Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Animal Collective – Merriweather Post Pavilion (2009; Domino, EUA)

Formado por colegas de escola em Baltimore que colaboravam em gravações caseiras, o Animal Collective ganhou formas mais precisas em Nova York por volta de 2000, tendo como membros Avey Tare (David Porter), Panda Bear (Noah Lennox), Geologist (Brian Weitz) e Deakin (Josh Dibb). O grupo faz parte da cena experimental do Brooklyn, ao lado de bandas como Black Dice e Gang Gang Dance, uma cena que tem menos proximidade estética que de endereço. O som do grupo apresenta misturas de folk, pop dos anos 60, rock, música africana, eletrônica, ambiente, noise etc. O Animal Collective foi inicialmente qualificado de freak-folk, graças ao surgimento no mesmo período de artistas ressuscitando o folk e experimentando sobre ele, mas o rótulo mostrou-se redutor e injusto em relação ao grupo. A partir do lançamento de Sung Tongs, a banda passou a dar mais contornos pop a suas composições, chamando atenção de público e crítica, sem com isso perder o vigor e a inventividade que marcaram sua primeiras manifestações. Com Strawberry Jam deram maior espaço a instrumentos eletrônicos, o que veio culminar no lançamento de seu oitavo álbum, Merriweather Post Pavilion, em que o grupo assina como um trio, sem Deakin. (MM)

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O que fazer quando a estética musical de um grupo ou artista causa repulsa e atração ao mesmo tempo? Essa é minha relação com o Animal Collective desde que entrei em contato com sua sonoridade livre e esquisita em 2004, com o disco Sung Tongs. Na época, por motivo de pura leviandade, eles foram encaixados dentro do novo movimento folk americano, que dava as caras para o mundo com artistas tão tocantes (Devendra Banhart, Espers) quanto inovadores (Joanna Newsom, Grizzly Bear). É verdade que Sung Tongs era predominantemente folk e distinto do anterior, Here Comes the Indian, mais guitarreiro e centrado em timbres e combinações de efeitos de pedais. Se alguém é culpado pelo equivocado termo freak-folk (variação de free folk, como foi chamado o movimento) é o Animal Collective, que sempre fez questão de realçar o elemento freak, emulando sons de animais, cantando de forma totalmente única e priorizando estruturas incomuns para a música pop, que é o que eles sempre fizeram, no final das contas. Aliou-se a instrumentação acústica de Sung Tongs às idiossincrasias do coletivo e, pronto, nada mais apropriado que freak-folk para cunhar toda a leva de cantores com verve experimental que estreavam ou despontavam na industria fonográfica daquele ano.

Mas um dos grandes trunfos do Animal Collective sempre foi a capacidade de transmutar sua própria estética, e no ano seguinte, 2005, o grupo lançou Feels, um disco completamente diferente do que já haviam feito, com canções mais bem trabalhadas, de ênfase na percussão e uma veia pop mais descarada. É claro que o pop do AC nunca foi palatável a ponto de fazer sucesso entre o grande público e eles sempre foram extremamente experimentais, mesmo quando abusavam de melodias fáceis e refrões chiclete. E talvez minha própria relação com o grupo se estabeleça aí: na mesma instância em que eles me cativavam pelo apelo pop (Feels foi o disco que me fez gostar do AC e retornar aos lançamentos anteriores), me repeliam com sua sua experimentalidade arrastada e, por vezes, vã, como já bem disseram. Strawberry Jam, dois anos depois, veio para reiterar essa perspectiva, e mais outra: a de que o grupo sempre esteve pronto para se reiventar, desta vez, flertando mais fortemente com a eletrônica.  E não pára por aí, 2007 foi importante também para mostrar ao mundo que um grande gênio fazia parte do AC: Panda Bear. Seu segundo ábum, Person Pitch, levou a esferas inimagináveis a relação da música pop com o sample, além de ser uma obra-prima de colagens musicais pela qual me apaixonei instantaneamente e que sempre cito como um dos grandes discos da década.

Merriweather Post Pavillion não só confirma tudo o que disse como traz um adendo à minha relação com o grupo: pela primeira vez posso dizer que realmente gosto de um disco do AC de cabo a rabo. Aqui todas as genialidades aparecem, o que contraria algumas hipóteses de que o verdadeiro cabeça é Noah Lennox (Panda Bear), e pode-se dizer que eles nunca experimentaram tão bem com a música pop. Sim, Merriweather é ainda mais assumidamente pop que Feels, porém excluindo-se de vez as músicas lentas e enfadonhas, que não passavam de exercícios de composição e fastio. Não apenas: o trabalho de textura em Merriweather é, no mínimo, incrível, balanceando sons de pianos processados, dezenas de samples, guitarras sobrecarregadas de efeitos, sons glitch e fuzz característicos e vocais suaves e nervosos; tudo feito com muito esmero na produção e sob um senso melódico impressionante. Como não se envolver com o white noise inicial de “In the Flowers”, que depois vira uma canção leve de melodia doce?; ou não se deixar levar e apaixonar por um hit tão instantâneo e cativante quanto “My Girls”?; ou não se render à singeleza de “Also Frightened” e “No More Runnin'”?; ou não se intrigar com os riffs circulares e hipnotizantes de “Summertime Clothes” e “Lion in a Coma”?; ou não se espantar com a riqueza de arranjo e detalhes de “Daily Routine”?; ou não se emocionar com os vocais etéreos e a melodia altamente assobiável de “Bluish”?; ou impedir que os loops de “Taste” e “Brothersport” grudem na cabeça? Tudo isso me leva a dizer, exclusiva e excepcionalmente, que o Animal Collective fez, enfim, seu grande disco – aquele não só para ser lembrado ao final do ano, mas para  ser ouvido pelo resto da vida. (Thiago Filardi)

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É inevitável: começo de 2009 está definitivamente marcado como um acontecimento em especial: o lançamento de Merriweather Post Pavilion do Animal Collective. Em parte pelo fuzuê envolvendo o vazamento de faixas em dezembro, mas sobretudo pela força própria da música, e pela guinada para um som mais acessível que o conjunto dá com o disco, que certamente vai angariar hordas até então reticentes com o lado mais barulhento do grupo. Excetuando os espíritos obtusos que fazem equivalência entre acessibilidade e perda de qualidade, é um disco para ser admirado por todos. Representa a labuta de Avey Tare e Panda Bear para equilibrar canções de melodias simples e assobiáveis com experiências de arranjo, andamento e as maluquices habituais que desde o começo tornaram o Animal Collective um grupo singular. E o que eles pegam como fonte de inspiração para misturar doçura pop com experimentação? Os Beach Boys da fase Pet Sounds e Smile (que ainda contêm, ironia, a menção a animais tão costumeira às músicas do AC), que já eram referência em Person Pitch, álbum solo de 2007 do Panda Bear, e aqui parecem interlocutores. O que eles mais pegam da banda dos irmãos Wilson é a idéia de uma música calorosa, imediatamente empática, algo que recorrentemente era mencionado pelos detratores como uma deficiência do grupo. A solução principal também é parecida: a sensação de vocais cheios criada pelas harmonizações vocais de Avey Tare e Panda Bear, ora em coro, ora em vozes distintas, mas sempre soando como se quisesse carregar o ouvinte junto (“Daily Routine”, “My Girls”, “Bluish” em especial). É, como Nevermind ou Ys, um desses discos que já soam clássicos na primeira audição, completos, diretos, perfeitos em conceito e execução, todas as arestas devidamente aparadas.

“In the Flowers” começa dando o tom do disco, com um redemoinho de som que se esvai e deixa apenas um loop rítmico sutil, que serve de base para a melodia principal da faixa, um dedilhado de violão, e a voz de Avey Tare, que soa lírico e confessional como nunca antes. É claro que no meio da música a balada folk se transforma em bagunça pura e volta ao normal. Em “My Girls”, é Panda Bear que conduz o vocal (aliás, a presença de seu vocal é decuplicada aqui em relação a os outros discos), com uma faixa pop de apelo inevitável, com direito a refrão repetido à exaustão tendo como fundo palmas catárticas. “Also Frightened” é toda cantada em coro, e é um exemplo da secura do arranjo (um dado ousado, considerando a profusão de detalhes que o AC sempre soube utilizar muito bem em suas músicas), com base rítmica eletrônica e sumária, camadas de barulhinhos sintetizados e alguns sons incidentais (em geral, bateria ou eletrônicos). “Summertime Clothes” é, como “My Girls”, uma composição pop perfeita e ganchuda, um tabefe na cara dos detratores que zombavam dizendo que o grupo fazia experimentalismo porque não sabia compor canções. “Daily Routine”, já aparecida como canção solo de Panda Bear, é guiada por um órgão doidivanas e, apesar de provavelmente uma das faixas menos pop do disco, um de seus maiores momentos. “Bluish”, ao contrário, é uma deliciosa new-bossa passada em liquidificador psicodélico, açucarada e viajante (a notar a camada de eletrônicos que parecem dar efeitos à voz de Avey Tare, escalonando-a em coro e delay). “Guys Eyes” talvez seja a que mais abusa (positivamente) da repetição, que é um tema recorrente no álbum: não só repetição de frases e refrões, mas de situações em que a música parece ser tragada para um buraco negro em loop contínuo (e que equivale estruturalmente aos buracos negros de noise em várias músicas do Sonic Youth), duas vezes nessa faixa e em especial no loop de grito que separa as duas estrofes da absolutamente genial “Brotherspot”. “Taste” tem a frase mais adorável do disco, “Am I really all the things that are outside of me?”, e faz o favor de repeti-la várias vezes. “Lion in a Coma”, outro enorme destaque, é guiada pelo som de um didjeridu, com vocal e batida quebrada que remetem a um clima de transe assemelhado às faixas de George Harrison em Revolver. “No More Runnin'” é a lentinha do disco, tendo como momentos fortes as partes de coro. E o que dizer de “Brothersport”? Desde “Tomorrow Never Knows” alguma faixa final foi tão potente, diferente e ainda assim coerente com a proposta? Desde “Windowlicker” alguma faixa parecia dizer “eu sou o futuro concentrado”? Se algo superar “Brothersport” em 2009 podemos ter a certeza de que será um ano sublime.

Esqueçam as comparações com outros álbuns. Merriweather Post Pavilion pode ter trocado a complexidade maluquete por algo mais estável e doce, mas ainda que se possa sentir falta da jovialidade de uma “Leaf House” ou de “The Purple Bottle”, é definitivamente ele que eleva o Animal Collective ao status de banda alternativa mais importante da atualidade, empunhando um cetro que já foi do Sonic Youth e do Aphex Twin. Sabemos que ele está em boas mãos. (Ruy Gardnier)

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Já se tornou consenso o fato de que a originalidade da música do Animal Collective advém de um talento específico para sintetizar elementos díspares num todo imprevisível e inacreditavelmente coerente. Transitando com naturalidade através dos mais diversos gêneros, mas também experimentando timbres e andamentos inusitados, sua música se constitui por uma série de sínteses as mais idiossincráticas da seara pop contemporânea. Sim, porque, a despeito do amplo manancial de sonoridades exploradas pelo grupo, o que vem chamando a atenção nos últimos trabalhos é o modo prodigioso com que eles concatenam este approach ao excepcional acabamento e relativa acessibilidade das canções. Esta orientação pôde ser observada com mais precisão a partir de 2005, com o álbum Feels, se estendendo pelo aclamado Strawberry Jam e pelo ep Water Curses. Agora, neste excessiva e ansiosamente aguardado novo álbum, o grupo reforça a estratégia e a intensifica: Merriweather Post-Pavilion (ao que tudo indica, referência a uma venue americana construída pelo renomado arquiteto Frank Gehry, thanks Letty…) é uma coleção de canções arrebatadoras, ao mesmo tempo singelas e bizarras, com um toque inequívoco do cancioneiro pop dos anos sessentas, emoldurada, no entanto, por uma roupagem inspirada e desafiadora. De tal forma que não seria exagero afirmar que estes modos mais palatáveis do Animal Collective permitem compará-los com os Beach Boys, por conjugar excelência na composição e novidade nos arranjos, embora não permita reduzi-los a esta comparação. Com Merriweather Post Pavilion o grupo adentra aquela dimensão seleta e restrita dos grandes grupos, capazes de alçar a música em outra esfera, ainda que muitos duvidem que isso seja possível ainda hoje.

Se o viés a ser tomado aqui é a canção, cabe considerar os dois estilos dispostos em Merriweather…. De um lado, as canções de Avey Tare, com suas letras psicodélicas e uma densa concepção harmônica e melódica. Deste rol, destacam-se a faixa de abertura, “In the Flowers”, que dá o tom do álbum com suas enigmáticas frases introdutórias (“A dancer who was high in a field from a moment, caught my breath on my way home”) e “Bluish”, uma faixa com sotaque Beatles, mas com um estilo de arranjo que poderíamos comparar a uma mistura do pop avant-garde de Kate Bush com a corrosividade da Björk de Homogenic. De outro lado, as canções de Noah Lennox, o autor de um dos álbuns mais intrigantes da década, Person Pitch. Elas não são tão imagéticas como as de Tare, pois exprimem o ponto de vista de uma vida simples e produtiva. E embora não possuam as virtudes melódicas das canções de Tare, se impõem por força de um talento pop inequívoco: “My Girls” exemplifica perfeitamente esta força (a propósito, Noah também produz filmes bastante condizentes com este universo interior…). Mas a grande faixa do álbum, pela novidade e por ser emblemática, é “Brothersport”: melodia no estilo american country, sob uma batida muito similar a uma escola de samba, letra abstrata, percussão alucinada e uma cacofonia dos infernos. Desde  já uma das faixas do ano, encerra o disco convergindo a sensibilidade profunda de Tare e a personalidade lúdica de Panda Bear.

Transitando entre essas duas “vozes”, Merriweather… traz um som ao mesmo tempo rico em referências e, atualmente, único em sua habilidade sintética. O que mais admira nele é a capacidade de demonstrar interesse por tudo o que ocorre hoje no território da música, mas transformando a informação em uma obra profundamente original. Na dicotomia entre referência e originalidade, o álbum se constrói. E arrisco-me a dizer que aqui nasce algo próximo de Ok Computer ou Nevermind: Merriweather… possui a aura dos grandes discos. Nada como uma força demiúrgica, mas talvez esta não seja mais a questão. (Bernardo Oliveira)

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4 comentários em “Animal Collective – Merriweather Post Pavilion (2009; Domino, EUA)

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  2. Sayd
    2 de fevereiro de 2009

    SIM! Incrível. Mais do que um disco pra ser lembrado no fim do ano!
    Mas é curioso notar que até para escribas mais do que acostumados a resenhar trabalhos experimentais de ambient, noise, jazz ou mesmo pop, só agora o Animal Collective afasta aquela nuvem de desconfiança e confirma seu talento, com uma obra incrivelmente aberta em referências e ao mesmo tempo tão amarrada no conceito e resultado final!
    Valeu a paciência e ler uma análise feita a quatro mãos (de fato o grande trunfo da camarilha).
    Fiquei satisfeito de ver q não sou só eu que percebe ecos de Kate Bush no A.C.
    E, Putz! A relação entre Brothersport e “Tomorrow Never Knows” feita pelo Ruy é certeira!!! Acho que aqui podemos chegamos a ter de leve a mesma surpresa e espanto que um ouvinte em 66 sentia quando se deparou pela primeira vez com aquele ser alienígena que era “Tomorrow Never Knows”. Achei válido tbm um comentário q vi na rolling stone cintando Brothersport como uma “bacanal onde Brian Wilson-encontra-Kraftwerk”, de fato! ah.

    Acho q só falta mesmo escutar de novo e de novo Person Pitch aqui em casa… ainda não BATEU! Mas afinal já foi um custo o som do Animal Collective bater na minha cabeça. Agora é com gosto q volto a todos os discos e eps!
    Abraço

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Publicado às 21 de janeiro de 2009 por em eletrônica, pop, rock e marcado , , , , .
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