Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lukid – Foma (2009; Werk Discs, Reino Unido)

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Lukid é o pseudônimo para Luke Blair, produtor inglês que mescla estilos eletrônicos diversos como o hiphop, disco, techno, dubstep e os mais recentes wonky e bassline. Ano passado lançou anonimamente o sublime compacto BBQ/Genie pelo selo estreante Thriller. Foma é seu segundo álbum. (TF)

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Há algo de muito interessante e instigante acontecendo na música eletrônica. Segunda era dourada? Não seria exagero algum lançar uma afirmação destas, tendo em vista a profusão de produtores, selos e misturas estilísticas que vêm acometendo o gênero. No início da década, com o “retorno” do rock, eram o hiphop undergound, o glitch e o clicks and cuts de selos como Mille Plateaux e raster-noton que se posicionavam como centros vanguardistas da música do novo milênio. Mille Plateaux se dissolveu e os grupos de rap se desgastaram junto com o próprio movimento. Eis que MC’s britânicos como Wiley e Dizzee Rascal aparecem com debuts vigorosos, bebendo do UK garage e fazendo rhymes and poetries peculiares, discrepantes à estética predominante americana. Era o grime, que se tornava uma das grandes apostas para música eletrônica de qualidade dos anos 00. O gênero não pegou, mas quem vinha crescendo paralelamente era o dubstep, mesclando jungle, 2-step e dub. E foi esse ensejo que proporcionou o surgimento de produtores brilhantes como Burial, Kode9, Skream, Martyn, Blackdown, Benny Ill, Sam Shackleton, ente outros. Todavia, de um ano pra cá, alguns atuantes da cena se mostraram descontentes com os rumos tomados pelo dubstep e decidiram incrementar sua sonoridade com batidas mais funky e efeitos aquáticos e, assim, surgiu o aqua-crunk, wonky e bassline. Simultaneamente o hiphop voltou mais inventivo que nunca, com produtores como Flying Lotus e Hudson Mohawke, que herdaram toda a sagacidade para colagens e batidas de J Dilla, da galera da Stones Throw e do Prefuse 73.

As atuais colaborações de Flying Lotus indicam que o hiphop também vem dialogando com o dubstep e a sonoridade resultante deste encontro tem fornecido grande frescor para a música eletrônica. Foma é o disco que retifica esse aspecto osmótico entre os dois gêneros, e mesmo que não seja inovadora, a produção de Blair confirma o momento de alta criatividade e quebra de barreiras estilísticas na eletrônica. Os motivos percussivos e os sons climáticos remetem bastante a Los Angeles do Flying Lotus, mas há também fortes influências do dubstep (com em “Chord”, por exemplo) e de composições mais introspectivas (faixa-título), que lembram The Books, Vladislav Delay e até Boards of Canada. É decerto uma onda completamente diferente do compacto que lançou pela Thriller, mais dançante e que apostava numa contração musical excitante a indefinível. Apesar de todo o prazer que audições repetidas de Foma proporcionem, ficamos na espera que o produtor lance novas músicas na linha de “BBQ” e “Genie”, pois o que temos aqui não é exatamente um caldeirão de originalidade – sem esquecer que Zomby fez um dos melhores discos do ano passado reproduzindo a sonoridade do jungle e hardcore. E, sim, estamos vivendo uma nova fase dourada da música eletrônica. (Thiago Filardi)

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E a nova onda de hip-hop instrumental permanece proliferando artistas e lançamentos. O nome da vez é Lukid, que nesse começo de 2009 lançou Foma, seu segundo álbum. Só que agora o gênero ganhou um nome novo, wonky, que na verdade só aponta para uma diferença musical significativa: o grave sujo, estourado e denso que se acresce à estética já consolidada por alguns produtores decisivos nos últimos 10 anos (a outra diferença é o lado do Atlântico em que a cena está).

Foma é um disco atraente, de audição tranqüila e amigável. As faixas deslizam uma sobre a outra sem maiores solavancos, lembrando um pouco a sensação de viagem proporcionada pelo Los Angeles de Flying Lotus. Mas aqui o terreno de hip-hop instrumental não é o do breakbeat e da polirritmia de Prefuse 73 ou Madlib, mas o do downtempo de gente como Alias, Blockhead, Dosh ou o Four Tet de Pause.E é aí que começam a pintar as limitações do disco. A primeira é que Foma não se distancia muito das sonoridades e dos procedimentos de seus antecessores, nem o faz com maior perfeição. Mas há uma segunda, mais profunda: a enorme tendência do hip-hop instrumental tem de virar, como o trip hop em seu tempo, música de fundo fashion (a depuração clean e hiper-bem produzida da música negra colmo fator ideológico determinante). Em vários instantes do disco Lukid deixa entrever que tem fôlego para mais que isso. Mas a mosquinha do “atmosférico”, prima da easy-listening, impede que o disco almeje voos mais altos.

A primeira, “Ice Nine”, tem um quê de vinheta introdutória. Algumas faixas seguintes, como “Veto” e “Slow Hand Slap”, abusam na referência, a primeira com as batidas finais do compasso um tanto atrasadas à maneira do suingue característico de Prefuse 73 (e repetido por Flying Lotus), a segunda com processamento vocal reminiscente do mesmo Prefuse. “Foma”, a faixa, por sua vez evoca o IDM singelo de Múm, Boards of Canada, Four Tet ou Aphex Twin em seus momentos mais dóceis, sem acrescentar nada de muito original à receita. Alguns momentos, no entanto, compensam a audição atenta: “Saddlebags” é uma digníssima faixa, com o grave bombando forte, e “Chord” é um dubstep extremamente eficiente e pulsante. No geral, Lukid dá a sensação de um talento ascendente, certamente ainda aquém das grandes faixas e eps de artistas como Rustie, Zomby e Joker, mas ainda assim alguém que vale manter no radar pelos próximos singles, remixes e lançamentos mais ambiciosos. Como está, Foma parece mais um passo do que uma afirmação. (Ruy Gardnier)

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Julgando pela primeira faixa, este segundo álbum do Lukid parecia indicar um caminho semelhante ao do Lucky Dragons: pequenas estruturas, retalhos, peças concentradas que relacionam simplicidade na estrutura e uma curiosa pesquisa de timbres. No entanto, “Ice nine” é uma faixa anômala no contexto do álbum. Ela até contém, sutilmente, o balanço que mais tarde situará o trabalho de Luke Blair entre as recentes formas experimentais do rap que se seguiram do trabalho de Madlib e do Prefuse 73, isto é, Hudson Mohawke, Flying Lotus, Ras G, etc. Já a partir de “Raise High the Roof Beam” esta inserção fica mais clara e evidente, bem como por todo o resto do álbum. E isso não ocorre exatamente sem interesse, embora muito da graça de Foma resida como que numa embrionária visão desta dimensão experimental. Não que eu esteja querendo desvalorizar o trabalho do Lukid em função de sua relativa semelhança com as vertentes que lhe influenciam. Mas devo notar que, recentemente, além do último Dälek, tivemos um ep matador de Hudson Mohawke, Polyfolk dance, o primeiro LP do virtuoso Ras G, Guetto Sci-Fi, que alçam o rap experimental a uma nova fase. Sem contar o impressionante Los Angeles de Flying Lotus – inclusive, algumas faixas de Foma, como “Veto” e “Chord” evocam perigosamente o nome de Flying Lotus… Diante deste contexto, o disco perde um pouco a graça, embora contenha alguns momentos que asseguram o interesse para um próximo álbum, como a própria “Ice nine” e, talvez por coincidência, talvez não, “Time Doing So Mean”, a faixa que o encerra. Provavelmente o Lukid se encontre mais no silêncio com o qual essas duas faixas trabalham do que na abrasividade e na disritmia que caracteriza seu miolo e suas influências. Aguardemos. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Lukid – Foma (2009; Werk Discs, Reino Unido)

  1. Alvimar NoisYshoe
    5 de junho de 2013

    Opa! Sinto o mesmo em relação às mudanças da nova música eletrônica, está acontecendo de fato uma grande transformação. O Acqua Crunk é tão estranhoso quanto criativo e novo, já que pega vários gêneros como até rock progressivo [a parte de teclado] ainda misturam chiptune, ambient, IDM, etc. mais os estilos que citou acima. Parabéns pelas infos raras postadas aqui, a juventude carece de boas novas informações musicais! Viva a nova música! Alvimar.

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Publicado às 29 de janeiro de 2009 por em eletrônica e marcado , , , .
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