Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jóhann Jóhannsson – Fordlandia (2008; 4AD, Islândia)

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Jóhann Jóhannsson é um compositor e produtor islandês. Além de co-fundador da Kitchen Music, é também membro do Apparat Organ Quartet. Suas atividades abrangem composições para cinema, teatro e dança. Seu primeiro álbum, Englabörn, foi lançado em 2002 pelo selo Touch e consistiu em uma coletânea de peças criadas para diversas mídias. Assim, Virthulegu Foresetar, de 2004, pode ser considerado seu álbum de estréia. Em 2006 lançou IBM 1401: A User’s Manual, pela gravadora 4AD, que também lançou o recente Fordlandia. (MM)

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Existe uma breguice intrínseca à música de Jóhann Jóhannsson. Suas músicas tentam aliar à estrutura sinfônica elementos da música popular. Isso não é nada novo, mas sua peculiaridade é fazer isso com toda pompa. Ah, Jóhannsson também é romântico, escreve eulogias para a utopia moderna, seja para a morte de um computador gigantesco da IBM que cantava, seja para o malfadado projeto de Henry Ford na Amazônia, quanto no menos específico, porém mais impactante lamento de sua obra-prima, Virthulegu Foresetar.

Mas se nessa obra longa ele optava por melodias minimalistas e elementos eletrônicos e do drone, em outros momentos de sua carreira ele vai beber em algumas das principais fontes da música moderna, seja a raiz Satie/Debussy, seja no Pärt de Für Alina”. Jóhannsson não tem a menor vergonha de criar seus antepassados por uma rede de sensualistas, muitos nomes dos quais, à sua época, foram acusados de retrógrados, popularescos, medíocres. De qualquer modo, ele não tem o menor pudor de tomar emprestado a música alheia, e uma faixa como “Chimaerica” é bachiana ao pastiche.

Claro que tais escolhas geram uma série de leituras quando tratamos de um compositor que homenageia a falência da modernidade tecnológica em sua utopia. Ao adotar um tom agridoce ele abdica de qualquer distanciamento. A história do projeto da Fordlândia apenas merece atenção pela improbabilidade do projeto que ainda assim foi levado a cabo seu fracasso diz muito sobre a sanha romântico-imperialista dos empreendedores norte-americanos e por isso mesmo, fica difícil comprar a narrativa que Jóhannsson tenta injetar em sua composição. Ainda assim, o sucesso do projeto vem do fato de que, diferentemente da primeira parte de seu projeto, IBM 1401: A User’s Manual, o que ouvimos parece completamente dissociado da suposta homenagem, apenas convencendo se ele tivesse escrito uma versão Disney para os acontecimentos. Claro que seu interesse em criar uma narrativa não é tão vulgar a ponto de criar uma história de leitura evidente. Aliada à Fordlândia ainda temos uma faixa de lamento pela morte do deus Pan, cientistas investigando formas de viajar mais rápido que a luz e outro que explode em sua garagem californiana.

Talvez seja o defeito mais perigoso das estratégias de Jóhannsson: ao ligar sua música em excesso a temas e narrativas, ele parece desejar limitar sua obra àquelas trilhas sonoras para filmes não realizados, ou seja, algo que foi idealizado como acompanhamento e por tal fato é lacunosa, incompleta. É claro que as melhores trilhas sonoras sobrevivem independentemente dos filmes, ou em muitos casos, sobrevivem apesar dos filmes. A música que ouvimos prescinde de qualquer destes elementos para transcender sua condição de mero áudio.

Poderiam tomar Fordlândia como um nome de grande ressonância mas sem qualquer significado. Tal perspectiva apenas teria a acrescentar à música, todo o aparato que cerca a música é mais objeto de sonhos lúcidos que requisitos. A especialidade de Jóhannsson é como sedutor, criador de obras altissonantes mas que também são delicadas e viscerais sem nunca descambar para o excesso. A música é sempre construída com lentidão e um poderoso senso de expansão, tanto no sentido da banda sonora quanto da sensação de envolvimento pela experiência arrebatadora. (Marcus Martins)

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Tenho implicância com a Islândia, não tem jeito. As músicas de Múm, Sigur Rós e, mais recentemente, Ólafur Arnalds e Ghostigital, não me apetecem. A única artista que me agrada é Björk e sua antiga banda, o Sugarcubes, como não poderia ser diferente, já que ela é uma verdadeira inovadora da música pop, com toda sua peculiaridade no jeito de cantar e compor. Parece que a música emanada desse país tende sempre ao exagero sentimental, ao melodramatismo, que ficam exemplificados na grandiloqüência dos temas e dos arranjos – mesmo Björk não é exceção, mas esta é, no mínimo, sincera e dá tratamentos mais experimentais aos seus discos.

Música das geleiras, das paisagens vastas e opacas? A geografia e o clima da Islândia só tendem a propender para essa visão de mundo triste e melancólica. E seus músicos se vêem presos dentro dessa armadilha, sem saber para onde mover, a não ser para a dramaticidade adolescente e a evocação sentimentalóide da vida. Jóhann Jóhannsson e seu Fordlandia não são exceção. Já havia escutado Dís, um disco de 2004, e desaprovado com muita veemência. O disco novo, apesar de todos os elogios, e da indicação de nosso amigo Marcus, também não me encheu os olhos. Infelizmente, minha má impressão da Islândia e do artista só se confirmaram.

Fordlandia não é de todo mal e há, pelo menos, uns três ou quatro bons momentos no disco. Porém, a sina de islandês de Jóhannsson não lhe escapa e os mesmos problemas que descrevi acima a respeito de seus conterrâneos lhe acometem com toda potência. Primeira faixa, “Fordlandia”: arranjos de cordas vão crescendo gradativamente acompanhados de um piano e, ao fundo, efeitos eletrônicos se intercalam. É a mesma baboseira do “clássico moderno” misturado à música eletrônica, “novo” gênero nos quais muitos artistas contemporâneos se inscrevem, inclusive o também islandês Ólafur Arnalds. E ao contrário de Treny, de Jacaszek (outro disco um tanto sacal), não há novidade alguma na combinação do material acústico com o digitalizado. Jóhannsson adiciona percussões e efeitos de procedência eletrônica às suas harmonias de corda e pronto: tem-se o clássico moderno.

Todas as músicas seguem uma mesma estrutura irritante de crescendo, que começa silenciosamente para depois culminar em um final apoteótico e ultradramático. Há de se salvar faixas como “The Rocket Builder (Io Pan!)” e “Melodia (Guidelines for a Space Propulsion Device Based on Heim’s Quantum Theory)”, que fazem bom uso da percussão e efeito eletrônicos, de modo a enriquecer seus arranjos e textura. Outro fator negativo para o álbum é sua duração: são setenta maçantes minutos, capazes de resistir a uma jornada do Recreio a Botafogo, interrompida por engarrafamentos e retenções no trânsito! Fordlandia, além de chato, é um atestado de pieguice, que tanto quer ser triste, que, no final, soa apenas forçosamente triste – e insincero. (Thiago Filardi)

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Ouvir e tentar compreender o que informa (no sentido de dar forma a) Fordlandia pode ser uma experiência bastante desencorajante. Primeiro, porque a relação entre a música e a burilada explicação conceitual para a temática do disco parece bastante aleatória. No máximo, ela só serve para fornecer um clima ligeiramente melancólico, que por sugestão podemos associar a paisagens devastadas ou a sonhos faraônicos frustrados. Resta que, em todo caso, parece faltar um pedaço à lógica toda: a música não se basta para criar o clima inteiro, mas ao mesmo tempo só temos ela para nos guiar na viagem. Ou seja, acaba parecendo uma trilha sonora sem filme.

O que talvez, na verdade, fizesse até uma graça caso ela trouxesse interesse suficiente. Mas é aí que a experiência desencorajante toma formas propriamente musicais. Jóhannsson parece flertar com o moderno e com o clássico de uma maneira muito perigosa, complacente. Ele claramente conhece muito bem o trabalho dos minimalistas, em especial Philip Glass. Ele também bebe seu tantinho da delicadeza de Erik Satie, e isso fica muito claro. Só que ele parece aderir um bocadinho a esses compositores apenas para dar o retoque de modernidade (assim como usa, em outra chave, de sons eletrônicos para soar contemporâneo) para logo em seguida recorrer a estruturas de composição e arranjo fortemente decorativas, ou seja, ressaltar exatamente um aspecto composicional que o modernismo jogou para escanteio. Não que o decorativo deva ser evitado em todo tipo de composição – é só que, no contraste com outros elementos, seu excesso fica nítido e adquire a feição de gordura, de exageradamente pomposo.

Sobra, então, alguma sensualidade, algum charme pop ou exuberância de composição nas peças praticadas por Jóhann Jóhannsson? Algumas, em alguns momentos. Existe, por exemplo, um certo charme em ver as quatro “Melodia” variando timbre e arranjo para as notas, e a maneira como isso deságua na penúltima faixa do disco. Ainda assim, em matéria de economia e senso de composição, nada em Fordlandia se compara a “Elegia”, música instrumental do New Order que ouvimos a propósito do relançamento em edição deluxe dos primeiros cinco discos do grupo, e que curiosamente tem vários pontos em contato com o trabalho de Jóhannsson. Fluida, vibrante, nada pernóstica, ela flerta com o repertório canônico mas extrai dele beleza e relevância, ao contrário da modorra freqüentemente exalada por Fordlandia. (Ruy Gardnier)

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Me sinto meio idiota falando algumas coisas que, infelizmente, saem do pensamento e da boca com uma naturalidade urgente. Fazer o quê? Me envergonho de assumir, por exemplo, que não gosto de teatro. Já vi de tudo: dos mais celebrados e experimentais (Zé Celso, Gerald Thomas, Antunes, Bob Wilson) até os mais comerciais (Falabella, Rasi), passando por uns caras que eu nem soube classificar (como o Moacyr Góes, por exemplo). Mas não adianta. Trata-se de uma implicância com o meio, talvez: você ali, “representando” para o ator, para ele não se desconcentrar… E quando a peça é ruim mesmo, piora tudo. É assim com o teatro. No popular: não me fala ao pau. O mesmo posso dizer das exposições, dos happenings, de esportes inócuos como o tênis e a fórmula 1. E, ainda mais, dessa onda erudita “consonante”, que explora melodias satianamente adocicadas, estilo Jacaszek, que Johann Johannsson não se furta a cultivar nesse Fordlandia. O problema com esse tipo de antipatia é que furar o bloqueio requer uma tremenda energia mental, nem sempre disponível, já que aqui na Camarilha não somos juízes de tribunal. Bem, chega de blá blá blá: Fordlandia é, na minha opinião, um disco chato e sem graça. E não só isso: apesar de todas as hipóteses que podemos aventar sobre a expressividade de suas estratégias, ligando-o às diversas correntes da música erudita contemporânea, ou mesmo atribuindo-lhe uma releitura contemporânea da música barroca, tal como poderíamos entrever no trabalho de Josef Van Wissen, por exemplo, ainda assim não se pode salvar uma má experiência com argumentos. E para não reputar a experiência como de todo negativa, noto que, nas duas últimas faixas, algo se esboça, com algum interesse: “Melodia (Guidelines For A Propulsion Device Based On Heim’s Quantum Theory)” e “How We Left Fordlandia” parecem pastiches grandiosos de Schumann, ainda que mais comportados e condescendentes. Assim, entre mortos e feridos, fica a certeza de que o soporífero Jacaszek não está sozinho em sua cruzada pela reabilitação da música romântica. (Bernardo Oliveira)

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Publicado em 11 de novembro de 2008 por em Uncategorized.
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