Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

This Heat – Deceit (1981; Rough Trade, Reino Unido)

thisheatdeceit

This Heat é um trio londrino formado por Charles Hayward, Charles Bullen e Gareth Williams em 1975. Apesar de serem identificados com bateria, guitarra e teclado (respectivamente), os três membros mexiam com diversos instrumentos, além de fazer experimentos com manipulação de fita. De 1976 a 1978 trabalharam em seu primeiro álbum, This Heat, lançado em 1979. O som anterior do trio pode ser ouvido nas duas Peel Sessions de 1977, coligidas no disco Made Available. Em 1981, o This Heat lançou seu segundo e mais famoso disco, Deceit. Apesar de pouco famosos à época, This Heat e Deceit vêm ganhando progressivamente repercussão como marcos maiores do pós-punk. O grupo terminou em 1982. Em 2006 foi lançada a caixa Out of Cold Storage, com 6 CDs, coletando todos os lançamentos do grupo, além de um disco ao vivo inédito (o título faz referência ao mítico estúdio do grupo, Cold Storage, um frigorífico desativado). (RG)

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O tempo prega suas peças. Por mais informado que você possa ser, por mais aventuroso e aberto que seja seu gosto, algo sempre escapa do terreno de visibilidade a que somos acometidos vivendo no aqui-e-agora, com a economia de atenções (e de acesso, sobretudo, ontem mais que hoje) voltada para aquilo que cremos que vale a pena conhecer: menção positiva em revistas confiáveis, elogios de amigos, de alguns articulistas individualmente… De alguma forma, uma síntese disso tudo é feita, algo se sedimenta numa “cena”, numa “época”, algumas coisas ganham o holofote, alguns ficam relegados a um espaço marginal. E o tempo trabalha sobre isso, de forma que um panorama retrospectivo modifica sensivelmente a “cena” de cada época, adiciona algo, subtrai algo – esperançosamente manda embora o joio e faz justiça tardia aos gênios sem reconhecimento, mas nem sempre. O This Heat pertence a esse cenário retrospectivo do pós-punk: somente os mentirosos e os muito antenados dirão que prestaram atenção ao grupo naquele momento. No entanto, visto de hoje, vem aquele espanto superlativo, quase desabonador, que pergunta “como isso não foi desde o primeiro momento percebido como um clássico absoluto?” Mas são as peças que o tempo prega…

Hoje, em todo caso, numa época que recupera o pós-punk justamente por partilhar com ele a busca de alternativas para a instrumentação e as fórmulas costumeiras de um rock já saturado à exaustão e tornado quase insuportável, e quando aparecem grupos como Animal Collective e Black Dice que roqueiam de forma nova e vigorosa, fica mais fácil olhar para o This Heat, para os compassos complexos e ainda assim brutais criados por Charles Hayward, para os drones e loops criados nas experimentações com fita e efeitos, para os riffs agudos funky-não-funky de guitarra, para os vocais a um passo entre Robert Wyatt e as dinâmicas de coro de Remain in Light e todas as coisas Eno. Tem Liars, tem Tortoise, tem math rock, tem um monte de coisa que certamente familiariza nossa sensibilidade para hospedar mais um desses pioneiros que simplesmente estava muito à frente de seu tempo.

Da pequena e essencial discografia do grupo (dois discos oficiais, um EP, um lançamento póstumo, uma compilação de Peel Sessions e uma compilação de faixas ao vivo), Deceit sobressai. Não exatamente pela maturidade do som, que já estava completo em 1977 como atestam as gravações no programa de John Peel, mas pelo foco dado à concreção, que aumenta substancialmente o poder de agressão do grupo, e pelo conceito que perpassa o disco da capa aos temas de cada faixa, da guerra fria à vida fria e robótica da sociedade de consumo, do clima apocalíptico à necessidade de revolta contra o estado opressor. Deceit é um ato de rebeldia contra um estado de fato, e apesar das letras de cada faixa deixarem isso muito claro, é musicalmente que o trio melhor exibe seu motim contra uma sociedade automatizada e entorpecida: o canto de “Sleep, sleep, sleep, go to sleep”, na primeira faixa, como se fosse um cântico irônico de hipnose ao passo que a batida forte sugere uma marcha de exército, criando um imaginário uniformizante; em estratégia distinta; “Paper Hats” recorre a gritos e quase chega a hardcore em nível de violência, para em seguida mudar de cara e dar início a uma jam percussiva. Mas não é só na agressividade e na forma de composição que Deceit parece um disco de contestação: é principalmente na acolhida de sonoridades estranhas, vinda de não-instrumentos, de instrumentos “mal” utilizados (fora de tom, acelerados ou atrasados por fita até alcançar outro timbre) ou de instrumentos utilizados de forma não convencional, que parece dar um tapa na cara no convencionalismo guitarra-baixo-bateria do rock. “Triumph” mostra isso à perfeição.

Mas é “S.P.Q.R.” o maior destaque do disco e o grande momento do trio. Um hino pós-punk. A guitarra faz uma parede de barulho, o teclado faz sua casa de ruído ao fundo, o bumbo marca e sugere uma caixa que nunca vem, até que ela aparece, cheia de eco, estraçalhando tudo, enquanto no vocal o coro entoa uma letra que relembra o império romano (“Senatus populusque romanus”, a insígnia oficial do governo) para metaforizar os jogos de poder do tempo presente (“We organise via property as power/Slavehood and freedom imperial purple/Pax Romana!”). “Cenotaph” e “Shrinkwrap” mantêm a força de ataque dos andamentos rápidos com guitarras estridentes e bateria potente e nervosa. Sob esse aspecto, “Radio Prague” acaba funcionando como momento de respiro abstrato entre os três petardos que vieram antes e os dois que vêm depois, “Makeshift Swahili” e “Independence”, essa última uma faixa de marcação quase reggae (e de viradas de bateria totalmente reggae) que cita parte da declaração de independência dos Estados Unidos que afirma que é direito do povo abolir o estado que lhe nega sua liberdade, vida e a busca de felicidade. “A New Kind of Water” baseia-se numa estratégia de contenção e ataque que mais tarde faria a fama do Helmet, e talvez seja a faixa que melhor mostra o poder de tensão criado pelos compassos complexos de Hayward (que sempre sugerem uma batida no quarto tempo que nunca vem e provocam uma estranha sensação de ausência) misturados à solenidade de coro grego das vocalizações do grupo. “Hi Baku Shyo (Suffer Bomb Disease)” dá fim ao disco de forma abstrata, sem batida ou estrutura, com escaleta fazendo melodias fragmentárias e diversos sons encontrados.

Ao fim de Deceit, a sensação de trilha sonora para um prenúncio de fim dos tempos é determinante. Mas não é um discurso messiânico como o do U2; é mais próximo de um George Romero na maneira como pinta o nosso próprio cotidiano como fim do mundo. Um disco perfeito, extremamente indicado para começar o ano na contramão das celebrações evasivas, atento ao ritmo das coisas e do mundo. (Ruy Gardnier)

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A primeira vez que ouvi a espantosamente contemporânea “Vitamin C”, do Can, tive uma surpresa que só anos depois pude compreender mais claramente. Esta faixa me parecia algo tão digno de enaltecimento como foram nos anos setenta Miles Davis, Bob Marley ou Stevie Wonder, mas isto não era reconhecido pelas bandas de cá. Bandas ligadas ao kraut rock como Can e Ash Ra Temple, ingleses como Robert Wyatt, ou bandas oriundas do cenário póspunk americano, como Minutemen, se popularizaram de tal forma que algumas delas gozam hoje de uma notoriedade muito mais ampla que a da época em que fizeram grandes discos. Como conseqüência desse fato, temos que admitir que algumas bandas estrangeiras dos últimos vinte anos, como Radiohead, não saíram do nada,  mas desenvolveram sua formação musical a partir de uma série de outras bandas que, anos depois vieram à tona, em virtude da disseminação radical do mp3. O This Heat é uma dessas bandas que, a princípio inexistentes do cenário musical brasileiro, chegaram aqui a partir de espectros de bandas mais recentes, e nem tão brilhantes – neste caso particular, podemos lembrar o Primus, por exemplo. Sua música pode ser arrolada junto a do XTC, do Pere Ubu, além das bandas citadas acima, que nos anos setenta e início dos oitenta, procuraram tornar o rock’n’roll mais rico e idiossincrático, incorporando gêneros, ritmos e perspectivas harmônicas e melódicas variadas, mas conservando a pegada mais forte, característica do gênero. Mas, mesmo neste cenário, This Heat e Deceit sobressaem de forma assustadora! O álbum possui experimentos ao nível da gravação e da manipulação de fitas, da utilização de aparelhos eletrônicos e incorporação à composição de elementos aleatórios. Por outro lado, embora contenha tanta inovação, Deceit não é cerebral. Ouçam, por exemplo, “A New Kind of Water”, “Sleep”, “Makeshift Swahili”, faixas que contém um alto grau de inovação nas combinações, nas texturas, nas seqüências harmônicas, mas ainda assim com um punch que prende a atenção e a respiração do ouvinte. “Paper Hats” possui uma silhueta de rock, mas seus timbres estapafúrdios, gritos e reviravoltas tensionam o ambiente e conduzem a faixa para uma outra dimensão musical. E, numa das faixas mais preciosas do álbum, “Triumph”, eles criam uma fanfarra a partir da utilização criativa de clarinete e percussão eletrônica, que lembra algumas experiências de Tricky e do pessoal de Bristol.

This Heat é certamente uma banda difícil em alguns momentos, sobretudo no primeiro álbum, onde a abstração dita as normas da casa. Mas para o bem-aventurado e paciente ouvinte que topa seguir adiante, a recompensa é grande. Ele não só descobre uma das bandas mais impressionantes e influentes do mundo, como também amplia sua visão da música e, particularmente, do rock’n’roll. Em dias de vacas magras para este gênero tão problemático, o retorno a bandas como o This Heat é não só útil, como recomendável. E prazeroso. (Bernardo Oliveira)

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Dentre todas as bandas do pós-punk – mesmo as melhores (PiL, Pop Group, Gang of Four, Wire, Fall, Joy Division, Throbbing Gristle, Josef K, Birthday Party, Teardrop Explodes, Mission of Burma) -, nenhuma possui uma variedade de influências tão larga quanto o This Heat. Se foi a descoberta do funk (GoF, Josef K), dub (PiL, PG), psicodelismo (TE), caos (TG, BP), crueza (Fall, MoB), pop (Wire) e gótico (JD) que caracterizou a estética avançada e refinada de alguns grupos, foi a união de todos esses, mais o free jazz, musique concrète, progressivo e krautrock, que fez nascer o This Heat – sendo a maior prova dessa asserção o álbum Deceit.

Afora suas implicações ideológicas e militantes, que não pretendo abordar aqui, a música do This Heat é impressionante na sua dimensão amplitudinal de texturas, conseqüência de um esmero na produção, que engloba, principalmente, os tratamentos rítmicos e as manipulações feitas em fita. Das melodias suaves de “Sleep”, “S.P.Q.R.” e “Cenotaph” aos riffs hipnotizantes de “Paper Hats”, “Makeshift Swahili” e “A New Kind of Water” e às texturas rascantes de “Triumph” e “Shrinkwrap”, Deceit é uma prova de vigor, ecletismo e inteligência no rock. Aliando a energia punk ao cerebralismo progressivo, a diligência da musique concrète à espontaneidade do free jazz, o virtuosismo (Charles Hayward) ao amadorismo (Gareth Williams), o This Heat criou um disco que desmantela todos os paradigmas do rock – até os da época. Afinal, quem consegue assimilar e condensar influências tão diversas? Quem consegue ser extremamente intenso e suave ao mesmo tempo?

A guinada do primeiro ao segundo disco não é tão brusca quanto dizem. Agora, ouvindo novamente os dois álbuns, posso afirmar que o segundo é, não só uma conseqüência do primeiro, como uma evolução do próprio. O LP homônimo é deveras mais cerebral e hermético, o que não significa que é mais experimental ou melhor produzido. O experimentalismo de Deceit é mais focado, a gama de instrumentos usados é ainda maior, o trabalho de textura é mais satisfatório e a mesclagem de estilos e formas musicais é mais intensa e variada. Talvez o grande trunfo de Deceit seja a capacidade do grupo de sintetizar suas influências com tamanha destreza de modo que o som pareça simultaneamente denso, complexo e sólido. Mas, enfim, é sempre difícil transmitir em palavras os sentimentos inerentes a uma banda predileta. E digo com orgulho: This Heat é uma das melhores bandas de todos os tempos. (Thiago Filardi)

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Um comentário em “This Heat – Deceit (1981; Rough Trade, Reino Unido)

  1. Mateus
    27 de junho de 2012

    Muito legal ver um texto em português sobre o Deceit. Ouvi há menos de uma semana depois de ler Rip It Up And Start Again (Simon Reynolds), e fiquei fascinado, pra não dizer obcecado, desde então. Nunca tinha escutado um disco pela primeira vez e sentido que já era um dos mais importantes da minha vida. Totalmente singular e inexplicável.

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Publicado às 5 de janeiro de 2009 por em rock, vanguarda e marcado , , , .
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