Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Tom Zé – Estudando a Bossa (2008; Biscoito Fino, Brasil)

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Tom Zé é cantor, compositor e um dos músicos mais importantes do Brasil. Nascido em Irará, Bahia, despontou no final da década de sessenta ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa como um dos porta-vozes do movimento tropicalista. Em 1968, mesmo ano do álbum seminal da Tropicália, lançou seu primeiro e homônimo disco, contendo a canção vencedora de festival, “São, São Paulo, Meu Amor”. Na década de setenta manteve uma discografia constante e gravou duas obras-primas absolutas da música brasileira: Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1976). Porém, foi cada vez se afastando mais da ideologia tropicalista e dos ditames da indústria fonográfica, o que lhe rendeu anos de ostracismo e gravações pra lá de esporádicas, se tornando o arquétipo do músico marginal brasileiro. No início dos anos noventa foi redescoberto por David Byrne, que lançou através de seu selo Luaka Bop o disco The Hips of Tradition (1992), o que proporcionou a Tom Zé reconhecimento e sucesso dentre a crítica estrangeira. Certamente o aval gringo se viu refletido por aqui e no final daquela década, com os discos No Jardim da Política e Com Defeito de Fabricação, voltou a receber atenção da mídia e do público nacionais e assinou com a Trama, com a qual gravou regularmente até Estudando o Pagode [Na Opereta Segregamulher e Amor] (2005). Estudando a Bossa é mais um projeto da série “Estudando”, iniciada em 1976 com Estudando o Samba e o décimo quinto de uma carreira com quarenta anos recém-completos. (TF)

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Cinqüenta anos de Bossa Nova e um novo disco de Tom Zé sobre o tema. O ensejo é o mais apropriado e o cantor até seria chamado de aproveitador, caso não fosse quem é. De qualquer forma, analisemos melhor os fatos: em 1976, época em que o samba vivia um momento de ressurreição popular, Tom Zé lançava Estudando o Samba, álbum bastante experimental para o gênero e que subvertia todas suas regras, fosse na economia instrumental, no uso diferenciado de timbres de percussão, ou no conteúdo letrístico, minimalista e pouco usual na sua rima e temática; quase trinta anos depois, o músico decidiu reativar o projeto e gravou Estudando o Pagode (Na Opereta Segregamulher e Amor). O pagode não estava no auge, mas quem garante que esse não é o disco que ele teria feito entre The Hips of Tradition (1992) e Com Defeito de Fabricação (1998), caso tivesse assinado com alguma gravadora nacional? O fato é que ele pegou um assunto de notoriedade popular e o “estudou” com profundidade. Contudo, o “estudar” de Tom Zé implica o desmembramento, a subversão, a destruição e a quebra de paradigmas. Por mais que Estudando o Pagode não fosse um disco propriamente de pagode – assim como Estudando o Samba não foi um disco propriamente de samba -, havendo mais rock do que samba, sua intenção era se apossar de uma característica extramusical do gênero, nessa circunstância a subserviência da mulher em relação ao homem, e fazer dele um estudo, uma mini-ópera irônica e subversiva (tudo o que o pagode não é!).

A celebração em torno da Bossa Nova é complacente e tampouco estrita ao seu cinqüentenário. Há uns dez anos, desde que alguém teve a péssima idéia de justapô-la ao drum’n’bass, o gênero tem sido freqüentemente revisitado. Porém, sua reutilização e revivamento continuam restritas a uma esfera mimética e reacionária. Cantores e compositores novos ou velhos aproveitaram para gravar e regravar antigos sucessos ou compor em cima de um método já estabelecido. Por que não expandir as possibilidades de arranjo, de letra, ou até mesmo de novas contrações estilísticas, que não a mera justaposição de gêneros? A resposta é Estudando a Bossa. Nesse sentido, Tom Zé tende menos a homenagear e reverenciar um gênero virtualmente morto que aumentar sua capacidade formal, que se afunda cada vez mais em um processo de banalização e diluição.

A forma que o músico baiano utiliza para compor esse verdadeiro estudo não poderia ser menos genial: além de fazer um apanhado histórico e contextual da época em que a bossa foi criada, ele evoca os grandes personagens e agentes do movimento, os temas favoritos dos compositores e os estudiosos e detratores do gênero. Há, no entanto, uma grande contraposição entre as interpretações vocais de Tom Zé e das cantoras convidadas. Enquanto ele abusa de maneirismos e modos zombeteiros, as cantoras procuram sempre dar emoção e sinceridade aos seus versos, mesmo que as letras sejam de extremo escárnio e ironia. E talvez nesse antagonismo resida uma das grandes forças do disco, pois, ao utilizar vocais femininos o tempo todo, Tom Zé brinca a respeito do excesso de seriedade com o qual as cantoras contemporâneas interpretam o estilo. Trata-se de uma análise comparativa, através da qual ele extrai novas possibilidades de interpretação da bossa. Por que insistir no mesmo tipo de execução de cinqüenta anos atrás? Por que os temas usuais de sempre? E por que essa pose sisuda, se o assunto é um “barquinho” e um “pato”?

Estudando a Bossa proporciona momentos de puro brilhantismo. A primeira metade do disco, pelo menos, é impressionante. Não são apenas a apropriação orgânica que Tom Zé faz do gênero e a maneira sem pares de inová-lo que engajam e fascinam o ouvinte, mas também as composições e arranjos de incrível fineza, o tratamento maravilhoso que dá aos vocais femininos e as rimas frescas, criativas e grudentas. O disco não chega a ser do mesmo nível que os outros da série “Estudando” – principalmente por causa do Lado B, que não empolga tanto quanto o A -, da mesma forma que é infinitamente superior ao chatérrimo Danç-Êh-Sá, mas ainda assim é um jorro de inspiração e genialidade, que só um artista visionário e talentoso como Tom Zé é capaz de concretizar. (Thiago Filardi)

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É lícito esperar sempre o melhor quando vindo de Tom Zé. Trata-se talvez do único remanescente dos anos 60 na música brasileira de quem ainda se espera guinadas significativas de artista-farol. Mesmo Caetano já parece devidamente instalado, e até seus desvios camaleônicos () parecem por demais estudados. De Chico, Gil, Milton, nem se fale: estão assentados numa placidez que os afasta de vôos artísticos mais significativos. Tom Zé é hoje o único imprevisível, e o único cuja produção nos últimos dez anos não é um declive pronunciado em relação ao melhor da obra (Todos os Olhos e Estudando o Samba, lá na mesma altura que Construção, Milagre dos Peixes, Transa, Ben 69 ou Gil 68).

Mas Tom Zé também é capaz de dar provas de desgaste. Que a unicidade de sonoridade em cada disco seu realizado até Com Defeito de Fabricação seja em decorrência da distância de data entre um disco e outro, é algo que pode ser aventado, mas não é nada conclusivo, nem vem muito ao caso. Pois o fato é que, de lá pra cá, exista uma certa permanência de timbres, de composições e de opções de arranjo já por demais reconhecidas. Quando há um real fôlego de inspiração, como aconteceu com o supremo Estudando o Pagode (talvez seu melhor desde The Hips of Tradition), a redundância é minimizada. Mas quando Tom Zé flerta com o pastiche bossanovista e lhe aplica as mesmas estratégias costumeiras, a mesma guitarrinha aguda já característica, as mesmas levadas de bateria, arrisca degringolar.

E Estudando a Bossa não degringola apenas porque Tom Zé aqui se mostra um senhor letrista e um pensador inspirado das tensões culturais/políticas brasileiras. Os achados de letra são numerosos demais para inventariar num texto curto, e os pingos nos ii necessários sobre a bossa são todos trazidos com lucidez surpreendente: a “descoberta” do Brasil feita pela bossa nova, a singularidade de João Gilberto sobre o que eram “apenas” sambas-canções lindos, a necessidade do brasileiro de ser legitimado primeiro fora do país para depois ser celebrado dentro.

Mas, ao mesmo tempo, é de se pensar no porquê dessa profusão de cantoras incipientes que insistem em cantar “bonito” em cada faixa, quando tudo que conseguem é essa beleza prefabricada de um jobinismo diluído e decadente (ouvindo o disco parece que Leila Pinheiro é mais influente entre as cantoras do que Beth Carvalho, Elizeth, Nara, Bethânia, Gal, Elis ou qualquer outra cantora com real personalidade). Mais até que o instrumental previsível, são elas o principal fator de falta da vitalidade do disco. (Livremos a cara de Tita Lima, Anelis Assumpção, Badi Assad, o charme indefectível de David Byrne…).

Mas, no que me diz respeito, o Estudando a Bossa de Tom Zé para mim será mesmo a versão que ele fez de “A Felicidade”, que sozinha suplanta em invenção esse disco que, em matéria da carreira discográfica de Tom Zé, mais parece os discos de intervenção pública como Nos Jardins da Política do que propriamente um autêntico álbum de carreira. Esperamos que este seja um momento de respiro e preparação de um novo fôlego para próximos projetos. Como respiro, esse disco é até bem recomendável, mas certamente nada essencial. Não consigo de maneira nenhuma qualquer fã de Tom Zé daqui a 15 anos escolhendo qual disco do ídolo ouvir e pinçar este. O tempo dirá. (Ruy Gardnier)

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O barquinho: A primeira vez que ouvi uma crítica negativa à bossa nova foi pela voz grandiosa de Jorge Mautner. Para ele, o estardalhaço que se seguiu ao estranhamento que os modos de João Gilberto causaram no público brasileiro, a reboque da apresentação (e consequente aprovação) do público presente ao concerto do Carnegie Hall, tinha um quê de deslumbramento e implicava num apagamento das principais virtudes da música realizada no Brasil anteriormente. Mautner entrevia o “Brasil profundo” nas vozes do Brasil supostamente moderno, e uma modernidade abrupta nos exageros de Marlene e Vicente Celestino. E foi justamente através de um disco de Marlene que pude compreender o que Mautner dizia. Gravado um ano após às Canções do amor demais de Elizeth, justamente no ano do debut de João Gilberto, batizado sugestivamente de Explosiva!, este disco poderia ser considerado uma espécie de “eminência parda” do tropicalismo, graças ao canto rascante de Marlene, à pluralidade de ritmos e à ironia. Destas observações, resulta uma daquelas conclusões paradoxais que só um país com a dinâmica cultural que o nosso possui pode doar ao mundo: os tropicalistas emergiram sob o signo do rock’n’roll, de Carmem Miranda, do Brasil profundo de outrora, mas sobretudo de João Gilberto e Jorge Mautner, o mesmo que desqualificara a fascinação inócua que o público letrado nutria diante do arrojo que a bossa nova supostamente representava. Mas Caetano e Gil se mantiveram como grandes defensores deste movimento, embora devamos ressaltar que nunca o fizeram contra Marlene e Vicente Celestino, enquanto Mautner se posicionava contra o barquinho festeiro do Carnegie Hall.

A flor: “Se João Gilberto / tivesse um processo aberto / e fosse nos tribunais / cobrar direitos autorais / de todo samba-canção / que com sua gravação / passou a ser bossa nova / qualquer juiz de toga / de martelo e de pistola / sem um minuto de pausa / lhe dava ganho de causa”. Com esses versos, Tom Zé assinala o tema central deste novo álbum: é em João Gilberto que se encontra a chave para compreender o que é mais rico e valoroso na bossa nova, sua síncope, sua criatividade solar e sem igual em modular as sílabas e melodias, sua capacidade de reabilitar um passado que teve que se revestiu de modernidade à forceps. Mas Tom Zé escapa da euforia bossanovista quando lembra o “Tico Tico no fubá” de Abreu Gomes, quando, como Mautner, afirma ironicamente que “diante do desafinado / o mundo curva-se e desova / tudo até então louvado / foi jogado numa cova”, quando revaloriza o passado “bárbaro” que precedeu João. Mas, ressalte-se: não se trata de um disco tropicalista, porque aqui não se louva a bossa nova. Trata-se de um álbum conceitualmente fecundo, no qual Tom Zé fornece, à sua maneira, uma interpretação criativa da bossa nova. Para ele, a bossa é João, e, sobretudo, a síncope de João. Inclusive, nos delírios lógicos e criativos de Tom Zé, a síncope gilbertiana seria responsável até mesmo pela sinuosidade da ponte Rio-Niterói, afirmação que pode causar risos e estranhamento, mas que assinala precisamente o jogo de cintura “sincopado” com que artistas, políticos e pensadores passaram a abordar o problema Brasil a partir dos anos 50.

O espinho: “Mulher de música / melhor ficar na música / porque mulher de música é coisa de utilidade pública”. Há quem implique com a fase pós-Byrne de Tom Zé, graças a essa mania que ele vem cultivando, tornando seus álbuns depositários de grandes problemas, aproximando o esmero poético de discussões teóricas, crítica cultural, crítica de costumes, tudo misturado como convém à verve do autor. Eu também impliquei muito com o bric-à-brac de Defeito de fabricação, e toda aquela mise en scène teatral com direito a figurino e tudo mais… Mas era só uma implicância pontual, que, no entanto, não impedia que minha admiração aumentasse conforme a confusão que ele promovia. Em Estudando o pagode ele abordou a questão da mulher, aproveitando o ensejo criado pela temática romântica; no genial Danç-Eh-Sá eram os modos da canção, sua estrutura, quase um estudo à moda de Luiz Tatit. Desta vez, trata-se da bossa nova, essa canção-problema, esta representação problemática do Brasil. Reza a lenda que João Gilberto advertiu sua filha Bebel para que, nas efemérides que marcaram os 50 anos de bossa nova, não se metesse com Carlos Lyra e Roberto Menescal, segundo ele, impostores. Como se pode observar, a questão está longe de encerrar, seja pelo mal estar ocasionado por um cancioneiro popular que não consegue se livrar de sua influência, seja pelo bem da conta bancária dos oportunistas. E mesmo Tom Zé, mesmo este grande gênio, mesmo ele prefere elogiar personagens insossos como Mallu Magalhães e Fernanda Takai a reabilitar um velho e conhecido personagem deste debate, o grande pesquisador José Ramos Tinhorão, sem o qual muito pouco saberíamos a respeito do passado de nossa música, e um dos primeiros a reconhecer a genialidade exclusiva de João Gilberto e sua presença decisiva, não em relação à farra da bossa, mas sobretudo como mais um belo capítulo da história do samba [Tinhorão, 1969].

O samba de uma nota só: À exceção dessa bola fora (“Tinhorão que horror!”), Estudando a bossa é um álbum luminoso, que traz momentos sublimes de plena criatividade e reflexão, além de uma forma de compor e cantar únicas, características que têm conferido a Tom Zé o estatuto de um dos grandes personagens do underground mundial. “O Céu Desabou” e sua jogada primorosa com o nome dos críticos musicais, “Brazil, Capital Buenos Aires” com sua piada matadora, “Solvador, Bahia de Caymmi” com seus versos em inglês na bela voz de Anelis Assumpção, a vocação soft-pop de “Roquenrol, Bim-Bom”, o sambão “Síncope Jãobim”, tudo com aquele molho característico de Tom Zé, com seus riffes e dribles poéticos. A lamentar somente o fato de que, infelizmente, todo esse trabalho não impedirá que o barquinho prossiga sua longa caminhada pela afirmação classista e insensata de que a música brasileira nasceu e morreu numa esquina de Ipanema. Mas isso não é problema dele… (Bernardo Oliveira)

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4 comentários em “Tom Zé – Estudando a Bossa (2008; Biscoito Fino, Brasil)

  1. Vinicius Werneck
    27 de novembro de 2008

    Excelente texto. Muito bem escrito, viu? Achei delicioso ser sua resenha do novo álbum do Tom Zé! Vale a leitura! Abs!

  2. Tiago Fernandes
    25 de abril de 2009

    Parabéns pelo texto!
    Tom Zé é mesmo genial!!!

  3. Mario Imori
    11 de maio de 2009

    Muito bom o texto. Expressa bem os sentimentos que a gente tem quando ouve Estudando a Bossa. Esse disco é, realmente, para poucos ouvidos – aqueles que conhecem a história e as desventuras da noss música.

    Parabéns.

  4. Anselmo Soares
    8 de dezembro de 2010

    Preciso adquirir um exemplar do disco Estudando a Bossa. Como posso fazê-lo? Anselmo

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Publicado às 17 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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