Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Músicas – Ruy Gardnier

martynmelhores

“Need You” Darkstar (Hyperdub)
“Suburbia” Martyn (Apple Pips)
“Morvern” 2562 (Tectonic)
“Timekeeper” Clouds (+ remix de Ras G) (Ramp)
“Time Is Now” TRG (Immerse)
“Death Is Not Final” Shackleton (Skull Disco)

“No One Does It Like You” Department of Eagles (4AD)
“Bag of Hammers” Thao with the Get Down Stay Down (Kill Rock Stars)
“Walcott” Vampire Weekend (XL)
“Dance, Dance, Dance” Lykke Li (LL)
“Beliscando” Mestre Aldo Sena (Candeeiro)
“Saudade do Pará” Mestre Vieira (Candeeiro)

“Perfume for Winter” Fennesz (Touch)
“The Blue Room” Evangelista (Constellation)
“Wedding Bell” Beach House (Carpark)

“A Thousand Eyes” Crystal Antlers (Touch and Go)
“Truth Is Dark Like Outer Space” Evangelista (Constellation)
“We Carry On” Portishead (Island)
“Machine Gun” Portishead (Island)

“Shake That Devil” Antony & the Johnsons (Rough Trade/Secretly Canadian)
“Water Curses” Animal Collective (Domino)
“Lost Language” Monade (Too Pure)

“Sweet Love for Planet Earth” Fuck Buttons (ATP)
“Un día” Juana Molina (Domino)
“Glass Ceiling” Fennesz (Touch)

O que foi o ano de 2008? Ao menos pelas listas de melhores do ano já publicadas, parece que foi um concurso para ver quem melhor reciclava o pop do final dos anos 70 e dos anos 80, entre disco, new-romantic, pop de sintetizador, pop mauricinho (tipo Spandau Ballet e Hall & Oates, a checar Sébastien Tellier) e shoegaze. Tive a minha overdose antes mesmo de ser contagiado em excesso, portanto não estarão na minha lista Hercules & Love Affair, M83, Cut Copy, Crystal Castles, Hot Chip e outros. Talvez “a onda” nos circuitinhos indie representados por Pitckfork, Les Inrockputiles, Fact etc. e pelos seguidores ao redor do globo, essa passou batida por mim como um flerte muito perigoso com o retrô e o elogio do descartável, restringindo a invenção a um plano ínfimo no equilíbrio dos jogos de força. “A onda”, para mim, permaneceu sendo o dubstep, que em 2008 ganhou contornos continentais para além da Inglaterra nativa, experimentou andamentos mais ligeiros, tomou as pistas de dança e, mais que tudo, misturou seu vocabulário com repertório de outros gêneros, em especial o techno. Veio dubstep da Finlândia (Clouds), da Romênia (TRG), da Holanda (2562, Martyn), não só para acrescentar mas para ocupar espaços lá no topo do que se faz na área. Os ingleses não ficaram atrás, com lançamentos significativos de Appleblim, Peverelist, Kode9, Ramadanman, Coki, Benga, Scuba, Headhunter, Dusk + Blackdown, e a descoberta de novos nomes, em especial Darkstar, Cotti, Samiyam e Zomby. Isso sem contar os “não-exatamente-dubstep”, como The Bug, Flying Lotus, Shackleton. Este último teve um 2008 singular, fazendo remixes sensacionais para Ricardo Villalobos e Geiom, além de compor algumas das coisas mais soturnas e cheias de graves do ano em seus eps pela Skull Disco, compilados no fim desse ano num disco duplo que marca aparentemente o fim do selo dividido por Shackleton e Appleblim. Deixemos 2562 para os álbuns. “Need You” de Darkstar pode ter sido a grande faixa dubstep do ano, mas Martyn [foto], com “Suburbia” e com o remix de “Broken Heart” do TRG, além de mais alguns singles e remixes, merece ser destacado como figura decisiva no ano.

Vamos para a segunda parte da lista, músicas pop: as canções são aquelas que te carregam durante o ano, com seu quê necessário de vício, de grude, e portanto existe o desafio automático de prenderem na sua cabeça e de querer ouvi-las sempre. E, também necessário, de resistir ao tempo e ao cansaço (ou seja, não serem pop demais que enjoem). É certo que mais algumas poderiam estar na lista, duas de Estelle, “American Boy” e “No Substitute Love”, mas ambas têm momentos geniais misturados com enjoativas. Num ano em que o indie rendeu poucas pérolas pop, Department of Eagles, Thao Nguyen, Vampire Weekend e Lykke Li vieram para salvar o clima de sub-Pavement e sub-Yo la Tengo de Deerhunter, Atlas Sound e congêneres. O noise bubblegum de Vivian Girls, Crystal Stilts, etc. é bacana, mas não a ponto de listar. E duas faixas dos Mestres da Guitarrada ainda parece pouco para o quão essas melodias são preciosas, laboriosamente lapidadas e transformadas em pura beleza. Dá pra ouvir no shuffle junto com os fragmentos politeístas de Sir Richard Bishop.

Em seguida, baladas. “The Blue Room” é a mais apropriada da lista: Hello Voyager se aventura tanto na versatilidade que se embanana por vezes, mas esse não é um deles. É uma autêntica balada, doce e vulnerável mas com hybris, lembrando algo de PJ Harvey mas com estilo bastante pessoal. Que Carla Bozulich, aqui travestida com o nome Evangelista, possa emendar essa beleza com a fusiosa “Truth Is Dark Like Outer Space” (checar parte de rock ríspido), só mostra como ela é capaz de alternar registros e ainda manter-se dona do jogo. “Perfume for Winter” não é nem canção, nem estruturalmente balada, mas transmite com excelência esse arroubo sentimental que define esse tipo de formato. Como “A Year in a Minute”, é Fennesz em seu estado mais lírico. “Wedding Bell” do Beach House veio nos 45 do segundo tempo, depois de eu ficar boa parte do ano brigando com o disco por não repetir nenhuma “Saltwater”. Bobagem de minha parte.

Estranho ver o Portishead listado junto com Crystal Antlers e Evangelista, mas é isso aí. “We Carry On” e “Machine Gun” são as coisas mais dark, carregadas, ameaçadoras que eles já fizeram, e uma usina de invenção de grandes batidas decoradas com vocais de Beth Gibbons soando mais noiva-cadáver do que nunca. Mas o protagonista dessas músicas é o espaço criado entre um e outro, raras vezes preenchido por algum outro instrumento (e que só faz aumentar o impacto quando entra). “One Thousand Eyes”, ao contrário, é totalmente preenchida. E é um sonho supor que algum dia surgiria uma banda sexy-selvagem-barulhenta como os Stooges e lírica-barroca como o Elton John de “Goodbye Yellow Brick Road” filtrado pelo hard rock. Alto, gritado, incrivelmente bem arranjado, o som dos Crystal Antlers em seu ep de estréia já veio completo.

O grupo seguinte chamar de quê, avant-pop? Duas faixas de eps, um que aponta para um disco de 2007 (Strawberry Jam do Animal Collective), um que aponta para 2009 (o próximo LP de Antony). “Water Curses” é hit total, mas 2009 espera muito mais do AC, que daqui a pouco lança disco novo e que, só por “Brothersport”, já é totalmente obrigatório. Pensei muito entre “Shake That Devil” e “Another World”, mas a última já tem modelos melhores em “The Lake” e “Hope There’s Someone”, ao passo que a primeira é algo mais inédito para Antony. E “Lost Language” persegue uma trilha de pop-barroco-progressivo que aparentemente o Stereolab desistiu de continuar e a que Lætitia Sadier dá vazão com o Monade.

Os três últimos, a bem da verdade, nem avant-pop são. O Fuck Buttons bebe do Black Dice e faz a peça de noise acessível mais cativante do ano. Juana Molina alcança a maioridade com uma peça sem paralelos em sua carreira até então, em que a gente ouve Steve Reich e Animal Collective. E, last but not least, “Glass Ceiling” tem os sons mais sutis e lindos do ano, aqueles barulhinhos de cristais que se o mundo fosse justo seriam pano de fundo para toda nossa existência.

Noto as enormes ausências de folk e hip-hop. Nada entusiasta de Fleet Foxes ou Mt. Eerie, o folk teria passado 2008 em branco para mim não fosse a descoberta de Mariee Sioux e seu Faces in the Rocks, que tecnicamente não entra na lista porque o disco foi lançado no final de 2007. Fosse lançado meses depois, “Two Tongues at One Time” e “Wild Eyes” estariam tranqüilamente entre as músicas do ano. E de hip-hop a única faixa que me impactou mais fortemente foi “Show Me How To Hustle”, da Re-Up Gang, que estaria numa lista de 30, mas foi cortada na de 25. De resto, Kanye, Lil Wayne, Young Jeezy, nada que fizesse uma impressão mais forte em mim. Poderia listar algumas coisas que ficaram dolorosamente de fora, como The Very Best, Guizado, a genial “Elders” do Clouds (o riddim de Cocoa Tea, “Young boy, won’t you go home, go home to your mumma, your mumma, you’re too young to play that sound” não sai da minha cabeça desde que ouvi pela primeira vez), mas lista é isso, tem que jogar o jogo. O ano é muito mais que uma lista, mas que haja excesso e não falta, só mostra o quanto o ano produziu de coisa boa e instigante… (Ruy Gardnier)

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Publicado às 20 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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