Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Músicas – Bernardo Oliveira

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Ao compilar o que de melhor escutou no ano, acho que o crítico não deveria se render à paranóia da totalidade, nem à régua do tempo, pois ambos os critérios são negligentes: ora porque o “melhor” não emerge necessariamente da quantidade, ora porque o esquadro do “ano” não dá conta da pluralidade. Não um ano em faixas, mas as faixas de um ano… Por isso resolvi expor minha lista da seguinte maneira: primeiro, 10 textos que analisam brevemente 10 tracks lançadas em 2008, absolutamente indispensáveis; depois, as 15 restantes são analisadas em textos menores. São 25 escolhas pessoais, mas que buscaram como princípios básicos a novidade, a criatividade e o arrojo formal em relação ao que foi produzido em 2008. Escolhi também uma segunda (e até mesmo terceira) faixa que completa ou se relaciona de alguma forma com a faixa escolhida. A lista está disposta por ordem de preferência.

1. “Machine Gun” – Portishead
“The Rip” – Portishead

Nunca me rendi ao Portishead, nem a Dummy, na minha opinião um álbum superestimado que, na melhor das hipóteses, pode ser considerado um bom álbum, nem ao segundo e epônimo disco. Mas dizem as más línguas que Geoff Barrow se internou em casa junto a seus discos de krautrock, pesquisou, estudou, criou… E obteve como resultado não só o melhor disco do ano (a ver), como também uma track que é, desde já, candidata a uma eminente lista da década. O curioso é observar que a idéia não é inédita: em 69, Jimi Hendrix gravou sua “Machine Gun”, cujo conceito musical também remetia à onomatopéia do som das armas. Mas o ritmo marcial, as modulações de timbre da bateria, a belíssima melodia que recorta docemente o instrumental bárbaro, tudo em “Machine Gun” demonstra duas habilidades admiráveis: excelência musical e vigor conceitual. Se a letra da canção ainda cincunda o universo deprê-chic com o qual o trio se impôs nas paradas underground do mundo, envolvida pela música grandiosa ela adquire outra perspectiva, mais própria, eu diria… “The Rip”, do mesmo álbum, também se destaca por motivos semelhantes: como canção, é das mais belas, mas seu arranjo não fica atrás, com o violão meio tosco em crescendo, bateria e teclados minimalistas. Duas faixas que se interpenetram, simbolizando o que de melhor se produziu no ano.

2. “Un día” – Juana Molina
“The Healer” – Erykah Badu

Quando indiquei o álbum de Juana Molina para o mês de novembro, o Ruy se admirou que eu escolhesse uma cantora cujo trabalho estaria ligado a uma exploração eletrônica do folk, graças a uma suposta antipatia de minha parte em relação a este gênero tão decantado e cultivado. Ele estava certo quanto ao trabalho de Molina e quanto à minha antipatia. Mas eu nunca tinha ouvido nenhum álbum desta bela argentina até que Un día chegasse às minhas mãos. O fato é que, na primeira audição, a música que entra é esta “Un día”: uma voz esganiçada e imponente grita que “un día voy a ser otra distinta” e nos faz supor que algo de muito estranho está para acontecer. Uma segunda voz, sintética, repete “one day, one day”, enquanto uma quebradeira de percussões, sopros, apitos e outros elementos criam uma textura sonora imersa tanto no caos quanto na candura, distilando ameaças e carícias como pouquíssimas vezes ouvimos durante o ano. Será que Molina decreta o fim do folk em sua carreira? O restante do álbum mostrará que não, mas tendo a concordar com o Ruy de que “Un día” é daquelas canções que valem o ano, o álbum, a carreira, a família e a propriedade. Podemos até dizer que “Un día” é uma canção anômala no repertório da argentina, assim como a ótima “The Healer”, produzida por Madlib, destoa de tudo o que Erykah Badu fez em seus mais de dez anos de carreira.

3. “Golden Universe” – Ilyas Ahmed
“Nattúra” – Björk (com Thom Yorke)

Outra anomalia: mesmo considerando o extremo prodígio de Ahmed, com suas texturas calcadas em violão de aço, sua voz diáfana e modos estranhíssimos que fazem de The Vertigo of Dawn um dos álbuns do ano, “Golden universe” sobressai. Um entrelaçamento soturno de sopros, tremores extremamente graves e detalhes de kalimba e sons industriais, equilibrados com sutileza até o final inesperado, com os violões saturados, à semelhança de pratos de bateria. Mesmo comparando o trabalho de Ahmed com os primeiros discos de John Frusciante, aqui ele se destaca radicalmente de qualquer comparação. Mas vale afirmar que “Golden Universe” se parece às vezes com uma peça coltraniana, extraída dos álbuns mais difíceis como Meditations ou Stellar Regions, embora se trate de um experimento solitário, calcado na relação do artista com um arsenal de instrumentos e equipamentos de gravação e uma sensibilidade aguçada para criação de texturas sonoras. Habilidade esta que faltou a Björk em seu último álbum, mas que sobrou em “Nattúra”, faixa que dividiu com Thom Yorke, Mark Bell, Matthew Herbert e Brian Chippendale. Os rompantes percussivos, combinados a intervenções sutis dos participantes, reiteram o profundo compromisso da moça com a produção da novidade, assim como também indica o trabalho de Ahmed.

4. “João nos Tribunais” – Tom Zé
“Where You Go I Go Too” – Lindstrøm

Já me referi na Camarilha a uma certa implicância com o modo meio indiscriminado com o qual Tom Zé toca problemas de natureza teórica (por vezes, acadêmica…) em seus discos. E também de como o conceito dos últimos álbuns resvalava por vezes num anti-americanismo juvenil, ou ainda, num esquerdismo estéril (a doença infantil, como escreveu Lênin…). Ainda assim, álbuns como Com Defeito de Fabricação mantêm sua graça em virtude não só da ousadia do autor para questões propriamente musicais, como também de sua habilidade como pensador da canção e compositor. “João nos Tribunais” é uma pérola que condensa perspicácia crítica em relação ao problema que aborda, separando João como “a grande gema, a grande jóia”, mas realizando esta crítica dentro de uma formato de canção que se não pode ser chamado de original, ao menos demonstra arrojo incomum. Além de prestar esse verdadeiro serviço, desafinando o coro das celebrações estéreis em torno dos 50 anos da Bossa Nova, Tom Zé alcança momentos sublimes quando canta: “Diante do desafinado, o mundo curva-se, desova, tudo até então louvado foi jogado numa cova, o sol chocou duzentas ovas e nasceu a bossa nova.” Em outra seara, “Where You Go I Go Too” do norueguês Hans-Peter Lindstrøm demonstrou ao mundo como operar sobre um conceito muito bem definido, que tem por base outra experiência musical (no caso E2-E4, de Manuel Göttsching), à beira de se configurar como plágio, mas dando a volta por cima com a utilização inteligente dos timbres e das texturas sonoras.

5. “Timekeeper” – Clouds
“Timekeeper” – Clouds (Ras G Remix)
“Elders” – Clouds

Não sei se é motivo para comemoração, mas que o dubstep têm sido o grande bastião da experimentação nos últimos anos é inegável. Que ele tenha se expandido para territórios inesperados, como a Holanda de Martyn, só demonstra que sua linguagem não é algo propriamente inglês, mas compartilhado genericamente com artistas que de alguma forma se relacionam com a música jamaicana – não é à toa que os alemães do Rhythm & Sound são considerados precurssores do gênero… Nesta maravilhosa “Timekeeper”, produzida pelos finlandeses Tails e Dead-O, integrantes do Clouds, destacam-se tanto o amor pela música jamaicana como a fissura pela experimentação. Espectros do ritmo jamaicano, bem como de seus elementos característicos como a escaleta, misturam-se a sons de cristais tão desordenados quanto singelos, enquanto modulações inesperadas de timbre e ritmo delineiam um carrossel sonoro dos mais instigantes do ano. Tão ou mais instigante é o remix realizado pelo enigmático Ras G, que este ano lançou o inatingível Guetto Sci-Fi (possivelmente um álbum a ser reconsiderado em 2009). Noto que, além de “Timekeeper”, o Clouds produziu “Elders”, um dos riddims mais adoráveis do ano. Mas, de qualquer forma, “Timekeeper” fica sendo a minha faixa de dubstep do ano.

6. “Death Is Not Final” – Shackleton
“Rolling Raj Deep” – Dusk + Blackdown

Sam Shackleton: não há mais dúvidas que este nome marca e marcará ainda por muitos anos as listas de fim de ano. Quem se dispuser a estudar a sério o que aconteceu em termos musicais na primeira década do século XXI, deverá necessariamente se debruçar sobre o trabalho deste iconoclasta do ritmo, das texturas, do trabalho com percussões… Com nome de explorador inglês, Shackleton pode até ser arrolado na onda dubstep, mas é muito mais que isso. A cada nova track, a cada novo trabalho, ele confirma sua preponderância no cenário atual. “Death Is Not Final” é mais uma prova de sua independência radical: tambores orientais que se debatem selvagemente, até a emersão de um ritmo mais próximo do house. Quando se imagina que a faixa se tornará mais palatável, ele manipula os volumes do andamento e dos tambores, fazendo-os dialogar. Em suma, não se trata de uma faixa de dubstep: trata-se simplesmente de Shackleton. Na mesma seara, mas com menor intensidade, destaco “Rolling Raj Deep”, um bangra produzido pela dupla Dusk + Blackdown que, abusando das percussões e deslocando-as do eixo, produziram uma peça histérica e digna de nota.

7. “RobertaFlack” – Flying Lotus (com Dolly)
“Testament” – Flying Lotus (com Gonja Sufi)
“Make the Road by Walking” – Menahan Street Band

Aqueles que compactuam e aprovam a boçalidade da onda nu-soul (nu-jazz, nu-afrobeat, ou algo que corresponda a esses rótulos) não esperavam que alguns artistas mais preocupados em seguir em frente, como Flying Lotus, também se entregassem ao passado, ou melhor dizendo, a uma certa inflexão do passado, mais especificamente da soul music. Mas esta viagem ao passado não é uma viagem qualquer: ela se reveste de todas as vozes, incorporando a época, vocalizando o caos da época, os ruídos da época… “RobertaFlack” é uma faixa curta e sutil, repleta de sonoridades ao mesmo tempo palatáveis e inovadoras, mas sobretudo caóticas. A voz suave de Dolly contrasta maravilhosamente com a indistinção dos sons, sugerindo um paradoxo dos mais ricos do ano. A certa altura, faltando cerca de vinte segundos para terminar, o produtor insere a harmonia como uma guitarra distorcida, em um daqueles breves momentos que valem o ano. “Testament”, do mesmo autor, segue o mesmo caminho, desta vez contando com a voz andrógina de Gonja Sufi. Estes dois exemplos de reavaliação criativa do soul contrastam com o retrô descarado de “Make the Road by Walking”, da Menahan Street Band, sampleada por Jay Z em “Roc Boys”. Enquanto Flying Lotus recria, Menahan conserva; mas esta conservação se afigura com tanta cumplicidade e competência que fica difícil não citá-la entre as faixas do ano. Embora se deva observar que competência é adjetivo para engenheiro, não para artista…

8. “Shhhy” – Food for Animals
“Creator” – Santogold (com Switch & Freq Nasty)

Mais um animal para a extensa família: Vulture V, Rick Ra e Hy formam o trio Food for Animals, que produzem desde 2003 um hip hop iconoclasta, extremamente barulhento, saturado nos samplers e efeitos. A perspectiva do grupo sobre o hip hop soa da forma mais obtusa que ouvi em 2008, e “Shhhy” representa um corolário de seu temperamento irascível. Quero dizer: me parece que aqui está a faixa de hip hop do ano, com seu vandalismo glitch, suas pausas inacreditáveis, seu teclado repetitivo e carregado nos efeitos, além do rap certeiro de Hy. Da mesma forma, os estilo toaster de Santogold também se rende a uma dimensão glitch em “Creator”, faixa anômala dentro do contexto pop de seu álbum de estréia. Ela também conta com elementos transbordantes, mas possui um refrão bem acabado, o que não a faz mais interessante do que “Shhhy”, mas igualmente importante.

9. “Enfants (Chants)” – Ricardo Villalobos
“Sweet Love for Planet Earth” – Fuck Buttons

Assim como Shackleton, Ricardo Villalobos vem, ano a ano, se afirmando como um dos grandes artistas da música hoje. Esse ano ele não produziu tanto como gostaríamos, mas o pouco (?) que fez já se afigura como excesso de talento e criatividade. Se utilizando de uma track da banda francesa de progressivo Magma, “Baba Yaga la Sorcière”, Villalobos criou dezessete minutos que se não remetem às peças sublimes de Sei es drum e Fizheuer Zieheuer, ainda assim intrigam. Um tanto quanto tosca e mal acabada, “Enfants (Chants)” traz, no entanto, um frescor irresistível: seja através da repetição do canto coral das crianças, seja pela combinação jazzística da levada de piano e bateria. Mas, no que diz respeito à excelência do trabalho com a duração, ressalto também a primeira faixa do excelente álbum de estréia do Fuck Buttons: embora melhor produzida, ela também reporta à utilização parcimoniosa da duração que Villalobos desenvolve com tanta perspicácia. Mas, no caso de “Sweet Love…”, desta vez para ressaltar uma dimensão noise tão instigante quanto palatável. “Enfants”, por sua vez, é uma odisséia lúdica que inicia e termina de forma abrupta e meio fora do tempo, mas que se impõe, ora porque reafirma o trabalho que Villalobos desenvolve com a duração, ora porque pode ser considerada uma faixa à parte em sua carreira.

10. “Rinkisha” – Guizado
“Truth Is Dark Like Outer Space” – Evangelista

Gui Mendonça e sua turma não só fizeram um dos melhores discos de jazz do ano (junto aos de William Parker), como também alcançaram momentos sublimes em diversas faixas como “Miragem”, “Vermelho”, “Afroka”, etc. Talvez uma das características mas contundentes deste jazz de proveta que o projeto Guizado criou seja o equilíbrio entre pegada rock, sensibilidade melódica e harmônica e arrojo timbrístico. Mas, além dessas características mais técnicas que criativas, pode-se dizer que o som do Guizado não é frio, conceitual. Ao contrário, soa exatamente o oposto de um som frio: é quente, enérgico, repleto de momentos que transcendem a mera audição e invadem o espaço do deus Dionísio, sem dó nem piedade. Por isso elegi “Rinkisha” para representar este trabalho: no mesmo passo em que ela traz uma levada eletrônica repleta de ruídos e estratégias, nos leva a uma absoluta sensação de catarse, quando o riff de guitarra à la Black Sabbath se coaduna com o trumpete rascante à la Miles Davis para produzir um som à la Guizado. E exatamente esta propriedade que faz com o que ambos, disco e faixa, mereçam todos os nossos aplausos e reconhecimento. E como se trata de barulho e emoção, nada mais justo que homenagear esta belíssima Carla “Evangelista” Bozulich e sua canção venenosa, “Truth Is Dark Like Outer Space”.

***

11. “Time Is Now” – TRG
“Time Is Now” começa com um sample que lembra os bons tempos do jungle, com aquela mistura de caixa e hi-hat e uma voz de criança. Mas rapidamente o andamento reggae característico do dubstep se inicia; uma flauta, algumas vozes até a primeira virada: timbres abrasivos e uma percussão chacoalham a faixa, alçando-a a uma das grandes pérolas do ano. Não é à toa que na décima primeira colocação inclui-se aqui mais uma faixa de dubstep: foram elas que literalmente tiraram o fôlego em 2008 e “Time Is Now” é um de seus exemplos mais consistentes.

12. “Kalemba (Wegue Wegue)” – Buraka Som Sistema
Se o kuduro chegou a se tornar um ritmo mundialmente conhecido, foi da mesma forma que o funk carioca se impôs: através de zonas de aproximação e repulsa, geralmente estimuladas por diferenças sociais, culturais e econômicas. “Kalemba (Wegue Wegue)” é daquelas faixas que ou aproximam ou afastam imediatamente. Um tema seco, uma levada híbrida de techno e kuduro, e uma rapper angolana cantando versos imponentes como “Quando eu entro o povo se move, talento aqui chove” fazem a alegria de algumas pistas de dança. Ame ou odeie, impossível ficar indiferente.

13. “Carimbó pra Maria” – Mestre Curica
Curica puxa os versos: “Ê Maria, vem pra cá não fica só, deixa a tristeza de lado, vem dançar o carimbó”, ao passo que o grupo entra numa espécie de transe rítmico, onde o dedilhar das guitarras como que se enrodilham, produzindo um balanço inigualável. Este é o “Carimbó pra Maria”, interpretado por Mestre Curica no álbum dos Mestres da Guitarrada. Dentre suas muitas virtudes, gostaria de destacar duas delas: a de tornar alegre e festivo até mesmo o ambiente mais hostil; e a de exemplificar não só as peculiaridades relativas à esta verdadeira escola da guitarra brasileira, a guitarrada, mas também o modo curioso como Mestre Curica empunha seu banjo, formando uma segunda escola do banjo no Brasil – a primeira seria a criada por Almir Guineto. Virtudes que garantem sua presença nessa lista.

14. “Kamphopo” – The Very Best
Esta faixa poderia estar entre as dez melhores, mas veio parar aqui por razões que até eu mesmo desconheço… Isto porque, aos quarenta e cinco do segundo tempo, apareceu o álbum do The Very Best, a parceria entre o Radioclit e o cantor do Malavi Esau Mwamwaya. Não o digeri ainda, mas isto não impede a compreensão de que “Kamphopo” é uma obra-prima, por vários motivos. Por remeter a uma concepção melódica diferenciada, graças ao aporte de Mwamwaya, oriundo da África oriental; pela construção formal, pelo arranjo, com sua batida recortada, salpicada; pelo teclado estridente que, a certa altura, toma completamente a audição. Um trabalho primoroso, mas do qual ainda esperamos uma compreensão mais adequada, quem sabe indicando-o para o primeiro mês de 2009.

15. “Bacative” – Tricky
Quem foi rei nunca perde a majestade: como todo ditado popular, poucas são às vezes em que se comprova sua mensagem. E, de fato, Knowle West Boy foi uma decepção, pelo menos para mim. À exceção de duas ou três faixas, o álbum se mostrou uma repetição de procedimentos outrora geniais, mas que agora revelam somente um artista que busca, a qualquer custo, reaver o lugar de onde, sabe-se lá por quê, pediu licença. Mas “Bacative” é uma faixa admirável, que faz crer no futuro, que empolga… Cordas, uma bateria desconjuntada e o flow do rapper Rodigan, além da nova Martina, Hafnis Huld, contribuíram para a criação de uma faixa estranha e palatável ao mesmo tempo.

16. “Sincopado Ensaboado” – Zeca Pagodinho
Em seu último álbum, Zeca Pagodinho gravou mais uma canção do chamado Trio Calafrio, formado por Barbeirinho do Jacarezinho, Mauro Diniz (filho do baluarte Monarco) e deste compositor absolutamente genial que se chama Luís Grande. Mas desta vez, algo liga os pontos de forma contundente. A faixa fala de um “maravilhoso samba sincopado que sempre foi e será nota dez”. Ora, mas se não foi justamente na seara de Geraldo Pereira, Ciro Monteiro e Jorge Veiga que se especializou o trio e, particularmente, Luís Grande? Com sambas sincopados divinos como “Na Boca do Mato” e “Maria Rita”, ambos gravados pelo saudoso João Nogueira, Luís Grande fez seu nome no meio. O elogio perfeito do samba sincopado na voz de Zeca, com um arranjo repleto de metais, a lembrar os arranjos de gafieira de Severino Araújo, emocionam, comovem e fazem de “Sincopado Ensaboado” uma das faixas mais perfeitas do ano.

17. “Candy Shop” – Madonna
Já me referi na Camarilha à excelência desta faixa produzida por Pharrell Williams e seu comparsa Chad Hugo, como quem formou The Neptunes. O talento da dupla e, sobretudo, de Williams não deixa pairar duvidas de que “Candy Shop” é a faixa pop do ano: groove matador, suingado até a medula, refrão pegajoso, metáforas safadinhas e todo aquele aparato de produção que enrubesce até o mais aguerrido anti-americanista. A loira sabe se movimentar nas vielas do pop urbano, e permanece dando provas desta habilidade. Até quando, perguntam os jornais, reiterando seu papel, que é o de fazer as perguntas erradas nas horas mais equivocadas…

18. “Glass Ceiling” – Fennesz
E quando um disco é tão bom, mas tão bom que torna-se uma tarefa ingrata eleger apenas uma faixa entre as melhores? O que fazer? É o caso de Black Sea, do guitarrista e compositor Christian Fennesz. Mas então por que eleger “Glass Ceiling” entre outras faixas tão ou mais surpreendentes que compõem seu último álbum? Aqui terei que ser raso, pois é o coração quem manda: são esses sininhos, esses cristaizinhos que delineiam algo como uma melodia trôpega sobre a suave textura de teclados, que encanta e, por assim dizer, dá um sentido peculiar à expressão “experiência estética”. “Glass Ceiling” é nada mais nada menos que uma track indispensável de um artista decisivo.

19. “No One Does It Like You” – Department of Eagles
E mais uma vez, o coração: já não bastasse a obra-prima Yellow House, de sua outra banda, o Grizzly Bear, o irônico e genial Daniel Rossen surpreende mais uma vez ao recriar o Department of Eagles à imagem e semelhança das feições folk do Bear. Ora, se se trata daquelas canções perfeitas, daqueles arranjos engenhosos, então In Ear Park é um dos grandes discos do ano e “No One Does It Like You”, a grande balada. Desaconselhável para o mal de amor; recomendável porém para casais apaixonados.

20. “Shake That Devil” – Antony & the Johnsons
Devo admitir que nunca curti o trabalho de Antony, mesmo após seu belo concerto no Tim Festival ano passado. Não sei bem justificar o por quê, mas devo ressaltar que sua voz é, de fato, um achado. Sempre cogitei a hipótese de que, combinada a um instrumental mais ousado, suas canções e bela voz poderiam um dia me convencer. Pois bem: alguns dias chegam mais rápido do que imaginamos, desta vez através de um EP e de uma faixa chamada “Shake That Devil”. Uma interpretação estilosa do rock’n’roll no estilo Chuck Berry, mas que traveste seus elementos com uma inflexão mais agressiva e abstrata, por assim dizer: lá estão a guitarra barulhenta, a bateria marcada, o saxofone bêbado e a maravilhosa voz de Antony ousando outras alturas. Oxalá The Crying Light, seu próximo álbum, trilhe estes novos e saudáveis caminhos…

21. “Need You” – Darkstar
Já escrevi aqui na Camarilha sobre a qualidade específica dessa faixa: a de, junto a “Reminissin’” de Geiom, indicar um raio consistente de possibilidade pop para este gênero tão vinculado à experimentação que é o dubstep, graças sobretudo a sua batida, próxima ao que chamei de electro-dixieland. Mas aqui gostaria de enfocar um outro aspecto, que é a riqueza com que a faixa modula, ora alterando apenas o timbre, ora anexando elementos, mas sobretudo quando, aos quatro minutos, o electro-dixieland se torna mais seco e pesado, e todos os elementos retornam aos poucos até o fim. Certamente um das faixas mais viciantes e saborosas do ano.

22. “Arcturus” – Crystal Antlers
E por falar em vício, eis que surgem os Crystal Antlers, responsáveis por um dos álbuns que mais ouvi em 2008. Também já escrevi sobre eles aqui na Camarilha, justamente sobre esta marretada que é “Arcturus”. Se tocada ao violão, ela se revela até uma canção saborosa. Mas emoldurada por uma zoeira tão atordoante quanto sutil, corroborada por teclados e percussões inacreditáveis, “Arcturus” estimula um vandalismo generalizado, uma sensação espiritual de destruição, movimento, instabilidade… E pensar que estes americanos de Long Beach, California, lançaram somente um EP, como que para nos fazer desejar um álbum o quanto antes…

23. “Cuando maravilla fui” – El Guincho
El Guincho fez um dos álbuns mais fortes do ano. Quero dizer: percebe-se em Alegranza a assinatura de um pesquisador que não está brincando em serviço, de um artista que vive daquilo do qual se alimenta, e, sobretudo, que sabe transformar tudo o que consome a seu favor. É claro que comparações com o Person Pitch de Panda Bear serão inevitáveis, graças às modulações e repetições que fazem a graça do álbum. Em “Cuando maravilla fui”, podemos apreciar essas modulações, muitas vezes reiteradas por sua própria voz, dobrando outras vozes. Mas o que é bacana da faixa é que El Guincho sintetiza seu trabalho com o sampler a uma canção, mais especificamente um rock’n’roll meio anos 80, meio new wave. Uma faixa enérgica, que fica ainda mais empolgante quando está lado a lado com as outras faixas do álbum.

24. “Water Curses” – Animal Collective
“Water Curses” é uma valsa muito, muito estranha. Faz a alegria não só de quem curte o Animal Collective, mas também de quem gosta das colagens histéricas do XTC, do tom auto-irônico do Devo, de uma doçura ameaçadora que perpassa as faixas e emerge sobretudo quando o canto de Avey Tare se desgarra do andamento em 3/4. Basicamente, se é possível falar assim, “Water Curses” é composta por um violão alucinado, uma miríade de sons os mais estapafúrdios, além de um sampler de cordas e flautas que percorre as estrofes, e se resolvem em acordes de Hammond e mais elementos sonoros, que produzem uma confusão sonora dos infernos. Faixa deliciosa, mas que só reforça a lembrança de que Merriwheather Post Pavillion está a caminhho…

25. “Never Be Afraid” – Yo Majesty

Este é o segundo hip hop que escolho nesta longa lista. Ao lado da faixa do Food for Animals, esta faixa do Yo Majesty me parece que foi o melhor feito no gênero este ano (obviamente considerando que “Bacative” não é um hip hop). E aqui quero deixar claro qual o critério: quanto mais o hip hop absorver a capacidade transfiguradora do grime, do dubstep, das experiências advindas do drone, da música eletrônica, da eletro-acústica, mais ele terá argumentos que sustentem sua existência tanto fora do mainstream, quanto como uma experiência formal em si. Neste sentido, “Never Be Afraid” é uma faixa que inova em termos de ritmo, timbre e, de quebra, lá pelos três minutos e tal, a voz inacreditável de Jewel Baynham (Jwl B para os íntimos) nos brinda com um canto na melhor tradição gospel. Uma faixa arrepiante, que vale o álbum e a colocação.

Vale citar…

“American Boy” – Estelle
“What Up Man” – The Cool Kids
“Messenger” – Boris
“Kyoto” – Curumin
“Dançando no Escuro” – Curumin e Marku Ribas
“Suburbia” – Martyn
“Grounded” – Headhunter
“Dance, Dance, Dance” – Lykke Li
“25th Street” – Kieran Hebden & Steve Reid
“Morning Mantra” – William Parker
“Angry” – The Bug Ft Tippa Irie
“Boose Sweep” – Shed
“I suoi brillanti anni ottanta” – Bachi da Pietra
“Agora Eu Sou Solteira” – Gaiola das Popozudas
“Brainwave” – Nomo
“Mulher Elétrica” – Racionais MC’s
“Ape Lost” – The Hospitals
“Bebey” – Gang Gang Dance
“Dancing Choose” – TV on the Radio
“Love Lockdown” – Kanye West
“Fountain of Youth” – Christina Carter
“Holy Fool Music” – David Grubbs

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Publicado às 25 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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