Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Department of Eagles – In Ear Park (2008; 4AD, Reino Unido)

Department of Eagles é uma dupla formada por Daniel Rossen e Fred Nicolaus. Inicialmente chamavam-se Whitey on the Moon, mas tiveram que mudar devido a problemas de direitos. O nome Department of Eagles é referência à obra do artista belga Marcel Broodthaers. O primeiro disco do duo, The Whitey on the Moon UK LP, foi lançado em 2003, nos EUA – dois anos depois foi reintitulado de The Cold Nose para comercialização no mercado britânico. Em seguida, Rossen tornou-se membro do grupo Grizzly Bear. In Ear Park é o segundo disco da dupla, e mostra uma radical mudança no som em relação ao primeiro disco. (RG)

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Coloque para tocar “Noam Chomsky Spring Break 2002”, terceira faixa do disco The Whitey on the Moon UK LP, do Department of Eagles. O que vem à mente é Black Moth Super Rainbow, é Four Tet dos dois primeiros discos, é essa linhagem de misturar beats fortes de hip-hop com melodias delicadas. The Whitey on the Moon UK LP vai para muitos outros lugares, mas sua zona de gravitação é a indietrônica, côté experimental e bem-humorada. Daí a gente ouve In Ear Park e qual não é o espanto: o eletrônico foi-se embora junto com a marotice, e no lugar entraram os arranjos sofisticados, a instrumentação com cordas pouco comuns (banjo, cello) e o toque baladeiro vaudeville. Todos elementos que encontramos no… Grizzly Bear. Efetivamente, In Ear Park é como se fosse um disco do Grizzly Bear. A estrutura das canções é semelhante, os arranjos seguem estratégias parecidas, com a mesma instrumentação, há o vocal personalíssimo de Daniel Rossen, e ainda há dois outos integrantes do Grizzly Bear na feitura do disco, Chris Taylor na produção e na mixagem e Chris Bear na bateria e nos samples. Que fique claro, isso não é nenhuma acusação de plágio. Os caras são os mesmos, a voz do sujeito é a mesma e cada um tem o direito de dar a guinada que quiser com seu projeto. O que importa, sempre, é a qualidade do resultado. E In Ear Park apresenta provas suficientes de que o importante não é soar parecido ou diferente, mas fazer boa música.

Numa das audições do disco, me veio à cabeça a idéia de que o imaginário de In Ear Park (como boa parte da música do Grizzly Bear, mas aqui de forma mais determinante) está muito contido em “Martha My Dear”, notória faixa de Paul McCartney para o álbum branco dos Beatles. Mesma delicadeza, mesma maneira de ser tanto pop sofisticado quanto gracioso no jeito vaudeville. Mas, ao contrário da faixa de McCartney, o DoE gosta de variar por searas mais experimentais em alguns momentos, trabalhando com mais dissonâncias, algumas polifonias e alguns elementos fora do pop.

A primeira faixa, “In Ear Park”, é uma balada power pop guiada por um lindo violão dedilhado e um arranjo cheio de detalhes que já dá a dimensão do cuidado na feitura do disco. Em seguida vem “No One Does It Like You”, o single do disco, a faixa mais pop. Como tal, é deliciosa, fácil de cantar e decorar, com destaque para o guizo que parece ter saído de alguma faixa da Motown anos 60, para a guitarrinha no refrão e para o domínio de Daniel Rossen. Aliás, In Ear Park Rossen parece dar vazão a todo seu potencial de cantor, de maneira ainda mais desgarrada do que no Yellow House do Grizzly Bear. Todas as seis primeiras faixas do disco têm melodias pop incríveis, e tratamento caprichado no arranjo: “Phantom Other”, “Teenager”, “Around the Bay” e “Herring Bone” são tudo que se pede ao pop hoje, da referência aos grandes do passado (Beatles, Elton john) a um rebuscamento de sample, timbre e orquestração propriamente contemporâneo.

“Classical Records” é a faixa mais arriscada de In Ear Park, que parece a partir daí funcionar em chave mais introspectiva, menos transparente na exuberância. Exceto “Waves of Rye”, que é uma power ballad como as seis primeiras, as outras faixas apresentam acompanhamento simples ao piano, violão ou banjo, para depois explodirem em catarses sonoras (“Floating on the Lehigh”) ou ganharem relevo maior de arranjo ao fim.

As pessoas têm muita dificuldade para classificar o Grizzly Bear, e assim o será com In Ear Park. Pop progressivo? Power pop? Indie? Pop barroco? Nenhum desses rótulos dá inteiramente conta dos processos encetados pela música, pelas recompensas que sentimos quando estamos ouvindo. No fundo, pouco importa. Importa que é difícil se deparar hoje em dia com um disco de canções tão bem compostas, tão bem interpretadas, tão bem arranjadas e organizadas em disco, que nos entreguem todo o frescor e a graça do pop sem recorrer a fórmulas conhecidas e desgastadas. Fácil um dos melhores do ano. (Ruy Gardnier)

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Raros são os exemplos de artistas hoje que conseguem explorar o delicado espaço entre o retrô e a invenção, e ainda mais raros aqueles que, se utilizando de uma estrutura de composição e arranjos convencional, conseguem exprimir uma novidade – Marcelo Camelo e Noel Galagher que o digam… Daniel Rossen já havia nos maravilhado com o talento para atuar nessa árdua seara através de sua outra banda, o Grizzly Bear. Dessa vez, o background musical de Rossen, notadamente influenciado pelo pop e pelo folk dos anos 60, dá o ar da graça em In Ear Park, terceiro álbum de seu grupo de origem, o Department of Eagles. O curioso é que o som do Eagles se aproximou de forma inequívoca do que faz o Grizzly Bear, tornando as comparações ainda mais inevitáveis. Se antes vigorava uma mistura do The Bug da fase com DJ Vadim com as coisas mais funky do Prefuse 73, agora a referência é o mesmo folk que caracteriza o Bear, reforçado pelo timbre de voz e o modo de composição muito particular de Rossen. Para caracterizá-lo, recorro a uma outra comparação: enquanto Panda Bear, com sua obra-prima Person Pitch, realiza uma colagem impressionista com elementos do pop dos anos 60, produzindo uma obra anômala a partir da manipulação de “peças pré-moldadas”, a música do Department of Eagles perpassa respeitosamente o vocabulário dos anos sessentas, incluindo trejeitos vocais e padrões de arranjo. Atuando “por dentro” deste vocabulário folk-pop, Daniel Rossen exibe uma habilidade ímpar para explorar os caminhos melódicos e harmônicos mais inusitados dentro de um estilo supostamente desgastado. Tudo bem que quase ouvimos T. Rex em “No One Does It Like You” e John Lennon em “Waves of Rye”, mas a entonação áspera de Rossen, aliada a detalhes preciosos (como a bateria atrasada que marca o final de “Teenagers”), além das elegantes e características modulações harmônicas, garantem um aspecto de novidade ao disco. Novidade das mais viciantes dos últimos tempos (junto ao Third, do Portishead e ao EP do Crystal Antlers), que traz música boa de ouvir até mesmo entre os parentes mais bossanoveiros… Resta saber se esses irônicos farão do próximo Grizzly Bear mais “eletrônico”, como sugere aliás seu último EP, Friends? (Bernardo Oliveira)

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Não é impossível analisar um projeto paralelo sem remeter ao “principal”, mas também não deixa de ser interessante, em especial quando se trata de banda que provém do cintilante Grizzly Bear. Como reúne alguns membros da matriz, o Department of Eagles chama bastante atenção agora com o lançamento de seu In Ear Park, mesmo que o projeto não seja novo.

É curioso saber que um dos motivos do lançamento deste novo álbum é que alguns membros estavam um tanto sufocados com o esquema do Grizzly Bear e decidiram gravar In Ear Park para dar vazão a interesses que não eram atendidos pelo modo de composição do GB. Curioso porque as músicas lembram demais o GB; mais importante, elas não são tão boas quanto as do GB.

Podemos fazer um paralelo com o Animal Collective. Panda Bear tem carreira solo brilhante e independente do AC, mas ele nem é o compositor principal da banda, cargo que aparentemente fica com Avey Tare, apesar da suposta composição coletiva. Ainda assim, Avey Tare também tem carreira solo e é um fracasso, vide o horrendo disco com sua namorada e ex-(péssima)vocalista do Múm. Quer dizer, a posição na banda não indica a qualidade da produção paralela e não é por esse motivo que o Department of Eagles não é tão bom quanto o Grizzly Bear. Ali estão as composições expansivas, os arranjos de câmera, elementos eletrônicos esparsos e discretos, as harmonias vocais sussurradas e sofisticadas. Em alguns momento o resultado é fantástico, como em “Around The Bay”, mas o disco chega a cansar um pouco.

As faixas são quase todas boas, mas nenhuma foge muito da nota de corte do chamber-pop-folk tão corrente nesses dias. O melhor que o disco faz é nos deixar ansiosos pelo próximo do GB. Como teaser é excelente, mas quando penso em ouvir In Ear Park, lembro que é muito melhor ouvir Yellow House ou Horn of Plenty. Isso não derruba o disco, mas ele também não é grande coisa. (Marcus Martins)

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In Ear Park é o novo disco do Grizzly Bear, ou quase isso. A julgar por Yellow House, álbum mais recente do último, a impressão que fica é que o Department of Eagles é só uma desculpa para Daniel Rossen continuar lançando músicas de mesmo teor artístico e linha produtiva de seu projeto principal. A diferença entre este e o primeiro disco, The Whitey on the Moon UK LP é tão grande que, em certas horas, nos questionamos se ainda se trata do mesmo grupo.

O que parece acometer o Department of Eagles, no entanto, é o sucesso obtido por Yellow House. Antes que uma ruptura brusca com o trabalho anterior, ou o uma incoerência de discurso, In Ear Park me parece mais uma insistência em um projeto estético exitoso. Ele segue basicamente o mesmo padrão de produção e composição do último disco do Grizzly Bear: muito reverb, arranjos delicados, harmonias sofisticadas e estrutura progressiva das canções, com inícios calmos, seguidos por distorções comedidas.

O primeiro disco de Daniel Rossen e Fred Nicolaus, The Whitey on the Moon UK LP, ou The Cold Nose (nome de seu relançamento), ainda não havia se infectado com o Grizzly Bear, cujo primeiro álbum data de 2004, mas, por outro lado, soava como um reflexo da música alternativa da época. Em 2003 o hiphop underground vivia seu auge, com o pessoal da Definite Jux e da Anticon, da mesma forma que o indie eletrônico se tornava mais notável através de nomes como Dntel, Múm, Notwist e Lali Puna. Sente-se muito também, na sonoridade inicial do Department of Eagles, uma influência do hiphop downtempo de DJ Shadow e da Mo’ Wax.

Em In Ear Park, Rossen, cuja voz acaba falando mais alto devido às semelhanças com seu outro projeto, e Nicolaus se voltaram para criações mais intimistas, centradas na estrutura do rock e do jazz, ao contrário do primeiro disco, que era mais eclético, recheado de samples, batidas eletrônicas e inspirado pela cena que dominava a música independente. O álbum novo não só dá prosseguimento às composições moderníssimas de Yellow House – acessíveis, porém extremamente requintadas -, que mesclam com destreza gêneros como o post-rock, o folk e o jazz, mas reitera o talento de Daniel Rossen, que desponta como um dos grandes cantores/compositores (senão o maior) de sua geração. É por esse e por outros motivos que o Grizzly Bear é uma das minhas bandas favoritas da década, e quem nela se espelhar, só tem a ganhar. (Thiago Filardi)

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Publicado às 27 de outubro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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