Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Game – “Dreams” (2005; Interscope, EUA)

thegame

Já que um dos discos do fim de semana aqui na Camarilha é o novo do Kanye West, decidi fazer uma viagem no passado do sujeito e ouvir (reouvir, em muitos dos casos) seu trabalho como produtor antes de explodir definitivamente como artista solo. O sujeito tem de que se orgulhar: ele tem em seu portfólio Jay-Z (várias, incluindo as clássicas “Takeover” e “Izzo (H.O.V.A.)” de The Blueprint, além da fantástica “Lucifer”, do Black Album, sampleando “Chase the Devil” de Max Romeo & the Upsetters, que eu achava ser a definitiva produção de Kanye para outros artistas), Ludacris, Talib Kweli, Common, Mobb Deep, Keyshia Cole, Alicia Keys, Janet Jackson… Mas Kanye nunca foi tão inventivo e perspicaz quanto na produção de “Dreams”, espécie de cartão de visitas do rapper The Game em seu primeiro disco, The Documentary. O estilo de KWest como produtor, todos sabem, é baseado principalmente no uso inventivo do sample, geralmente criando um loop que serve de orientação melódica e guia para o rap do artista encabeçando o projeto. Aqui, ele pega “No Money Down” de Jerry Butler, um vocal negro, rouco e torturado cantando “I brought you all my dreams/It’s cos I love you”, e transforma “I brought” e “Dreams” em loops perfeitos para a casa de teclados climáticos e a batida soturna que envolve o rap autobiográfico, estilo “A Star is Born”, de The Game. O momento genial da faixa é quando o rapper inclui as frases sampleadas de Butler a seu próprio rap, que naturalmente fala dos sonhos de se tornar uma grande estrela do hip-hop, mas também de ser acometido por um coma, estudar os clássicos e fazer sua entrada na cena. A letra de The Game é extremamente inteligente, utilizando o sonho também como metáfora de sono/coma, e faz de sua recuperação uma metáfora para passar do sonho à realidade (a realidade, no caso, sendo tornar-se evidentemente um astro do hip-hop). O mais pungente de “Dreams” é a fragilidade com que o rapper ascendente narra como observava todos os astros já consagrados e se imaginava no papel deles, um tema talvez comum ao hip-hop, mas poucas vezes exibido com uma guarda tão baixa quanto The Game mostra aqui (o orgulho de ser melhor que os outros sendo uma constante no mundo do hip-hop mainstream). E, ainda que o estilo de vocalização de The Game não tenha uma marca característica, a fluência e a emoção viril de seu canto proporcionam uma notável imponência à música. “Dreams” é um desses momentos perfeitos do hip-hop: faixa definidora de personalidade do rapper, batida excelente, sample criativo e envolvente, melodia precisa e não enjoativa, rap talentoso liricamente e na execução, tudo isso unificado por um conceito que nasce do artista solo mas é talhado e atnge sua real magnificência na produção. De fato, Kanye West recebeu de The Game o sonho e transformou em realidade. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 7 de dezembro de 2008 por em hip-hop e marcado , , .
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