Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mestres da Guitarrada – Música Magneta (2008; Candeeiro Records, Brasil)

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De origem paraense, mas com forte influência da música latina, a guitarrada é um gênero musical já balzaquiano, protagonizado por uma guitarra, acompanhada, normalmente, por uma base formada por bateria, contrabaixo e uma guitarra base. Os Mestres da Guitarrada são Mestre Vieira, a quem se atribui a criação do gênero, o multi-instrumentista Mestre Curica, Aldo Sena e Pio Lobato, guitarrista da banda paraense Cravo Carbono. Música magneta é o segundo álbum do grupo, gravado por Pupilo na bateria e percussão, Dengue e Júnior Areia no baixo, Da Lua e Toca Ogan nas percussões, Bactéria nos teclados, além do guitarrista do Cravo Carbono, Pio Lobato. O cd é duplo, sendo o segundo constituído de remixes. (B.O.)

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Mesmo levando em consideração suas diversíssimas manifestações e contextos, a música realizada no Brasil hoje conserva uma permeabilidade muito particular em comparação com a música mundial, mais especificamente a música européia e americana. Me refiro não somente à capacidade de mesclar gêneros, mas também de desafiar os critérios de gosto e misturar as faixas culturais. A sofisticação de Noel Rosa e Cartola, a era do rádio, a bossa nova, o tropicalismo, mas também a música de Moacir Santos e Clementina de Jesus já davam provas suficientes desta tendência. E isto ficou claro mais uma vez na última edição do mais notório festival de música do país, que apresentou alguns mestres e supostas novidades, mas que, no geral, patinou na obviedade. No entanto, já nos finalmentes, já quando a cortina parecia baixar pelo segundo ano consecutivo de forma triste e soturna, eis que a verve mais desembestada da música brasileira emergiu com a força do funk carioca e da guitarrada paraense, trazendo algum sabor de novidade. Nenhuma apresentação que assisti teve a força e a energia da que fizeram Sany Pitbull e os Mestres da Guitarrada, autores deste Música Magneta. O primeiro teve um desempenho empolgante, destilando infusões inusitadas do funk carioca com a música eletrônica européia e americana. Já os Mestres da Guitarrada iniciaram sua apresentação com uma platéia praticamente vazia, e aos poucos conquistaram um a um com sua mistura de carimbó paraense com… bem, quase tudo, já que a guitarrada nasceu do vasto repertório com o qual Joaquim Vieira animava os bailes dos ribeirinhos no Pará. Como meio de amplificar o som de seu violão, Vieira, 74 anos, transpôs para a guitarra o amplo cardápio musical dos bailes, criando o estilo, muito popular na Amazônia. Após lançar diversos álbuns, inclusive sob a alcunha de “Lima, o guitarreiro da Amazônia”, Mestre Vieira, como ficou conhecido a partir da década de 80, lidera o grupo, junto a outros mestres do gênero, Curica e Aldo Sena. Choros, xotes, salsas, cumbias, merengues e até rock jovem guarda dão forma à música dos Mestres da Guitarrada. De tão empolgante, sua música foi ovacionada, deixando kanyes e klaxons (sic) para trás.

Mas além de empolgante, os Mestres destilam algumas características peculiares, a começar pelo modo original com que dedilham sua guitarra, um toque cândido e malemolente, insinuante de gêneros latinos como o merengue e a salsa, mas ao mesmo tempo, precursor da lambada e do axé. Nas faixas executadas por Curica, mais um detalhe: o estilo que ele imprime no banjo quando executa o carimbó, como se assemelha com a cumbia colombiana, e ao mesmo tempo, como é tão próximo de ritmos mais brasileiros. Me esforço para dar precisão ao que fazem esses instrumentistas, mas a única ferramenta disponível é a comparação, porque a música dos Mestres é única, e pode-se dizer de fato que eles criaram uma escola da guitarra  genuinamente brasileira, o que já seria digno de nota e atenção. E no caso de Curica, uma segunda escola do banjo brasileiro, sendo a primeira criada pelo sambista Almir Guinéto. Trata-se portanto de um feito extra-ordinário, que destoa da mediocridade que caracteriza o mainstream do eixo Rio-SP.

Essas observações, formais, não dão conta dos verdadeiros objetivos de Música Magneta, para os quais ele serve tão bem: tal qual na cumbia (cuja etimologia remete à expressão cumbé, festa), no xote, no frevo, no carimbó, e outros gêneros, o álbum é principalmente, música de festa, comemoração e produção de alegria em massa. Assim como o funk carioca de Sany Pitbull, a “música magneta” dos Mestres da Guitarrada é igualmente tomada pela celebração, mas não abre mão de inovar o aspecto formal. Assim como as kalimbas elétricas do Konono n. 1, as guitarras elétricas dos Mestres nasceram de uma necessidade, mas a transcenderam. O disco de remixes mostra que nem sempre o que parece mais “moderninho”, o é: nenhuma versão se equipara às originais, nem ao menos pode criar o mesmo interesse – com exceção talvez das produzidas por Dolores e da versão dubstep de “Banjo amigo” por um tal Missionário José que, desde já, acompanharei de perto. (Bernardo Oliveira)

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Houve uma época na música brasileira em que os grupos e artistas de maior interesse e novidade vinham do mainstream, da música dita popular brasileira. Mesmo aqueles marginalizados, ou tidos como “malditos” tocavam em festivais, e até saíam vitoriosos – assim como obtinham reconhecimento da crítica especializada. O eixo paradigmático da “boa” música era Rio-SP: os que vinham das outras regiões do país lá se instalavam, pois somente nos centros urbanos era possível gravar discos, ampliar a rede de contatos e receber maior projeção da mídia, seja através de festivais ou de execuções radiofônicas.

De uns tempos pra cá se notou uma descentralização dos pólos musicais. A década de noventa, por exemplo, viu o centro de ebulição criativa transferir-se de Rio-SP para Pernambuco (até hoje uma das grandes potências do país), a exemplo da cena manguebeat. A música pop de Rio e São Paulo foi se deteriorando gradativamente e, por fim, entregou os pontos às grandes e enfraquecidas majors, por meio de seus esquemas de jabá com a rádio e a MTV. Hoje já não resta quase nada, a não ser nas cenas underground, que se beneficiaram fortemente com o advento da internet e a progressiva facilidade na utilização de ferramentas da rede. O projeto Mestres da Guitarrada não surgiu do ensejo que a web proporcionou, mas, de algum modo, se insere nesta nova ordem estrutural e política da música brasileira, na qual, inversamente a cinqüenta, quarenta e trinta (quiçá vinte) anos atrás, o novo, o original e o interessante vêm diretamente de circuitos musicais estranhos aos eixos de Rio e São Paulo.

Música Magneta (e quando me refiro positivamente a este, é sempre ao disco A) é fabuloso. O gênero articulado ao longo do disco é a guitarrada, que nada mais é que uma fusão de estilos diversos como o carimbó, o merengue, a lambada, a surf music, o reggae e muitos outros. É como um caldeirão de ritmos caribenhos, tropicais e latinos, executados por três mestres da guitarra (no caso de Curica, o banjo), extremamente habilidosos e que conseguem fundir com exímia naturalidade uma gama de elementos díspares, para constituir, ao final, uma sonoridade de grande simplicidade, mas dotada de estética única. E é por isso que o disco B, com seus remixes de DJs renomados, não funciona. Trata-se de uma tentativa de atualizar um som que já é atualíssimo; de prover acentuações a batidas que já são por demais acentuadas e que só tendem a prejudicar a organicidade maravilhosa da percussão. Mas é cacoete na música moderna fazer remix em música de teor mais dançante; então, em vez de reformulações e reestruturalizações tão instigantes quanto às versões originais, o que se tem é uma banalização recidiva em cima das criações originais. As únicas que se salvam são aquelas que procuram salientar o elemento dub/reggae do som, aumentando a potência do baixo. Mesmo assim tudo fica muito aquém do primeiro disco, excitante e criativo como raramente se viu na música de procedência nacional desta década.

A guitarrada é um dos gêneros mais promissores da música brasileira e que vem encontrando ecos em grupos não só do Pará, como o Cravo Carbona, La Pupiña e Banda Calypso, mas em conjuntos cariocas, como o Do Amor e o Kassin+2. As novas possibilidades estão abertas, agora só nos resta explorá-las à potência máxima. (Thiago Filardi)

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Num dado momento os músicos confiavam na limpidez sensual e simples de suas melodias. Há ondas e ondas na música, e nossos tempos andam preferindo a complexidade ao frescor. Raro aparecer um disco como Polytheistic Fragments, de Sir Richard Bishop, com um lirismo excêntrico mas claramente optando pela limpidez. Música Magneta parece ser um primo distante, bem distante, do disco do ex-Sun City Girl, que preferiu acompanhar suas belíssimas composições para guitarra de conjuntos percussivos da pesada. A variação de ritmos e climas varia tanto quanto o disco de Bishop, mas em modo mais dançante: a um tempo, reggae, salsa, forró, carimbó, frevo, maracatu, os ritmos variam mas a vibração permanece a mesma, porque o que guia as faixas é o mesmo princípio: a beleza flagrante das guitarras dedilhadas dos três mestres paraenses e suas melodias ultra-assobiáveis. Músicas como “Olinda”, “Beliscando”, “Saudade do Pará” ou “Frevo do Jurunas” parecem ser clássicos de algum songbook ainda secreto, unindo de forma imprevista os calorosos temas quase jazzísticos do choro com música carnavalesca, seja ela de onde for. Ouvindo Música Magneta passam pela nossa cabeça Jacob do Bandolim e Armandinho, “Odeon” e “Vassourinha”, ou seja, um mix de momentos históricos da música brasileira muito distintos em épocas e gêneros, mas de alguma forma comungando do mesmo tipo de feeling instrumental, aqui sintetizado por Curica, Aldo Sena e Vieira.

Cabe aproveitar um tantinho para falar do acompanhamento, feito por músicos pernambucanos da Nação Zumbi e do Mundo Livre, além de artistas da cena rock paraense. O maior elogio a fazer é que eles, versáteis e cabeça aberta que são, não tentam adequar o som dos mestres a qualquer modismo ou timbres contemporãneos, mas optam por arranjos criativos e fortemente dançantes, sim, mas mantendo a leveza que faz a graça e a alegria dessas composições. Sabem que aqui são acompanhamento, e executam com destreza e elegância sua função.

Já o disco 2, de remixes das faixas do primeiro disco, não acrescenta muito ao que já ouvimos. Em alguns casos, cria mesmo constrangimento, ao tentat “atualizar” o som dos Mestres da Guitarrada ao repertório dance, com batidas e sons incidentais farofeiros e clichês. Por seu próprio pendor à fluência e a uma sensualidade, a música de Curica, Aldo Sena e Vieira não se deixa retraduzir de forma fácil, e quase sempre a adição de elementos mais serve para pesar e tirar o charme das melodias sem substituir nada de interesse igual. “Solo do Magnata” e “Paracateado” são os momentos mais infelizes. DJ Dolores é aquele que melhor se apropria dos sons do grupo, fazendo versões interessantes para “Olinda” e “Primavera do Norte” (mas farofando em “Levada da Amazônia”). Bebendo em Mad Professor, Lucio K faz em “Saudade do Pará” talvez o que seja a melhor faixa do disco 2, um dub delirante que leva a cabo a idéia de reconstrução pedida pelo remix. Algo semelhante pode-se dizer da versão do Chico Correa em Frevo do Jurunas”, que toma várias distâncias do original, com momentos felizes e outros menos. Mas o disco 2 é pra ouvir algumas vezes só e pronto. no máximo, separar algumas faixas pra uma compilaçãozinha. O disco 1 é pra ouvir direto e sempre. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 6 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , , , .
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