Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Discos – Marcus Martins

  1. Kevin Drumm, Imperial Distortion (Hospital Productions)
  2. Portishead, Third (Universal Island/Mercury)
  3. Gang Gang Dance, Saint Dymphna (Warp/Inertia)
  4. Philip Jeck, Sand (Touch)
  5. Machinefabriek, Dauw (Dekorder)
  6. The Caretaker, Persistent Repetition of Phrases (Install)
  7. Deerhunter, Microcastle / Weird Era Cunt (Kranky/4AD)
  8. Nico Muhly, Mothertongue (Bedroom Community)
  9. Paavoharju, Laulu Laakson Kukista (Fonal)
  10. Emeralds, Solar Bridge (Hanson)
  11. The Bug, London Zoo (Ninja Tune)
  12. Erykah Badu, New Amerykah Part One (4th World War) (Universal Motown)
  13. Fennesz, Black Sea (Touch)
  14. Flying Lotus, Los Angeles (Warp)
  15. Lindstrom, Where You Go I Go Too (Smalltown Supersound)
  16. Preston Swirnoff, Maariv: Four Pieces Of Eletroacoustic Music (Last Visible Dog)
  17. Beach House, Devotion (Carpark)
  18. Aufgehoben, Khora (Holy Mountain)
  19. Richard Skelton, Marking Time (Preservation)
  20. Andrea Belfi, Knots (Die Schachtel)

***

A função de listas de melhores do ano é quase que restrita a sua capacidade de indicar o que melhor representou aquele universo naquele período de tempo para quem elaborou a lista. Assim, serve tanto como indicativo de lançamentos significativos no período quanto uma mostra de quem é aquela pessoa enquanto apreciador ou estudioso da música, que é do que estamos tratando. Não sei se minha lista seria a mesma daqui a alguns dias, mas é certo que o ano ainda não acabou e não tive oportunidade de me familiarizar com alguns lançamentos de dezembro, ou que só agora tive contato para que os pudesse incluir, talvez não tenha havido nada que pudesse alterar o panorama que já se desenhava desde novembro, o que não elimina a sensação de que muito ficou para trás, ou não foi devidamente apreciado.

De qualquer forma, foi um ano em que meu interesse no drone e no noise se aprofundou, o mesmo ocorrendo com a produção de música “clássica contemporânea”. Isto talvez seja reflexo de minhas próprias experiências durante o período e a forma como meu cotidiano se desenvolveu. O próprio fato de ter passado boa parte dos dias confinado em salas de trabalho ou tentando me isolar de um ambiente muitas vezes inóspito, isolado em meu quarto, sem muita paciência para o convívio com os outros favoreceu audições de gêneros que valorizam especialmente os climas e formas, a “construção de um ambiente” que vai muito além dos conceitos clássicos da música ambiente.

O número de discos de drone/noise na lista nem mesmo reflete a quantidade de discos do gênero que gostei e isto ocorreu por decisão de limitar o número de discos de uma mesma linha. Assim, mesmo que o Imperial Distortion do Kevin Drumm, como já comentado em resenha, seja um verdadeiro monumento, a lista poderia ser bem diversa e incluir outros títulos. Na verdade poderia fazer tranqüilamente uma lista exclusivamente composta por ‘ruídos’, e isto não falsearia minha lista, apenas demonstraria o que foi 2008 para minhas audições e o que acredito ser mais relevante na produção atual.

Uma posição interessante em tal meio é ocupada por Rutger Zuyderveldt e seu Machinefabriek, pois ele não apenas lançou um dos melhores discos do ano como vem produzindo nos últimos tempos com uma freqüência e velocidade tamanha que é necessária uma atenção mais detida a sua música e ao que significa acompanhar e absorver sua avalanche sonora. Uma pista estaria no próprio nome do projeto e outra seria uma atualização do conceito de música ambiente, onde a música não seria dissolvida em segundo plano, quase imperceptível, (como nos conceitos desenvolvidos por Brain Eno que remetem à música-mobília de Satie) como transformaria o ambiente ou interagiria com a própria forma como lidamos com o ruído. A produção de Zuyderveldt é ampla e variada o suficiente para não ser reduzida a tais idéias e o crescimento de projetos em colaboração apenas tornou mais complicado compartimentalizar sua música. Se a camarilha elegesse um nome para 2008, meu voto iria para Zuyderveldt.

Caretaker e Emeralds trouxeram discos que não apresentam grande novidades ao já conhecido panorama, mas demonstram a grande maturidade de seus realizadores, de forma muito semelhante trabalharam dois titãs que, se não precisam provar mais nada, nos trouxeram discos inesquecíveis. Fennesz esteve prodigiosamente prolífico em 2008, participando de um maravilhoso disco de Gavin Bryars, colaborando com diversos músicos e lançamento sua incursão no mar negro acompanhado de alguns singles inesperadamente belos, vez que sua música tende a ser mais eficaz em álbuns e em produções de fôlego mais longo. De forma semelhante, Philip Jeck, que também participou do álbum de Bryars, continuou a trabalhar nos mesmos elementos que lhe deram fama na música experimental, adicionando a isto um conceito que passou desapercebido em muitas análises e que aproximou seu disco do de Kevin Drumm como dos mais representativos não apenas da música como do estado de coisas em 2008.

Enquanto isso, o Aufgehoben, em sua opulência caótica, provou que os limites para a invenção no noise ainda podem ser muito expandidos e Andrea Belfi proporciona impacto semelhante de forma inversa ao usar o campo negativo e o silêncio para elevar suas investigações percussivas a outro patamar, cada vibração sonora tem espaço e destaque ressaltado – pena que o disco foi muito breve.

Nico Muhly pode ser pupilo de Philip Glass ou amiguinho da Björk, mas importa que em 2008 se firmou como uma das poucas vozes que conseguem relevância ao transitar entre o meio “clássico”, pop, eletrônico, experimental, ou folk com desenvoltura e poder de criação invejáveis, deixando aberta a possibilidade de sua jovem carreira enveredar para o caminho que ele desejar. Os choques entre cada um destes elementos foram responsáveis por alguns dos momentos mais brilhantes do ano e a cada audição, novos prazeres foram revelados. De forma mais atrelada à tradição eletroacústica, Preston Swirnoff mostrou grande maturidade em suas composições austeras que nunca resvalam para o estéril, o que poderia causar surpresa diante de seu interesse disperso no campo artístico.

No ano em que os melhores nomes da música acústica como James Blackshaw decepcionaram, apenas Richard Skelton, em seu primeiro álbum sob seu nome de batismo, conseguiu de forma simples e luxuosa, realizar uma verdadeira síntese das melhores qualidades de seus pouco reconhecidos A Broken Consort e Riftmusic, apoiado na intensidade da execução e na capacidade em criar peças evocativas e arrebatadoras.

Em meio a este oceano sonoro alguns poucos discos baseados em canções me chamaram atenção em ano em que a reciclagem(ou a ‘fonocrofilia’) deu o tom, seja para ressuscitar até o que não estava completamente morto, como o indie rock dos anos 90, para lembrar dinossauros que não cansam de fazer turnês de “reunião”, ou incensar formas musicais que parecem anacrônicas fora de seu contexto como o punk, travestido de novidade.

Fugindo da terra arrasada, o Portishead preencheu de forma surpreendente o clichê da reinvenção, abandonando a precisão dos primeiros discos para formas abertas, sujas e industriais. Na verdade seu disco mereceu pouca atenção na Camarilha, o que poderia explicar como a inabilidade de falar em demasiado daquilo pelo que se tem reverência sem soar tolo e desnecessário. No caminho contrário, mas para encontrar sucesso semelhante, o Gang Gang Dance incorporou influências, fez falsas aproximações com o formato pop e criou um disco cheio de texturas inusitadas. Tomando um caminho mais místico, o Paavoharju trouxe de volta seus detritos de world music.

No mais, o Deerhunter foi dos poucos a conseguir usar fórmulas batidas para compor canções vitais e únicas – verdadeiras. Cada uma de suas influências é óbvia e tomadas de forma tão pessoal quanto as letras autobiográficas de Brdaford Cox. Sejam as texturas kraut-lounge roubadas do Stereolab, sejam as paredes de guitarras à My Blood Valentine, o resultado foram três discos em 2008 (contando com o Atlas Sound) que confirmaram sua posição como grandes cantores/compositores. No caminho oposto o Beach House limpou o som, que agora brilha como aquela jóia da qual tiramos a poeira do tempo. Tenho dúvidas se eles conseguiram soar tão especiais em mais discos sem mudanças profundas, mas agora apenas cabe me refastelar com as melodiais mais doces do ano.

Na seara mais eletrônica, o ano foi do dubstep em suas múltiplas variações e misturas. Testemunhamos um número significativo de álbuns que vieram libertar o gênero da limitação dos singles e eps. Ainda assim, o que se verificou foi muita inconsistência e os melhores momentos ainda continuaram nos pequenos lançamentos de um Martyn ou TRG como no passado já estiveram com Rustie & Co. A exceção ficou com o veterano The Bug que dá uma lição de construção de álbuns: mesmo que nem todas as faixas tenham o mesmo nível, a coesão do projeto e a forma como ele utilizou o idioma do dubstep dentro de seu próprio estilo, sem ceder aos modismos que levavam à Alemanha e músicas engessadas. Artistas como Dusk + Blackdown e Zomby fizeram álbuns que apenas servem para destacar pérolas isoladas, não tendo fôlego para audições inteiras.

Em terreno parecido, mas ainda devendo seus méritos à tradição do hip-hop instrumental, o Flying Lotus mostrou suas cartas para ser muito mais que mero herdeiro de J Dilla ou sucessor de Madlib/Scott-Herren.

Já tinha esquecido quão bela é a voz de Erykah Badu. Suas pretensões a diva mística sempre me cansaram em demasia mas em 2008 ela voltou como desconstruindo funk, soul, R&B e hip-hop em faixas pungentes e fraturadas, tomando de vez o título de grande dama da música negra contemporânea sem precisar macaquear as cantoras do passado para ganhar destaque.

Em meio a tanto minimalismo no tecno e na house, apenas Lindstrom, conseguiu transformar em álbum suas habituais coleções de faixas. Digno de nota foi ter alcançado isto quando ele expandiu suas composições de forma supostamente perigosa, como se faixas que pareciam tímidas e insípidas em curta duração ganharam ressonância e vitalidade ao se prolongar no tempo. Convicção que ele deve ter alcançado em algumas de suas remixes de seu próprio trabalho.

***

Pela própria limitação da lista, nomes fortes ficaram de fora, merecendo destaque as canções de Juana Molina, Kasai Allstars, Atlas Sounds, High Places, Kanye West, TV On The Radio e Lil Wayne; as desconstruções do Fuck Buttons, Gavin Bryars, Aethenor, Ryoji Ikeda, Astral Social Club, Bird Show, Kingdom Shore, Koen Holtkamp, (VxPxC), A. Jarvis e da Blevin Blectum; para não esquecer do ruído do Dead Letters Spell Out Dead Words, Xela, Cloaks, Burning Star Core, Datashock, Fessender, The Stranger, Kyle Bobby Dunn, Stephan Mathieu, The Fun Years; a classe do Charlemage Palestine, as sinfonias espaciais do Murcof, o Brasil solar dos Mestres da Guitarrada e por último, mas muito importante, a coletânea Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated By Vandals que serviu para provar que Shackleton ainda vai lançar um grande álbum. Que 2009 siga na mesma toada, pois foi revigorante acompanhar tantos bons sons neste primeiros meses de Camarilha dos Quatro. (Marcus Martins)

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Publicado às 30 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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