Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

DJ Tudo – Garrafada (2008; Selo Mundo Melhor, Brasil)

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Alfredo Bello é músico, produtor e pesquisador de música tradicional brasileira. Seu acervo conta com mais de 800 horas de gravações originais, com os quais ele estruturou e fundou o selo Mundo Melhor. Quando mixa seu vasto repertório ao hip hop, ao jazz e à música eletrônica, Bello atua sob o pseudônimo DJ Tudo. Garrafada é seu primeiro álbum. (BO)

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A aventura do musicólogo Mário de Andrade no coração do Brasil “profundo”, aventura esta a que ele se dedicou como pouquíssimos, fez nascer a então única coleção de gravações e fotografias que fizeram despontar a ainda incipiente musicologia no Brasil. Lá se vão 70 anos que Mário partiu com uma tropa de voluntários dispostos a angariar o máximo de material possível, com rigor e método: o chefe da expedição, Luís Saia, o maestro Martin Braunwieser, o técnico de som Benedicto Pacheco e o assistente Antônio Ladeira. Munidos de um arsenal de gravadores, amplificadores e pré-amplificadores, câmeras para fotografia e filmagem, papel e lápis, a equipe percorreu Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará e Minas Geraes, topando ora com cantorias, ora com aboios, tambores, congos e toadas, flutando por entre as mais diversas interseções culturais que caracterizam as regiões do país. Anos mais tarde, já no final da década de 70, a Funarte retoma, não o mesmo projeto, mas a mesma idéia, e lança o Documento Sonoro do Folclore Brasileiro. Corta.

No ano em que a Missão de Pesquisas Folclóricas capitaneadas por Mário de Andrade completa 70 anos, com o conseqüente (e tardio) lançamento de uma bela caixa com seis cds, o músico, pesquisador e diretor do selo Mundo Melhor, Alfredo Bello, também conhecido como DJ Tudo, lança o CD Garrafada, cujo trabalho pode ser definido como uma mistura de música tradicional brasileira com jazz, hip hop e música eletrônica. É claro que entre o mero registro e a apropriação e reinterpretação dos chamados ritmos tradicionais habitam mundos e fundos, mas, para justificar o corte, eu faria uma comparação: Garrafada possui, como irmão gêmeo, o disco de Siba e a Fuloresta, Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar. Irmão gêmeo não por conta de uma sonoridade similar, pois quanto a isso eles são bem diferentes. O critério aqui é a disposição e a forma de encarar o legado (e até mesmo se se trata efetivamente de um “legado”, ou se a mera utilização desta palavra já expõe um problema maior). A regra aqui assemelha-se a que rege o disco de Siba: a tal “música tradicional” não está morta, ou moribunda; ela carece simplesmente de um trabalho que a leve em consideração em pé de igualdade com as músicas patrocinadas por grandes meios de comunicação. Até ai, morreu Neves, e, nesta conversa toda, teríamos um único padrinho, Chico Science.

Mas, vejam: sugiro que retrocedamos alguns passos atrás e revejamos a experiência de Mário e sua turma. Hoje parece indubitável que ela constitui uma saudável e disposta contribuição para a compreensão da música do Brasil, permamecendo portanto na dimensão do registro e da descoberta. Mas se ouvirmos as faixas gravadas pela Missão Folclórica, repararemos que nem mesmo a boa vontade tem domínio sobre dois elementos extremamente sensíveis e rebeldes, a saber: o aspecto físico do som, a forma como ele é captado, as condições climáticas, as afinações e como todos esses elementos acabam soando na gravação; e o calor do momento, a emoção do intérprete que, à revelia do registro, impõe sua força. Sob estes dois aspectos, me parece o trabalho da Missão extrapola o mero registro e pode ser arrolado como uma parceria criativa entre a equipe e o artista – inclusive, como veio a ocorrer décadas mais tarde no trabalho de Beto Villares, Hermano Vianna e LC Varella na caixa quádrupla Música do Brasil. Neste sentido, o que admira em Garrafada é a habilidade de Bello em operar paralelamente com a captação e com a emoção, combinando-as em sínteses criativas que jogam com o caráter identitário do registro, mas não se esgota nele. Ele recorta e compõe estruturas que, embora se utilizem dos timbres da música tradicional, podem ser remontados tanto para sugerir um jungle como para soar como uma congada, ou, como é comum no disco, podem soar simplesmente como DJ Tudo. E não são poucas vezes em que isso ocorre, como no drum’n’bass “Hilária”, com suas percussões sobrepostas e diversas camadas rítmicas; nas batidas quebradas de “Rap do Rosário”; no trip hop sertanejo de “Em cima daquela serra”, ou ainda no techno anômalo de “Desabarágua”. O disco surpreende porque, embora resvale às vezes no multiculturalismo institucional que impera nos meios de comunicação, não deifica ingenuamente as manifestações regionais. Muito pelo contrário: para os que persistem no cultivo de uma mentalidade xenófoba, estilo CPC-UMES, Garrafada pode soar até desrespeitoso, tamanha a desenvoltura com que Bello manipula e sintetiza as vozes, ritmos, melodias e harmonias.

A única nota negativa é o teor um tanto panfletário das diversas vozes que salpicam o álbum. A jogada com o lance de dados de Mallarmé em “Baião De Viola – É O Dedo” e a embolada de “Batucajé” constituem exceções. Mas a segunda faixa, em que a descrição estatística da situação do negro no Brasil contrasta com a importância do legado africano para nossa cultura, pode passar perfeitamente como discurso institucional, o que felizmente não compromete o teor musical da faixa, um afrobeat matador. Mas é justamente nesta seara que o trabalho de Bello é admirável, e é estritamente nela que devemos enfocá-lo e usufruí-lo. (Bernardo Oliveira)

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DJ Tudo manja de um groove, sabe armar a parada com finesse e ainda por cima é politizado, incrementa música com umas estatísticas prá fazer a cabeça. Tenha paciência. Ele parece próximo desses DJs/produtores/músicos como Marcelinho da Lua, Marcelo D2… sob o guarda-chuva de fazer misturas com “consciência” e aquele papo de sempre, fazem na verdade música para o rádio que na maior parte do tempo nem o gringo quer ver, à exceção do D2 que em meio a toda sua babaquice fez música de qualidade. O diferencial do DJ Tudo seria a sua versatilidade, demonstrando ter boa capacidade de fugir das misturas óbvias; o ruim é que, apesar disso, em muitos momentos ele solta aquela batida drum’n’bass que quase assassinou a música brasileira nos últimos anos e apenas empobrece suas composições. O disco é repleto de ótimas idéias, colisões instigantes mas diferentemente de um DJ/rupture, ele parece não saber o que fazer disso. Seria momento de lançar um manifesto: o drum’n’bass está proibido no Brasil, mesmo o drum’n’bass bom é ruim e quem infringisse a regra deveria ser punido com a missão de fazer um disco só com samples do Jota Quest. Entendam, o drum’n’bass é um câncer na música brasileira, precisa ser extirpado. Onde o DJ Tudo emprega qualquer outra batida fica evidente a melhor adequação musical.

Isso coloca em xeque a validade de um disco como esse; se o cara por trás do DJ Tudo é um pesquisador, o que significa essa colcha de retalhos, muito próxima ao que muitos fizeram nos últimos anos? Qual o sentido da mensagem acoplada à música? A seriedade que ele demonstra em outras mídias não é aparente aqui, o discurso é pobre e gratuito. Pode parecer que pego pesado, mas as letras parecem exploração barata e depois de ouvir uma faixa como “Por um mundo melhor”, daria vontade de quebrar o disco/CD, se eu tivesse um nas mãos.

Se ele tem boa mão de DJ, o disco reflete bem sua alcunha, pena que ele parece não ter ouvido o Candombless do Carlinhos Brown, um dos poucos discos brasileiro nos últimos anos a apontar um caminho interessante. Tudo cabe sob o guarda-chuva do ecletismo do DJ Tudo e no fim resta muito pouco. Pode até ser uma garrafada, mas é de plástico. (Marcus Martins)

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Garrafada, disco de estréia do DJ brasiliense Alfredo Bello, pode ser resumido por sua primeira faixa, “Abertura”: instrumentos do folclore brasileiro, como o berimbau e o acordeon, são misturados a efeitos eletrônicos e samples de voz, que formam uma miscelânea intensa e de batida forte e concisa. O problema do álbum, contudo, é que se detém na promessa dessa faixa. O trabalho de percussão é, no geral, muito bom e rico, mas abusa do maior cacoete referente à música eletrônica feita no Brasil atualmente, que é a adição do drum‘n’bass. E esta é uma característica peremptória para os artistas daqui que desejam criar uma música eletrônica distinta e criativa (veja os exemplos de Guizado e São Paulo Underground, que fizeram grandes discos esse ano destituídos de qualquer resquício do jungle). Sem contar a guitarrinha funkeada que permeia o disco todo. Até quando Jorge Ben vai ser a referência máxima da música dançante criada no país?

Além disso, o que mais incomoda em Garrafada é seu discurso confuso e redundante, como em “Nossa África”, na qual os narradores não se decidem se são piedosos ou celebrativos em relação aos afro-brasileiros. Os raps, cantos e samples de voz também são, na maior parte, ruins ou mal-utilizados, quiçá exacerbados. “Por um mundo melhor” mostra um rapper sem talento algum, destilando rimas primárias e totalmente desprovidas de flow. “Em Cima Daquela Serra”, com os vocais repetitivos e monocórdicos de Lourdes de Anora, beira o insuportável. A intenção de Tudo é até interessante: condensar e explorar sonoridades folclóricas do Norte e Nordeste brasileiros. Mas falta aí uma coesão e um mergulho mais profundo nas culturas locais. Nem preciso repetir o quanto é desnecessária a presença do drum‘n’bass (como impregnou aqui esse gênero!)… Garrafada proporciona, quando muito, alguns momentos agradáveis, que são ofuscados pela longuíssima e inconseqüente duração do disco. O conteúdo musical apresentado é, no final das contas, o discurso sonoro de um DJ que é tudo, mas ao mesmo tempo, nada. (Thiago Filardi)

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Houve um tempo em que as misturas de gêneros e tradições eram vistas, se não com maus olhos, ao menos com uma certa suspeita. Mas desde o final dos anos 80, graças à estética de colagem própria ao hip-hop e principalmente à proliferação dos meios de acesso a informações sobre músicas e manifestações culturais do mundo inteiro, misturar é ser in. Sincretismo, experimentação, multiplicidade, desterritorialização: essas, junto com outras, são as palavras para elogiar essas fusões de estilos, e de fato elas são a cara de nosso tempo, além de que essas palavras são incomensuravelmente melhores do que seus opostos. A questão não é colocar em questão a mistura, mas indicar que ela transformou-se em discurso oficial e desgastou-se como prática. É claro que ainda podem aparecer artistas geniais que decidam trabalhar nesse terreno conseguindo resultados louváveis; a arte é imprevisível e não tem regras – ao contrário, geralmente ela zomba delas. Só que esse desgaste pode fazer nascer uma distorção e atribuir um valor de experimentação e originalidade a artistas que só resolvem misturar porque é a prática da moda. Garrafada parece todinho talhado para se inscrever nesse código multiculturalista, misturando hip-hop, Fausto Fawcett, Fela Kuti, samba, capoeira, drum’n’bass, etc. E, nas letras, um bom-mocismo enervante: dados estatísticos sobre a situação do negro no Brasil em “Nossa África”, falados como um William Bonner que ficou sem comida por duas semanas, citação malandrinha a Mallarmé em “Baião de Viola – E o Dedo”, Pascal em “Caniço Pensante” e a babinha “Por um Mundo Melhor”, fácil a pior do disco, uma espécie de hino gospel moderninho com mensagem esperançosa. A tônica do disco – ironicamente, porque não é isso que se espera de um disco que propõe mistura e incorporação de estilos – é a previsibilidade.

Por outro lado, DJ Tudo é um produtor talentoso e esmerado. Ele não tem um forte para composição, mas luta para conseguir as sonoridades que quer, e chega a algumas bem interessantes. A melhor delas é a parte instrumental de “Nossa África”, em especial o naipe de metais, produzindo um belo afrobeat em homenagem ao dito continente negro. “Hilária”, “Manganga” e “Verdelinho das Alagoas” não ficam muito atrás, incorporando com muita fluência sons tradicionais com eletrônica. Mas o resto do disco é francamente pouco inspirado, seja na diluição (“Em Cima Daquela Serra” é um downtempo requentado do Four Tet da época de Pause), seja no déjà vu (drum’n’bass com ritmos brasileiros ainda? Não deu já?). O clima geral de Garrafada é de complacência, de conforto por circular em território chique e já explorado. É mais um disco de consolidação do que de olhares para novos horizontes. Apesar de esboçado, o movimento não se dá, e o intercâmbio de estilos e tradições não se traduz em novas formas de percepção e som. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 30 de novembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , , .
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