Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Gang Gang Dance – Saint Dymphna (2008; The Social Registry, EUA)

ggd

O Gang Gang Dance foi formado em 2001 por membros de diversas bandas. Nascido no borbulhante underground do Brooklyn, a banda se notabilizou pela mistura de tantos elementos, que o resultado foi um tipo muito peculiar de world music, unida apenas pela forte carga percussiva das faixas e pelos elementos eletrônicos. O grupo começou a lançar discos apenas em 2004, com Revival of the Shittest e um álbum epônimo. Em 2005 apareceu God’s Money, com aclamação crítica, e o Gang Gang Dance foi lançado ao principado do noise nova-iorquino, junto a outras bandas do Brooklyn. Depois disso o conjunto entrou em hiato, prolongado pela morte do integrante Nathan Maddox, que foi atingido por um raio. Nesse período, a banda parecia ter voltado às experimentações iniciais com o lançamentos dos EPs Hillulah, Retina Riddim e RAWWAR. Em 2008 retornou com Saint Dymphna, álbum marcado pelo flerte com correntes do underground inglês. (MM)

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Em 2005, quando ouvi pela primeira vez o álbum God’s Money, do Gang Gang Dance, tive um choque. Aquele disco parecia a reunião de diversos elementos que eu procurava à época. Não soava especialmente inovador, mas soava único. A coisa mais comum era voltar do escritório, exausto, preso em um engarrafamento sufocante e me entregar à atmosfera, às vezes sufocante, de God’s Money. Foi um disco que marcou minha experiência e me fez descobrir todo um novo campo de possibilidade na música. Um pouco antes dessa época, comecei a ouvir com atenção a galera do Brooklyn – Animal Collective, Black Dice e Liars entre outros – e todos esses grupos deram desenvolvimento único às suas carreiras, mas o Gang Gang Dance pareceu se enterrar. Entraram em limbo, lançaram alguns EPs claudicantes, e nada mais. Fui ouvir coisas anteriores e nada tinha aquela energia comprimida de God’s Money.

Entra 2008, depois das falsas pistas dos EPs, temos acesso a Saint Dymphna, e está tudo ali. Apesar de não ser mais possível a surpresa causada pelo disco anterior, reencontramos a banda com a mesma vitalidade e poder de criação. Curioso é que parece que não se passaram três anos, mas na verdade o tempo está evidente na produção da banda. Tirando a faixa “Princes”, com participação de Tinchy Stryder, a influência do dubstep, do dub, do grime, do dancehall, do reggaeton e de outras coisas recentes, não tem presença óbvia. A modificação principal de todas essas influências é uma maior estrutura para as faixas. Mesmo as instrumentais parecem mais ajustadas a um propósito que, se não se pode chamar de canção, é menos abstrato. Mas não se engane, estamos muito distante de Gang Gang Dance goes pop, a não ser que o pop deles seja o mesmo do GAS ou o do Disco Inferno.

Ainda assim a sonoridade continua repleta de estranheza e peculiaridades. Mesmo em “Princes”, um pretenso grime, o que se verifica é que Stryder solta rimas em cima de uma base típica da banda, não há tentativa de emular o som dos produtores britânicos, o que provavelmente resultaria em um desastre risível. Este foi seu grande trunfo: abrir o leque de possibilidades porém continuando a mesma banda. Os elementos mais díspares vão sendo concatenados na atmosfera etérea da banda e, claro, a presença da vocalista Liz Bougatsos dá um centro de gravidade, apesar de toda sua insanidade.

As mudanças ocorrem no refinamento da produção, com uma maior limpidez no som, com os instrumentos mais audíveis, especialmente o baixo, sem sacrificar as características da banda. E se isso não chega a revolucionar o som da mesma, é pelo fato de sua natural propensão a criar densa massa sonora permanecer intacta, resultando em uma construção cujas estruturas estão mais visíveis, porém ainda assim extremamente complexas, sem entregar facilmente sua composição. Curioso é que uma das impressões que uma audição descuidada provoca é o das faixas serem produto de improvisos e do acaso e, apesar da presença de tais elementos ser inegável, a atenção em audições repetidas evidencia que nada é gratuito, estando ali como contribuição para a criação de uma experiência auditiva intensa e vibrante. Um dos grandes discos de 2008; uma banda que em seu ritmo promete uma das carreiras mais sólidas desta primeira década do século XXI. (Marcus Martins)

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Dymphna é a santa padroeira dos que sofrem de doenças e distúrbios mentais, insanidade, epilepsia, insônia e sonambulismo. Logo, a proposta do Gang Gang Dance, em seu mais novo disco, é criar uma sonoridade inquieta, desordeira, que remeta ao estado de espírito de pessoas com problemas mentais e desvios psiquiátricos. Nesse ponto, Saint Dymphna não acrescenta muita coisa à estética do grupo, senão uma inclinação para o alargamento de seu escopo musical, inserindo gêneros arredios como o grime e arquitetando composições mais elaboradas, como “Vacuum”, que utiliza um sample de My Bloody Valentine, a partir do qual eles irão estruturar toda a música.

Os problemas maiores do álbum são dois: o primeiro, que diz respeito ao conceito, é que não há nada em Saint Dymphna que o diferencie tão evidentemente de seu antecessor, God’s Money. Pode-se dizer que o anterior seja um pouco menos eclético na mistura e apresentação das influências, porém nele são encontradas as mesmas características de som grupal que assinalam o álbum mais recente: bateria dançante e nervosa e os vocais quase esquizofrênicos de Liz Bougatsos.

Em contrapartida, Saint Dymphna é capaz de propiciar momentos de puro êxtase musical, como as primeiras quatro faixas, nas quais o grupo leva ao extremo sua dinâmica grupal, robusta e enérgica, precisando de apenas poucos segundos para entreter e empolgar o ouvinte a níveis máximos: é a percussão que cresce gradativamente em “Bebey” para depois delinear uma sucessão rítmica pesada da bateria; ou então a explosiva “First Communion”, o auge do disco, que culmina toda a tensão da faixa anterior e forma uma base rítmica sólida, à qual são acrescentados os vocais ensandecidos de Bougatsos e uma guitarra incendiária. As coisas desandam em “Princes”, uma tentativa equívoca do grupo de fazer grime com a participação pouco inspirada de Trinchy Stryder. A partir daí o álbum perde o fôlego e nunca mais será o mesmo, apesar da tentativa de retomar o aspecto mais pegajoso do início com “House Jam”, o que só se concretiza de fato em “Desert Storm”.

Entre experimentos bem ou mal-sucedidos, conceitos não tão bem trabalhados, batidas marcantes e canções irresistíveis, o Gang Gang Dance fez um álbum memorável e quase inesquecível, não fossem suas pequenas e incômodas imperfeições. (Thiago Filardi)

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Não é muito fácil definir os limites de território sonoro que circunscrevem o interesse do Gang Gang Dance. É um desses grupos que se apropria de tudo e que se refestela de ser  um organismo mutante, capaz de soar pessoal e apropriado mesmo em registros muito distintos. Mas, uma vez que entramos no universo do GGD, percebemos uma aguda preferência pelo elemento percussivo, que ou domina as evoluções ou enche com diversas variações rítmicas e timbrísticas o arranjo de cada música. É um pouco uma aplicação selvagem do princípio tupiniquim “vamo batê lata”, aqui usada com pertinência e, principalmente, com senso dinâmico. Cada faixa se inscreve num domínio diferente, e muitas vezes a mesma faixa vai de A até Z de forma inesperada. Essa inconstância faz a graça do grupo, mas também acena para uma possível facilidade, de nunca precisar evoluir suas próprias idéias, uma vez que vai ter sempre algum território novo para usar e abusar. God’s Money, que ainda permanece como o melhor registro do grupo, conseguia através da progressão de faixas criar uma trajetória naquela bagunça toda. Se algo em Saint Dymphna falta em relação a God’s Money é esse senso de trajetória: passadas as duas primeiras faixas, da 3 à 6 o disco parece que começa a cada vez, dando uma sensação de fragmentação que não ajuda muito à audição como um todo.

Mas, vale dizer, Saint Dymphna é um genuíno sucessor de God’s Money. “Bebey”, com seu começo à Kraftwerk circa Radioactivity, suas batucadas e suas melodias eletrônicas, é uma ótima faixa de abertura, e um excelente teaser para “First Communion”, com bateria e guitarra de afrobeat e a primeira aparição da gritaria estridente da vocalista Liz Bougatsos. Depois daí as faixas são até interessantes, mas uma não se soma muito à outra: “Blue Nile” é um downtempo interessante, “Vacuum” uma faixa atmosférica ancorada em sons nostálgicos de sintetizador, e “Princes” é um grime sem tirar nem por, com melodia de tecladinho vagabundo-adorável e rap de Tinchey Stryder. “Inners Pace” começa com uns padrões de breakbeat inglês e serve como propulsor para “Afoot”, que é onde o disco recomeça a retomar a guinada, que passa pela popérrima “House Jam”, que conta com esguichos de sintetizador que lembram “My Love” de Timberlake e Timbaland, abusa dos sons retrôs fetiches dessa nova geração (M83, Sally Shapiro, Kelley Polar) e dos gritinhos anos 80, até descambar na avassaladora “Desert Storm”, que mostra uma Liz Bougatsos em estado de graça sussurrando e dando gritinhos e exercendo o máximo que existe de sensual em sua personalidade (que, avisamos, não tem nada de Madonna, M.I.A., Kelis…). “Dust” fecha o álbum em nova chave atmosférica, depois da catarse geral. Saint Dymphna é um disco com enorme imponência e qualidade correspondente, mas cujas escorregadelas fazem atentar para um chutar-para-todos-os-lados que poderia ser melhor trabalhado e integrado ao som da banda. Ainda assim, mais uma contribuição de respeito à prodigiosa discografia da banda. (Ruy Gardnier)

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Da arte do bolo de noiva, poderíamos retirar algumas conclusões: nem toda síntese de coisas diversas se esvai na banalidade; nem toda arte rigorosa impõe-se por si só. É preciso sempre o elemento inominável que dá a liga e fornece a dimensão propriamente expressiva da obra. Saint Dymphna pode até parecer um álbum disperso, imerso numa curiosidade contumaz que, apesar de saudável, periga redundar em emulação alegre e euforia de pesquisador. Talvez aqui o inominável emerja de forma radical, pois nem o vocabulário próprio, nem a cópia o definem. Antes, percebe-se uma terceira característica, a qual poderíamos atribuir elementos bem menos teóricas: me refiro à uma profusão de pérolas sonoras, pequenos excertos que percorrem todo o álbum, mesmo nos momentos em que a vaca parece se encaminhar para o brejo (como por exemplo em “House Jam”), que se não salvam, ao menos conferem aquela dimensão expressiva a que me referi no início. Percussões, teclados, sintetizadores, guitarras, etc., devidamente situados, soando de forma inusitada,  atraem uma aura consistente de novidade à coisa. Muito embora Saint Dymphna seja o álbum mais  palatável do Gang Gang Dance, isso nem alivia seus defeitos, nem piora suas virtudes. Ao contrário, amplificam-se defeitos e virtudes. Tanto mais impressiona quanto aborrece, tanto mais delicia quanto afasta. Se em Revival Of The Shittest e God’s Money essa contradição pendia mais para a repulsão, operando sobre elementos mais abstratos, menos ligados ao formato da canção, aqui trata-se da expressão inversa. Embora se possa detectar todos os elementos que fizeram do GGD uma das bandas mais interessantes da década, como, por exemplo, a selvageria com que editam as músicas, há fortes indícios de que algo no trabalho do grupo se cristalizou em uma forma musical mais clara e direta. Se o próximo álbum confirmará ou não este prognóstico, não importa: Saint Dymphna exprime o paradoxo de uma banda que, às antípodas da música de massas, tateia um espaço pop, sem se desvencilhar de sua máxima profissão de fé. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 8 de dezembro de 2008 por em eletrônica, rock e marcado , .
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