Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cheval de Frise – Fresques sur les parois secrètes du crâne (2003; RuminanCe, França)

chevalfresques

Cheval de Frise é uma dupla instrumental francesa de Bourdeaux formada pelo violonista Thomas Bonvalet e pelo baterista Vincent Beysselance em novembro de 1998, freqüentemente associada ao math rock e ao progressivo pelo virtuosismo dos músicos, pelas desenfreadas mudanças de andamento e pelos ritmos quebrados. O primeiro disco do grupo, Cheval de Frise, foi lançado em 2000. No ano seguinte veio um split de 7” com a banda Rroselicoeur. Fresques sur les parois secrètes du crâne, de 2003, é o segundo álbum do duo, que separou-se dois anos depois, deixando como testamento o mini-LP La Lame du mat, de 2005. Bonvalet segue carreira solo com um projeto intitulado L’Ocelle Mare, e seu primeiro álbum, epônimo, foi lançado em 2007. (RG)

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Arriscando a redução, poderíamos dizer que os grupos circunscritos no gênero math rock freqüentemente se encontram diante de uma encruzilhada: ora a efusividade diante da experimentação com ritmos e andamentos inusitados resseca todo o sentimento na criação de uma música cheia de interesse mas vazia de emotividade, ora a emotividade entra de vez desvirtuando a proposta e soando como a enésima banda de post-rock a diluir o que grupos como Gastr del Sol ou Godspeed You! Black Emperor já fizeram com suprema inspiração. Creio que só por isso o Cheval de Frise já é uma banda a ser considerada como decisiva dentro do cenário musical contemporâneo: eles conseguem compor e interpretar músicas de dificuldade assustadora, e ainda assim fazer com que a música soa acima de tudo lírica, instintiva, emotiva, sentida.

São dez as faixas de Fresques sur les parois secrètes du crâne, mas na verdade poderíamos dividi-las nuns cinqüenta movimentos de uma mesma pela coerente. Em parte, porque fragmentação é um dos nomes do jogo da dupla. Parte do enorme encanto de ouvir Fresques… (nesse sentido mais que o primeiro do grupo, ainda muito ligado nas bases do power rock instrumental e dos crescendos do post) é perceber alguns microinstantes de beleza de violão dedilhado que rapidamente somem para dar origem a outro dedilhado, a um momento de dinâmica com a bateria, a uma explosão barulhenta… São fulgurâncias de pequena duração mas que transportam nossa imaginação para mil lugares diferentes, lugares que o próximo movimento certamente rejeitará provocando a aparição de outros, e assim por diante.

Num certo sentido, o Cheval de Frise lembra muito os projetos de Tatsuya Yoshida, sejam os Ruins ou as parcerias com Keiji Haino (o fiel leitor da Camarilha há de lembrar-se de nossos textos sobre Hauenfiomiume), pela versatilidade, pela intensidade do jogo percussivo, pela aparência de se estar ouvindo jazz improvisado quando tudo aquilo é laboriosamente composto e ensaiado, mas acima de tudo pelas mudanças radicais de andamentos, esmeradamente fugindo dos habituais 2/4 e 4/4. Mas é aí que entra a estrela do violonista Thomas Bonvalet e seu modo inteiramente original de reinventar o pontilismo (ao menos no sentido que o termo é usado no brilhante texto de Michael Anton Parker sobre o disco do CdF), criando uma maneira cubista de construir a posição das notas dentro do ritmo, repeti-las e abandoná-las. E aqui é necessário notar a escolha do instrumento. Uma guitarra eletrificada necessariamente jogaria mais peso porém menos precisão no manejo rítmico. Já o violão, amplificado mas geralmente sem muito filtro em cima, proporciona uma limpidez de timbre e duração de nota que é perfeito para o minucioso trabalho operado pela dupla. Ruins, Yoshida, eles são referência até certo ponto: há no Cheval de Frise, e no Fresques… em especial, um lado sutil, uma vulnerabilidade do insrtumento, uma delicadeza para compensar os arroubos de violência ocasionados pelas mudanças de ritmo e pela velocidade surpreendente de certas passagens.

Que toda a discografia conte menos de cem minutos, no fundo, pouco importa. Bonvalet & Beysselance foram lá e mataram a charada que impedia belas bandas como Hella ou Don Caballero de alcançar um grau maior de excelência: reequacionaram lirismo e manejo técnico, e assim encontraram uma maneira única de associar cerebralidade com calor humano. No meu livrinho isso vale a eternidade. Vamos ver se a posteridade será justa com essa dupla tão sensacional quanto efêmera (Ruy Gardnier).

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Já tendo escutado este álbum bem mais que as três vezes a que nos obrigamos aqui na Camarilha, posso afirmar que já percebo o trabalho do Cheval de Frise para além de sua aparência superficial. É que, à primeira vista, a música do Cheval pode ser confundida com o apanágio do math rock, ou de um onanismo instrumental vazio e sem viço. Entretanto, o baterista Vincent Beysselance e o violonista Thomas Bonvalet, integrantes deste grupo admirável, criaram uma linguagem própria dentro de uma concepção mais ou menos desgastada, que tanto pode ser arrolada na onda math rock como, ainda, confundida com um free-improv desconcatenado. Mas é justamente nas fissuras deste cipoal de rótulos, referências e possibilidades de apreensão que o Cheval de Frise exibe sua arte de forma plena e, por quê não, lírica e emotiva. Aqui não vale a crença de que há entre emoção e espontaneidade uma relação de necessidade, pois cada elemento é composto, trabalhado e executado com esmero e capricho. O que mais admira no entanto não é o esmero da execução, mas a profusão vertiginosa de texturas e climas que literalmente assola o ouvinte. Quero dizer: o virtuosismo do Cheval é desbravador: técnica, pensamento e criatividade operam em conjunto em Fresques sur les parois… Mas como funciona essa estrutura atípica? Tal como o obstáculo que lhe serve de nome, o Cheval de Frise sabe alternar uma agressividade descontrolada com doçura, elementos que poucos manuseiam sem perder o ponto, geralmente pecando ora por excesso, ora por falta. Particularmente no que diz respeito ao trabalho do violão, estas características se intensificam: Bonvalet agita violentamente as cordas, para logo depois realizar um dedilhado simples e singelo; lança mão de suas capacidades monstruosas, não por mero exibicionismo, mas para explorar ao máximo as possibilidades do violão – é especialmente assombroso quando o violonista realiza duas seqüências melódicas diferentes ao mesmo tempo, à la Robert Johnson. Mas, note-se: a música do Cheval não é fácil ou acessível, à primeira audição: é preciso se aventurar com curiosidade e ouvidos abertos na selva de timbres, tons e ritmos que compõem Fresques sur les parois…, o que para muitos pode ser um trabalho ingrato e tedioso. Mas para os que ultrapassam essa fase, o deleite é garantido. (Bernardo Oliveira)

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O Cheval de Frise parece reunir duas das escolas do rock que eu mais detesto após o metal: o dito math-rock e o abusado pós-rock. Ainda que não se trate de um disco ruim, é de dar na paciência. Na primeira audição, após ouvidas três faixas, eu achava que já estava ouvindo aquilo há umas duas horas e, quando fui verificar, tinham se passado apenas dez minutos – o disco é bem curto, quase que exatos trinta e cinco minutos. A palheta sonora é limitada e as faixas nunca são muito longas. Eles também não se prendem muito em um ponto, apostando na formula ganhadora do segurar/liberar, do atacar-contemplar… nada que não tenhamos ouvido à exaustão nos últimos quinze anos e que ficaria muito grato em não ter que ouvir novamente. De nada adianta o rigor e a boa execução – falta vida, sobra tédio. Às vezes parece que estamos ouvindo versões acústicas daquelas músicas, daquelas bandas que não precisamos citar os nomes. Talvez um show dos caras seja muito bom, especialmente misturado às vozes do público – pode resultar em um Godspeed You! Black Emperor chique – talvez. Para não dizer que não falei de flores, as distorções na faixa-título são ótimas e por isso mesmo esta é a única faixa que após as audições consigo diferenciar das outras. E curioso que a pior faixa do disco é justamente a seguinte. Sei lá, agora vi que tem algo com agonia no título: não sei nada de francês, mas talvez os caras tivessem tido a noção da merda que ‘tavam fazendo e aquele fim de faixa é apelativo – no show, deve ser a hora de ir no banheiro. Até nunca mais. (Marcus Martins)

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Há uns que usam a virtuose para o bem e outros que a usam para o mal. É simples e maniqueísta assim. A primeira hipótese engloba os artistas preocupados, sobretudo, com a musicalidade e o conceito do som, ou seja, utilizam a técnica herdada ou apreendida em prol da música. Neste flanco podemos incluir nomes como Frank Zappa, Ornette Coleman, Albert Ayler, Cecil Taylor, Eddie Prévost, John Zorn, Joanna Newsom, Joni Mitchell, Prince, Tortoise dos primeiros discos, John Cale, Robert Fripp, João Gilberto, Radamés Gnattali, etc; a segunda hipótese reúne os músicos que colocam a técnica à frente da música, ou os meios cognitivos à frente dos fins sonoros. Dentro desse grupo podemos citar Rick Wakeman pós-Yes, Steve Vai, Whitney Houston e suas crias, as bandas de rock farofa da década de oitenta, os conjuntos de metal melódico, Mars Volta, Jamie Lidell e, claro, mais notoriamente, Yngwie Malmsteen.

O Cheval de Frise, por mais que isso possa soar contraditório relacionado ao que foi dito acima, se insere no meio das duas possibilidades. Trata-se decerto de um grupo criativo, que explora, principalmente, variadas formas de andamento rítmico. E a sonoridade intricada, mesmo que minimalista na utilização de instrumentos (é um duo de violão e bateria apenas), traz resultados maximalistas e complexos – a dinâmica entre Bonvalet e Beysselance é hirta e enérgica, trabalhando com tempos quebrados o tempo todo. O violão de Bonvalet é caracterizado pelo uso constante de arpejos, com uma tendência post-rock, enquanto a bateria de Beysselance prioriza a cadência do jazz.

O problema de Fresques sur lês parois secrèts du crâne é o excesso da técnica, que embora traga ótimos resultados “musicais” em inúmeros momentos, não esconde sua inclinação masturbativa e demasiadamente formal, que acaba por beirar um vazio conceitual. A influência do post-rock anos noventa no violão de Bonvalet (que, aliás, é incapaz de escolher um bom timbre para seu instrumento) também é notável e se torna incômoda. Impossível não se lembrar de grupos como Cul de Sac, Slint, Chavez, June of 44 e Polvo. É uma pena, porque se eles tivessem trilhado para um caminho mais jazz, aproveitando as qualificações e virtuoses de Beysselance, o resultado seria mais interessante e satisfatório. Mas, enfim, o grupo já acabou e não há mais o que lamentar ou aconselhar. O disco taí. A quem interessar… (Thiago Filardi)

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Publicado às 24 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , .
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