Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Músicas – Marcus Martins

(Algumas considerações: resolvi não apontar mais de uma faixa de um artista/banda, apenas escapando a esta regra as músicas de Bradford Cox, pelo fato do Atlas Sound ser um projeto solo e o Deerhunter uma banda. Algumas faixas que possivelmente entrariam na lista não o fizeram por funcionarem melhor no contexto do álbum que individualmente. Na maior parte destes casos, os álbuns estarão na lista da próxima semana. As 25 faixas aparecem listadas na ordem em que entram no texto.)

“Machine Gun” Portishead
“Quarantined” Atlas Sound
“Agoraphobia” Deerhunter
“Wedding Bell” Beach House
“Palmitos Park” El Guincho
“Shake That Devil” Antony & the Johnsons
“African Rhythms” Mi Ami
“Dance, Dance, Dance” Lykke Li
“Elders” Clouds
“Suburbia” Martyn
“Death Is Not Final” Shackleton
“Need You” Darkstar
“Darker Than East” Dusk + Blackdown Feat. Target (Roll Deep Entourage)
“Wearing My Rolex” Wiley
“Insane” The Bug Feat. Warrior Queen
“Where You Go I Go Too” Lindstrøm
“Enfants (Chants)” Ricardo Villalobos
“Collapsing at Your Doorstep” Air France
“Blind” Hercules and Love Affair
“Sound of Kuduro” Buraka Som Sistema
“The Healer” Erykah Badu
“A Milli” Lil Wayne
“The Kramer” Wale
“Love Lockdown” Kanye West
“Carimbó prá Maria” Mestres da Guitarrada

Se Third é o disco do ano ainda veremos, mas tenho por certo que nenhuma outra faixa me afetou de forma tão direta – até mesmo física – quanto “Machine Gun” do Portishead. Um dos símbolos da virada estética da banda, a faixa mistura um tênue drone vocal, uma musculosa batida industrial e um baixo bem sintético, tentando inutilmente sufocar o lamento de Beth por uma salvação improvável que culmina em linhas de sintetizadores quase épicos (desconfio que mais por um reforço da visão distópica do disco que por algum alento) … Bradford Cox é um dos nomes inescapáveis de 2008: sua figura incongruente, sua incapacidade de manter a boca fechada e sua estatura como símbolo de blogueiro enquanto astro de rock. Mas nada disso é significativo próximo de suas qualidades como compositor, e o fato de ter lançado três belos discos em 2008 apenas serve para comprovar que por baixo da obviedade de suas referências está um fino criador de climas e melodias, desde o relato do confinamento tornado doçura pelo filtro dos anos de “Quarantined” do Atlas Sound até a beleza absurda de “Agoraphobia” e “Nothing Ever Happened” … Ainda na praia do rock e seu mundinho indie, o que se verifica é que tivemos um excesso de bandas recebendo uma atenção despropositada e em meio a isso algumas pérolas que correram o risco de passar desapercebidas. O já excelente Beach House lançou seu segundo disco e se existia o temor de que não houvesse para onde escapar na fórmula shoegaze delicada do disco de estréia, a solução encontrada foi simples e luminosa: limparam quase completamente o som e fizeram resplandecer a qualidade das composições, da execução e dos vocais – a começar pela perfeita “Wedding Bell” que abre o disco. Outros como o Of Montreal não foram completamente bem sucedidos para equilibrar a ambição com a execução, mas ainda emplacaram algumas pepitas como “Women’s Studies Victims”. Outros não entraram na lista por falta de espaço e não tenho muitas dúvidas que posso mudar de idéia em pouco tempo e me arrepender por não ter incluído faixas como “Golden Age” do TV On The Radio ou “Cape Cod Kwassa Kwassa” do Vampire Weekend, para citar apenas duas das melhores faixas de bandas que cometeram excelentes discos em 2008 e deixam a expectativa sobre suas possibilidades para o futuro. O Animal Collective mesmo apenas lançando um EP esteve presente em 2008 – além de uma faixa como “Water Curses” ser excelente, provando que poderia facilmente integrar o já fantástico Strawberry Jam, ainda tivemos prévias do aguardado álbum de 2009, e “Brothersport” poderá ser uma das faixas do próximo ano … E nenhuma delas entrou no corte das 25 porque o disco à Panda Bear do El Guincho nos trouxe colagens latinas cheias de personalidade com “Palmitos Park” … Agora, que o Animal Collective é uma banda de potencial ilimitado já acreditava a algum tempo, mas que o Antony & the Johnsons poderia prometer muito mais que a voz perfeita de Hegarty é algo que “Shake That Devil” apenas confirma e ressalta … O que faltou a muitas destas grandes faixas que não entraram na lista foi o que sobrou em “African Rhythms” do Mi Ami: energia, abandono e inventividade para tratar de um gênero que não parece mais oferecer muitas novas possibilidades … É claro que a leveza e a fórmula pop sempre podem revelar canções das quais não podemos nem queremos escapar e Lykke Li tem em “Dance, Dance, Dance” o docinho do ano.

Junto com o drone e o noise, o dubstep foi o que mais ouvi no ano e confesso que fiquei um pouco decepcionado. Não que tenham faltado bons discos/EPs/singles, mas a aproximação com o techno e a house tem deixado a impressão de engessar os produtores que ou pecam por ceder facilmente aos apelos da pista de dança, ou privilegiam o volume e os tons excessivamente graves para simular contundência. Claro que em meio a isso tivemos momentos de revelação, como os alienígenas finlandeses que respondem pelo Clouds e que lançaram uma das músicas que não me saíram da cabeça em 2008 – “Elders” é daquelas faixas que nos surpreendemos a cantarolar. A invasão estrangeira ainda continuou com o TRG cometendo faixas absurdas como “Broken Heart”. Mas o produtor do ano no dubstep foi indubitavelmente Martyn, que além de remixes que verdadeiramente adicionaram ao original, lançou a dupla “All I Have Is Memories/Suburbia” e “Natural Selection/Vancouver”. Concorrendo muito perto tivemos Shackleton e sua obra-prima “Death Is Not Final” (ainda que Shackleton venha se firmando como um grande produtor de música eletrônica e o dubstep seria apenas o idioma com o qual ele tem maior intimidade, longe de estar limitado a ele). O dubstep se espalhou pelo mundo, mas de sua terra natal ainda vieram perfeições como “Need You” do Darkstar e “Darker Than East Ft. Target (Roll Deep Entourage)” do Dusk + Blackdown, que talvez ganhe em estatura por saber passar o clima de clandestinidade e urgência que sempre foi um dos elementos mais vitais do gênero … e assim deixamos ainda de incluir Benga, Headhunter e tantos outros. O grime teve um ano bem tedioso apesar do petardo pop que é “Wearing My Rolex” do Wiley – curioso, tenho dúvidas se uma música tão descaradamente pop como tal vai trazer mais fãs a Wiley ou fazer com que os mais ortodoxos percam o respeito pelo chefão do gênero. O que importa é que a faixa é viciante. Ah, The Bug ouviu os jovens, achou bacana e sem abandonar suas características criou dinamites que poderiam romper o gueto do dubstep e “Poison Dart” é apenas uma delas, que foi escolhida por ainda ter uma vocalista tão poderosa quanto Warrior Queen.

Na praia eletrônica, as formas longas, usadas de maneiras bem distintas garantiram o sucesso de Lindstrøm e sua “Where Do You Go I Go Too” e Ricardo Villalobos e sua “Enfants (Chants)”. Mas ainda existe espaço para o Air France trazer brisas suaves com sua “Collapsing at Your Doorstep”. O Hot Chip veio bem, veio “Ready For The Floor”, que realmente funciona na pista, mas também não foi tanta coisa. Em especial no ano em que uma das principais concorrências para “Machine Gun” foi a destilação disco de “Blind” do Hercules an Love Affair – talvez sua maior riqueza seja o fato de tornar o hedonismo disco em memória e vislumbre para algo maior, usando o gênero para aquela rachadura no tempo em que se produzem os clássicos.

A dita música negra, agora fora da Europa, ainda continua a dominar a indicação das faixas. Um ano rico para a produção da música africana, mesmo que nem sempre de forma pura, como em “Sound of Kuduro” do Buraka Som Sistema. Na mesma linha tivemos a mixtape do The Very Best, com destaque para “Kamphopo”. Da África ‘autêntica’ tivemos o ótimo disco do Kasai Allstars, e citar apenas uma faixa, como “Kafuulu Balu”, é um pecado. Nos EUA, apesar de poucos admitirem, o grande nome da música negra foi Erykah Badu, e seu disco é daqueles que servem bem a clichês como “melhora a cada audição”. “The Healer” é o exemplo perfeito, sua forma aberta e expansiva é das coisas mais belas e inesperadas do ano. O hip-hop não teve dos anos mais brilhantes, e Lil Wayne reinou sem muitas dificuldades, e apenas “A Milli” já serve para provar por que ele esteve muito à frente da concorrência em 2008. O ano teve uma ótima faixa de Big Boi, membro do Outkast menos badalado, que mostrou com estilo seu “Royal Flush”. Em meio à avalanche de mixtapes, Wale surpreendeu pela leveza e inteligência de suas apropriações de Seinfeld, em especial pela poderosíssima “The Kramer”, conseguindo dar grande ressonância à cagada racista do ator que fez o personagem. Para não dizer que o Brasil não aparece aqui, é digna de alegria a descoberta de que o Costa a Costa é o melhor grupo de hip-hop do país e sua mixtape é uma finura. Kanye West esteve presente e com força em área inesperada: apesar de todos os senões e seus muitos defeitos, West criou em “Love Lockdown” uma daquelas obras onde as escolhas estéticas refletem à perfeição seus propósitos narrativos… O Flying Lotus não fez nem hip-hop instrumental nem dubstep, mas fez faixas excelentes como “Roberta Flack” e “Golden Diva”. Ainda cabendo algum destaque ao potencial que Santogold mostrou em faixas como “L.E.S. Artists” e “Creator”. Do outro lado temos a diva Beyoncé e seu fracasso em replicar o sucesso de seu álbum anterior e saber fazer alguma coisa do conceito idiota com o qual resolveram amarrar a coisa toda – nem “Single Ladies”, boa faixa, salvou a tragédia.

Gostei de pouca coisa de música brasileira e não é nenhuma condescendência incluir o “Carimbó Pra Maria” que o Mestre Curica fez para os Mestres da Guitarrada e apenas não incluo música de Aldo Sena porque confio que apenas uma faixa já serve para representar este disco que em sua simplicidade afastou a nuvem negra do tédio que pairou sobre a música brasileira em 2008 e seus camelos e Mallus que não são Maders. O Chica Libre parece ter apostado na mesma alegria e faixas como “Gnossiene No. 1” e “The Hungry Song” mostram que não tratamos apenas de uma bandinha de colorações latinas.

Em um ano em que fora os álbuns para a Camarilha ouvi muito pouca coisa além de noise/drone, não foram poucas as ótimas faixas que deixei de fora e isso apenas serve para provar que basta afastar os olhos da mesmice que tentam nos empurrar para descobrir um mundo fascinante e cheio de possibilidades. (Marcus Martins)

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Publicado às 22 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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