Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2008: Discos – Bernardo Oliveira

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Se 2008 foi um ano bom ou ruim, isso já não importa. Talvez este veredito dependa somente de uma escolha. Com a dinâmica vertiginosa com que se produz e divulga música hoje, a relação entre experiência e pensamento acaba por sofrer sobressaltos para os quais, imagino, um crítico de música de 40, 50 anos atrás não estaria propriamente preparado. O fato de que um disco adorado em março possa rapidamente se converter em um álbum apenas bom não sugere simplesmente uma mente confusa; deve-se atentar para o fato de que manter o foco numa suposta totalidade não só é impossível, como também improdutivo e, às vezes, desprazeroso. Uma lista de lançamentos musicais não deveria ser tratada como objeto de um ciência especulativa, o que, na melhor das hipóteses, a remeteria a uma recensão instrumental, para fins de pesquisa e memória. Por outro lado, se a totalidade é um mito, sejamos duros: é a labuta, o ouvido calejado, persistente, que dá conta ao menos de uma totalidade aberta, uma totalidade possível. Assim, o The Bug e o Dusk & Blackdown tão adorados respectivamente em junho e setembro deste ano, entram quase como um adendo à coletânea de singles da Skull Disco: a experiência prolongada me mostrou, em relação ao primeiro, que suas melhores faixas foram lançadas em 2007 (“Skeng”, “Jah War” e “Poison Dart”) e, em relação ao segundo, que o descaso que marca o fim do disco compromete as intenções dos produtores. Já o terceiro se impôs sobre os outros dois por conta da enorme admiração que tenho por todas as suas faixas. E, neste caso, foi simples assim: o corte foi dado pela imposição de um artista genial como Shackleton, que tanto cativou pelo prazer, como pelo frescor de suas soluções e conceitos. Conceitos esses que justificam o adendo a Persistent Repetition of Phrases, de The Caretaker: para mim, embora sejam diferentes em muitos aspectos, este disco assemelha-se ao genial Masque Femine, de Christina Carter. Ora, perguntará o leitor, então porque não colocar o álbum de Carter à frente de Fennesz, Drumm, entre outros bem colocados? Para compor um corte, um painel certamente limitado, mas consciente de que a contribuição mais fecunda advém das conexões e meandros suscitados pela experiência e pela reflexão. Um outro exemplo: alguns poderão estranhar a segunda posição deste álbum de The Caretaker, devido à ausência de qualquer faixa sua na lista de tracks, mas penso que ele deve ser ouvido como uma obra inteira… Pois bem, a lista abaixo reporta a esta selva de relações e possibilidades que passam por leituras, audições, por uma quantidade doentia de downloads e pelo convívio com os companheiros deste espaço de pesquisa e reflexão que é a Camarilha dos Quatro.

Lado A

1. Porstishead – Third

A grande obra-prima, a grande reviravolta do ano. Das palavras em português que marcam “Silence”, a faixa inicial, até a mais desbragada declaração de amor ao doom dos últimos tempos que é “Threads”, Third é um disco impressionante. Sua forma enxuta e soturna impressionou alguns que, como eu, não gostavam nem um pouco do grupo. Mas para muitos de seus fãs foi uma decepção e tanto – aliás, tenho o triste palpite de que esta decepção atesta a grandeza do trabalho… Mas o que teria acontecido ao som do grupo? Bem distante da sonoridade de seus dois primeiros álbuns, um soft-pop metido a chic que usurpava do Massive Attack suas virtudes menos entediantes, o Portishead cunhou uma obra rigorosa, se utilizando de elementos do rock dos últimos 30 anos, do kraut ao pós-punk, mas que dialogam de forma objetiva com as melodias lindamente entoadas por Beth Gibbons. E justamente no paradoxo reside o trunfo do disco: a parcimônia inteligente da concepção e da execução (reparem na estrutura de “Machine Gun”, na bateria de “Magic Doors”, na trama de guitarras em “Threads”) contrasta com canções surpreendentes tais como a já citada “Machine Gun”, mas também “The Rip” e “We Carry On”. Após uma longa época onde a síntese foi largamente praticada e valorizada como sintoma de modernidade, talvez tenha chegado o momento de celebrar a arte agônica do contraste. Third talvez seja um de seus mais claros e contundentes sintomas.

2. The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases
Christina Carter – Masque Femine

O trabalho de James Kirby, aqui sob o pseudônimo The Caretaker, prima por dois elementos que parecem balizar seus procedimentos: privilégio do conceito em detrimento da “música” e provocação. Da primeira, a preocupação em situar os experimentos musicais fora do discurso musical “auricular”, apelando para outros sentidos, para a fotografia, e até mesmo para as neurociências. É claro que o segundo conceito está relacionado diretamente ao primeiro: atento a elementos externos à música, mas, ainda assim, fazendo música, The Caretaker desafia o ouvinte ordinário, propondo-lhe uma outra experiência. O valor da reminiscência e da memória, bem como seus mecanismos neurológicos, são postos em jogo quando, pela trigésima vez, o tema de “Persistent Repetition of Phrases” se repete, possibilitando ao ouvinte outros tipos de apreensão. Se Third indica a reviravolta de um grupo, este álbum aponta para o futuro da música, mas não estou me referindo à sua forma de criação, nem de emissão. Me refiro ao horizonte de expectativa que se têm da música, tanto do ponto de vista do criador, como do fruidor. Masque Femine, de Christina Carter, evoca esta visão extra-musical, através do aproveitamento acústico realizado entre seus gemidos e o microfone. Ambos caracterizam uma guinada de alguns artistas nos últimos 30 anos: a inclinação a um pensamento musical em que os procedimentos encerram uma dimensão criadora, e não simplesmente fruidora, onde boa parte da estética moderna se situou equivocadamente.

3. Fennesz – Black Sea

Fennesz é um artista decisivo, escrevi recentemente na Camarilha. E como todo artista decisivo, que dispõe de um território próprio de ação, por vezes ele se repete. Ou pelo menos podemos dizer que, ao se repetir, Fennesz inova, porque dispõe de ferramentas as quais nenhum outro artista tem acesso. E o que espanta em Black Sea é a capacidade inegável de conjugar a criação de um vocabulário e de manipulá-lo abertamente. Em cada faixa, entrevemos o Fennesz de Venice e Endless Summer, mas, ainda assim, trata-se de um outro Fennesz. Em Black Sea, temos aquelas texturas inacreditáveis, em que se pode ouvir uma espécie de orquestra danificada; as guitarras e teclados indecifráveis; o convívio equilibrado entre o noise e a melodia; e, especialmente neste álbum, os temas “musicais” executados ao violão, particularmente na faixa título. Apesar de familiares, esses sons são apresentados de forma a constituir uma porção satisfatória de novos experimentos, de boas novas que emergem do planeta de onde Christian Fennesz veio. Black Sea consolida sua posição como um dos artistas mais interessantes da atualidade.

4. Kevin Drumm – Imperial Distortion
Machinefabriek – Dauw

Assim como Fennesz, Kevin Drumm é guitarrista e manipula aparelhos eletrônicos; assim como Fennesz, Drumm também possui seu lugar no panteão da música contemporânea. Mas em virtude de quê e o que o diferencia de Fennesz? Bem, esta última pergunta só pode ser respondida com a audição e respectiva comparação, mas posso adiantar que perto do que realiza Drumm neste Imperial Distortion, a música de Fennesz chega a ser até “palatável”, quero dizer: vez ou outra ainda vislumbramos nela uma escala temperada, enquanto no trabalho de Drumm trata-se da imersão em uma gama de sons que não são absolutamente redutíveis aos esquemas teóricos da música ocidental tradicional (leia-se Bach). Não que isso o faça melhor ou pior, é só uma observação que procede. Drumm cria um universo sonoro tão cavernoso, que chegamos a imaginar que não se trata de um trabalho revestido de cultura musical, mas de uma perspectiva ao mesmo tempo selvagem e cerebral do som. Digo selvagem porque o inusitado está sempre à espreita, assim como em Dauw de Rutger Zuydervelt, responsável pelo projeto Machinefabriek. Ainda que em menor intensidade que o álbum de Drumm, Zuydervelt opera no mesmo campo, criando no ouvinte um suspense constante pelo que virá.

5. Department of Eagles – In Ear Park

Fala-se muito em Bradford Cox, em Sufjan Stevens, em Will Oldham… Mas eu discordo de quem alça esses artistas ao nível de verdadeiros autores. Para mim, são beletristas rebeldes como Billy Idol, no máximo (“Eyes Without a Face” é uma grande canção…) Com In Ear Park, Daniel Rossen mostrou que não está brincando, como a maioria dos “autores” propalados pelas listas das grande publicações. Não que ele não seja irônico o suficiente, como parece querer mostrar quando lança um disco de remixes com o Grizzly Bear e, no ano seguinte, transfigura seu projeto eletrônico em uma sucursal (brilhante!) do mesmo Bear. Mas porque, em primeiro lugar, é de fato um grande compositor, no sentido tradicional do termo. Seu trabalho está muito à frente de todos os outros songwritings de sua época (se “No One Does It Like You” e “Teenagers” não confirmam imediatamente esta suposição, já não há argumentos…). Em segundo lugar por ser um instrumentista genial e por conferir as suas canções arranjos esplendorosos, criativos e, ao mesmo tempo, vintage. Comparo o trabalho de Rossen ao de Bob Dylan, não pela obra em si (o que seria absurdo), mas pelo modo descompromissado com que ele opera sobre o campo do folk e do rock, transformando-o com uma liberdade que impressiona e deleita.

6. Flying Lotus – Los Angeles

O que mais admira no trabalho de Steven Ellinson é o modo bem humorado e, ao mesmo tempo, rascante com que ele opera sobre o campo do hip hop experimental. As batidas, os timbres, tudo leva a crer que Ellinson é tributário das colagens desconjuntadas de Scott Herren e Madlib. Sim, é. Mas com Los Angeles este jovem produtor e Dj mostrou maturidade incomum para balizar seu campo de ação, bem como os elementos que dispõe para interagir e até mesmo abrir caminhos nesta seara. Já em 1983, seu disco de estréia, Ellinson se destacava por situar sua sonoridade entre a tradição do jazz e da black music americana e a gama de possibilidades aberta pela influência das condições atuais de disseminação de gêneros e estilos. Assim, encontrou algumas soluções surpreendentes, como se pode observar na irônica e genial “Parisian Goldfish”, na abrasividade de “Brainfeeder”, nos tambores de “Melt!” ou nas duas canções soul mais belas do ano, “RobertaFlack” e “Testament”. Um álbum para ser ouvido de cabo a rabo, por muitas e muitas vezes.

7. Crystal Antlers – EP

Não é todo dia que se pode indicar um EP entre os melhores álbuns do ano sem justificar milimetricamente o porquê. É claro que neste caso a veia roqueira congênita falou mais alto. Assim que “Until the Sun Dies (Part 2)” ecoou nas caixas de som eu tive a mesma sensação de quando ouvi Nevermind ou The Bends pela primeira vez, pois tive a certeza de que se tratava de mais uma grande banda conferindo longevidade a este gênero sempre moribundo, o rock’n’roll. E o Crystal Antlers cumpre esse papel de duas maneiras. Trazendo toda a carga de irresponsabilidade sônica que o gênero exige, mas também sintetizando texturas repletas de detalhes que, em grande parte, constituem seu diferencial. Mesmo no rock’n’roll gritado de “Arcturus”, no barulhento diálogo com o hard rock e o rock progressivo em “A Thousand Eyes” e “Owl” e nos ataques impiedosos de “Vexation” pode-se perceber que, por trás da quebradeira, opera uma mentalidade doentia, a criar composições minuciosas, mas cheias de viço. Um disco que põe no chão as predições mais pessimistas e os mais tenebrosos diagnósticos quanto ao destino do rock.

8. Ilyas Ahmed – The Vertigo of Dawn

Talvez se possa dizer que Ilyas Ahmed chegou à perfeição no que diz respeito à utilização solitária de home studios. Mas isso ainda é pouco: se a comparação com o primeiro álbum de John Frusciante (Niadra Lades And Usually Just a T-Shirt, de 95) é inevitável, isto se justifica mais por conta do pioneirismo do autor, do que em relação à excelência do trabalho. Enquanto o álbum de Frusciante padece de um sessentismo inócuo, Ahmed extrai momentos de absoluta sublimidade de seu 8-Track studio (nem sei se é este o equipamento que ele usa, mas a péssima qualidade das gravações levam a crer…). A diferença é que, além das habilidades de produção, este jovem paquistanês radicado em New Jersey é também um compositor especial, cujas canções exprimem uma relação diferenciada entre rock, folk e música paquistanesa: seu canto diáfano sobrepõe inflexões do rock e elementos microtonais da música oriental; o instrumental, geralmente criado em cima de violões e percussões rudimentares, resvalam em uma expressiva imperfeição sonora, que embora vigorosa, é capaz de evocar introspecção. As oito faixas do álbum impressionam, mas reparem espcialmente no admirável rigor com que ele conduz a faixa em “Phantom Sky”, com aqueles poéticos sons de vendaval no final; ou a impressionante sobreposição de sussurros em “Moon Falling”; ou ainda a perspectiva conltraniana na maravilhosa “Golden Universe”…

9. Guizado – Punx
Lindstrøm – Where You Go I Go Too

A música instrumental brasileira parou na década de 80; desde lá, além dos gênios de sempre (Época de ouro, Hermeto, Gismonti, etc) vimos emergir somente a Itiberê Orquestra Família e a dupla Silvério e Zé da Velha. O restante ficou paralisado entre a lembrança do samba jazz, do Som Imaginário, da Black Rio e do Azymuth. Assim, Guizado e Punx representam um sopro de vida, um frescor novo para a música instrumental brasileira. Punx não é só o melhor disco brasileiro do ano, mas é também representa um desafio e um problema. O desafio é a esta paralisia da música instrumental realizada no país, apesar da boa quantidade de lançamentos e eventos ocorridos em 2008. Não é somente porque explora outras sonoridades, ritmos e timbres que Punx é desafiador, mas em virtude da incomensurável ousadia e inteligência de seus arranjos. Este talento implica, no entanto, na assunção de que a música de Guizado, estruturada através de ritmos e padrões harmônicos e melódicos diversificados, na verdade é uma releitura muito avançada do jazz, comparável tanto às Coisas, de Moacir Santos, como ao On the Corner de Miles Davis, para citar dois álbuns polêmicos, mas que foram diversas vezes situados no terreno do jazz. O fato é que estes álbuns podem ser considerados jazz, mas um jazz esfacelado, cubista: em suma, trata-se do jazz como um conceito, uma liberdade para o trato com certas estruturas de composição. E é isso que Punx traz, uma criativa reapropriação de cânones oriundos do funk, do afrobeat, do rock, etc., mas recompostos na dinâmica aberta do jazz. Lindstrøm e seu Where You Go I Go Too se utilizam de procedimento semelhante, mas em outra escala. Recompondo a sinfonia middle-tech de Manuel Göttsching, E2-E4, ele a recria com impressionante esmero timbrístico e noção de modulação. Dois álbuns que alçam a música instrumental a um dos grandes destaques do ano.

10. William Parker – Double Sunrise Over Neptune [At Vision Festival XII]
Anthony Braxton, Milford Graves, William Parker – Beyond Quantum

Pelo mesmo motivo que Punx é talvez o melhor disco de jazz do ano, Double Sunrise Over Neptune de William Parker pode ser considerado o disco de anti-jazz, no sentido novaiorquino de experimentação e alargamento de horizonte. Digo isso porque penso que o álbum exprime a tentativa quase desesperada de ampliar o discurso jazzístico, sensibilizando o que ele tem de mais oriental, isto é, sua relação com a música modal. Parker é um grande seguidor de Coltrane e Miles, mas seu gênio criativo não se esgota nas suas referências. De seus mestres, ele conserva a valorização da liberdade do músico: as quatro composições são guiadas pelo baixo seguro de Parker, que repete inúmeras vezes o mesmo tema, enquanto a série de instrumentos se entrelaçam sobre a percussão nervosa de Hamid Drake. Esta simplicidade favorece o instrumentista a se abrir para uma dimensão realmente colaborativa do processo musical, o que no álbum não só fica claro, como soa de forma impressionante. E apesar de constituir-se como uma big band, o grupo é minucioso até na hora do barulho, parcimonioso nas dinâmicas, impressionante no vigor e na energia. Noto somente a presença da cantora Sangeeta Bandyopadhyay, que tanto reforça o laço com a música oriental, como se inscreve nas dinâmicas do free jazz novaiorquino. Mais nervosa e desorientada, a parceria com Anthony Braxton e o excepcional baterista Milford Graves, Beyond Quantum, se assemelha a alguns experimentos pregressos do mesmo Parker, nos quais se desenvolve uma perspectiva muito em voga nos anos 60, mas que agora ganhou o rótulo free-improv. Ambos os discos, no entanto, demonstram que a cada ano, Parker se firma como o grande nome do jazz mundial.

Lado B

11. Mestres Da Guitarrada – Música Magneta

Mais uma prova de que a vitalidade da música brasileira se concentra na maioria dos casos nas diversas periferias, sejam as periferias das cidades ou mesmo as do país. Digo periferia porque são locais onde os recursos financeiros e o incentivo à cultura não são tão eficazes e presentes como deveriam, bem como sua divulgação para o resto do país. Mas quando ouvimos Música Magneta, sobrevém a questão: se todo o aparato de incentivo e manutenção dos aspectos culturais, com suas majors e “advanceds”, aportasse por essas bandas, será que Mestre Vieira desenvolveria uma mentalidade musical tão aberta e criativa, capaz de formular um gênero rico como a guitarrada, gênero este que dialoga no mínimo com o samba, a salsa, o jazz e a música de cabaret, entre outras? Música Magneta concentra não somente estes gêneros numa levada festiva e envolvente, como encerra ainda duas escolas musicais nativas, uma da guitarra paraense, e a outra do banjo, desenvolvida pelo Mestre Curica. Só isso já valeria, mas o disco traz muitas outras surpresas. Altamente recomendável.

12. Shackleton And Appleblim – Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals
The Bug – London Zoo
Dusk + Blackdown – Margins Music
Zomby – Where Were U in ’92

Esta foi talvez a escolha mais problemática, embora esteja em perfeita conformidade com aquilo que expus na introdução: me interessa traçar uma perspectiva, e, para isso, se faz necessário eleger os álbuns que constituem os desenhos mais proeminentes de uma cena, ou de um contexto. É o que tento construir nesta colocação: quatro álbuns fundamentais da atual cena dubstep, ou que pelo menos se relacionam de forma decisiva ou crítica em relação a ela. Apesar de ter indicado dois deles, The Bug e Dusk & Blackdown, fico com a coletânea da Skull Disco, muito por conta das faixas produzidas por Shackleton, tais como “Shortwave” ou “In the void” (além da number one “Death is not final”), e alguns remixes interessantes capitaneados por gente boa como T++ e Rupture. Aos poucos, o álbum do The Bug se revelou inconsistente em relação às faixas lançadas em 2007, mas mesmo assim destaco “Angry”, “Murder we” e “You and me”. Ao passo que o de Dusk e Blackdown foi perdendo sua força conforme eu percebia que a segunda metade não estava à altura da primeira. Estas conclusões foram retiradas após audições prolongadas, ao contrário do álbum de Zomby, cuja urgência matadora – e até um pouco tosca – me chamou a atenção de cara. Na viagem crítica, em nada nostálgica, de Where were u in 92′, o produtor opera com o vocabulário da música eletrônica dos anos noventas, reinterpretando-o através de incursões a um minimalismo muito bem sacado, embora às vezes um tanto juvenil. De um modo geral, quatro grandes álbuns, que deram o que pensar em 2008 e consolidam a turma do dubstep como a ponta da música eletrônica.

13. Philip Jeck – Sand

Sand é um álbum desafiador, que exige de seu ouvinte uma certa paciência, uma disposição para momentos áridos, excessivamente instáveis e dispersos. Sua composição, como muitos dos álbuns indicados nesta lista, atende a um predicado conceitual, isto é, que parte, em primeiro lugar, de um elaborado pensamento não-musical, que exprime e se exprime no resultado propriamente sonoro. No caso de Sand, o que está em jogo é a possibilidade de borrar as fronteiras que separam o que é e o que não considerado sob o rótulo (ou marca) “música”. Aliando elementos musicais stricto senso a sonoridades que ainda não foram codificadas num discurso sonoro convencional, Jeck põe em jogo a própria idéia que as pessoas fazem da música. Para isso, o autor lançou mão de sua experiência de artista plástico, compositor, experimentador (com a utilização de toca-discos) para produzir uma sonoridade ao mesmo tempo rústica e sofisticada que, tal qual a areia que batiza o álbum, escapa às significações mais imediatas. Um disco para ser ouvido no fone, para ser decifrado e digerido parcimoniosamente.

14. Evangelista – Hello, Voyager

Após gravar três álbuns estranhíssimos, combinando country rock e música experimental, Carla Bozulich batizou sua banda com o nome do terceiro álbum, Evangelista, levando seu trabalho a uma outra fase, mais próxima do rock e do shoegaze. Hello Voyager é o resultado mais contundente desta empreitada, e, de fato, este álbum me cativou mais pelo aspecto rock’n’roll que por suas incursões abstratas. “Smooth jazz”, “Truth is dark like outer space”, “Lucky Lucky Luck” e ” Winds of saint Anne” constituem rocks desconjuntados e barulhentos, capazes de superar qualquer expectativa decorrente do já interessantíssimo Evangelista, de 2006. Outras faixas também são atraentes, como a etérea “The frozen dress”… Mas a característica que alça Hello Voyager a um dos melhores discos do ano relaciona-se à aproximação mais direta com o rock e com as guitarras e gritos assustadores que atravessa todo o trabalho.

15. São Paulo Underground – The Principle of Intrusive Relationships

O que acontece quando Rob Mazurek encontra Maurício Takara? O primeiro lançou recentemente o esquisito Abstractions On Robert D’Arbrisse, e esteve por dentro de projetos ligados a releituras ousadas do free jazz de Don Cherry e Ornette Coleman, como o Mandarin Movie e o Chicado Underground. O segundo vem se firmando a cada ano como um dos nomes mais instigantes da música instrumental brasileira, quiçá mundial. Juntos formam o São Paulo Underground, uma dupla que consegue equilibrar de forma quase heróica elementos extremamente díspares, numa miríade polirrítimica e polifônica sem precedentes no cenário da música brasileira atual. The Principle of Intrusive Relationships, o segundo álbum da dupla, demonstra esse potencial sônico de forma convincente, com punch rock e minúcias equacionadas de forma a constituir uma sonoridade ao mesmo tempo sui generis e rica em referências.

16. The Very Best: Esau Mwamwaya And Radioclit Are The Very Best
Diplo / Santogold – Top Ranking
João Brasil – Big Forbidden Dance

As duas mixtapes que mais ouvi esse ano estabeleceram uma relação especial com os mash ups. Diplo aliou-se ao potencial pop de Santogold, situando-a entre as referências do pós-punk e da música eletrônica dos anos 80, e criando remixes perfeitos de seu primeiro álbum. Por sua vez, João Brasil demonstrou feeling e humor inigualáveis para sintetizar sucessos e flashbacks, acionando na memória do ouvinte brasileiro velhas canções como “Chorando se foi” do Kaoma, ou exibindo um remix tamborzão de “D.A.N.C.E.”, do Justice. Mas considerando o caráter irônico que envolve os mash ups, o álbum mais impressionante do ano, tanto pela contribuição específica das partes envolvidas, como pelo frescor das soluções alcançadas, é o da parceria entre o cantor do Malawi, Esau Mwamwaya e a dupla Radioclit, o The Very Best. A voz sinuosa e inacreditável de Mwamwaya combina perfeitamente com as batidas e arranjos da dupla, a partir de revisões de M.I.A. e Vampire Weekend, mas também em faixas geniais como “Kamphopo” e “Wena”. O que se percebe nos três lançamentos é a relação inegociável do mash up com o humor e com a festa, quesito no qual o trabalho do The Very best sobressai com todas os méritos.

17. El Guincho – Alegranza

A esfacelada cultura musical da década que já se vai estimulou nos artistas uma imaginação mais aberta para burilar formas e, no mesmo passo, tornou-os mais cultos e cientes do espaço histórico que habitam. Em relação ao catalão Pablo Díaz-Reixa, o El Guincho, essa premissa atua indiscriminadamente, operando recortes sobre as mais variadas tendências e revivals. Autor e pesquisador, blogueiro contumaz, Días-Reixa é o caso já clássico do autor que tem pavor da solidão, e traz toda sua bagagem consigo. O resultado é um som vigoroso, rico, repleto de momentos puramente festivos. Ouça, por exemplo, “Antillas”: um looping indecifrável, algo como uma caixinha de música, sobre o qual o autor lança percussões e uma linha melódica vocal repetitiva que vai modulando sobre a batida. Assemelha-se a uma lambada, a uma guitarrada, a música caribenha, hispânica e tudo o mais que se pode supor. Apesar de ser indistinto em termos culturais, Alegranza e a música de El Guincho demonstram o rigor de um verdadeiro artista. Um grande disco.

18. Kasai Allstars – In the 7th Moon, the Chief Turned Into a Swimming…
Lou Reed / Laurie Anderson / John Zorn – The Stone: Issue Three

Dois discos e contextos bem diferentes, mas que têm em comum uma habilidade especial para lidar com a produção do êxtase. O primeiro, meu escolhido, é do Kasai Allstars, grupo congolês lançado no segundo Congotronics, que reúne vinte e cinco músicos oriundos de cinco diferentes etnias locais, cada qual com sua própria língua e tradição musical. O resultado é hipnótico, certamente o lançamento mais “difícil” da Congotronics, com sua polifonia radical, suas inusitadas sobreposições de toques, harmonias e cantos. The Stone: Issue Three também hipnotiza, mas por conta de sua concentração extrema, seu virtuosismo conceitual, sua cacofonia juvenil. Dois álbuns excelentes, muito diferentes entre si, repito. Mas que traduzem uma dimensão contemporânea do êxtase, algo que por si só já encerra grande interesse.

19. Tom Zé – Estudando a Bossa
Zeca Pagodinho – Uma Prova de Amor
Jards Macalé – Macao

Talvez pudéssemos adicionar alguns outros nomes nesse sentido, mas penso que aqui residem três histórias, três personagens tão fundamentais quanto anômalos no cenário musical brasileiro. Tom Zé que, depois de amargar severo ostracismo no Brasil da Nova República, conheceu a glória e o reconhecimento internacional; Zeca Pagodinho, que depois de amargar o preconceito, impôs sua música a contragosto da mesma indústria que o alçou à condição de artista mais popular do Brasil; e Macalé, que depois de amargar a inscrição no rol dos “malditos”, foi redescoberto pela geração MP3, tornando-se uma espécie de guru da música experimental carioca. Em 2008, os três lançaram discos, mas, estranhamente, confirmaram mais que surpreenderam. Ainda assim, note-se em Tom Zé a capacidade de inovar dentro do esquadro da canção, em Zeca, o canto apurado e o repertório enxuto e, em Macalé, a constante renovação formal, através da valorização de sua interpretação idiossincrática. Mas elejo Estudando a Bossa não só por constituir mais um volume da série de “estudos”, mas também por oferecer uma interpretação irônica e sagaz de um dos eventos mais patéticos de 2008: a comemoração dos 50 anos da bossa nova.

20. Fuck Buttons – Street Horrrsing

Como fazer barulho, soar estridente, fora dos andamentos e sonoridades convencionais, mas trazendo um sabor que quase poderíamos chamar pop, de tão adorável? O primeiro álbum do Fuck Buttons parece responder a essa questão, pois nele os teclados singelos coabitam o mesmo território dos sons abrasivos, do noise, etc. E esta é a característica que mais chama atenção em Street Horrrsing: o convívio pacífico (e palatável) entre sonoridades díspares, geralmente combinadas em uma estrutura produzida com perfeição. O álbum deve ser ouvido como uma só faixa, e eu diria que, apesar de estar colocado na vigésima posição, possui os primeiros 30 minutos mais instigantes do ano: de “Sweet Love For Planet Earth” a “Race You To My Bedroom/Spirit Rise”, o Fuck Buttons consegue soar tão atordoante quanto cativante, o que definitivamente não é pra qualquer um.

Vale citar…
Kieran Hebden & Steve Reid – NYC
Basic Channel – BCD-2
Animal Collective – Water Curses
Pocahaunted – Chains
The Cool Kids – The Bake Sale
Juana Molina – Un día
Machinefabriek – Rusland
Buraka Som Sistema – Black Diamond
Nick Cave & The Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!!
Curumin – Japan Pop Show
Femi Kuti – Day by Day
Stephen O’Malley & Attila Csihar – 6°Fskyquake
Santogold – Santogold
Erykah Badu – New Amerykah: Part One (4th World War)
Fun Dmc – People Under The Stairs
Food for Animals – Belly
Arthur Russell – Love Is Overtaking Me
Preston Ari Swirnoff – Maariv: Four Pieces of Electroacoustic Music
The Hospitals – Hairdryer Peace
The Fun Years – Baby, It’s Cold Inside
Blank Realm – Mind Peril
Brethren of the Free Spirit – The Wolf Also Shall Dwell With the Lamb
David Grubbs – An Optimist Notes the Dusk
Gang Gang Dance – Saint Dymphna
Headhunter – Nomad
Jacob Kirkegaard – Labyrinthitis
Paavoharju – Laulu Laakson Kukista
Eric Copeland – Alien In A Garbage Dump
Yo Majesty! – Futuristically Speaking
Vivian Girls – Vivian Girls
Keiji Haino & Tetsuya Yoshida – Uhrfasudhasdd e Hauenfiomiume
TV on the Radio – Dear Science
Thousands – Devious Sieve
Shed – Shedding the Past
Ryoji Ikeda – Test Pattern
Alva Noto – Unitxt
Carlos Giffoni – Adult Life

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Um comentário em “Melhores de 2008: Discos – Bernardo Oliveira

  1. Antonio Eugenio Gianfratti
    22 de fevereiro de 2009

    Acabei de chegar da minha turne com o meu grupo de Improvisação Livre o ABAETETUBA pela Europa,e lendo os seus comentarios , tenho de parabeniza-lo pela ousadia, sinceridade e
    evolutividade ( palavra conceito que como improvisador criei agora para fazer jus ao seu talento critico), posso testemunhar que os comentarios a respeito do William Parker são muito felizes e verdadeiros, trabalhei com ele na Espanha no Festival Internacional de Hurta Cordel de Madrid , no qual ele conduziu a Orquestra FOCO de Improvisação e na qual eu fiz parte como musico convidado,ele realmente é o que vc considerou um doa maiores musicos de jazz no sentido mais amplo da atualidade, a sua condução para a orquestra foi brilhante ,dado ao pouco tempo que tivemos para nos entrosar,a sonoplastia deixou a desejar e mesmo assim ele conseguiu trabalhar a timbristica muito bem, alem disso me dedicou um apoio incomum , principalmenete indo assistir ao concerto do nosso grupo Abaetetuba , pessoalmente com a sua esposa a Patricia Nicholson, dai pude aprecialo como musico mas tambem como pessoa , que eu não conhecia,enfim
    mais uma vez parabens pelo trabalho , terei o video da Orquestra FOCO regida por ele , e se vc se interessar entre em contato comigo que terei prazer em ceder uma copia, um grande abraço,
    Antonio Panda Gianfratti

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Publicado às 31 de dezembro de 2008 por em Uncategorized e marcado , , .
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