Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Zomby – Where Were U in ’92? (2008; Werk Discs, Reino Unido)

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Zomby é um produtor musical incógnito, que parece seguir uma nova tradição de artistas ingleses, optando por manter sua identidade sigilosa, a exemplo de Banksy, Burial e Shackleton. Zomby é mais comumente conhecido por operar na esfera do dubstep e, ao lado de Rustie, Joker, Ikonika e Starkey, vem engendrando novo sangue no gênero, que, por conta disso, foi subdivido – a corrente atual foi chamada de wonky (ou também funky e bassline), porém sem nenhuma definição ainda muito precisa. O primeiro 12” de Zomby saiu no ano passado, um split com Darkstar. Em 2008 ele lançou, pelo menos, meia-dúzia de 12” (sendo dois para a Hyperdub: um normal e um duplo) e o LP de estréia, Where Were U in ’92, que difere completamente dos outros trabalhos do produtor, demonstrando uma versatilidade para além do comum dentro da cena dubstep. (TF)

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Na verdade pouco importa onde você estava em 1992, como sugere Zomby, já que nem o próprio tinha idade suficiente para freqüentar as raves da época. O título do álbum é apenas uma provocação, assim como é o nome “zombie” – que era como os detratores do ´ardkore chamavam os freqüentadores de raves -, e faixas como “Fuck Mixing, Let’s Dance”, que inverte o lema da geração mais experimental que sucedeu a da rave, e “Daft Punk Rave”, de referência mais óbvia. 1992 é tido, por alguns, como o ano supremo, aquele das festas intermináveis e no qual a eletrônica se ramificou em múltiplas e complexas vertentes, dentre elas o hardcore britânico (ou ´ardkore), que, em seguida, deu lugar a jungle (depois conhecida como drum’n’bass), um dos estilos mais inovadores e revolucionários da década de noventa. E é ao jungle, ao ‘ardkore e à cultura rave que Where Were U in ’92 paga tributo. No entando, menos que uma incursão nostálgica numa época que passou e deixou marcas profundas tanto na música pop quanto na eletrônica (e serviu para fundir as duas definitivamente), o álbum é quase um estudo genealógico da eletrônica e de suas constantes transformações de dezesseis anos atrás até hoje. E nada mais apropriado que isso seja feito por um artista britânico, que cresceu ouvindo jungle, hardcore, breakbeat e techno, sem exercer uma participação efetiva na cena, mas que hoje atua como um dos produtores de fronte do dubstep, gênero que é a última evolução estética do jungle.

A seqüência inicial de Where Were U in ’92 é não menos que resfolegante. A inaugural, “Fuck Mixing, Let’s Dance”, faz toda a mistura digna da época, com uma percussão incansável, diversos samples de voz, baixos circulares e teclados acid house. O encaixe é perfeito para a seguinte, “Euphoria”, que começa com um único acorde de teclado tocado pausadamente, que dá lugar a uma linha de baixo assombrosa e claudicante. A dinâmica dos elementos tecida por Zomby é impecável e ele consegue alternar perfeitamente a percussão, o baixo e os samples de voz – estes últimos usados à exaustão durante todo o disco. “We Got the Sound”, a terceira faixa, possui uma linha de baixo mais techno, que diversifica a sonoridade do disco, até então presa ao jungle e ao ‘ardkore. A quarta, “Daft Punk Rave”, é quase uma vinheta, mas a junção do vocal sensual com uma batida jungle, uma linha de baixo gravíssima e outros efeitos e samples é irresistível. Na seguinte, “Tear in the Rain”, o álbum retorna ao motivo da segunda, com o baixo poderoso e oscilante, porém de efeitos e samples mais variados e uma mixagem com ênfase no médio. A próxima, “Get Sorted”, é também uma espécie de variação das primeiras e “G.T.i.” já é um jungle mais violento, com um BPM altíssimo e staccatos incessantes de teclado. “Float”, com vocais house, é talvez um dos momentos mais acessíveis do disco, remontando descaradamente àquela época da década de 90 em que a eletrônica se encontrava mais pop e diluída. “Need Ur Lovin’”, na qual Zomby faz uma multiplicação e sobreposição de um mesmo sample de voz, é a que mais se aproxima do dubstep, com sua linha de baixo trêmula e uma pulsação techno. A ulterior, “Pillz”, começa com uma batida quebrada de hiphop e um vocal feminino parecido com o de Missy Elliott, depois acelera consideravelmente e vira um jungle-hiphop-dancehall, com os vocais masculinos mais próximos de um MC jamaicano. “Hench” dá prosseguimento ao ritmo rápido do disco e já é quase um drum’n’bass de última fase, com sua percussão complexa e bem trabalhada. “B With Me” é outra a encostar no dubstep, com seu baixo bem profundo e a batida e o uso de samples mais próximos do 2 step. A faixa-título, como não poderia deixar de ser, é um retorno mais descarado à música de rave de 1992. E a última, “U Are My Fantasy” é uma mistura de tudo, com sintetizadores anos oitenta, base jungle e vocais house. Nos segundos finais, ouve-se o barulho da agulha no vinil, dando os últimos chiados até ser interrompida abruptamente.

Entre progressões, retornos e genealogias, Zomby ergueu um verdadeiro monumento à música eletrônica, e que se firma como um dos grandes discos desse ano de 2008, que termina e já deixa inesquecíveis memórias musicais. (Thiago Filardi)

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“Eu estava lá!”, diz o personagem de “Losing My Edge”, primeiro single do LCD Soundsystem. Bom, eu não estava exatamente lá em 1992, mas acompanhei com alguma curiosidade o programa Novas Tendências, de José Roberto Mahr, que semanalmente trazia as novidades do cenário eletrônico underground europeu. Dava para ouvir coisas como “Anasthasia”, do T99, e outros grupos que usavam riffs realmente pesados em músicas de andamento rápido, e que eram chamados de hardcore techno. Por outro lado, em chave mais pop, tinha a house dos tecladinhos e gritinhos à moda italiana. Um pouco mais tarde fui descobrir o garage/breakbeat que daria origem ao jungle. É basicamente uma mistura desses três gêneros simultâneos que dá forma a Where Were U in ’92?, totalmente inesperado disco de Zomby, produtor contemporâneo de dubstep que decidiu dar uma guinada nostálgica e produziu um dos álbuns mais estranhos e intrigantes do ano.

A razão da estranheza vem do fato de que é um disco totalmente fincado em sonoridades que ficaram restritas a um momento da música britânica, e um approach necessariamente retrô dado o anacronismo dos gêneros homenageados. E, de fato, certas faixas se refestelam em sons de mais de quinze anos atrás: “Hench” é um hardcore techno sem tirar nem pôr, e a faixa “Where Were U in ’92?” lembra demais os egressos da acid house como Black Box e Inner City. Por momentos podemos até pensar que Zomby flerta mesmo com o lado mais lamentável do retrô e da imitação, à maneira dos Black Crowes ou de Jamiroquai. Mas a coisa que faz de Where Were U in ’92? um disco intrigante, quase paradoxal, é que ao juntar todos esses ritmos e aplicar a eles uns pequenos retoques contemporâneos, Zomby criou um objeto absurdamente híbrido, não exatamente pela junção do velho e do novo, mas pela junção de elementos de ritmos distintos.

O que dá coesão a Where Were U in ’92? é o andamento muito rápido praticado naquela época, com altas taxas de BPM. Num ano como 2008, que viu o próprio dubstep flertar com o techno e aumentar os BPMs, e presenciou a ascensão do wonky, esse disco do Zomby ganha uma relevância inusitada, pois chama a atenção para as influências comuns aos ritmos e às cenas de hoje e de ontem.

Uma nota reticente: será que, se estivéssemos tão habituados ao repertório do underground britânico como estamos ao blues-rock ou ao pop-soul teríamos o mesmo tipo de sensação de charme e frescor (um frescor com naftalina, se isso é possível) que temos com esse disco de Zomby? A resposta importa até certo ponto. Há um tanto de Where Were U in ’92? que é derivativo e só, mas extremamente eficiente. Outra parte vai além da eficiência e consegue desenvolver idéias geniais, como supor um Burial breakbeat em “Tears in the Rain” ou na pressão uptempo do grime de “Pillz”. Em todo caso, temos aqui um disco que se ouve de cabo a rabo com um sorriso no rosto. (Ruy Gardnier)

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“Zomby come’s from nowhere and is already dead”, afirma o myspace do misterioso produtor e dj londrino. Embora a frase incremente o suspense em torno de sua enigmática figura, o álbum em questão prima por características muito precisas. Trata-se de tributo a uma época, ou, mais precisamente, à uma cultura musical específica. Mas isso não faz com que o produtor se perca em homenagens, pelo contrário: se este pode ser considerado um dos grandes discos do ano, podemos atribuir esse fato a uma ambigüidade conceitual que perpassa todo o álbum. O título nos pergunta onde estávamos em 92, período em que se consolida o boom eletrônico e a cultura rave, buscando pela reminiscência uma cumplicidade capaz de percorrer e identificar as referências ao uk garage, ao jungle, ao house, ao techno… Por outro lado, não busca o mero resgate, mas a reafirmação destes gêneros através de uma releitura minimalista e energética que evoca a urgência catártica da ressaca pós-Tatcher, mas também se vale da economia e da precisão do dubstep. Em 38 minutos, Where were u in 92’ concatena pequenos achados musicais, se utilizando de timbragens secas, revalorizando algumas sonoridades peculiares, como o gravão sombrio do jungle, ou a quebradeira do uk garage, além de sirenes, vozes manipuladas, e aquele amor bandido pelo minimalismo e a repetição. Destaco momentos brilhantes como “Daft Punk Rave”, com seu vocal suave e batida quebrada; “Pillz”, um grime-disco tinhoso; o pancadão sugestivo de “Fuck Mixing, Let’s Dance”, o jungle ralentado de “Hench” e os gritos irônicos da faixa-título. Mas noto que não cabe aqui destacar faixas específicas: Where were u in 92’ é um álbum conceitual, para ser ouvido de uma vez só, em um só fôlego. De preferência dançando e, por que não?, sob os efeitos psicotrópicos de uma época que passou, que passará… (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 17 de dezembro de 2008 por em eletrônica e marcado , , , .
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