Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo (1971; Philips, Brasil)

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Nascido Erasmo Esteves em 1941, Erasmo Carlos já garantiu seu lugar na história da música brasileira ao participar do programa Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos e Wanderléia. Alcançou sucesso sem par nas parcerias com o primeiro. Após o declínio da Jovem Guarda, caiu em desgraça, teve problemas com drogas e respondeu processo criminal. Resgatado no final dos anos 60, voltou ao ápice ao assinar contrato com a antiga Philips. O próprio Erasmo considera sua produção a partir da metade dos anos 80 discutível e talvez por isso tenha caído em ostracismo nos anos 90, quase que apenas aparecendo nos desditosos especiais de fim de ano de seu parceiro. Lançou seu último disco, Prá Falar de Amor, em 2001. (MM)

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Erasmo Carlos é um injustiçado. Erasmo Carlos ajudou a cometer alguns dos momentos mais açucarados e popularescos da história da MPB. Erasmo é um fino compositor que em alguns momentos abdicou, sem cerimônia, da possibilidade de desenvolver seu talento para soltar petardos ajudaram a trazer fama e dinheiro a um amigo dele. Mas isso pouco importa, e é irrelevante por que Erasmo tem obra suficiente para sobreviver a qualquer acusação, inclusive pelo fato de que muitos das assertivas acima estão prenhes de esnobismo e eu não nego que as subscrevo em parte.

O que importa mesmo é que Carlos, Erasmo é um grande disco. É dos maiores, daqueles para figurar em listas; ser resgatado de quando em quando; fazer bonito entre as regravações de cantoras oportunistas, tal e tal. Ali temos o privilégio de encontrar Erasmo solto, concentrado em fazer o seu melhor. E coisas que nem seriam de esperar: canções formalmente ousadas, a mistura de ótimos arranjos e o clima de improviso em alguns momentos; a voz limitada de Erasmo destila vitalidade – verdade. Claro que essa verdade não é sem desvios, assinar um disco como Carlos, Erasmo quando seu Carlos nem faz parte de seu nome diz um pouco sobre como lidar com a exposição de personas e sobre ser confessional sem deixar de ser ficcional.

Para quem ficou conhecido como o Tremendão da Jovem Guarda, esse é um disco de maturidade precoce. Como no melhor da Jovem Guarda, Erasmo absorve as influências estrangeiras e transforma em algo próprio, que hoje em dia podemos qualificar como algo brasileiro. A diferença é que aqui ele lança mão de um cabedal mais amplo, o papel da soul music é mais livre, sem as necessidades do iê-iê-iê. Na verdade Erasmo triturou tudo que tinha à sua disposição sem precisar ser tropicalista (apesar da evidente marca do movimento) ou lançar manifesto. A própria sobrevivência do rock vem pelo filtro “libertário” da música hippie, em especial em faixas como “Dois Animais na Selva da Rua”.

Lançado em 1971 pela Philips, temos que admitir que Erasmo teve as melhores condições. O disco teve contribuições de nomes como o inescapável Rogério Duprat, foi produzido por Erasmo e pelo experiente Manoel Barebein, à exceção de “Ciça Cecília” que foi produzida por Nelson Motta. A multidão de arranjos ficou à cargo de Chiquinho de Moraes (que se fôssemos tratar de suas contribuições à música brasileira, precisaríamos de longo texto, daqueles que se preferiu ignorar em função de algumas participações em momentos esquecíveis de algumas carreiras, mas igualmente de pérolas dos mesmos artistas, especialmente aquele que não será aqui citado). Entre os músicos temos Liminha no auge da forma e Dinho Leme. Tanto as faixas compostas por Eramos e seu parceiro e as faixas alheias parecem combinar à perfeição. Desda a obra-prima de Caetano Veloso, “De Noite na Cama”, até Jorge Ben, “Agora Ninguém Chora Mais”, passando por Paulo Sérgio e Marcos Valle e Taiguara. “De Noite na Cama” é um caso especial, nada no resto do disco equipa-se me sofisticação e mostra à naturalidade da relação de Erasmo com o samba, algo quase sacrílego nos tempos de Jovem Guarda.

Já se falou em disco maldito, o que é tolice, talvez apenas causado pela inclusão da brincadeira “Maria Joana”. De forma contida, nas limitações que um artista de grande gravadora teria (tem), Carlos, Erasmo foi um disco de exorcismo, de ruptura interna e acerto de contas com a própria imagem; depois do inferno vivido com o fim da Jovem Guarda. Se nos discos anteriores já havia um ensaio, aqui Erasmo abre o leque, cada faixa vai em uma direção e ainda assim temos um disco coeso pela qualidade e pelo reflexo de seu “gênio maldito”. (Marcus Martins)

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A primeira metade da década de 70 foi uma época extremamente prolífica para a música brasileira. Apesar de ter sido um dos momentos mais duros da ditadura militar, é incrível como este período engloba alguns dos grandes clássicos da nossa música. 1971, ano deste Carlos, Erasmo…, também inclui pérolas inestimáveis como Garra, de Marcos Valle, Construção, de Chico Buarque, LP homônimo de Roberto Carlos, dois discos também homônimos de Paulinho da Viola, Fa-Tal, gravado ao vivo, de Gal Costa, Jardim Elétrico, dos Mutantes, segundo LP de Tim Maia e por aí vai. A resposta para esse boom de criatividade que dominou a produção musical do país é fácil: eram as portas abertas pelo Tropicalismo, que ensinou como fazer música de qualidade sem se prender a conceitos puristas e aderir à música popular o tão temido rock’n’roll. O álbum seminal da Tropicália e os subseqüentes LPs de seus participantes, com os arranjos psicodélicos e inovadores de Duprat, elevaram imensamente o nível de produção dos discos nacionais.

É difícil falar de um álbum clássico como Carlos, Erasmo… O que ainda pode ser acrescentado? E qual é o sentido em reiterar seu estatuto de obra-prima absoluta? Tendo em vista o progresso adquirido pela produção musical do país, o disco do Tremendão se inscreve perfeitamente dentro deste novo paradigma. Erasmo, mais conhecido pela sua verve roqueira e por ser um dos disseminadores do gênero no país, resolve assumir o papel de crooner popular, alternando baladas e rocks embebidos de soul e funk. Quando começam as primeiras notas do riff de guitarra maravilhoso de “De Noite na Cama”, canção encomendada de Caetano, já sabemos que estamos diante de um trabalho descomunal. E aí vem a interpretação segura de Erasmo, com excelente acompanhamento percussivo e um coro superempolgante. Pode até ser que haja certo arrefecimento na segunda faixa, “Masculino, Feminino”, de Homero Moutinho Filho, depois do estouro de animação que é a primeira. Mas é questão de costume. O álbum se estrutura em uma intercalação de baladas introspectivas e canções mais alegres, ou de maior peso sonoro. Os vocais de Maria Fossa, por demais delicados, chegam a enjoar, mas “Masculino, Feminino” tem melodia e refrão tão belos que até relevamos seus defeitos. Depois, duas porradas: “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, parceria de Erasmo com Roberto e a resfolegante “Dois Animais na Selva Suja da Rua”, de Taiguara. Na seqüência, mais uma parceria dos dois, a lindíssima “Gente Aberta”, de arranjo cristalino.

“Agora Ninguém Chora Mais” é certamente uma das interpretações mais geniais feitas a uma canção de Jorge Ben. Erasmo e o produtor Manoel Barenbein entenderam o espírito da música e colocaram o mesmo coro de “De Noite na Cama” para entoar a música toda, com intervenções breves do Tremendão. O resultado é genial. Em seguida, mais duas parcerias dos Carlos com a balada singela “Sodoma e Gomorra” e o espetacular rock/funk “Mundo Aberto”, com arranjo de sopro de música de salão. O country “Não Te Quero Santa”, de Vitor Martins, Saulo Nunes e Sergio Fayne é um ponto baixo do Lado B, mas posta entre duas faixas mais animadas, obriga o ouvinte a contemplar sua beleza melancólica com mais agudez.

As quatro últimas se superam no arranjo e trazem um desfecho impressionante ao disco: “Ciça, Cecília” (Roberto/Erasmo), que foi tema de novela, conta com produção de Nelson Motta e um delicioso arranjo de sopros de Arthur Verocai. Já a seguinte, “Em Busca das Canções Perdidas nº 2”, de Fábio e Paulo Amaral, aposta em timbres limpos de guitarra, coro, percussão leve e um arranjo de cordas e sopros celestial. “26 Anos de Vida Normal” é uma mistura de samba, rock e funk do jeito que só Marcos Valle sabe fazer. Inclusive, o mesmo gravou a canção no LP Garra, do mesmo ano e não posso esconder minha leve predileção por sua versão. Quando achamos que o álbum acabou, eis que começa a faixa derradeira “Maria Joana” (Roberto/Erasmo), de belíssima melodia e refrão emocionante acompanhada pela Caribe Steel Band, que dá enorme vigor à sua sonoridade. Se existe um disco que me fez amar ainda mais a música brasileira e Erasmo e Roberto é esse Carlos, Erasmo…, obra-prima fundamental da MPB. (Thiago Filardi)

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A despeito dos descaminhos conhecidos a partir dos anos 80, Erasmo Carlos tem seu lugar assegurado como um dos maiores compositores da música brasileira. Dado menos destacado é que também sua atitude trazia uma sensibilidade distinta ao bem comportado panorama do iê-iê-iê brasileiro. Era menos uma pose de bad boy – que, no fundo, já deu mais idiotas que gênios – do que um certo abraço quase extremista, quase maldito, aos acasos do mundo, que tomava forma através de um face-a-face com o destino que nutriu muito de suas músicas e muito do melhor das músicas que fizeram a carreira de Roberto Carlos. O fraco de Erasmo também é claramente discernível: sua voz, que ao contrário de outros artistas de pouca extensão vocal e timbre pouco eufônico, jamais conseguiu se transformar numa marca de estilo (como, por exemplo, Nélson Cavaquinho ou Chico Buarque).

Em Carlos, Erasmo…, a atitude chega a um ápice. É uma declaração de princípios, é um enfrentamento de peito aberto, uma revisitação da vida em modo celebratório: passam perfilados vida a dois, relação com o mundo, com a moralidade, com a figura feminina, através de uma expansividade que a cada momento parece querer dizer o título de uma de suas músicas com Roberto: é preciso saber viver. Uma entrega de tamanha intensidade que parece até um disco dos Novos Baianos.

Sob o aspecto das influências, fica claro que em Carlos, Erasmo… o Tremendão faz todo o esforço em correr atrás do tempo perdido e acompanhar tudo que aconteceu no seu terreno, o rock nacional, desde o aparecimento dos Mutantes e a complexificação dos arranjos e as misturas de sonoridades propostas pelo disco homônimo de 1969 de seu amigo Jorge Ben, passando, naturalmente, pelas explosões de som & atitude de Caetano Veloso, GIlberto Gil, Gal Costa… A presença de três membros dos Mutantes na ficha técnica do disco, além de Lanny Gordin na guitarra e de Rogério Duprat assinando dois arranjos, já assinala esse esforço em se atualizar ao que de melhor se fazia no momento.

E a tentativa foi incrivelmente bem sucedida. Mais mesmo que as composições – metade de Roberto e Erasmo, metade de convidados inspirados, Caetano, Jorge Ben, Taiguara –, são os arranjos o grande destaque do disco. “De Noite, na Cama”, a primeira, já começa com guitarra elétrica e berimbau, apresenta um pianinho delicado lá no fundo e é cantada em côro meio bêbado, contagiando com o espírito de festa. Os arranjos densos e suingados pontuam as faixas agitadas, soturnas (“É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”) ou festivas (“Dois Animais na Selva Suja da Rua”), ao passo que as singelas (“Masculino, Feminino”, “Gente Aberta”, “Não Te Quero Santa”) mostram delicadeza no trato, servem de respiro às rápidas e dão bom ritmo ao álbum.

Nascido no meio do turbilhão mais criativo que a música brasileira já viveu, Carlos, Erasmo… acaba não tendo a mesma envergadura dos discos mais significativos do período, um pouco por não apontar caminhos além dos que já vinham sendo propostos até ali. No entanto, se visto como um disco de consolidação das experimentações de uma época e de uma geração, ele alcança toda sua plenitude como o belo e desbragado trabalho que é. (Ruy Gardnier)

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De um modo geral, os rótulos tem uma vocação meio “chacrinha”: servem mais para confundir do que explicar. E isto porque são frágeis, não resistem a uma avaliação minuciosa, para além do que deveria ser sua vocação precípua, que é dar um sentido mínimo ao cipoal de referências da música de massas. É o caso da sigla MPB. O que é a MPB? Pergunta equivocada para um problema colocado de forma errada. A pergunta certa seria: para que a MPB? A quem interessa sua instrumentalização? Que lutas ideológicas, que cavalos de batalha, que setores da sociedade são mobilizados quando nos utilizamos dessa expressão? Carlos, Erasmo é um disco que, como bem indica o título, põe essa discussão toda pelo avesso. É um disco revolucionário, que altera o eixo gravitacional da música brasileira, ainda que de forma quase silenciosa e pouco alardeada. Pois àquela altura, MPB era o oposto simétrico do que esse disco representou. O rótulo MPB, tomado pelo seu ethos universitário, servia como um critério de adesão aos ideologismos que marcavam a política da época, contra o qual se insurgiram Caetano e Gil – aliás, tenho pra mim que a grande ambição do tropicalismo era fazer uma música que chegasse perto do padrão pop tijucano de Jorge Ben, Tim Maia, Erasmo e Roberto Carlos… Mas mesmo Caetano e Gil não produziram, em termos de disco propriamente, o espírito sintético e, ao mesmo tempo, irônico que Carlos, Erasmo trouxe para a música brasileira. Não só isso: não tiveram também a dimensão bem acabada do produto pop que Carlos, Erasmo destila.  E mesmo o lirismo do disco suplanta os exercícios de Gil e Caetano, maravilhosos, mas ainda presos aos cacoetes do modernismo e das vanguardas européias. Quero dizer: Caetano e Gil ainda eram cultos demais para produzir um pop brasileiro esperto e livre do peso histórico do “problema Brasil”, que eles herdaram de forma tão aberta não só dos modernistas, mas de Glauber e dos concretistas. Carlos, Erasmo suplanta todas essas questões, dando forma a um sentido da expressão MPB que vigora ainda hoje. MPB é, hoje, o que esse disco traz: uma série de canções de diversos gêneros, oriundas de diversas faixas musicais, contendo alusões diretas à cultura do presente (no caso específico, à cultura de massas, à contracultura e às mudanças de comportamento juvenil que, supostamente, foram levadas a cabo na época). E não é à toa que o disco abre com “De noite na cama”, do tropicalista  e mano Caetano, segue com outra em alusão a Masculin, Féminin de Godard, o psicodelismo de “Em Busca Das Canções Perdidas Nº2”, o rock’n’roll inovador de “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”, um Taiguara atípico e sacana em “Dois Animais Na Selva Suja Da Rua”, o “my generation” do The Who evocado em “26 Anos De Vida Normal”, a ode à maconha “Maria Joana”, que hoje deve causar arrepios em Roberto Carlos, a habitual e tijucaníssima mania de fazer piadas de duplo sentido em “Sodoma e Gomorra” e na feminista “Não te quero santa” e o elogio de “gente aberta” em “Gente aberta”. Carlos, Erasmo deve ser enfocado menos como epitáfio de uma visão de MPB, e mais como advento de uma música sem compromissos, de uma MPB soltinha que anda por aí, mas que não tem sequer um por cento de sua criatividade e arrojo. Discaço. (Bernardo Oliveira)

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4 comentários em “Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo (1971; Philips, Brasil)

  1. jose jesus vieira lopes
    6 de janeiro de 2009

    Falar sobre erasmo e´ da murro em ponta de faca, e´ sensacional um poeta sentado a beira do caminho.Mas o que eu queria mesmo saber de uma musica que deve ser mais ou menos dos anos 76,nao me recordo so´ sei que e´ mais ou menos isso em 1999 vai acontecer…quem souber por favor me envie alguma informaçao.abraços jesus

  2. Renato M
    10 de abril de 2009

    JESUS,

    o nome da música é “1990 – Projeto Salva Terra” do disco de mesmo nome. O disco é de 74, se não me engano.

  3. Pingback: A volta dos que não foram – China – Moto Contínuo

  4. Ezidio
    7 de abril de 2016

    Difícil é apontar a melhor música deste disco,porque pra mim todas são obras primas.

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Publicado às 11 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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