Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kanye West – 808s & Heartbreak (2008; Roc-A-Fella, EUA)

kaws808

Kanye West começou sua carreira como produtor de sucesso, chamando atenção em produções para titãs como Jay-Z. Logo o status de grande produtor não bastou para seu folclórico ego, e um bom contrato permitiu que ele se tornasse um artista solo de grande sucesso com discos de boa vendagem, num período em que os números da industria fonográfica tiveram acentuado declínio. West conseguiu aliar sucesso popular, respeito crítico e boa exposição como celebridade, firmando, ao mesmo tempo, idiossincrasias artísticas, como as marcas autorais de produção e as letras grandiloqüentes, e pessoais, como seus inescapáveis óculos escuros e a fascinação pela moda francesa, o que faz dele um retrato do yuppie de século XXI. 808s & Heartbreak é seu quarto álbum solo, havendo a promessa de outro para 2009. (MM)

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Ontem, em uma troca de e-mails da Camarilha, Bernardo saiu com a seguinte frase: “Kanie West. Palhação…”. Pois é, não poderia concordar mais. E como todo palhaço é personagem, essa deve ser a única forma de assimilar com leveza a carreira solo de West. Ruy acabou de postar um texto sobre a produção de West para o The Game e falou de forma acertada sobre a produção do marrento americano – o cara é brilhante, sem lançar mão de tantos elementos e, tendo seu método de produção facilmente desconstruído, ainda assim conseguiu realizar algumas das melhores produções, para ele e para outros, desta década. Nisso ele se distancia bastante do outro grande produtor de black music da atualidade, Timbaland, em dois pontos. Timbaland, apesar de suas marcas e assinatura de produtor, possui um arsenal muito superior ao de West, sua produção abre novos horizontes para o hip-hop e a música pop em geral enquanto West costuma fazer variações em seu método que não chegam a sugerir nada muito novo. Tivemos o padrão estabelecido em College Dropout e depois levemente alterado para trazer a colaboração de Jon Brion em Late Registration e tivemos a guinada eletro de Graduation que culminou agora no conceito de 808s & Heartbreak.

Mas voltando à persona de West, é compreensível a aversão que alguns têm à sua carreira solo, sua música é auto-centrada, ególatra, auto-indulgente, exibicionista, patética. Assim, é tão ridícula a posição de West – e sua participação no Saturday Night Live fazendo graça de seus faniquitos por prêmios perdidos em nada reduz seu status de chorão – que a única forma tolerável de ver isso é, ao ouvir a música, esquecer os óculos escuros, a atitude fashion e pensar nisso mais como um personagem, rico e ambivalente, até mesquinho. Nos três primeiros discos de West, ele sempre se equilibrou, ou não, entre se vangloriar e tentar mostrar seu lado fraco. Isso sempre soou falso e pouco convincente, mas também enriqueceu a música. As pessoas não querem sinceridade. Para que alguém mais sincero que aquele que não consegue esconder seus mais mesquinhos defeitos? Muito mais sentido que o sucesso emo da semana passada. Aliando isso à pouca habilidade vocal de West, temos uma das vozes mais peculiares do hip-hop e macho de postura apolínea inalcançável.

Aqui entra 808s & Heartbreak. Em 2008 West se consolidou como o blogueiro da futilidade, mais um meio de exibir o quanto ele se ama e o quanto ele tem bom gosto. Mas também foi o ano em que se viu vulnerável pelo fim de seu relacionamento e pela morte de sua mãe. E a forma terapéutica que o ego inflado e machucado de West encontrou foi criar uma obra-prima, um disco que levassse sua música a outros patamares artísticos e o colocasse junto aos gigantes da música pop do anos 60.

Para isso ele tentou ser ousado, quase riscando os traços mais óbvios do hip-hop de sua música, cortando a colaboração de outros vocalistas e criando um forma única para suas músicas, ampliando a influência do eletro-pop e outros sons “europeus”. Em sua música fica saliente, por exemplo, que West deve ter ouvido bastante New Order e outras bandas da época.

Mas a grande peça de resistência em sua guinada foi o uso do demonizado Auto-Tune, que ficou famoso pela presença na faixa “Believe” de Cher. West já havia proclamado seu amor ao aparelho durante o ano e quando anunciou a produção veloz de seu novo disco, ninguém poderia antecipar que West não apenas passaria toda a sua produção pelo efeito como daria um tom conceitual ao uso. Durante boa parte do disco, sua voz soa quebrantada, combalida pelas dores que ele chora. Se podemos classificar o álbum como conceitual, isso não ocorre pelo fato de West falar de seus amigos mostrarem fotos dos filhos e ele apenas ter fotos de suas mansões, mas fundamentalmente pelas escolhas sonoras.

Em muitos momentos o álbum soa tosco, mal-acabado, barato (“Robocop” poderia ter sido gravada por Latino se ele tivesse algum talento) e isso é espetacular tratando-se do mesmo cara que falamos acima. West conseguiu algo que todo grande artista almeja: deu equivalência formal a sua ambição. Diferente de tantos nomes que em 2008 soaram retro e cool, o uso da drum machine TR-808 não é gratuito, é o legítimo encontro do veículo com sua mensagem. Mesmo a impotência de seus vocais, as eventuais incursões pelo rap capenga, tudo ficou no lugar exato: a prova inequívoca de sua derrota. No lugar da manipulação dos vocais pelo Auto-Tune dar um ar de proeza tecnológica como no caso de Cher e muitos outros, em 808s & Heartbreak temos a sensação de uma máquina falhando, com o desespero final de HAL 9000.

Se existe uma falha no disco é a inclusão da faixa Pinocchio story (freestyle live from singapore)” como bônus, certamente a pior produção de West em toda a sua carreira e mais uma confirmação da falta de limites para sua indulgência. Nada que destrua o que foi construído nas onze faixas anteriores. Na verdade, isso é apenas um acréscimo ao personagem em sua busca pela musa ao olhar no espelho. (Marcus Martins)

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Que elemento constitutivo de 808s & Heartbreak faz com que o mesmo cause tamanha rejeição nos ouvintes fiéis de kanYe West? Será apenas o uso corrente do Auto-Tune, implicando, assim, na falta de raps? Mas, pensando bem, se o rap nunca foi o forte de West, e sim a produção, em que ponto essa transição afeta sua sonoridade? A utilização do Auto-Tune não seria, na verdade, mais uma opção estética destemida que uma adesão aos dogmas da produção atual? O fato de usar apenas uma bateria eletrônica 808 não seria um ato de coragem e ruptura na linguagem do hiphop, em meio à crise criativa que acomete o gênero há alguns anos? Outro ato de coragem não seria começar o disco com “Say You Will” – que tem cara de faixa derradeira -, lenta e com espaços instrumentais demasiadamente estendidos, levando em consideração os padrões dos álbuns de música pop contemporâneos? E o que dizer do trabalho de percussão, ainda mais pesado e apurado que nos discos anteriores (a exemplo de “Amazing”, “Love Lockdown”, “Street Lights”, “Bad News” e “Coldest Winter”)? kanYe nunca soou tão musical e criativo (vide os efeitos etéreos e faiscantes, quase shoegaze, de “Street Lights”)? E apenas usando um programador 808? Quantos músicos no mundo são capazes de tamanha façanha? É possível afirmar que ele tenha perdido o feeling com hits tão poderosos e instantâneos como “Heartless”, “Paranoid” e “See You in Nightmares” (com participação espetacular de Lil Wayne)? A própria “Paranoid”, com sua belíssima melodia à la Stevie Wonder não estaria mostrando um refinamento de West como compositor? A detestável e afrontosa “Robocop” não seria mais um ato de chutar-o-pau-da-barraca que uma retumbante falta de inspiração? Por mais que West não repita mais os vôos e jorros criativos de seus dois primeiros discos, ele ainda não permanece um dos artistas pop mais inteligentes e relevantes da atualidade? O que é preferível na personalidade de um músico: a previsibilidade ou a capacidade de transmutação? Se Graduate foi recebido como uma grande decepção no ano passado, não seria pelo fato de que, embora encerre uma trilogia, é um disco de transição na carreira do rapper? E tendo em vista as mudanças ocorridas em cada álbum de West (sejam elas de produção, composição, uso de sample e letra), 808s não seria um trabalho extremamente coerente dentro da sua discografia? Sua trajetória não seria das mais gloriosas e intrépidas da história do hiphop? Não seria West um dos grandes inovadores do gênero, daqueles capazes de apontar novas direções, assim como foram Public Enemy e Wu-Tang Clan? Se sua obra traz mais questionamentos que asserções, não é um caso especial a se analisar, a dar mais atenção e, em hipótese alguma, ignorar ou subestimar? (Thiago Filardi)

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Agora todo ano é isso. Vem um grande produtor de carreira irretocável com um projeto maluco e põe toda sua reputação a perder. Ou pelo menos um pouco dela. Ano passado, Timbaland achou que poderia se aventurar por todos os gêneros musicais populares dos EUA e abriu seu Shock Value para uma pletora de participações especiais, dos costumeiros Justin Timberlake e Nelly Furtado até os insípidos grupos de rock Fallout Boy, The Hives e She Wants Revenge. Depois das excelentes cinco primeiras faixas – onde ele caminhou em terreno conhecido e tomou conta –, o que se viu foi um exercício de auto-indulgência que resultou numa porcaria fenomenal. 2008 vinha acabando sem nada comparável e aí Kanye West vem com seu projeto de músicas de dor de corno com arranjos feitos exclusivamente em bateria eletrônica Roland TR-808 e o vocal em Auto-Tune. OK, como Kanye já fez muita coisa boa, existia o resquício de esperança que daí pudesse brotar alguma coisa realmente instigante musicalmente, amparada por um conceito muito bem definido e que certamente o colocaria em terreno a explorar. Mas um disco de conceito pode ter um conceito interessante e mesmo assim ser uma porcaria. É exatamente essa a categoria em que se inscreve 808s & Hertbreak, com toda sua bem pensada autocrítica como superstar arrependido, sua mea culpa de ricaço deslumbrado que tem todos os bem materiais que quer mas não tem amor, mulher nem filhinhos. Shock Value é ruim porque queria ir para todos os lugares e falhou miseravelmente em todos os territórios que não dominava. 808s & Heartbreak preferiu um voto de castidade à maneira dos apologistas do Dogma 95, mas não conseguiu dar o menor dinamismo a suas escolhas, e fez um disco em que 3 ou 4 boas idéias estão diluídas ao longo de 12 músicas que parecem a mesma. E uma mesma não muito boa (eufemismo). Para piorar, não tem nada comparável em qualidade às primeiras cinco do disco de Timbaland.

O que desgraça o disco não é tanto o Auto-Tune, que arrisca realmente enjoar, mas nem aparece com tanta força. Tampouco a falta de criatividade no uso dos 808s, porque até em alguns momentos ele consegue criar algumas dinâmicas realmente interessantes – em especial a batucada que irrompe no refrão de “Love Lockdown”, certamente o que restará desse disco magérrimo em idéias. O que incomoda mesmo é que ele tenha se rendido aos macetes e às facilidades do r&b mais vagabundo, e tenha enchido suas composições de sacarose além da conta, com repetições infinitas de frases hiperdramáticas (pelo amor do santo pai, quem agüentará por muito tempo ouvir ele dizer “Just say you will” ou “How could you be so heartless? (ess, ess, ess no eco)”?), coros e cordas cafoníssimos. Para piorar, o disco ainda conta com faixas constrangedoras como “Welcome To Heartbreak” e a final “Pinocchio”, com suas letras de Madalena Arrependida e arranjo retrofuturista vagabundo (no caso da primeira). E o pior de tudo é confessar que Kanye West tem talento para criar melodias sentimentais de r&b, como atestam os primeiros versos de “Heartless” e as linhas que começam com “No matter what…” em “Amazing”.

O que sobra como algo a ser degustado e não jogado fora de cara são as três faixas da meiuca, “Amazing”, “Love Lockdown” e “Paranoid”, que nos relembram que Kanye é bom produtor e compositor. A primeira conta com boa melodia e boa participação de Young Jeezy, a segunda é o hit do disco, com refrão grudento e explosão percussiva, e a terceira pelo clima festivo e o coro inteligentemente colocado. Mas aí depois tem “Robocop”, que é motivo de vergonha. OK, Kanye, curte a crise aí, ultrapassa e quando acabar a frescura avisa a gente. (Ruy Gardnier)

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Parafraseando Arlindo Cruz, pode-se afirmar que “até hoje ninguém conseguiu definir o que é o amor”. Mas, paradoxalmente, a humanidade não se furtou a tentar fazê-lo, sendo a arte a maior depositária de “definições” e especulações de que se tem notícia. E talvez ela mesma tenha nascido dos murmúrios do primeiro marido traído, da primeira esposa abandonada, do primeiro amor que ruiu diante de circunstâncias humanas, demasiado humanas… Apesar de toda a aura divinal que adora conferir a si próprio, Kanye, pasmem, também é um ser humano. Aparentemente apropriando-se de recentes traumas pessoais, criou sua ode ao amor. 808’s & Heartbreak representa os últimos experimentos de um artista cuja carreira, ambígua e genial, flertou com o mainstream (e cuja genealogia foi apresentada pelo Ruy no post do The Game), sempre apostando na possibilidade de renovação da música comercial, notadamente no que diz respeito aos aspectos de timbre e edição. Mas desta vez, embora essas características tenham permanecido na ordem do dia, sonoramente a coisa não vai bem. A utilização do autotune em todas as faixas me parece desnecessária, pois só funciona mesmo em “Love lockdown”, a melhor. Ordinárias demais para um artista criativo e ousado, os ritmos e melodias chegam a aborrecer lá pelo meio do disco… De resto, uma série de canções melosas que mais testemunham um momento pessoal do que soam como a música criativa com a qual Kanye conquistou nossos corações. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Kanye West – 808s & Heartbreak (2008; Roc-A-Fella, EUA)

  1. Cleiton
    15 de janeiro de 2010

    Nossa, demorou mais li tudo, cara eu acho o seguinte eu comecei a ouvir as musicas do west ,agora então não entendo muito bem a como ele realmente era antes,mais acho que o album 808s está mais ” fraco” pelas tragédsiaas em sua vida,tambem vamos dar um desconto ao cara,eu particamularmente achei o album muito bom, não tanto quanto o graduation mais está bem feito,depois dessas coisas que aontecerão com ele, se fosse comigo eu não teria cabeça pra fazer um novo album tão bom quanto esse não.
    Mais gostei desse seu post, é um post muito inligente. No começo te chinguei pra caramba mais ao ler tudo percebi que tudo que vc dizia tinha um pouco de nexo, parabéns

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Publicado às 8 de dezembro de 2008 por em hip-hop, pop e marcado .
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