Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Fall – “The Classical” (1982; Kamera, Reino Unido)

thefall

The Fall é uma das bandas paradoxalmente mais cultuadas e menos conhecidas do rock. Ironicamente, uma das razões de tanto desconhecimento é a prolífica discografia da banda. Diante de uma carreira tão grande – que vai do primeiro single, de 1978, até os dias de hoje, já que em 2008 eles lançaram o álbum Imperial Wax Solvent – e sem um ou dois discos incrivelmente superiores aos demais para serem alçados à dimensão de clássicos, é bem capaz do interessado em conhecer o som da banda se perder no turbilhão da própria produção que eles têm. Hex Enduction Hour costuma ser um daqueles discos apontados como incontornável em se tratando de The Fall (ou de pós-punk em geral). Mas não estamos aqui para falar do disco e sim da faixa “The Classical”, que abre portentosamente o quinto álbum do grupo. Se uma faixa puder resumir o que há de melhor numa banda de produção tão extensa, “The Classical” merece ser a escolhida. Organizada através de uma linha de baixo pulsante e muito alta, na qual os outros instrumentos podem entrar com certa liberdade de intervenção, a música parece um espaço aberto para explosões. Sem refrão ou estrutura de estrofes, Mark E. Smith utiliza seu característico vocal anasalado jogando frases a esmo, escarnecendo em frases dignas de Wilde os funcionários do senso comum (“Your taste for bullshit reveals a lust for a home of office” e “You won’t find anything more ridiculous than this new profile razor unit made with the highest british attention to the wrong detail” sendo algumas das favoritas), enquanto bateria e percussão enchem a sessão rítmica com um baticum insidioso. Smith sempre dá a sensação de que está cantando do topo do mundo, olhando e espezinhando os pequenos micróbios que ziguezagueam pra lá e pra cá achando que têm o que fazer, mas “The Classical” parece ser a realização mais plena dessa postura (com os versos “There are twelve people in the world/The rest are paste” não poderia ser muito diferente). Mas quando ele canta, ou, melhor, grita “The classical” e principalmente “I’ve never felt better in my life”, é mais do que puro sarcasmo ou esnobismo, é uma afirmação existencial. Apesar dos destaques de “The Classical” serem a voz de Mark E. Smith e a cozinha innigualável (pelo mesmo The Fall, à ocasião com dois bateristas), vale notar o trabalho de guitarra, ora preenchendo os espaços de com acordes barulhentos e agudos, ora antecipando a melodia do verso “I’ve never felt better in my life”, o que definitivamente aumenta a sensação de catarse quando Smith chega ao final da letra. Existem na carreira do grupo canções mais pop e ganchudas, como “Cruiser’s Creek” e “Mr. Pharmacist”, mas “The Classical” mostra o Fall em estado de graça, o que significa agressividade comprimida e insanidade à solta. A melhor coisa de se começar a ouvir The Fall com essa música é que a paixão haverá de ser fulminante. A pior é que raras vezes a mesma intensidade será sentida, mas como pedir que tudo dos Beatles seja “I Am the Walrus” ou “Eleanor Rigby”? (Ruy Gardnier)

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Publicado às 12 de dezembro de 2008 por em rock e marcado , , .
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