Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ilyas Ahmed – The Vertigo of Dawn (2008; Time-Lag Records, EUA)

Ilyas Ahmed é cantor, compositor e guitarrista, nascido em Carachi, no Paquistão e criado em Nova Jérsei, nos Estados Unidos. Em 2005 lançou seu primeiro CD-R, Between Two Skies, de maneira independente e, a partir de então, passou a gravar constantemente sob este formato. The Vertigo of Dawn marca sua estréia oficial em CD, através da Time-Lag Records, que também remasterizou seus dois primeiros discos e os relançou recentemente em um álbum duplo. (TF)

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The Vertigo of Dawn é uma das experiências mais belas e extasiantes do ano. Como não se render à beleza sobrenatural de canções como “Behind Our Eyes” e “Moon Falling”? Já não é a primeira vez que a década nos presenteia um guitarrista tão fabuloso, detentor de uma expressão musical tão singular e arrebatadora. Antes, James Blackshaw, com seu idioma oriundo dos artistas da Takoma – John Fahey, Robbie Basho e Leo Kottke. E agora, Ahmed, que apesar de fazer parte de uma escola musical totalmente distinta de Blackshaw, guarda certas similaridades com os guitarristas que influenciaram o último. A afinação da guitarra é sempre aberta e a referência ao blues é explícita o tempo todo. Mas o quê exatamente na sonoridade de Ahmed o diferencia de outros guitarristas, outros gênios do instrumento? Definitivamente seu país de origem, o Paquistão, contribui para isso, mesmo que sua criação tenha sido na América. É possível notar em sua música uma força espiritual muito grande e contagiosa – característica essa que sempre foi inerente à cultura oriental. Suas canções são repletas de signos auditivos e apetrechos sonoros relativos à música oriental. A mantra, em especial, é um estilo ao qual ele recorre em diversos momentos e se faz muito importante para a construção musical do disco . Seu falsete, ininterrupto e insistente, os drones e os instrumentos incomuns utilizados ao longo do disco e a guitarra, soando às vezes como uma cítara, são indícios de um músico que não esconde certas predileções estéticas de sua cultura.

Quais são suas influências? Ele cita Ravi Shankar, John Coltrane, Sun Ra, Sandy Bull, Fred Mcdowell, Captain Beefheart, Ghost e os selos ESP, Stilbreeze e Vanguard, e daí já se pode entender por que o grau de espiritualidade em sua música é tão grande. Eu diria mais: o jeito ameno e introspectivo de cantar lembra o versátil (e sumido) Vincent Gallo; as hesitações vocais e o clima despojado remetem a Oar, obra-prima de Alexander Spence; as experimentações e o modo de gravar a voz são reminiscentes de um Jandek; o instrumental denso e os vocais de notas e falsetes obstinados sugerem o Van Morrison de Astral Weeks; e a maneira solta de tocar o violão evoca o blues de raízes de Robert Johnson, Charlie Patton, Skip James e de seus seguidores da Takoma. A música de Ahmed é tão internalizada, tão íntima e reservada (por que não?) que dá até receio de penetrá-la. Mas depois de fazê-lo temos a certeza de que estamos entranhando um universo muito peculiar e privado. Trata-se de uma experiência transcendental e que exige imersão total do ouvinte. É quase impossível, diante do primeiro contato, não ficar afetado com seu modo tão natural de tocar o violão e seus riffs repetitivos, que mesmo executados pela centésima vez numa mesma faixa, ainda emocionam e fascinam. Uma música que é hipnotizante da primeira nota até o último acorde. Mas como lidar com isso? Como recobrar desse mergulho profundo? São respostas indefinidas e cada um buscará a sua. As canções de Ahmed são do tipo que, quando invadem nosso corpo, mente e espírito, não os abandonam nunca mais. Se isso é bom ou ruim, não posso precisar. Posso dizer, no entanto, que The Vertigo of Dawn é um disco capaz de proporcionar momentos epifânicos. (Thiago Filardi)

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Essa década viu o retorno com toda a força da voz e do violão, de um despojamento e pungência que, por só percebermos anteriormente nos artistas da explosão folk dos anos 60, começaram a chamar de freak folk, psych-folk e outros nomes que naturalmente são incapazes de abarcar tantas propostas e sonoridades profundamente diferentes. Em todo caso, existe hoje um interesse pronunciado por um som mais direto e carnal, muito possivelmente como resposta às mesas de zilhões de canais, à saturação da produção e à predominância crescente dos gêneros eletrônicos. Claro, não é questão de fazer escolha por um ou por outro – esta camarilha sabe muito bem amar todas essas manifestações, de lado a outro –, mas de tentar compreender por que um tipo de música considerado anacrônico e superado de uma hora para outra aparece com tanta força, vira cena e soa aos nossos ouvidos com relevância e propriedade incomuns.

Ilyas Ahmed tem algumas semelhanças e muitas diferenças com os artistas que se convenciona aproximar desses nomes – Espers, MV & EE, talvez os principais. O EP Arroyo já mostrava o artista de posse de um poderoso falsete cantado de forma etérea acompanhado de levadas de violão repetitivas, hipnotizantes e carregadas de sentimento. Quem começa a ouvir The Vertigo of Dawn já familiarizado com Arroyo vai estranhar bastante os exaustivos sopros de instrumentos de metal e os drones adicionados que criam texturas espectrais ao longo dos cinco minutos de “Golden Universe”. Teria ele dado uma guinada absoluta na carreira? Da segunda, “Under the Singing Sea”, em diante, perceberemos que não, que o violão e a voz constituem as características determinantes da estética do artista. A primeira, no fundo, acaba tendo a função de uma faixa de introdução, que, se destoa do resto do disco, ao menos dá a pista de que o que interessa a Ahmed são essas sonoridades densas, que parecem vindas do além.

A música de The Vertigo of Dawn é um som suntuoso, vibrante, mas ao mesmo tempo modesto. Pode evocar acentos indianos e a música de Ravi Shankar em “Under the Singing Sea”, pode remeter ao despojamento do belíssimo e esquecido Niandra Lades de John Frusciante em “Behind Our Eyes” (em outro momento, lembra balada do Chili Peppers) ou os timbres de Greg Weeks na guitarra de “Moon Falling” ou no segundo violão de “Return To Ours”. Os títulos das músicas evocam fantasmas, pesadelos, pouca luz, e por outro lado mar, lua, céu. Uma visão diáfana da natureza, uma ode aos momentos em que ela fica turva, indefinida. Podemos chamar isso de místico, ou de psicodélico quando aplicado ao som. Podemos tatear definições e usar dizer que Ahmed reinventou o shoegaze através da voz e do violão (não está tão longe assim de certas coisas do Flying Saucer Attack ou do His Name Is Alive). Ou podemos simplesmente ouvir a candura e a delicadeza das composições, das vozes e dos instrumentos do disco como algo tão fascinante quanto misterioso, totalmente evocativo das brumas internas e externas do ser. (Ruy Gardnier)

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Não sei bem como começar este texto, por qual qualidade deste belíssimo álbum. Se comento sua introdução densa e obscura, se elogio a elegância rústica de suas texturas, ou a peculiar combinação entre a emissão de voz do autor e seu violão. Mas como o tempo é curto, e o objetivo é dar conta dos álbuns propostos, gostaria de notar algumas virtudes de The Vertigo of Dawn que se prolongam no trabalho de Ahmed como um todo. Em primeiro lugar, por se tratar de um trabalho praticamente feito em casa, à semelhança do primeiro (e excelente) álbum de John Frusciante, admira muito a forma rebuscada que Ahmed imprime nas texturas das faixas, combinando diversas camadas de vozes, violões, pianos, soundscapes, etc, compondo um híbrido introspectivo de folk, drone e música hindu. Nos álbuns anteriores, particularmente no primeiro, Between Two Skies, e Naqi, de 2006, essas características podiam ser notadas, excepcionalmente na tour de force “Dirty Thinner/Outsiding/For What We See”. Mas este novo álbum inclui algumas das melhores faixas de Ahmed nessa direção, como as variações microtonais de “Phantom Sky” ou no raga-folk de “Under The Singing Sea”. Até aí, mais do mesmo, mas, ainda assim, surpreendente. The Vertigo of Dawn, no entanto, também explora outras possibilidades, como por exemplo, o entrelaçamento de sopros e percussões soturnas em “Golden universe” que dá início ao álbum e impressiona pela qualidade das nuances e das modulações, que por vezes lembra algumas pérolas de Ligeti, ou, mais recentemente, o Preston Swirnoff de Maariv; “Unveiled Nightmare”, um drone pontuado pelo violão seco e pela voz aguda, à la Thom Yorke; e a faixa que finaliza o álbum, “Light Grows Thin”, mostra que Ahmed sabe utilizar a precariedade dos home studios em seu favor, aproveitando certas ressonâncias que a gravação em poucos canais propicia aos instrumentos de sopro, criando uma faixa com um pé na eletroacústica. A combinação de coerência para criar sínteses inusitadas e evocar sentimentos mais profundos, além de uma sensibilidade extraordinária para a criação das texturas, produz uma sonoridade preciosa que confirma o talento sui generis de Ahmed. São tantas as qualidades não só deste álbum, mas da pequena obra deste jovem violonista que aqui caberia não uma crítica, mas a saudação a um artista do nível de Noah Lennox ou M.I.A. – ambos responsáveis por grandes feitos nesta década que já vai. (Bernardo Oliveira)

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A música de Ilyas Ahmed reúne características familiares e estranhas. Familiar porque remete a todo um cânone da música folk de americana/britânica (verdade que tal cânone sempre absorveu influências externas), tanto do cancioneiro pós-anos sessenta, quanto da tradição dos grandes guitarristas de técnica do dedilhado. Aliado a isso, temos a herança musical dos antepassados de Ahmed, a origem paquistanesa e a forma como ele resolveu tais intercessões.

Para completar o quadro, diversas faixas de The Vertigo of Dawn são acrescidas de camadas de drone e diversos efeitos alienígenas às limpas linhas de guitarra e instrumentação tradicional. Não temos nem um artista restrito aos estereótipos de sua nacionalidade, mas, sim, um que incorpora diversos idiomas para compor seu próprio vocabulário. Também não temos um cantor folk ansioso por incorporar elementos moderninhos a composições insossas (vide Benoît Piolard), mas algo que torna a música de Ahmed preciosa: apesar de experimentar a todo tempo com a construção das faixas, a música não perde a capacidade de comunicação imediata da tradição folk, algo que apenas os grandes conseguiram. De forma própria, sua música ecoa lembranças a John Fahey (se ele fosse mais oriental) e Vincent Gallo e suas trilhas sonoras.

Observar o lento desenvolvimento das habilidades de Ahmed é alentador e, tomando por esse álbum e pelo disquinho da série Arroyo, podemos esperar a expansão de uma ampla e saborosa obra. Seu método não segue formulas fechadas, apesar do padrão sonoro evidente. Suas faixas parecem imbuídas de forte intuição espiritual, mas em momento algum são religiosas; o que sua música tem é dimensão e profundidade: uma capacidade fascinante de criar climas e não ficar na superfície. Junto a um pequeno mas prolífico grupo de guitarristas jovens, Ahmed consegue dialogar e, ao mesmo tempo, manter distância da pesada influência de Fahey, Basho e companhia. (Marcus Martins)

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Publicado às 21 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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