Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Discos – Ruy Gardnier

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essenciais:
Crystal Antlers, EP (sem gravadora)
Department of Eagles, In Ear Park (4AD)
Fennesz, Black Sea (Touch)
Kevin Drumm, Imperial Distortion (Hospital Productions)
Portishead, Third (Island)
William Parker, Double Sunrise Over Neptune (AUM Fidelity)

outros grandes discos de 2008:
2562, Aerial (Tectonic)
Anthony Braxton/Milford Graves/William Parker, Beyond Quantum (Tzadik)
The Caretaker, Persistent Repetition of Phrases (Install)
Christina Carter, Masque Femine (Many Breaths)
Fuck Buttons, Street Horrrsing (ATP)
Guizado, Punx (Diginóis/Urban Jungle)
Kieran Hebden & Steve Reid, NYC (Domino)
Maryanne Amacher, Sound Characters 2 (Tzadik)
Mestres da Guitarrada, Música Magneta (Candeeiro)
Nico Muhly, Mothertongue (Bedroom Community)
Shackleton, Appleblim, Peverelist e outros, Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals (Skull Disco)
Spring Heel Jack, Songs & Themes (Thirsty Ear)
Vampire Weekend, Vampire Weekend (XL)
The Very Best, Esau Mwamwaya & Radioclit Are the Very Best (Ghettopop/Green Owl)

Como encarar 2008? Olhando para a lista acima, vemos diversos artistas de áreas bastante distintas que, de alguma forma, tentam encontrar formas e/ou sonoridades novas e inventivas, quase sempre dentro de tradições já por demais saturadas de décadas e infinidades de artistas já lendários que, de um jeito ou outro, esgotaram parte do terreno. É claro que surgem novas frentes de pesquisa e criação, como está sendo com o dubstep há alguns anos, com o technodub, com o techno minimalista, em alguma medida com o noise, mas são lugares que, pelo menos olhando agora, permanecem fixos em seus campos de experimentação, confortáveis em seus guetos e criando pequenas revoluções dentro eles. No entanto, é um panorama muito distinto do final da década passada, quando a gravadora Warp, através de artistas como Aphex Twin e Autechre, foi palco de uma mudança radical de paradigma tanto dentro da música eletrônica quanto no terreno do pop/rock (a própria guinada do maior grupo de rock da atualidade, Radiohead, a partir de Kid A, deu-se em função de uma reflexão sobre a assim chamada IDM). Do outro lado da cadeia, o pós-rock questionava a estrutura da canção e propunha ambiências, instalações temporais em que timbre e intensidade valiam mais que melodia (e que, de certa forma, por seu apelo rock, abriu os olhos de muita gente do rock para campos como a música improvisada, o doom drone e diversos gêneros afins). Não é algo semelhante o que vemos hoje. O que temos atualmente é um período de consolidação e de reciclagem, às vezes de aperfeiçoamento, de algumas invenções ocorridas há alguns anos cujo frescor ainda não se esgotou. Nesse sentido, Kala de M.I.A. é o disco mais representativo desse momento – e um discaço por não apenas apresentar o impasse mas refestelar-se nele de maneira festiva, criando uma colcha de retalhos de ritmos terceiro-mundistas e prenunciar a revolução dos maltrapilhos por vir. Em 2008, dois bons discos que de certa forma se aproveitam do impasse sem dar passos à frente são Los Angeles do Flying Lotus e Baby, It’s Cold Inside do duo The Fun Years. O primeiro é basicamente uma aplicação mais soul e funky das experiências com andamento e polirritmo de artistas como Prefuse 73 e Autechre, com um inegável senso de dinâmica interna do disco e um ecletismo de proposta e repertório. O segundo é uma mistura tão perfeita de drone e pós-rock que chega até a parecer safado por momentos, o que, se não é uma crítica por si mesmo, ao menos aponta para o fato de que a reciclagem bem feita não substitui a criação.

Das duas frentes que mais fizeram a cabeça da imprensa alternativa, todas parecem situar seus campos de referência não no passado próximo, mas no revival de 20 ou 30 anos atrás. A DFA deve achar que discopunk já deu e decidiu apostar em simplesmente disco. Mas ali onde artistas como The Rapture se esforçavam para construir um novo som a partir de um antigo, Hercules and Love Affair só varia de suas referências nos padrões de produção, mimetizando o que seria uma colaboração entre Giorgio Moroder e Jimmy Somerville (ainda que Antony Hegarty seja infinitamente superior ao cantor do Bronski Beat). E o folk, que mantinha uma certa limpidez quase bossanovista que o distanciava dos retoques country mais explícitos e típicos dos anos 70, mergulhou de vez no revival do som da terra. Grupos celebrados como Fleet Foxes e Shearwater têm como referência Crosby, Stills, Nash & Young e America muito mais que grupos como Espers se baseavam no folk psicodélico britânico. E a volta com tudo do tecnopop e do synthpop, sofisticado e singelo ou podrão e divertido, macaqueia desavergonhadamente uma das facetas mais bregas dos anos 80. De alguma forma, todos esses três caminhos apostam em saturação não para combater a saturação, mas apenas para ficar na crista da onda.

Não escolhi esses discos como uma resposta a um estado de fato. Escolhi porque são discos que me acompanharam ao longo do ano e dos quais mais guardarei memórias positivas, seja pela euforia ao ouvir, pela recorrência das audições e pela lembrança das melodias, dos conceitos, das sonoridades na cabeça. Pelo menos três deles, The Very Best, Guizado e Fuck Buttons, apostam na reciclagem em alguma medida, mas o fazem sem inscrever seus sons numa seara já pré-definida. Os outros, me parece, ou desenvolvem seu som particular e tão pessoal que não faz sentido inscrever em gêneros (Fennesz, Maryanne Amacher, Kevin Drumm, Mestres da Guitarrada, Christina Carter) ou tentam alguma pulsação nova em seus terrenos de predileção (Department of Eagles, Nico Muhly, Spring Heel Jack, Vampire Weekend). Portanto, de alguma forma, estabelecem uma relação com a novidade – ainda que alguns possam não ver novidade em alguns citados, ou não achar suficiente a novidade apresentada.

Primeiro o pop, terreno ao qual todos prestam mais atenção, pela acessibilidade, pelo público mais amplo, mas também e principalmente por ser o terreno em que mais se pode equacionar invenção e popularidade. O Portishead fez com Third seu melhor disco e a grande surpresa do ano, por ressecar seu som a ponto de desapontar os fãs do grupo (mesmo Maurício Valadares, que não é nenhuma dondoca, achou Third a grande decepção do ano), por pesar seu som a ponto de parecer mais com uma banda de doom do que um megagrupo pop e em especial por apostar em batidas experimentais e arranjos mínimos, cheios de espaços que transformam silêncio em psicodelia. Não saiu de meu Sony Walkman desde que entrou. Outra presença permanente nele foi o ep dos Crystal Antlers, um ataque sônico inesperado que vai na contracorrente do rock abrasivo e aposta em arranjos luxuosos e cheios quando vários grupos dignos de nota pegam a deixa dos Liars e se articula entre lo-fi e no-wave (Sic Alps, The Hospitals) ou renovam Jesus & Mary Chain brincando com Ronettes e distorção (Vivian Girls, Crystal Stilts). Dois discos que se ouvem inteiros e fazem perder o fôlego. In Ear Park do Department of Eagles chega bem perto, apesar de funcionar melhor na primeira metade. Em todo caso, foi o refúgio de quem buscou pop elegante e elaborado, doce e levemente vanguardista. Vampire Weekend foi um dos hypes do ano, e todo hype incomoda, enche o saco até. Mas o primeiro disco do grupo, em matéria de pop-indie-juvenil, é um disco à altura do primeiro dos Strokes e do Supergrass, ou seja, um daqueles que a gente gosta inicialmente, tem birra logo depois e mais tarde volta redimido. “Walcott”, “Cape Cod Kwassa Kwassa”, “Oxford Coma”, são muitas canções boas pra teimar…

No terreno cascudo dos barulhos e dos zunidos, foi um ano muito bom. Quem gosta se fartou com Prurient, Pocahaunted, Burning Star Core, Matthew Shipp + J. Spaceman, Carlos Giffoni, Fun Years, Wolf Eyes, Merzbow, Emeralds, Stephan Mathieu e, em chave mais ambient eletrônica, com o relançamento dos quatro discos do Gas na caixa Nah und Fern. A grande graça do gueto noise é ao mesmo tempo sua limitação, a proliferação de discos e artistas e colaborações, então nunca se dá para ouvir tudo ou dar a mesma atenção a todos os discos. Mas Imperial Distortion é facilmente um destaque, por seu conceito perfeito e pela incrível sutileza dos sons conseguidos, que podem transmitir, dependendo do momento e da disposição de cada um, tanto um sentimento de calmaria quanto um terror sem precedentes. De certa forma, é um disco que caminha de mãos dadas com Third, como talvez os dois melhores do ano. Fennesz, com Black Sea, está cada vez difícil de ser encarado como noisician, dada a porcentagem de momentos eufônicos em seus discos recentes. Mas pouco importa em que área inscrevê-lo, ainda será um dos grandes artistas contemporâneos e um dos mais geniais compositores e timbristas em atividade. De Sound Characters 2 de Maryanne Amacher saíram os sons mais assustadores e os barulhos mais inusitados do ano, servindo como alternativa ao noise non-stop já meio desgastado em matéria de idéias, texturas e timbres. Christina Carter, que faz parte dessa área, fez um disco quase unicamente só com voz, Masque Femine, é o que conseguiu foi simplesmente um dos mais inventivos e ainda assim vulneráveis registros da voz feminina. Transforma canções conhecidas em narração, em fala, mas usa volume e as modulações de sua voz de uma maneira tão incrível e frágil que o que a gente considera como não-música passa instantaneamente a música. E, claro, em matéria de sons fantasmáticos de vinil, tivemos Philip Jeck, mas a estrela do ano foi a volta de The Caretaker, com a pepita que é Persistent Repetition of Phrases, um disco que quase se odeia, de tal forma que as melodias trabalhadas grudam na cuca como se fosse o som de nosso subconsciente, sempre latente, de vez em quando atualizado.

Quatro discos que podemos colocar sob a designação ampla de jazz. Primeiro, o melhor e mais tipicamente jazz, Double Sunrise Over Neptune. É um disco de beleza radiante e instantânea, e a surpresa não é porque une tradições do leste e oeste de forma tão coesa, mas simplesmente como ele consegue existir e exalar tanta exuberância, tanto frescor. Se esse disco já não fosse suficiente para William Parker ser o nome do ano em matéria de jazz, ele ainda participou de um encontro lendário e supremo de free jazz, atuando como relativo coadjuvante para os talentos de improvisação de Anthony Braxton e Milford Graves em Beyond Quantum, um disco que nos lembra como a instrumentação simples e básica do jazz (um metal, baixo e bateria) pode criar tanto barulho e pressão. Em chave mais suingante, temos a estréia em disco do brasileiro Guizado e a nova, e talvez definitiva, colaboração entre Steve Reid e Kieran Hebden. Os dois discos se ouvem muito bem, porque misturam jazz dançante com eletrônicos, talvez a partir da mesma matriz conceitual de Hebden com seu Four Tet: groove forte, batidas muito presentes, elementos de barulho e algumas belas melodias para contrabalançar. Por fim, em chave mais amena, o Spring Heel Jack (ajudado mais uma vez por um dream team de músicos de jazz) fez com Songs & Themes seu disco de beleza mais contida, mas tão emocionante quanto seus melhores momentos free, e extremamente inventivo nas diferentes formulações de composição e de dinâmica entre instrumentos.

A passagem para o álbum é sempre um drama para os ritmos mais dançantes, e com o dubstep não é diferente, mas esse ano viu alguns bons discos, como as estréias em LP de Dusk + Blackdown, Scuba (que deve no entanto ser lembrado mais pelos remixes que seu disco teve do que pelo próprio disco), Benga… Mas o ano é sobretudo do talhadíssimo Aerial, do projeto 2562, do holandês Dave Huismans, e da coletânea final da Skull Disco, Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals. Aerial é um desses discos que se ouve de cabo a rabo, cativando atenção sentado, pelas minúcias de construção, ou dançando, pelo pique que inicia a partir de “Morvern” e só acaba quando o disco chega ao final. Para variar, Shackleton é o grande destaque de Soundboy’s Gravestone…, mas cada vez as faixas de Appleblim se tornam mais interessantes, além de que alguns dos remixes presentes no disco 2 são bastante bons. O mesmo não se pode dizer do disco de remixes de Música Magneta, dos Mestres da Guitarrada, em que os produtores mais erram do que acertam ao tentar fazer batidas para tornar MAIS empolgantes as melodias de guitarra dos mestres. Mas o disco 1 é só beleza, dançante ou não, mas sempre com vivacidade surpreendente. Completando os discos em que o ritmo e a dança são predominantes, temos The Very Best, uma dupla que lançou uma mixtape surpreendente no final do ano, que nos fez rir sampleando Vampire Weekend e devolvendo a melodia de guitarra de “Cape Cod Kwassa Kwassa” de volta à África, ou tomando toda a base de “Paper Planes” e “Boyz” de M.I.A., ou relendo “Birthday” dos Beatles ou dando tchau com Michael Jackson. Certamente o disco mais musicalmente bem-humorado do ano.

Duas quase anomalias completam minha lista: Mothertongue de Nico Muhly e Street Horrrsing da dupla britânica Fuck Buttons. O primeiro por trabalhar, e de um jeito muito estranho, formas musicais totalmente heterogêneas e conseguir deixá-las fazer sentido umas com as outras apenas no nível do conceito e da composição. Que outro disco poderia ao mesmo tempo parecer Alva Noto (a primeira trilogia) e folk (a terceira)? Os Fuck Buttons estão escancarando a mesma porta aberta pelo Black Dice, estruturando o noise em formas mais definidas e acessíveis, modelando o free form até achar modelos de composição novos e surpreendentes. Street Horrrsing não chega a Load Blown, mas é um grande disco com proposta e som autênticos e cheios de desenvoltura.

Lista é lista e não tem por que chorar a seleção de 20, mas gostaria de mencionar o disco do Beach House como forte competidor (sobretudo diante da produção folk do ano) que ficou sobrando no corte final, assim como Faces in the Rocks, de Mariee Sioux, que certamente estaria entre os essenciais de minha lista caso tivesse sido lançado em 2008 e não em outubro de 2007 numa gravadora pouco badalada. E, claro, a bela coletânea Love Is Overtaking Me. de inéditos de Arthur Russell, lançados esse ano mas gravados muitos e muitos anos atrás. Alguns EPs dignos de respeito: Animal Collective, The Field, Samiyam, Antony & the Johnsons, Four Tet, Zomby… (Ruy Gardnier)

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Publicado às 27 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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