Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

John Butcher – Resonant Spaces (2008; Confront, Reino Unido)

john-butcher-resonant-spaces

John Butcher é um saxofonista (tenor e soprano) britânico, nascido em Brighton no ano de 1954. Ele se mudou para Londres no final dos anos setenta e se iniciou na música de improvisação livre no começo da década seguinte, quando formou um trio com o guitarrista John Russell e o violinista Phil Durrant, que depois se tornaria o quinteto News from the Shed, com a adição de Paul Lovens e Radu Malfatti. Seu debut fonográfico solo ocorreu em 1991, com o disco 13 Friendly Numbers e, desde então, ele passou a fazer seus experimentos e estudos de timbre com o saxofone, utilizando técnicas diversas como o overdub, multitracking, feedback e close miking. Em 1997 ele formou o grupo Polwechsel com os austríacos Malfatti, Werner Dafeldecker, Michael Moser e Burkhard Stangl, do qual fez parte até 2007. Butcher mantém as parcerias em apresentações e gravações e um de seus álbuns mais recentes é Way Out Northwest, registro ao vivo no Vancouver Jazz Festival ao lado do contrabaixista Torsten Muller e do baterista Dylan van der Schyff. O saxofonista já colaborou com vários nomes importantes da música eletrônica e de improvisação, dentre os quais John Stevens, Derek Bailey, Eddie Prévost, Christian Fennesz, Toshimaru Nakamura, Akio Suzuki, Christof Kurzmann, Fred Frith, Otomo Yoshihide, Taku Sugimoto, Kevin Drumm, John Edwards, Rhodri Davies, Steve Beresford, Paal-Nilssen Love, Sten Sandell, Thomas Lehn, Christian Marclay, Gino Robair, Georg Gräwe, Gerry Hemingway, Phil Minton, Simon Fell, Elton Dean, Jon Corbett e por aí vai. Resonant Spaces, seu último disco solo, é consequência da turnê de mesmo nome realizada em espaços de propriedades acústicas poderosas na Escócia e nas Ilhas Órcadas, que também recebeu a ajuda do artista sonoro Akio Suzuki. (TF)

* # *

Richard Youngs disse em entrevista à Pitchfork no ano passado que quando se envelhece as chances de se descobrir uma música chocante, totalmente nova, se torna cada vez mais rara. O sujeito já ouviu muita coisa e tem seus favoritos, aos quais sempre retorna, e a possibilidade de se surpreender com algo novo diminui consideravelmente. Mas ao ouvir John Butcher pela primeira vez, é impossível que qualquer pessoa, mesmo um expert em música ou um consumidor regular, não se impressione com seus timbres e técnicas fora de série. Para quem acompanha a carreira do saxofonista, Resonant Spaces não causa grandes abalos, mas não se pode evitar o incômodo ou sobressalto ao ouvir o timbre agudíssimo da primeira faixa, “Sympathetic Magic (Stone)”, proveniente de um feedback do saxofone tenor. Escutar no fone seria errôneo e insuficiente: toda a força de Butcher reside na sua relação com o espaço e a acústica, a forma como ele trabalha o feedback e a distância que usa entre o instrumento e o microfone; tudo isso é de extrema importância, pois se há fatores peremptórios para sua música, são as propriedades físicas do ar, que permitem a Butcher esculpir seus solos conforme as implicações acústicas de um ambiente, o que lhe fornecerá ressonâncias e combinações de som tão particulares que ele precisará definir os próximos passos e impulsos de acordo com aquilo que se materializa no ar.

Resonant Spaces não é obra do acaso, apesar de exalar uma dimensão real muito grande, advinda da sua essência improvisativa, reacional, de elevar o ar a elemento quintessencial à música. Mas por trás disso, existe uma precisão muito grande de técnica e uma disciplina de respiração: o feedback é um efeito constantemente obtido por Butcher e para atingir seus resultados é necessária muita pesquisa em relação às técnicas de amplificação e de uso do microfone. A prioridade do trabalho solo do músico britânico é atingir timbres e efeitos totalmente novos, sem qualquer intervenção de equipamentos eletrônicos, inimagináveis para um instrumento acústico como o saxofone. Ao mesmo tempo, sua música é direta a ponto de atingir o âmago do ouvinte. O próprio Butcher acredita que a maior relação possível do homem com a música é a da emoção, da capacidade dos sons se comunicarem instantaneamente com os sentimentos e o sistema nervoso das pessoas. “Calls From a Rusty Cage”, com seu sax soprano natural que começa com sopros hesitantes e depois cresce de forma monumental com a respiração circular de Butcher, é uma prova intensa e resfolegante do poder do músico de mexer com as vísceras de alguém. “New Scapa Flow” e “Styptic”, nas quais ele utiliza o sax tenor, também são exemplos de como sua música pode ser tocante.

Outras atrações de Resonant Spaces são as texturas: como um ser humano conseguiu atingir tipos de som tão ásperos e palpáveis como em “Close by, a Waterfall” ou “Frost Piece”? A resposta é simples: usando feedback, técnicas de amplificação e até a própria acústica do local. Como criar ambiências sonoras tão peculiares, tão envolventes, através de um único instrumento acústico? Tudo é resultado de uma mente genial, que está sempre em busca do novo e de experiências musicais inauditas. E o novo deve advir sempre da confrontação, inquietação, provocação e contestação, nunca da asserção ou da conformação. Este é um princípio inerente à música de improvisação livre, aquela surgida na Inglaterra nos anos sessenta, com Derek Bailey, AMM, Paul Rutherford e Evan Parker, da qual John Butcher é filho prodigioso. (Thiago Filardi)

* # *

A primeira sensação que se tem quando se está diante de um disco solo de John Butcher não é beleza, mas espanto. Um espanto que nasce primeiramente do estranhamento diante do tipo inaudito de som que surge, e mais ainda de saber que ele vem de um instrumento tão aparentemente conhecido e familiar, o saxofone. O que mais fascina no trabalho de John Butcher não é a relação com o instrumento em si, mas em como fazer o som do saxofone interagir com os espaços e com os mecanismos de gravação, de forma que técnicas experimentais de amplificação e aproveitamento de acústica acabam sendo os protagonistas de seus discos tanto quanto o instrumento. E um nome tão evocativo como Resonant Spaces só tende a explicitar essa proposta: ele sugere que pensemos na forma como o som ecoa pelo espaço, e em como captar esse som espacializado, como uma arte em si mesmo. E esses espaços ressonantes não são só os externos, mas também, e talvez principalmente, os internos, os barulhos “íntimos” do saxofone que amplificações inusitadas (como, por exemplo, no interior ou muito próximo dos botões do instrumento) propiciam.

“Sympathetic Magic (Stone)”, a que abre o disco, parece estabelecer um diálogo tão intimista com o instrumento, tirando alguns sons acutíssimos e frágeis que jamais imaginaríamos vir de um sax, que simplesmente ouvir se torna um exercício quase obsceno. “Calls from a Rusty Cage” começa igualmente delicada, mas evolui para explosões de frases repetidas quase como loops que, ressoando pelo espaço, terminam como uma massa sonora de transe reminiscente da “Pendulum Music” de Steve Reich. Em “Wind Piece” e “Close By, A Waterfall”, sons de natureza e floresta são evocados por sons provenientes da boquilha tanto quanto do toque direto no instrumento ou do sopro puro. Em seus melhores momentos, Resonant Spaces vai além do espanto pela original utilização do saxofone e se transforma numa experiência intensa e emotiva. Mas em “Styptic” e “Frost Piece”, não à toa as mais curtas do disco (quase vinhetas), há apenas espanto: a primeira ao mimetizar no sax cantos de pássaros e a segunda ao realizar um interessante mas vão experimento com o ato de soprar. “Sympathetic Magic (Metal)” retoma o poder impactante do disco, com feedbacks que criam texturas fortes e inimagináveis.

Apesar dos deslizes momentâneos, Resonant Spaces é um grande disco. Não sei se é o caso de chamar de jazz o que está aqui, dada a extrema distância do trabalho de Butcher solo, em nada semelhante ao que se convenciona chamar de jazz, mesmo em sua faceta mais solta e free form. Ao interessado, cabe o conselho de ouvir todos os discos de sax solo de Butcher (em bandas ou sets de free improv com outros músicos a pilha é outra), a começar pelo divisor de águas (e provavelmente superior) Invisible Ear. Bom deleite. (Ruy Gardnier)

* # *

Suspense, apreensão: um artista com o currículo de John Butcher inspira sempre grande expectativa, além de demandar uma audição cuidadosa. Convém manter os ouvidos e, eventualmente, os olhos bem abertos para as nuances que emergem de seus álbuns, pois sua música se faz a partir delas. No caso deste Resonant Spaces, celebrado com justiça pelas publicações dedicadas à música inventiva, trata-se de uma desafio a partir do qual Butcher deveria explorar sonoridades em três ambientes específicos: um mausoléu, uma caverna e um tanque de armazenamento de combustível. Resulta desta concepção um álbum extremamente rico sob diversos aspectos.

Primeiro, pode-se dizer que a forma com a qual Butcher lida com a acústica dos espaços propostos pode ser situada como algo entre as pesquisas da eletroacústica e uma dimensão da improvisação que dialoga direta (e estranhamente) com as ressonâncias. Por outro lado, cada sonoridade adquire uma dimensão crítica única, que põe em questão boa parte dos cânones que regem a música como um todo hoje, como por exemplo, a contínua ladainha que reza ser o acústico e eletrônico universos distantes ou, ainda, diferentes. Na experiência musical proposta por Butcher não há o menor sentido em se afirmar essa distinção. Assim, não seria exagero dizer que o drone, o noise, o ambient, o minimal, o dubstep, o free-improv e outras formas que marcam a música contemporânea com esta indistinção são não só evocadas nestas faixas, como também relativizadas e deslocadas de seu eixo central, isto é, suas estratégias e procedimentos. Variando os volumes e intensidades de seu saxofone, se utilizando de efeitos eletrônicos para extrair dinâmicas inusitadas, muitas vezes extremamente agudas, ele estabelece modulações e rompantes raros, mas que ainda assim aludem ao campo de experiências da atualidade. Em “Calls From a Rusty Cage”, por exemplo, ele exarcerba o volume, tateando repetições com seu sax que ressoam de forma específica dentro do tanque de combustível. Em “Close By, a Waterfall”, as intervenções dos instrumentos eletrônicos se torna mais perceptível, mas não decisiva na construção do improviso, e a indistinção apontada acima aflora de maneira surpreendente. Em “Frost piece”, Butcher se aproxima do noise com uma riqueza de detalhes e originalidade timbrística assustadora.

Assim, alguém poderia afirmar que Resonant Spaces é o tipo de álbum que não contém “música” propriamente, mas algo que transita entre a dimensão conceitual da música e os estudos de eletrônica e eletroacústica, alocando-se na esfera da produção erudita. Mas devo notar que muitos trabalhos arrolados hoje na gama erudita não possuem a profundidade e o arrojo contidos em Resonant Spaces e, muito menos, a inspiração. Porque apesar de árido e cerebral, o álbum intriga e, assim, emociona. Que a crusada deste cavaleiro contra a mediocridade e a petrificação do som e do sentido prossiga, produzindo outros álbuns tão impressionantes quanto este. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 28 de janeiro de 2009 por em jazz, vanguarda e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: