Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

DJ /Rupture – Uproot (2008; The Agriculture Records, EUA)

dj-rupture-uproot

DJ /Rupture é Jace Clayton, DJ e produtor nova-iorquino. Começou sua carreira musical no final dos anos noventa, fazendo parte do grupo de drum’n’bass, Toneburst. Em 1999 criou seu selo próprio, a Soot Records e lançou Rummage About, ao lado de Config.Sys o primeiro split de 12” de uma longa série, que inclui colaborações com The Bug e Kid606. A primeira mixtape, Gold Teeth Thief saiu em 2001 pelo selo Tigerbeat6, de Kid606. Em 2004 veio Special Gunpowder, seu primeiro álbum composto somente de material próprio. Clayton também é integrante do grupo Nettle, que abrange músicos de três continentes diferentes e tem base em Barcelona. Uproot é sua mais nova mixtape. (TF)

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DJ /Rupture é a síntese do DJ moderno multifacetado, multidirecionado, pluralista, que rejeita rótulos e abraça todas e quaisquer formas musicais que lhe agradem. Não existem fronteiras para a música de Jace Clayton. Ele passeia livremente pelo hiphop, drum’n’bass, glitch, breakbeat, dub, ragga, reggae, dancehall, folk, ambient, dubstep, música árabe, indiana, africana e por aí vai. Não há limites formais tampouco estruturais para sua concepção de arte. E ao romper com todas essas barreiras de linguagens musicais e de mixagem, ele criou um novo conceito de disc-jockey, que não é mais aquele de mero “entretenedor”, interface substituível entre o ouvinte e a música.

É claro que com as possibilidades abertas pela música eletrônica dos anos noventa o conceito de DJ se transformou e o mesmo passou a ter uma posição mais ativa na construção e formação musical do seu público. Clayton é herdeiro dessa cultura, mais especificamente do jungle, estilo do qual é originário e que sempre foi uma de suas marcas registradas, mas que ele tem se mostrado menos interessado – ao menos é o que comprova Uproot. Contudo, há um novo ingrediente que passou a fazer parte de seu leque musical: é o dubstep, ritmo que veio para seguir uma tradição e preencher o vácuo deixado pelo drum’n’bass, que depois de anos imperando como o ritmo mor das pistas, demonstrou sinais de cansaço e esgotamento em sua fórmula.

O que mais impressiona em Uproot, entretanto, não é o escopo musical virtuosamente utilizado e aproveitado por Rupture, mas o modo com o qual ele atravessa por gêneros tão diversos, fazendo mixagens e combinações com tanta naturalidade que mal dá pra perceber quando uma faixa se sucedeu à outra. E por mais que discos como Gold Teeth Thief e Minesweeper Suite sejam mais inovadores e experimentais no âmbito da mixagem – às vezes chegando a ter sete músicas embutidas em uma faixa só -, nestes, é mais perceptível o instante em que as faixas mudam.

Em Uproot fica explícito mais uma vez por que Rupture é um dos DJs mais importantes do momento. Não só versátil e atualizado, mas Clayton sabe, como poucos, fazer uso de sua habilidade tão especial, que é transitar por estilos diferentes e nos apresentá-los em um novo formato, uma nova delineação, incitante e excitante, inquieta mas também orgânica. Uproot agora se junta às grandes mixtapes do ano, como Sessions, de Carl Craig e a Dubstep Allstars de Appleblim. Mas, ainda assim, merecendo um lugar especial, afinal, tal prova de ecletismo e amor à música, seja qual for sua forma ou sua origem, não se encontrará em lugar nenhum. E se há alguma ruptura na estética de Clayton, é essa – a que concerne o modo de se relacionar com a música nas suas mais incríveis variedades e possibilidades de criação. (Thiago Filardi)

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Bill Krohn, crítico americano de cinema, tem um problema com os filmes-ensaio. Ou melhor, ele tem um problema com a repercussão tão favorável deles diante da crítica. Com uma razão bastante digna de nota: é um gênero que, por trabalhar no mesmo gênero especulativo que o crítico, operando mais por idéias do que por expressão (sabemos a volatilidade do vocabulário, mas deixemos assim), bajulam seu procedimento e excitam seu narcisismo – “o artista faz o mesmo que eu, por outros meios!”

Mixtapes são formas normais de expressar-se e ser criativo através da música, mas as mixtapes de Jace Clayton não são como as outras. Elas não conformam uma sensibilidade que perpassa a seleção dos trechos, elas não incorporam (ou quase não) intervenções determinantes do artista, e também não conflagram aquele olhar de especialista e divulgador de gêneros precisos que vemos nas compilações de DJs. Com Uproot, é acima de tudo uma questão de conceito, e um conceito muito preciso: virar uma espécie de globe-trotter musical e passear pelos mais variados circuitos geográficos para mostrar ressonâncias inesperadas (ainda mais quando se sabe a proveniência de alguns dos artistas pinçados, por exemplo o fato de Clouds ser um time de produtores finlandês – aliás já comentado aqui na camarilha – que faz dub e dubstep e em “Elders” se associou com produtores de dub ingleses para lançar um ep a partir de um riddim jamaicano do cantor Cocoa Tea) no seio de cenários culturais tão distintos. Lembrando Nam June Paik, bem poderíamos chamar de “global groove” aquilo que Jace Clayton faz com Uproot.

Mas é aí que, se forçarmos um pouquinho a cabeça e começarmos a testar o conceito, perceberemos que o disco não vai muito longe em nenhuma proposição e que ele parece milimetricamente talhado ao gosto do discurso de globalização e diversidade de fontes, lugares e estilos. O projeto é exercido com esmero, por vezes com belos achados – como misturar “Naked” do Shackleton com um solo de Erhu, espécie de berimbau chinês –, mas o resultado geral sai um tanto populista e descolado em excesso. Até o uso de um artista que nada tem a ver com música dançável, como Ekkehard Ehlers, parece estar ali justamente por isso, para dar um verniz de abrangência e diferenciar o projeto dos mixes inteiramente voltados à música de pista de dança, como as coletâneas da Fabric ou as Dubstep Allstars.

Dito isso, vale notar que Uproot é uma mixtape bem agradável de se ouvir, e que Jace Clayton é um pesquisador frenético. Mas vale notar a observação de Bill Krohn: não é só porque tem conceito que significa que o conceito é genial e que ele é orquestrado de forma expressiva e vigorosa. Uproot, no fundo, equivale a uma boa seleção num programa de rádio: tem uma relevância imediata mas não uma sensibilidade pregnante, tende a desgastar-se nas audições repetidas e, uma vez saído do radar, dificilmente voltará a ser comentado como tal. Restam, no entanto, algumas boas músicas escolhidas, talvez uam idéia ou outra de mixagem ou de mashup. Nada que sustente comparação, claro, com Avalanches ou, em outra chave, com 2 Many DJs nos momentos inspirados. Talvez seja parte do que Jace Clayton, como dj-crítico, quer: divulgar algumas músicas que gosta, dar a elas maior visibilidade. O problema é o hype circundante. (Ruy Gardnier)

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De todas as mixtapes gravadas por Dj Rupture, a mais intrigante e mais fiel a seu estilo iconoclasta é a de 2002, chamada Minesweeper Suite. Se a grande maioria dos Djs têm na festa e no sacolejo sua profissão de fé, Dj Rupture, como bem assinala seu nome, está preocupado em criar espaços sonoros onde operam o desconhecido e o inusitado. Em primeiro lugar, ele não confirma nem busca surpreender pela confirmação, quero dizer: ele não mixa nem seleciona como se estivesse querendo acionar no ouvinte aquele interstício entre o assimilado e a surpresa, como ocorre por exemplo com Dj Marky ou Dj Shadow, ocupados nos grooves e na administração da pista. Pelo contrário: Jace Clayton busca, como escrevi, criar “espaços” sonoros específicos, independentes da seleção musical. Essa característica, me parece, se encontra em toda a sua plenitide em Minesweeper Suite: a manipulação virtuosa do pitch, as sobreposições nem sempre convenientes aos andamentos, as escolhas musicais extremamente abertas e multifacetadas… Em Minesweeper Suite, mas também em Special Gunpowder, estes elementos aparecem com mais firmeza que nesta nova e incensada mixtape, Uproot. Ela é de fato saborosa para aqueles que, com os ouvidos bem abertos, desejam captar as nuances e a continuidade do trabalho diferenciado de um artista preocupado em alargar os conceitos de djing, mixtape, mash up, etc., mas me parece uma continuidade aquém do que ele vinha desenvolvendo. Num ano onde pudemos tomar contato com excelentes mixtapes, que primaram mais pela desconstrução do que pela conservação, como a parceria sagaz de Diplo com Santogold, Dj Rupture escolheu um viés mais convencional, pelo menos no que diz respeito à conservacão e integridade das músicas selecionadas. Quero dizer: embora se possa dizer que esta seleção condensa estilos musicais muito diferentes, as passagens e sobreposições são convencionais. O que não impede que, com os tais ouvidos abertos a que aludi acima, obtenhamos muito prazer tanto com sua audição contínua, como com a pesquisa que Uproot estimula – sobretudo a partir das últimas três faixas, respectivamente assinadas por Professor Shehab & lloop, Dead Leaf e We™. (Bernardo Oliveira)

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2 comentários em “DJ /Rupture – Uproot (2008; The Agriculture Records, EUA)

  1. IAN
    6 de agosto de 2009

    Onde posso conseguir as letras do Uproot?
    Estou desesperadamente à procura.

    • thiagofilardi
      6 de agosto de 2009

      Fala Ian!

      Valeu pelo comentário. Pô, bicho, acho difícil você encontrar as letras numa fonte só, já que o disco é uma mixtape. O jeito é procurar as letras isoladamente, nas páginas dos artistas.

      Aí vai um link com a tracklist: http://www.discogs.com/DJ-rupture-Uproot/release/1483069

      Abraços e volte sempre!

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Publicado em 18 de novembro de 2008 por em Uncategorized.
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