Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cranes – Loved (1994; Arista, Reino Unido)

Cranes é uma banda formada em Portsmouth, Inglaterra, em torno dos irmãos Alison Shaw (voz) e Jim Shaw (bateria). Receberam atenção da imprensa britânica já nos primeiros EPs, Espero e Inescapable. Wings of Joy, o primeiro álbum, saiu em 1991. Seguiram-se Forever (1993), Loved (1994), La Tragédie d’Oreste et Électre (1996), Population Four (1997), Future Songs (2001), Live in Italy (2003), Particles & Waves (2004). Inicialmente influenciados pela mistura de sons abrasivos e etéreos típica dos Cocteau Twins, os Cranes foram assumindo com os anos nuances mais folk. O novo e homônimo disco do grupo acaba de ser lançado. (RG)

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Ainda lembro com clareza a maneira como fui apresentado aos Cranes. Era tarde da noite, a MTV exibia um programa de clips de rock alternativo (Lado B, talvez) e apareceu “I Hope”. Do vídeo, lembro de Alison Shaw e um pêndulo. O que ficou foi mesmo a dilacerante voz da cantora, a marcação firme da bateria, a intensidade da levada de guitarra. Claro, em se tratando de Cranes o elemento principal é a voz de Alison Shaw, essa incrível mistura de candura e ameaça que ela tem, ora parecendo criança pequena ora espírito das profundezas com sua voz extremamente aguda. Curioso, procurei maiores informações sobre a banda, fui atrás de músicas, mas não tive acesso a nada. (oh, era pré-p2p…).

O primeiro álbum que fui ouvir dos Cranes foi Loved. Inicialmente a estranheza. Ao contrário do rock áspero, um dream-pop sofisticado, tão atmosférico quanto “I Hope”, mas jogado para Alison Shaw como musa sentimental e para um registro, digamos assim, pós-Loveless, ou, melhor, pós-“Soon”. Impossível pensar nessa faixa quando Loved abre com “Shining Road”, fácil a melhor do disco, com paredes de guitarra unindo-se a uma bateria dançante e quebrada. A destacar, ainda, o violão com acentos espanhóis do acompanhamento das estrofes, que constrói com a bateria uma base rítmica muito interessante, demarcando o andamento. É uma dessas músicas que ganham um disco e dificilmente saem da cabeça.

“Pale Blue Sky” retoma não Loveless, mas Isn’t Anything, apresentando uma variação para onde o My Bloody Valentine poderia ter ido se não desse a guinada que deu do primeiro ao segundo. Em “Reverie” temos o violão insistente, e depois uma parede de guitarra de timbre semelhante ao que o New Order faria anos depois com “Crystal”. “Lilies” tem uma estrutura estranha, com Alison Shaw falando a letra, entrecortada por explosões de guitarra MBV e baixo distorcido. Certamente a música mais ameaçadora e reminiscente de “I Hope”. “Are You Gone?” é Cranes em modo balada singela com acompanhamento de guitarra. “Loved”, apesar de dar nome ao disco, não é um dos destaques, mas tem um riff forte de baixo distorcido. “Beautiful Friend” é uma música de andamento rápido, que tem uma doçura meio “Lovecats” do Cure, contrabalançada com a dureza e o volume da marcação do bumbo, em excelente invenção percussiva de Jim Shaw. “Bewildered” e “Come This Far” são simpáticas, mas inessenciais. “Paris and Rome” usa sons de xilofone para acompanhar Alison Shaw até que a faixa cai numa cama de teclados que curiosamente lembra o tema de Laura Palmer de Angelo Badalamenti. “In the Night” fecha o disco na mesma chave climática do compositor preferido de David Lynch, com cellos e piano dramáticos, entre temor e criação de atmosfera. O disco apresenta a seguir três remixes, um de Michael Brauer e dois de Flood que, no entanto, mudam muito pouco a estrutura original das canções para merecer análise mais detalhada.

Loved não é nenhum divisor de águas na música britânica daquele momento. Ao contrário, é o disco de uma banda que não hesita em confessar através de timbres e idéias o impacto que recebeu quando ouviu My Bloody Valentine, mas que encontra seu próprio repertório no meio das influências que recebe. O disco atinge a excelência em alguns momentos – “Shining Road”, “Lilies”, “Beautiful Friend” – e no geral conta com um punhado de boas idéias instrumentais que torna a audição sempre cativante. Pena que, com a ênfase dada às baladas nos últimos discos – e o fato do disco proposto aqui ser de 1994 e não de 2008 é significativo -, algumas das principais forças do grupo tenham ficado para trás. Mas Loved permanece com sua beleza inalterada, e ainda mantém-se como um disco único na trajetória da banda e singular na comparação com a música feita no período. (Ruy Gardnier)

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Malgrado o fato de que desconhecia o trabalho do Cranes, a audição de Loved me remeteu a reminiscências musicais que marcaram minha pré-adolescência. O som do grupo trouxe à memória programas de tevê como o BBvídeo, apresentado por um argentino (ou uruguaio) que simulava uma boca com a própria orelha, e apresentava clipes do Bolshoi e do Cocteau Twins como se fossem música de ponta; o programa especializado em surfe, o Realce, apresentado por Ricardo Bocão, onde assisti pela primeira vez um clipe da boa fase dos Red Hot Chili Peppers; ou até mesmo a programação da então novata MTV, titubeante entre o passado e o futuro, patinando sobre a farofa e o pop rasgado importado da MTV americana. Nesta época, meu gosto ainda se orientava em direção às várias ramificações do jazz e do rock, e mesmo Siouxsie, a quem eu havia devotado boa parte das audições nesta época, se encontrava em baixa. Passei então a implicar com bandas que, como a própria Siouxsie, mas também Smiths, New Order, etc, incorporaram as tendências universais do pós-punk e do Bowie de Berlim, mas, deixando de lado a experimentação, abraçaram desavergonhadamente um insuportável tom synth-pop. E geralmente acompanhado por violão de aço, o que piorava tudo (ó instrumento tinhoso!). Me refiro a uma sonoridade que, ao meu ver, se encontrava datada já nesta época, que gravitava em torno do rock gótico dos anos oitenta, que incorporava alguns elementos do techno-pop, e, no caso do Cranes, uma certa proximidade das experiências do Einstürzende Neubauten. Enfim, tudo isso pra dizer que: a) apesar de conter muitas instrumentações acima da média, como “Lilies” e a neubateniana faixa-título, o Cranes lida de forma óbvia com suas referências; b) agrava essa situação o fato de que nem a lógica formal, nem a lógica afetiva fazem a voz de Alison descer pela minha goela – sobretudo em faixas como “Come This Far” e “In the Night”. Entre a antipatia e a reminiscência, Loved evoca uma época determinada, expõe suas estratégias mais óbvias e, talvez permanecesse no limbo, se não fosse o recente retorno da banda. E a lembrança do Ruy, claro. (Bernardo Oliveira)

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Admito nunca ter ouvido nada a respeito do Cranes antes de sua indicação. E minha primeira reação foi achar que a banda não tinha muito valor, ou que não havia passado no teste do tempo; pois há uma infinidade de conjuntos dessa época que fazia algum sucesso, ou detinha um número grande de seguidores – o que é o caso do grupo em questão -, mas que, hoje, não tem a mínima importância e influência sobre nada. Não é exatamente o caso do Cranes e desse Loved, que por mais que seja um álbum pop de qualidade, certamente não possui mais a mesma relevância de quando foi lançado. Mas a questão é: o disco foi relevante à época?

É perfeitamente possível detectar todas as tendências da música pop/rock alternativa dos anos noventa em Loved: guitarras pesadas à la My Bloody Valentine – o primeiro disco, Wings of Joy, de 1991, mesmo ano de Loveless, não possui essa distorção toda -, vocais etéreos e meio enjoativos de Alison Shaw – algo pós-Cocteau Twins; e (re)mixagem do Flood. Ou seja, todas as características que marcaram a produção da época, como o flerte com o shoegaze, a herança do dream-pop da década de oitenta e a presença de um produtor extremamente hype, que vivia no seu auge e trabalhava com qualquer coisa que lhe fosse oferecida.

Acontece que Loved é um disco pulsante, no qual se percebe um grande esmero da produção (mérito que deve ser creditado à própria banda, que também exerceu esta função), principalmente em relação à bateria, aos demais instrumentos percussivos e aos timbres de guitarra. A maior parte das canções é bem pop, do tipo que só tende a crescer conforme audições subseqüentes. A voz de Alison Shaw, por mais irritante que possa soar em alguns momentos – com timbre que lembra Hope Sandoval e afetação Lisa Germano -, não chega a incomodar de verdade em meio à sonoridade celestial da banda. A única deficiência de Loved é a falta de apuro pela originalidade – o disco remete a muitas coisas relativas à sua era -, mas o que não faltam aqui são canções pop de alto nível. E essa última característica está intrinsecamente ligada ao fato de o disco proporcionar uma audição bastante prazerosa. (Thiago Filardi)

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Diversos problemas têm me impedido de escrever condignamente para a Camarilha, tenho extrapolado de forma desconcertante os prazos e isso tem me levado a situações peculiares. Conheço pouca coisa dos Cranes, nunca foi banda que eu prestasse atenção; assim, quando o Ruy selecionou o álbum, tive que ouvir com cuidado. Não gostei do disco, ouvi as três vezes de praxe e escrevi uma resenha bem negativa. Até que eu fui postar minha parte e percebi que tinha resenhado o disco errado. Quando vi as indicações da semana não prestei atenção no fato de que não havia sido selecionado o disco que havia saído a pouco, mas um dos discos mais elogiados da banda, lá nos anos 90. Assim, a resneha ficou imprestável, tive que ouvir o outro disco e reescrever a resenha.

Questão é que, apesar de não me desagradar como o disco novo, o disco em questão Loved, esclareceu algumas questões quanto ao som da banda.

A resenha anterior começava assim: “A alguns anos, Godard, cm a delicadeza de pronunciamentos que lhe é peculiar, afirmou, à época do lançamento de Gosford Park, que enquanto a câmera de Renoir filmava tudo, a de Robert Altman não filmava nada. A atribuição não é exata, mas passa bem a idéia de que para Godard os dois cineastas distavam bastante na capacidade de descobrir a verdade do que filmavam. A declaração é despropositada e típica dos arroubos de Godard, apesar de que não gosto nem um pouco de Gosford Park, mas isso é outra história”.

E continuava: “Esse preâmbulo é para, pensando sobre o disco homônimo do Cranes, afastar a idéia perigosa de limitar a audição do disco com comparações com as muitas bandas que me vieram a memória quando ouvia o disco”.

Adiante eu reclamava na posição dos vocais e a forma como as qualidades da banda eram escondidas e timidamente executadas. Mas ao ouvir o Loved e buscar outras coisas da banda tive uma desconfiança quase maldosa: o Cranes parece uma versão sofisticada daquelas bandinhas lounge que fazem versões palatáveis de outras banda que fizeram alguns sucessos. Tipo de música adequada a tocar em cafés e coquetéis.

Claro que trata-se de um exagero grosseiro, a música do Cranes possui personalidade e qualidades suficientes para manter larga distância de qualquer desses diluidores. Mas a impressão se justifica pelo fato de ao longo de sua carreira eles “seguirem moda” de forma desconfortável, seja o shoegaze do início ao folk ao gosto contemporâneo, nada parece produzido por razões próprias. Se outros fizeram tão bem, por que não fazermos também – parece ter sido o pensamento. É a hora onde parecem uma banda-tributo a um gênero ou “cena”. Cada mudança parece estudada e igualmente fracassada. Eles podem fazer boas, até ótimas músicas, mas o Cranes é isso, uma banda ordinária e sem caráter. (Marcus Martins)

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Publicado às 26 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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