Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Expo ’70 – Black Ohms (2008; Beta-lactam Ring Records, EUA)

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Expo ’70 é um projeto de música improvisacional do guitarrista Justin Wright, iniciado em Los Angeles, 2003, mesmo ano em que foi lançado seu primeiro CD-R, um split com o grupo SXBRS. Outros discos independentes seguiram-se, mas somente em 2007 saiu o primeiro trabalho oficial do Expo, Animism, pelo selo Kill Shaman. Black Ohms é seu segundo álbum e o primeiro de uma dupla que se concretizará no final do mês, com White Ohms. (TF)

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Há uma gama enorme de possibilidades alternativas para os guitarristas não-detentores de um conhecimento técnico pleno e acadêmico de seu instrumento. Não que seja estritamente necessário o domínio completo do fretboard da guitarra; muito pelo contrário: é da inquietação ou do desdém em relação a uma visão classicista e cerebral do fretboard que muitos músicos conceberam e, em determinados casos, solidificaram uma estética audaz e inusual, dentre os quais podemos destacar Christian Fennesz, Oren Ambarchi, Stephen O’Malley, Fred Frith, Robert Fripp e Keith Rowe. Justin Wright (ainda) não possui uma obra nem visão artística compatíveis a esses gigantes do violão elétrico, entretanto sua curta e prolífica carreira vem requerendo uma atenção especial dos amantes do instrumento de seis cordas e daqueles interessados no bojo da música contemporânea, que engloba novos feitios de amplitude e timbre sonoros.

Talvez todo o mérito de Black Ohms resida no fato de que ele, por si só, expõe tanto suas qualidades quanto fraquezas. Os primeiros segundos de “Lysergic Sunrise”, com uma atmosfera funérea e um drone de guitarra impetuoso, envolvem completamente o ouvinte em seu universo mórbido e misterioso. A habilidade de Wright consiste em ampliar os horizontes timbrísticos da guitarra e, através dos mesmos, criar várias camadas sonoras, baseadas na contraposição de drones, graves e densos, e efeitos, ora climáticos, ora cortantes, mas sempre agudos. Do mesmo modo como sabe desenvolver bem o lado textural da guitarra, Wright exagera no uso do delay (por mais que esse seja um efeito primordial para sua criação) e, por vezes, sem sucesso, se aventura por solos psicodélicos. É essa junção do delay e do solo que não cai bem ao Expo. Antes seu defeito fosse não saber solar, pois é da economia e da falta de solos que Black Ohms obtém êxitos memoráveis. Em faixas um tanto desnecessárias como “Solitude” (de objetivo emocional já patente no título) e “Cosmic Seance”, ele se arrisca por solos supérfluos e óbvios. Não é questão de justapor notas atrativas dentro de uma escala, na qual um som puxa o outro: nessas duas faixas, Black Ohms vira um jogo de adivinhação bobo e sem graça, que já diz de antemão quais serão seus próximos passos.

Felizmente, Wright não decepciona seus ouvintes e os momentos de fraqueza do disco ficam restritos às faixas supracitadas. A derradeira “Midnight Stalking / Dawn of the Black Ohms” retoma as explorações minimalistas de timbre e textura do projeto e, mesmo com quase vinte minutos de duração, ainda nos deixa querendo mais. Wright sabe que esse é seu trunfo, pois a pré-estrutura de suas improvisações deve advir de uma capacidade de manter o som sempre contínuo e envolvente; característica essa que não remete exatamente à obviedade, mas sim a um ato de resignação e de perseverança espiritual. Black Ohms se torna ainda mais saboroso e enigmático quando desvendamos sua essência antagônica, que se utiliza de duas formas intuitivas de tocar para chegar a uma dialética perfeita do som. (Thiago Filardi)

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A imagem da capa de Black Ohms mostra uma silhueta de guitarrista de costas, diante de um amplificador iluminado do qual sai uma fumaça que transforma o ambiente em névoa. É uma apropriada tradução visual para muito do que acontece com esse disco do Expo ’70, que distila uma aura de mistério e clima carregado através de seus drones soturnos. “Lysergic Sunrise” abre o disco com uma leve marcação rítmica e um drone de guitarra que parece uma mistura de Earth e o Kevin Drumm de Imperial Distortion. Afora uns alaridos estridentes de guitarra no meio da faixa, ela basicamente mantém o padrão até o final, mas a densidade dos sons garante o interesse e o estado letárgico/alucinante da “aurora lisérgica” que o título propõe. “Mind Echo Unit” é mais doce e lenta, com base que lembra momentos mais afáveis de Fennesz e um trabalho de guitarra que começa repetindo notas e depois vai pesquisar melodias em delay que lembram em alguma medida o trabalho de guitarra do Cure durante os anos 80. Essas duas faixas compõem juntas um começo de disco imponente, que mesmo sem desenhar um universo sonoro próprio cativam pelo cuidado e talento na concepção e na execução. Em seguida, Black Ohms claudica por não saber exatamente para onde ir e acaba trilhando por cenários meio qualquer nota. “Emerald Fanged Dancer” parece trilha sonora de seriado de ficção científica dos anos 70. “Solitude” começa estabelecendo um loop interessante mas depois dá lugar a uma guitarra solada entre blues e post-rock que não tem graça nenhuma e muito menos lirismo (que é o que ele aqui parece tentar alcançar, vide o título). “Cosmic Seance” vai um pouco para cada canto, começa como a faixa 1 e sua guitarra ameaçadora e climática, vai para o clima ameno da faixa 2 e termina com guitarra dedilhada evocando a faixa 4. “Midnight Stalking/Dawn of the Black Ohms” fecha o disco com vinte minutos que repetem em modo mais ambient a atmosfera soturna e densa da primeira faixa, com melodias enterradas ao fundo pelos efeitos hipnóticos/repetitivos de guitarra. Finalmente, o disco retoma seu vigor e nos entrega uma música focada e cheia de detalhes, certamente o momento mais trabalhado do disco em níveis de barulhos médios, graves e agudos, além de detalhezinhos que permeiam a duração da faixa. Black Ohms revela um artista ainda em busca de sua voz própria, mas que no caminho consegue algumas proezas dignas de nota e interesse. (Ruy Gardnier)

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A guitarra é um instrumento curioso. Comparável apenas ao piano em termos de popularidade e penetração social, ela foi depositária não somente de aspirações em relação à música como também se tornou um instrumento ideológico de primeira ordem. No Brasil, ela foi motivo de passeata: de um lado, discursos inflamados de quem a considerava uma ameaça à “identidade nacional”; de outro, posições enérgicas de quem não via sentido algum em se posicionar contra um instrumento musical… Longa história se vai nesses pormenores… Mas, ouvindo o álbum Black Ohms do guitarrista americano Justin Wright, em seu projeto Expo 70’, me veio a sensação de que a guitarra elétrica detém sua reputação arruaceira por conta do fato de que algumas de suas inflexões mais divulgadas não dão conta de seu potencial efetivo. Ilumina-se mais a guitarra “rebelde”, como se fosse possível justificar a fama através do som, o que, em geral, não me parece um procedimento adequado. E digo isto porque Black Ohms traz uma série de experimentos de improviso em guitarra que, embora compartilhem timbres característicos do rock como a distorção e o delay, exploram outras intensidades destes efeitos. Uma primeira audição da faixa de abertura, “Lysergic sunrise”, atesta o modo transfigurador com o qual Wright cunha as faixas: praticamente elaborada a partir do som da famigerada guitarra distorcida, a faixa se orienta mais para a produção do drone, do que para a tradicional balbúrdia roqueira. Adiante, em “Midnight Stalking/Dawn of the Black Ohms”, a maior e melhor faixa do álbum, elementos eletrônicos sutis se misturam a feedbacks delicados e a manipulações de delay muito bem programadas e executadas.

Me parece, portanto, que a característica positiva de Black Ohms reside não na tentativa de alargar o espectro sonoro da guitarra, como em Fripp e, mais recentemente, Fennesz, por exemplo; mas, sobretudo, em criar uma releitura compatível com sua tradição, ainda que deslocada de seu eixo. Neste sentido, se o álbum não é exatamente bem sucedido, muito por conta de seu miolo (notadamente as faixas 3, 4 e 5), ainda assim causa admiração e prende a atenção até o fim. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 16 de dezembro de 2008 por em rock e marcado , .
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