Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Dälek – Gutter Tactics (2009; Ipecac, EUA)

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Will Brooks (MC Dälek, rapper) e Alap Momin (The Oktopus, produtor) formam o duo de rap experimental Dälek (se pronuncia “dáialeq”, emulando dialect). Oriundo de Newark, Nova Jérsei, o grupo gravou sete álbuns, sendo um deles Derbe Respect, Alder, em parceria com o lendário grupo alemão Faust. Já excursionaram com artistas como Prince Paul, The Melvins, De La Soul, and Lovage. Gutter Tactics é o sétimo álbum da dupla. (BO)

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2008 não foi um ano muito proveitoso para o rap. À exceção de Cool Kids, Re-Up Gang, Yo Majesty e, sobretudo, Food for Animals, muito pouco ou quase nada foi realizado em prol desse gênero que já começa a dar sinais de institucionalização endêmica. Perdoem-me a auto-referência, mas no artigo sobre as melhores faixas do ano, indiquei o caminho que, a meu ver, constituiria uma linha de fuga possível: quanto mais os produtores de rap buscarem ampliar seu universo timbrístico, assimilando as pesquisas do drone, glitch e noise, quanto mais beberem de manifestações análogas como o grime e o kuduro, mais terão a possibilidade de criarem algo novo, de fato. E digo isso em relação ao mainstream também, porque, se considero uma track como “Gold Digger”, de Kanye West, reparo que o peso saturado da batida e a concepção árida do arranjo denotam uma experiência de fôlego, que reputo como única nesta seara. Após essa constatação, nada mais justo que chamar o Dälek à baila, uma dupla que há dez anos vem experimentando um rap que se pode afirmar como único: por sua interlocução com o noise, nem sempre refinada, mas autêntica; por uma pesquisa de timbres que, se não retoma os primeiros e brilhantes trabalhos do Public Enemy, ao menos mostra que é possível criar formas que escapem às armadilhas do mercado; e, por fim, por seu caráter político, que, me parece, extrapola o campo da política institucional, revirando assuntos para lá de convencionais, como crítica à religião e ao “ópio do povo”. Assim, ao lado da pesquisa patente que seus álbuns sugerem, é quase uma obviedade que a música que produz o Dälek tem um fundo político que pode variar do militantismo juvenil, característico da maioria das manifestações do rap, até algo como uma política da criação, em que os elementos do gênero são como que deslocados de seu eixo rítmico e timbrístico em direção a uma espécie de shoegaze rap, onde importam mais as texturas do que o suingue. Não acho que o som do grupo tenha escapado muito dessa dicotomia, o que em álbuns anteriores significava, além de ingênua conjecturação sobre a política, uma certa fluidez na forma final das faixas, ora dialogando com o universo de timbres glitch, ora abraçando o noise. Mas em Gutter Tactics, embora a estratégia se conserve – batidas convencionais, versos virulentos e noise irascível – o Dälek conseguiu obter uma sonoridade e uma dimensão conceitual que eu denominaria mais crua e seca, e portanto, mais instigante que as distiladas anteriormente. Enquanto nos álbuns pregressos podíamos escutar até mesmo seqüências melódicas dodecafônicas, tamanha a verve prolixa do grupo, em Gutter Tactics as faixas parecem se suceder de forma mais coesa, e, no sentido político da empreitada, no qual convergem respectivamente o conceito e a sonoridade, mais sugestivos. Ora, não me parece fruto do acaso que, em plena era Obama, o grupo lance um álbum chamado Gutter Tactics, evitando celebrar o percurso do líder negro que “miraculosamente” chega à presidência, emitindo seu discurso raivoso no sentido de alertar a este mesmo líder que uma voz monocórdia e vociferante o acompanhará de perto, ciente não somente da história recente, mas também do contexto atual. Experimentem as três primeiras faixas – “No Question”, “Armed With Krylon” e “Who Medgar Evers Was…” – e confiram como uma certa monotonia estratégica permeia o álbum. Em “Los Macheteros / Spear Of A Nation”, o noise chega a níveis alarmantes, quase cobrindo a voz do rapper, numa das faixas mais urgentes de todo o álbum. Ao final da audição fica uma sensação estranha de que, para o Dälek, cabe a regra três, “onde menos vale mais”: se antes o grupo se distinguia por um vandalismo um tanto leviano, penso que, pela primeira vez, eles encontraram uma forma de expressar seu sarcasmo aliando sabedoria e precisão. O que não me parece pouca coisa, diante do cenário hip hop atual. (Bernardo Oliveira)

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Dälek é um dos grupos mais expressivos e singulares de toda a história do hiphop. Munido de uma batida forte e precisa, raps cortantes e engajados e uma produção barulhenta e abstrata, o duo começou em um período muito particular para o hiphop: o final dos anos noventa. Muitos produtores e rappers, cansados dos excessos do hiphop mainstream e da letargia do trip hop gerada pela Mo’ Wax e pelos bristolianos, decidiram apostar em projetos mais ousados e experimentais. É dessa época (virada dos 90 para os 00) que datam os primeiros trabalhos notórios de MF Doom, Madlib, J Dilla, Cannibal Ox, El-P, Antipop Consortium e o coletivo do cLOUDDEAD. Mas enquanto a maioria desses nomes se encontra inativa (Dilla faleceu há dois anos, o cLOUDDEAD se dissipou em inúmeros projetos – na sua maior parte, inexpressivos – e o Antipop acabou), o Dälek continua lançando álbuns consistentes (desde Absence, de 2005, num intervalo de dois em dois anos) e persistindo na sua estética peculiar e radical.

Não é fácil operar nos limites de um estilo tão em baixa como o hiphop, mas o Dälek o faz com raça, vontade e ideologia. Por isso, Gutter Tactics merece todo o respeito e atenção de quem gosta e acompanha o gênero: trata-se de um disco virulento, enérgico e que fala sobre o agora, os EUA da guerra do Iraque, da crise finaceira e da transição de governo. São poucos os pontos negativos em Gutter, mas há de se frisar uma certa incapacidade do grupo de transitar ou se mover, nem que seja, dentro da sua própria estética, tão poderosa e singular. A impressão é que, desde Absence, eles fazem o mesmo disco e, num terceiro lançamento, isso já se torna cansativo e redundante. É como se o Dälek tivesse alcançado um patamar tão alto de unicidade na música que não conseguisse mais se extraviar da sonoridade pregressa que estabelecera. Gutter Tactics, não fosse a urgência tanto do som quanto do discurso, seria o disco para se despedir do duo. E como um bom álbum anda em falta no hiphop dessa segunda metade de década, precisamos nos agarrar ao primeiro que apareça, mesmo que este apenas confirme uma fórmula exitosa – e que fórmula! (Thiago Filardi)

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Na primeira audição, o instinto, ainda tentando entender aquilo com que se depara, tenta remeter Gutter Tactics à efervescência do hip-hop underground mais abrasivo levado à excelência pela Def Jux com o Cannibal Ox de In the Vein e com o El-P (que aliás é produtor das batidas do Cannibal Ox) de Fantastic Damage. Na mesma época, o Dälek despontou com From Filthy Tongues of Gods and Griots. Foi um momento de explosão de novas formas no hip-hop, em que a Def Jux competia com a Anticon para ver quem mais avançava o hip-hop (uma das coletâneas da Anticon efetivamente se chamava Music for the Advancement of Hip-Hop). No contexto, a música do Dälek parecia fazer uma partilha diferenciada entre tradição e novidade, enchendo o som do duo de fundos abrasivos, mas com padrões de batida estranhamente convencionais, como se bebesse diretamente de “Welcome to the Terrordome”, Public Enemy em 1990. Noves fora a incrível capacidade lírica e a interpretação dramática e nervosa do MC Dälek, a dupla aparecia então como um acontecimento, sim, mas menor diante da proliferação de projetos de ampliação do repertório do hip-hop que era buscada naquele momento.

Corta para 2009. A despeito da grandeza inicial de seus melhores discos e propostas, parte da turma da Anticon desviou seus caminhos para coisas que dificilmente ainda podem ser chamadas de hip-hop (Why?, o último disco do Subtle), e a Def Jux parece ter ficado perdida no tempo. O Dälek, em retrospecto, trilhou um caminho mais coerente e imaginativo, propondo parcerias inusitadas (com o Faust, com o Zu), mas acima de tudo mantendo a mesma intensidade de seus primeiros discos. Gutter Tactics não é uma inovação diante do que o Dälek já fez. Parece, ao contrário, um disco de maturidade, focando naquilo que é o forte da dupla, sem dar chance para ousadias mal-ajambradas (as faixas mais faladas do que rapeadas do primeiro disco, por exemplo). E o forte do Dälek é a densidade sonora criada pela veemência do vocal misturada aos arranjos cheios e barulhentos criados por The Oktopus. A parede de barulho é a marca determinante do grupo, entre o industrial e os timbres trabalhados de guitarra de um Isn’t Anything do My Bloody Valentine. Mas é preciso também notar a sutileza dos loops de sininho em “Street Diction”, um dos destaques, que criam uma camada suplementar aos sons ameaçadores do fundo. Ou então a programação de pratos de “No Question”, com uma ligeira mas determinante estratégia de suspensão e ataque. Outro destaque é a faixa que dá título ao disco, com sua batida quebrada. Todas as tres são exemplos do Dälek funcionando em máxima potência, que contam, além da produção, com refrões poderosos de grande fluência vocal e repetições insidiosas. Se inicialmente Gutter Tactics supõe mais do mesmo, as audições contínuas revelam um disco extremamente equilibrado, que troca qualquer versatilidade de propostas por uma permanência de procedimento que transforma o som do duo numa máquina coesa e homogeneamente vibrante e violenta. Se não abre caminhos para o hip-hop, ao menos apresenta um som singular, intensamente pessoal e carregado, que no plano sonoro traduz a força de contestação almejada pela dupla. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 15 de janeiro de 2009 por em hip-hop e marcado , , , .
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