmos tribais puramente percussivos, melodias indígenas de flautinha, techno, seqüenciador do começo de “Planet Earth” do Duran Duran, os sons de sinos que Prefuse 73 e Four Tet adoram usar junto com seus ruídos e beats perferidos. Tudo nessa lógica de sempre trabalhar dois ou três elementos quase sempre como loops que vão se transformando em mantras ou quaisquer formas musicais de transe e repetição.

Excetuadas as duas faixas finais, o disco tem cada faixa variando entre 1 e 2 minutos, sem muito efeito de progressão na composição. A graça – e a extrema desenvoltura dos artistas dentro desse projeto – é saber variar dentro do mesmo tipo de padrão um sem-número de sonoridades absurdamente distintas, criando um todo bastante coeso e saboroso de se ouvir. Apesar do contraste entre as faixas e a integridade de cada uma delas, Dream Island Laughing Language ouve-se como um fluxo ininterrupto e gracioso, montando um álbum a ser ouvido de cabo a rabo do mesmo modo que Boards of Canada, Lemon Jelly, Avalanches e outros.

Falando assim, parece que o som do Lucky Dragons é bem jogado para o eletrônico. E apesar do grupo utilizar padrões de composição semelhantes aos de artistas eletrônicos (sobretudo a eletrônica experimental da Warp e assemelhados), a música deles parece talvez mais até com o experimental de um Tom Zé em Estudando o Samba (ou mesmo os Residents fazendo músicas folclóricas falsificadas de esquimós), por exemplo, na maneira de experimentar com timbres em cima de ritmos sempre firmes e complexos. Só que mais abstrato, menos genial e trazendo junto um naipe de influências e sonoridades muito maior. Talvez a abstração e a diversidade tirem um pouco o foco do grupo para fazer algo de mais fôlego. Mas, ao mesmo tempo, são essas duas características que fazem parte do charme de ouvir e se deliciar com a sandice singela de Dream Island Laughing Language. (Ruy Gardnier)

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Das fontes sonoras que tateei com muita dificuldade por entre a selva de sons “eletro-orgânicos” construída pelo Lucky Dragons, destaco a presença inequívoca de Moondog. Como ele, o grupo também se caracteriza por uma presença formal discrepante das exigências do mercado, das vicissitudes do show business e até mesmo de certas regras sociais, como meus parceiros de Camarilha devem ter frisado. Claro que neste aspecto Moondog foi muito mais radical, até porque sua atitude perante a arte e a vida as confundiam. No caso do Lucky Dragons, esse aspecto está vinculado tanto ao questionamento das leis de copyright, como também à crítica dos conceitos e princípios que norteiam a estética contemporânea, como por exemplo a noção de autor. No plano da arte, nada mais afinado com diversos movimentos culturais mundo afora, retratados de forma rasteira, mas curiosa, no documentário Good copy, bad copy. Mas, em relação à vida? Se a proposta do Lucky Dragons quer jogar de fato com uma transformação real, como uma política da linguagem que extrapole o campo da fruição e instaure “novas realidades”, há que se considerar se há de fato no trabalho do grupo este teor realmente transformador. O problema é que, em relação a estas “novas realidades” culturais, que se delineiam fora dos grandes mercados, pairam sobre elas um certo otimismo, como se através de pequenas brechas comerciais pudéssemos emancipar a arte do ethos capitalista, tornando-a algo próxima de um motor de arranque para uma revolução silenciosa – revolução esta que, por ora, defino como a dissociação radical do desejo e do capital (ou da política e da economia, se se preferir). Por outro lado, impõem-se também sobre esse otimismo sua crítica correlata, que não parte necessariamente do ponto de vista cínico dos reformistas de plantão, mas de cabeças pensantes que já prevêem a versão capitalista do discurso da cibercultura afirmativa. Outros mais céticos, ressaltam ainda que esta cultura só se projetou graças ao mesmo capitalismo que condena, estando portanto vinculada a ele irremediavelmente. De forma que, entre a mudança e a conservação, os caminhos da produção cultural às vezes se entrelaçam a questões de cunho político, ao qual a música e as performances do Lucky Dragons parecem querer se filiar. De minha parte, que não compartilho nem do otimismo nem do pessimismo diante dessas “novas realidades” culturais, penso que resta avaliar o trabalho do Lucky Dragons do ponto de vista da sua expressão total, nem puramente artística, nem puramente política. E aí devo dizer que não temos muito a fazer se não aplaudir parcialmente o trabalho artístico, e num certo sentido irrelevar as pretensões políticas e acadêmicas do professor de Brown University, Luke Fischbeck. Ecos dos pianos preparados de John Cage, das delicadas e complexas peças de Moondog, da sonoridade peculiar do Animal Collective, e até um anômalo batidão, “Realistic Rhythm”, que pode funcionar como um refresco para os ouvidos menos pacientes, fazem de Dream Island Laughing Language uma peça simpática e atraente. Já suas pretensões políticas devem ser enfocadas de forma adequada, pois somente à arte pode interessar o delírio. E aí, justamente aí, o Lucky Dragons se sai bem. (Bernardo Oliveira)

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Certos artistas tem o registro de sua obra prejudicado pelo fato de que “em disco nunca é a mesma coisa de ‘ao vivo'”. Com o Lucky Dragons acontece coisa semelhante. Provavelmente o tipo de som que Luke Fischbeck e Sarah Rara praticam é melhor em disco, ouvido com headphones, mas a própria forma de entender sua música e suas idéias à respeito do fazer arte pressupõe um tanto de participação, de estar na platéia ao menos. Fischbeck e Rara levam o conceito de arte coletiva àquele perigoso plano da interatividade, mas não precisamos invalidar a sua obra por isso. Contratemos então que, na impossibilidade de analisar sua música junto com todos os aspectos extra-musicais a cercam, vamos simplesmente os ignorar e tentar ouvir como ela funciona independentemente. Como falar de uma trilha sonora quando não vimos o filme. Tanto melhor para a “música em si” – se é que isso tem algum valor.

Dream Island Laughing Language é daqueles discos de ausência (não vamos falar da ausência do que foi acima mencionado, mas isso infelizmente informa bastante o disco), todo o arcabouço sonoro parece construído na dicotomia entre som e silêncio, ou melhor, toma como partida aquela idéia, antiga mas pouco percebida de que a fronteira entre som e silêncio é tênue, como John Cage já dizia e alguns acreditavam que ele estava sendo irônico ou minimalista.

Em alguns momentos o disco soa como versões contemporânea de música tradicional japonesa, em outros lembra o trabalho de alguns dos compositores que, usando instrumentos tradicionais, utilizam estratégias próprias da música eletrônica contemporânea – vide a produção mais recente de Colleen. A idéia seria: versões acústicas para o glitch. A idéia é rica e a audição é das mais instigantes, pena que não se consegue ouvir um disco ali, apenas uma coleção de faixas que sempre são boas, algumas vezes excelentes e algumas vezes bem estranhas, mas nunca rompem a barreira, parecem contentes com seu caráter idiossincrático. Apesar da falta de coesão, as faixas não são independentes, na verdade parecem separar-se em grupos que gravitam em um universo estético peculiar – fragmentos que deveriam formar algo que nunca está presente. E isso até seria uma grande sacada caso fosse levado um pouco mais longe. Faixas como a bela “Givers” dá uma idéia do melhor que eles poderiam, mas outras como “Keep Waiting for Earthquakes” fracassam com seu loop e batida que parecem um rascunho pouco inspirado de uma música do início da carreira de Jan Jelinek, mas interessante são as dissonâncias que surgem no meio da faixa, mas que logo são interrompidas. O disco parece sofrer do mesmo problema que impediu o completo sucesso do disco We Are All Pan’s People do The Focus Group, por motivos diversos.

Ainda assim temos um disco agradável, uma espécie de silêncio psicodélico recheado de sons infantis, meigos – aparentemente as idéias sobre arte comunal se aproximam bastante da relação das crianças com os objetos e com sua capacidade em produzir sons. A carreira do Lucky Dragons deveria ser acompanhada mais de perto, observando suas apresentações e instalações, mas ainda assim seus álbuns sugerem uma sonoridade curiosa. (Marcus Martins)

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Publicado às 20 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado .
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