Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kieran Hebden & Steve Reid – NYC (2008; Domino, Reino Unido)

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Kieran Hebden (Londres, 1980) é um multiinstrumentista que começou sua carreira no grupo de pós-rock Fridge e é mais famoso por seu projeto eletrônico Four Tet. Steve Reid (EUA, 1944) é um veterano baterista de soul e jazz, tendo tocado com Miles Davis, Fela Kuti, James Brown, Sun Ra, Ornette Coleman, entre outros. A parceria entre os dois começou em abril de  2005, quando ensaiaram alguns dias e em seguida gravaram os dois volumes The Exchange Sessions (lançadas em 2006). No mesmo ano, Hebden fez parte de Spirit Walk, do Steve Reid Ensemble. Em 2007, lançaram o álbum Tongues. NYC, lançado em novembro de 2008, é o segundo álbum da dupla. (RG)

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Não se precisava ir muito além do próprio Four Tet para perceber a versatilidade de Kieran Hebden: o projeto já incorporava hip-hop, eletrônica alternativa, jazz, pop, com referências, samples ou sonoridades semelhantes. Que ele tenha aderido à improvisação, quem já viu algum de seus shows não se surpreende também: ao vivo, via-se claramente que ele fazia o máximo para rearranjar as bases pré-gravadas de forma nova e em tempo real. Que ele tenha se associado, para dar um novo campo a suas pesquisas musicais, ao baterista Steve Reid, é por um lado estranho (a diferença de gerações, em especial), mas mostra uma absoluta coerência por outro lado. Da mesma forma que o som de Hebden, os grupos de que Steve Reid fez parte sempre trabalharam equacionando especulação e experimentação com suíngue e uma certa qualidade psicodélica. A única coisa que realmente era de se estranhar nos trabalhos desenvolvidos até então pelos dois, Exchange Sessions e Tongues, era o fato de o resultado ser a coisa menos focada e mais aberta que provavelmente os dois fizeram em suas carreiras separadas. O que não é um problema em si: há momentos e faixas adoráveis, mas há como que uma frouxeza de conjunto  que transforma-os em apenas boa aduição (aquela que a gente curte enquanto acontece e quinze minutos depois, quando já passou a outra coisa, acaba nem lembrando muito bem). A impressão é que eles estavam se divertindo tanto que acabaram por dar vazão demais a seus ímpetos, Hebden em especial, e encheram o som de maneira por vezes desproporcionada. Um som tão cheio que criava uma certa fascinação pela exuberância atingida (“Soul Oscillations”, por exemplo, é um clássico), mas que no fim das contas não deixava muito terreno para o suíngue e a psicodelia (desafio semelhante, imagina-se, foi o do Guizado com Punx, mas essa eles tiraram de letra…).

Daí aparece NYC.  E muda tudo. É o primeiro registro dos dois fora do estúdio londrino Exchange, e a mudança de ares aqui significa também uma mudança de proposta. Foi como se eles tivessem estudado as limitações de seus discos anteriores e decidissem se concentrar naquilo que mais fazia falta: espaço para o balanço e para a imaginação. O que demanda inicialmente uma coisa: economia. E desde o começo fica claro que há em NYC uma lapidação e uma prudência muito maiores, principalmente nas intervenções de Hebden. “Lyman Place”, a que abre o disco, é um primor de economia, fazendo a pulsação persistente de Reid ressoar como nenhum momento anterior da dupla tinha conseguido, ao passo que Hebden faz a proeza de nos deixar esperando a faixa inteira por um clímax que nunca (felizmente) vem. “1st & 1st” é dominada por uma melodia  funky de baixo e alimentada pelos pratos reverberantes e cheios de Reid. Fica claro lá pelo meio da audição que o determinante aqui é o ritmo, que NYC é uma viagem rítmica potente, em que o corpo é propulsionado a se mover junto com a marcação enquanto a mente se delicia com as variações de barulhinhos discretos e evocativos operados com destreza pelos 50% mais jovens da dupla. “Arrival”, pelo domínio da marcação insidiosa de bateria e os zumbidos retrofuturistas soltados pelos eletrônicos, lembra as viagens percussivas do Neu! como “Hallogallo” ou “Neuschnee”. “Between B & C”, provavelmente o ápice do disco, tem suas progressões com sons de órgão reminiscentes de “A Rainbow in Curved Air” de Terry Riley, mas com orientação definitivamente dançante. “Departure”, apesar do nome e de fechar o disco, não é exatamente uma coda, mas dá uma reduzida na intensidade, mantendo em todo caso a perene marcação percussiva e o espaço para cada coisa soar e durar o tempo que precisa. NYC acaba dando a sensação de que finalmente Reid e Hebden encontraram o tempo e o equilíbrio da dupla, cortando as gorduras desnecessárias, agindo com mais comedimento e paciência e, assim, fazendo um dos discos mais instigantes e  coesos de 2008. Um trunfo de elegância, balanço e inteligência. (Ruy Gardnier)

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Encontros como esse, que tem por base a sólida e justa reputação de seus autores, podem descambar para um perigoso aspecto de celebração ou de laisser allez, o que na maioria das vezes resulta em um som meio frouxo. Mas o caso da dupla em questão neste álbum precioso é bem diferente: trata-se de uma interação perfeita entre a imaginação delirante de Hebden e o ritmo pulsante de Reid, na qual o improviso adquire a forma de método. E notamos que, embora os álbuns pregressos não sejam tão coesos e ricos em soluções como este NYC, cabe recordar que tanto as Exchange Sessions, como Tongues e Spirit Walk, operam basicamente sobre alguns elementos básicos, como a improvisação, a desconstrução de ritmos como o funk e o jazz e da implementação de diálogos entre timbres acústicos e eletrônicos. Com isto quero ressaltar que o que há de melhor em NYC decorre de uma série de experiências anteriores que foram e vem sendo aprimoradas. Não que os álbuns anteriores já não fossem impressionantes, mas, em NYC, mesmo seguindo caminho semelhante, a música da dupla dá um salto em termos de estrutura e controle das dinâmicas, escolha dos samples e dos timbres, e composição das camadas e texturas. “Departure”, a faixa que encerra o álbum, exemplifica o aperfeiçoamento do método Hebden/Reid, como eles conseguiram  atrelar a improvisação a uma sequência de modulações coerentes e extremamente instigante ao nível da composição. “25Th Street”, segunda faixa do álbum, também impressiona: um groove sincopado, salpicado por sutilezas e interferências que desestabilizam o ritmo, como um baixo funk, sons de percussões eletrônicas e um som estranho, algo como uma descarga de banheiro (?)… Logo depois dela, entra “Arrival”, com um contrabaixo sampleado, guitarras psicodélicas e a bateria vigorosa de Reid. Quando o álbum termina, temos a certeza de que acabamos de escutar o resultado de uma colaboração prolífica e, possivelmente, longeva. Mas, sobretudo, a certeza de que, no meu caso pessoal, cometi a primeira injustiça em relação ao ano de 2008: NYC é um dos discos mais eletrizantes do ano que passou. (Bernardo Oliveira)

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Existe um caráter delimitante na estrutura das improvisações de Kieran Hebden e Steve Reid, notado primeiramente no álbum Tongues, e que agora se confirma nesse último lançamento ao vivo do duo: Hebden lança um riff de seu aparato eletrônico semelhante a um baixo ou a uma guitarra, Steve Reid prontamente o acompanha com batidas soltas e os dois passam a improvisar em cima disso.

Por mais que a música da dupla tenha se mostrado presa a estruturas pré-estabelecidas desde o álbum anterior e não alce voos tão altos como nas Exchange Sessions, ainda há algo de vivo e emocionante nas improvisações atuais. Basta escutar com cuidado as seis faixas que fazem parte de NYC e perceber que as estruturas, a princípio limitadoras, são, na verdade, um incentivo para o desabrochar e a inventividade.

Era patente na primeira parte da Exchange Sessions que essa colaboração só tinha a dar certo se eles explorassem formas totalmente abertas de composição. Mas o que a segunda parte do projeto mostrou é que Hebden e Reid poderiam soar não tão interessantes e criativos se abrissem mão de qualquer repetição motívica, seja rítmica ou melódica.  A solução foi improvisar a partir de bases mais simples, o que os deixaria mais soltos para investir em timbres, texturas e cadências de ritmo. De um free jazz incrementado por desvios eletrônicos, eles passaram para uma eletrônica à la Four Tet dos últimos trabalhos com um toque de free jazz.

Para onde seguirá a música do duo é uma incógnita. Se as soluções estruturais se provaram necessárias e ainda soam excitantes em NYC, as mesmas já podem indicar sinais de esgotamento. Ou NYC é um beco sem saída ou é o fim de uma segundo estágio na carreira da dupla. Esperamos que seja a última opção. (Thiago Filardi)

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Publicado às 5 de janeiro de 2009 por em eletrônica, jazz e marcado , , , , .
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