Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lindstrøm – Where You Go I Go Too (2008; Smalltown Supersound, Noruega)

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Multi-instrumentista e produtor, Hans-Peter Lindstrøm, ou simplesmente Lindstrøm, chamou atenção do mundo em 2006 com It’s a Feedelity Affair, uma compilação de singles. Em parceria com Prins Thomas lançou dois álbuns que lhe valeram o rótulo space disco. Em 2007, lançou uma mixtape curiosa, que contava com Sly e Carly Simon (?). Agora, em 2008, ele retorna surpreendendo o mundo com seu primeiro CD autoral, Where You Go I Go Too. O álbum foi lançado pela Smalltown Supersound, plataforma de lançamentos da nova música eletrônica norueguesa. (BO)

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Já se tornou tradicional e secular na música alemã um interesse na expansão da música e do som: expansão conceitual, mas, sobretudo, experiencial. Com o aprimoramento dos equipamentos de manipulação sonora e consequente aumento da gama de possibilidades timbrísticas, penso que a música do Kraftwerk, por exemplo, pôde ficar mais interessante, como comprovei em seus últimos concertos por essas bandas. Na mesma direção, mas em outro sentido, o que mais me impressionou neste Where you go I go Too do multi-instrumentista e produtor norueguês Hans-Peter Lindstrøm não foi exatamante a tour de force, análoga a do alemão Göttsching em E2-E4, mas a força da produção, do resultado, literalmente do som que emana das caixas: cada percussão, cada harmonia, cada sonoridade tão bem esculpida, tão cristalina e, ao mesmo tempo, rascante e poderosa… Alguns alemães de sua cepa trabalham conceitos através do som, mas Lindstrøm opera sobre a recíproca: o som é seu conceito. Em Where you go I go Too, pouco importa se as peças que ele manipula soem como elementos estabelecidos e adquiridos, conclusão que se pode chegar remetendo o álbum não só à peça de Göttsching, mas a Giorgio Moroder e ao já citado Kraftwerk. O diferencial de seu trabalho reside no fato de que ele exerce sobre esses elementos uma manobra que se assemelha mais à escultura que à arquitetura, que até resvala no fascínio, mas não da forma besta que caracteriza muitas vertentes retrôs da atualidade. O sorrisão que o cara exibe na capa não esconde suas intenções: Lindstrøm está nos dando uma simpática e irônica piscadela de olho, das mais pungentes e pessoais dos últimos tempos. Ele diz que vai para onde a música for, insinuando que tem plena consciência das influências que balizam seu trabalho; ele inclui sons de respirações ofegantes, quando se trata de um turning point, como na kraftwerkiana e soberba faixa-título; sua camadas e texturas vão se alternando com parcimônia de gênio, mas se o ouvinte incauto vacila, negligencia o fato de que “Grand ideas” contém trechos de “Musikal Overtones”, já executada numa mixtape de 2007. Isto é, além da devoção criativa com que criou o álbum, Lindstrøm debocha, ironiza, manipula, mas com muita elegância e inteligência. “Take the long way home” atesta esse deboche, com seu groove amansado, sua guitarra inacreditavelmente brega, mas seu diálogo intermitente com as faixas anteriores. E toda esta operacão cheia de gueri-gueri resulta não só em um dos álbuns do ano, mas sobretudo, numa experiência sonora talvez sem paralelos em meio a esse maldito revival disco que assola o mundo. Ouçam alto, no fone e confirmem. (Bernardo Oliveira)

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Que fascinação é essa dos produtores de música eletrônica com Manuel Göttsching e seu E2-E4? Tá certo que até hoje esse disco soa extremamente inovador e, mesmo à época, com a enorme herança do minimalismo de Terry Riley, Steve Reich e Charlemagne Palestine – criadores de verdadeiros épicos ininterruptos, duráveis até o último groove do vinil -, o tour de force maior de Göttsching ainda era desafiador ao gênero eletrônico e levantava questões prementes quanto à sua evolução, por meio de uma música firme, consistente e dotada de um detalhismo que se descortinava progressivamente ao longo de sessenta minutos. E, hoje, essa obra-prima da música eletrônica e do século XX se encontra diluída em artistas incapazes de trespassar a simples mimese.

A começar por James Murphy e seu LCD Soundsystem que, no final de 2006, lançou um disco promocional pela Nike, 45:33, que copiava a arte gráfica da capa de E2-E4 (apenas com modificações de cores) e utilizava seu mesmo conceito de criar uma epopéia minimalista, estendível à toda a duração do disco. Resultado: Murphy foi processado e viu-se obrigado a mudar – pelo menos – a arte gráfica. Plágio ou empréstimo? Essa não é a questão que pretendo abordar, mas, de fato, há uma referência musical e simbólica muito forte em relação a Göttsching, a qual o próprio foi minimamente sagaz de perceber e prontamente denunciou o produtor nova-iorquino. Depois veio The Field, com seu From Here We Go Sublime, que tinha como uma das principais influências a música de Göttsching. Talvez ele tenha sido o único a não somente venerar a obra do alemão, mas levá-la adiante e atualizá-la conforme os ditos do techno minimal do novo século – ele não tinha a pretensão reacionária de criar uma faixa só o disco inteiro, visando imitar E2-E4, porém, de fazer recortes e samples através de uma pequena seleção de partículas sonoras. E seus pontos de partida iam além: não era apenas o Manuel Göttsching da década de 80, mas também o da década de 70, mais experimental e abstrato, com seus projetos Ash Ra Tempel, Ashra e Cosmic Jokers.

Agora é a vez de Lindstrøm, com esse Where You Go I Go Too. E o próprio título já esclarece suas intenções: para onde a música da moda vai, Lindstrøm vai também.

Eis que o álbum em questão é composto de três faixas enormes, que seguem um encaixe permanente até o final. A primeira e também faixa-título é a maior, com quase meia-hora de duração e se configura como o carro-chefe do disco. Aqui a menção a Göttsching e à música sintetizada da década de oitenta não poderia ser maior: repetições contínuas dos mesmos acordes dentro de uma estrutura harmônica minimalista; leves progressões vão ocorrendo até culminarem na segunda, “Grand Ideas”, que dá uma levantada no álbum, depois da pasmaceira sub-göttschingiana da faixa-título. Os sintetizadores ficam mais carregados e a tensão harmônica (à la pop oitentista do mais safado) se amplifica. Na última e terceira faixa, “The Long Way Home”, no entanto, a coisa melhora consideravelmente: aqui a alusão a Göttsching é ainda mais inescrupulosa, com efeitos ambient de teclado e guitarrinha de timbre limpo. Porém, há um elemento que se torna o diferencial neste último terço de LP, que é a forte influência da disco music, um território não explorado por Göttsching; e as batidas, antes frouxas e pouco empolgantes, dão força máxima à música, que termina em uma seqüência de acordes primorosa, trazendo à tona o que pode haver de melhor da disco, do synth-pop e de E2-E4.

É duro gostar de Lindstrøm, nem que seja de uma única faixa, pois os mesmos que defendem sua música são aqueles que elevam grupos como LCD Soundsystem, Hercules & Love Affair, Justice, The Knife e tantos outros presos à estética oitentista, a patamares altíssimos. Com Lindstrøm não é diferente: Where You Go I Go Too transmite o tempo inteiro uma sensação de déjà vu, que, se por um lado só reforça o caráter mimético de sua obra, por outro, é capaz de suscitar reações de índole hedonista. (Thiago Filardi)

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Sem maiores nove horas, acho chato pra caralho esse revival disco. Já não gostava do Daft Punk, e acho o Justice ainda mais intolerável. Quando vi a colocação da faixa “I Feel Space” do Lindstrøm na listinha de melhores do ano da Pitchfork, baixei para ver qual era e me deu uma certa raiva de ver o retrô ser celebrado dessa forma tão fetichista e vazia, como se o grande gesto musical possível fosse pinçar de uma biblioteca alguns objetos escolhidos e, sem preocupação alguma em inovar timbre, melodia ou estrutura, reproduzir a música que se admira. Corta. Alguns meses atrás: baixo Where You Go I Go Too, meio que por desencargo de consciência, e, ao mesmo tempo, a versão do Lindstrøm para “The Mighty Girl”, pouco conhecida faixa do Can presente nas Peel Sessions do grupo. Ouvindo primeiro sua versão de “The Mighty Girl” (assinada por ele e por seu habitual parceiro Prins Thomas), inevitável descobrir que o sujeito sabe o que faz. E que seu objetivo não é exatamente macaquear um repertório fechado. Até parece isso, mas, como no caso de Axel Willner e seu The Field, o principal interesse é parasitar um gênero eletrônico bem demarcado em suas amarras (techno para um, disco para outro) para trabalhar idéias de transe, repetição e progressão levadas adiante por outro segmento de artistas dos anos 70, mais obscuros e cabeçudos: Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, Can (em momentos), Steve Reich (a crítica da Pitchfork é extremamente precisa ao citar Music for 18 Musicians, de Reich, ainda que Lindstrøm saiba que ainda precisa de muito arroz com feijão pra chegar próximo dessa obra-prima absoluta).

Where You Go I Go Too tem 55 minutos e três faixas. E parece que Lindstrøm acertou em cheio em trabalhar a extensão, ao invés da concreção. Alguns são melhores quando dizem mais com menos. Com alguns, se dá o oposto: é preciso de tempo para revelar o que há de melhor. E em Where You Go I Go Too, tempo é o que não falta. E a música parece aberta a todos os caminhos, remoendo em sentidos diferentes os mesmos passos e criando uma percepção de espaço sonoro impressionante. “Where You Go I Go Too”, a primeira faixa, é responsável por mais da metade da duração do disco, e por muito mais que isso em matéria de beleza de construção. É meia hora de um arranjo minuciosamente calibrado e uma estrutura montada para que percebamos cada timbre, cada relação de uma célula sonora com outra, e como as progressões são feitas a partir delas. Sem querer ser muito dramático, diria que é a “Over the Ice” desse ano (apesar de preferir a matadora faixa que abre From Here We Go Sublime, bem mais rica em invenção), só que com sotaque de Giorgio Moroder. As outras duas faixas, “Grand Ideas” e “The Long Way Home”, não apresentam nenhum deslumbre maior de timbre ou composição, mas mantêm com elegância a fluência da faixa de abertura. Num instante da última, a melodia até se fecha sobre si, lembrando aqueles pops aguados de sintetizador dos anos 80, mas rapidamente a coisa se desfaz, como se fosse Lindstrøm afirmando que no fundo ele ama fazer aquilo, mas funciona melhor quando a melodia se desgarra e evolui no espaço ao invés de fechar todas suas tensões em melodias singelas de um punhado de notas. O passo é inesperado. Where You Go I Go Too mais abre um caminho do que explora todas as suas possibilidades. Sem dúvida, devemos acompanhar atentamente seus próximos passos para saber se um grande artista surge daí. (Ruy Gardnier)

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Space House? Cosmic House? Beardo? Balearic? Balela.

Hans Lindstrøm surgiu no cenário da house em meio ao boom de djs que evocavam o período de ouro da disco mas também eram identificados com a house mais atual. Pelo uso de certos tipos de sintetizadores, sua sonoridade foi associada à coisas espaciais e o título de alguns de seus sucessos apenas ajudaram a desenvolver tal mítica; músicas como a pequena obra-prima “I Feel Space” encontraram ressonância em um público um pouco maior que os aficionados por dance music por sua felicidade em recordar as grandes produções de Giorgio Moroder e ainda assim soar completamente contemporânea e peculiar. Lindstrøm domina com talento invulgar seu repertório e o lançamento de Where Do You Go I Go Too vem informar que ainda não tínhamos toda a noção de onde ele pode nos levar. Dizer que tal álbum é o primeiro dele significa mais do que dizer que os anteriores não são mais que coleções de singles; é mais que evidente que WDYGIGT foi criado com o propósito de uma experiência completa e o fato das faixas funcionarem individualmente apenas ressalta sua qualidade.

Algumas das melhores produções de Lindstrøm são versões extendidas de seu próprio trabalho, bem à moda de Moroder e sua versão histórica de “I Feel Love”, por isso mesmo, WDYGIGT relaciona-se mais diretamente com o álbum Reinterpretations, em parceria com Prins Thomas. Lindstrøm leva tal noção a outro patamar e o conceito de duração empregado em seu novo disco sugere que a forma cada vez toma mais espaço no modo de construir as faixas e o elemento “para dançar”, apesar de presente, deixa de representar um objetivo.

O “espaço” da música de Lindstrøm está menos atrelado a viagens cósmicas que ao clássico sofa surfing tão popular desde os álbuns exóticos de Martin Denny. A diferença é que, depois de mais de século de cinema, nem mesmo o espaço é suficientemente exótico e por esse motivo, o trabalho de Lindstrøm parece uma viagem sentimental àquele lugar familiar e desconhecido.

As conexões com a disco music e a house não resumem a música que ouvimos e um dos elementos que aqui se desenvolvem é a coloração emprestada do kraut, em especial com os sintetizadores do Tangerine Dream, nada de novo para quem já regravou Can e Vangelis. Lindstrøm nunca esconde suas influências e filiações e ainda assim nunca soa reiterativo. Também não soa como se fosse produto dos anos de 1970, apesar das influências virem quase todas de então.

Lindstrøm apenas encontra semelhante no revivalismo baleárico na produção do Studio, mas com WDYGIGT, ele deixa tal banda distante, músicas como as do belo Yearbook 1 terminam por parecer meros remixes de faixas por comparação.

Verdade que apesar de todos estes aspectos, a música é de consumo fácil e dançante, mesmo com sua longa duração. Na verdade, um dos pontos mais marcantes da música de Lindstrøm é que, à semelhança dos produtores que gravitam em torno da Kompakt, sua música fica sempre na superfície. O que não é demérito, mas um meio de privilegiar a forma. E para todos os efeitos WDYGIGT é uma proeza. Delicado e furtivo como um beijo roubado, mas também evocativo como a lembrança de um verão do astronauta confinado na estação espacial. Esta é sua space disco. (Marcus Martins)

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Publicado às 5 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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