Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Antony and The Johnsons – The Crying Light (2009; Secretly Canadian, EUA)

thecryinglight

Antony and the Johnsons é um conjunto liderado por Antony Hegarty, cantor nascido em 1971 em Sussex, Inglaterra. Os outros membros do conjunto são Julia Kent (violoncelo), Parker Kindred (bateria), Jeff Langston (baixo), Doug Wieselman (metais), Maxim Moston (violino) e Rob Moose (guitarra, violino). O primeiro álbum, Antony and The Johnsons, veio em 2000. Logo depois, o EP I Fell in Love With a Dead Boy deu maior reconhecimento ao grupo e rendeu participação de Antony no projeto The Raven de Lou Reed. Seguiu-se o EP The Lake e, em seguida, o segundo e aclamado álbum I Am a Bird Now, de 2005, que venceu o prêmio britânico Mercury e popularizou o conjunto. Além de sua carreira com os Johnsons, Antony fez participações em filmes e emprestou sua voz para o projeto Hercules and Love Affair. The Crying Light é o terceiro álbum do grupo. (RG)

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Quem esperava, depois do petardo que é “Shake That Devil” – uma das músicas do EP Another World, lançado em outubro do ano passado e antecipando The Crying Light – e das incursões no terreno da disco music com o Hercules and Love Affair, que Antony Hegarty decidisse versatilizar seu som, se enganou completamente. Ao contrário, essas escapadas de EP e projetos paralelos serviram para que as composições de seu terceiro disco fossem as mais focadas, coerentes e cheias de pressão possível. Nada nesse disco novo, por exemplo, comparando a I Am a Bird Now, lembra a incursão no soul de representada pela magnífica “Fistful of Love”: temos aqui um mergulho homogêneo e profundo no terreno das baladas intensas, das melodias melancólicas e carregadas, levadas ao piano, com acompanhamento discreto porém efetivo e comovente das cordas habituais dos Johnsons.

Inevitavelmente a estrela maior é a voz de Antony. Ela não oferece novidades maiores em relação ao que Antony já fez, mas serve perfeitamente para iluminar momentos melódicos preciosos e criar o misto de densidade soturna e maravilhamento comuns às canções de Antony. “Her Eyes Are Underneath the Ground” começa o disco, com som fúnebre de cello e letra sobre morte da mãe. Não poderia começar melhor: é uma balada pesada no clima das estrofes, só compensada pelos agudos e pelo acompanhamento de flauta no refrão, que dão uma doçura inesperada à faixa ao evocar a companhia da mãe num jardim em que ele roubou uma flor. “Epilepsy Is Dancing”, ao contrário, começa de forma singela e aos poucos vai ganhando tons mais fortes. “One Dove” novamente remete a um possível diálogo com a morte, na figura de uma pomba que vem “do outro lado” e traz a paz. “Kiss My Name” é o único momento do disco em que se percebe a bateria demarcando claramente o ritmo, com bumbo e caixa, no momento mais otimista do disco. Um respiro estrategicamente colocado que conduz ao momento clímax do disco, a faixa homônima “The Crying Light” seguida por “Another World”, já ouvida anteriormente e comentada em outubro nesta camarilha. A primeira tem introdução com violinos até que Antony começa, bem agudo, com violão de acompanhamento e cordas tangidas ao longe. Na segunda, o tema de luto sai dos contornos individuais e transforma-se numa elegia sobre a Terra. A partir do terceiro minuto, instrumentos com notas longas e dissonantes fazem a casa para o sentimento de mundo desolado prestes a ser abandonado. “Daylight and the Sun” tem um tom de oração, ou de evocação da natureza, com menção a água, areia, montanhas, campos, gaivotas… “Aeon” complexifica essa dimensão cósmica que o disco tem com a natureza como dona da vida e da morte, como redentora. Se “Daylight…” é uma oração, “Aeon” é uma missa celebratória de retomada do poder da natureza que em teor e tom lembra o magnífico What’s Goin’ On de Marvin Gaye. “Dust and Water”, em sua placidez luminosa, nos lembra por que Antony regravou a Julee Cruise de “Mysteries of Love”. “Everglade” termina o disco em chave menos intensa, certamente uma composição não tão trabalhada quanto as outras do disco, mas uma que fornece um certo senso de fim de percurso.

The Crying Light consolida a figura de Antony Hegarty como baladeiro de pop barroco, algo entre um Scott Walker menos espalhafatoso e um Tindersticks menos boêmio. Seu modo de cantar está cada vez mais preciso, dessa vez com alguns cacoetas discretos de música negra devidamente traduzidos para seu universo próprio. Ainda que não chegue à excelência dos melhores momentos de I Am a Bird Now (“Hope There’s Someone”. “Fistful of Love”), The Crying Light é um disco mais consistente e contundente por conta da coerência musical e conceitual de sua proposta, e um testemunho da soberba vitalidade de Antony Hegarty e seus Johnsons. (Ruy Gardnier)

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O troféu “faixa do ano” para a Camarilha foi dividido por duas figuras emblemáticas da música contemporânea. De um lado, o iconoclasta Sam Shackleton e a batucada digital de “Death Is Not Final”; de outro, Antony e seus Johnsons brincando de fazer noise-rock em “Shake That Devil”. Não seria exagero afirmar que temos aqui uma espécie de dualidade decisiva na produção musical contemporânea. Shackleton representando os artistas preocupados em tatear o inominável, arriscando-se não só por terrenos áridos e inexplorados, como também buscando desencavar procedimentos e gêneros, atribuindo-lhes outros contextos e significados. Nesta cepa, podemos contar como nomes como Richard D. James, Asa-Chang, Kieran Hebden, Scott Herren, The Caretaker, Fennesz, entre outros. Antony estaria mais atrelado às releituras contemporâneas: Tindersticks, Strokes, Crystal Antlers, entre outros, estabelecem à sua maneira formas de lidar e transformar aquilo que é herdado. Claro que estas categorias não representam cânones absolutos, pois os inovadores também se alimentam de certas tradições, os “mestres” e renovadores também criam procedimentos e sonoridades inventivas… No caso de Antony, o tempero de sua música advém de uma tensão: alguns elementos extremamente alusivos, proximos de alguns cantores-pianistas da década de 70, como Elton John, mas que, ao mesmo, são deslocados desse contexto através de um registro conscientemente exagerado, que se esmera na criação de universos insólitos, que sonda temas ásperos como a morte e o universo gay, mas que na dimensão melódica conserva e exacerba o aspecto romântico de suas canções (ou deveria dizer: barroco…). Neste sentido, sua música não mudou muito. Mas a grande diferença de The Crying Light para seu predecessor, I Am a Bird Now, reside na qualidade dos arranjos, que alça a discrepância entre canção romântica e letra bizarra a uma esfera mais adequada. E posso até dizer que, no que diz respeito ao meu gosto pessoal, prefiro o Antony que se esmera em sutilezas em “One Dove”, em criar o absurdo em “Epilepsy Is Dancing”, em desenvolver uma inflexão ambient em “Dust and Water”, em incluir pratos de bateria toscos em “Daylight and the Sun”… Isso sem contar com a já citada “Shake That Devil”, prenuncio de uma ousadia formal um pouco mais incisiva que anteriormente. Oxalá Antony enverede por este caminho, buscando mais nos surpreender do que nos causar o sentimento de estranheza que caracteriza suas canções. Tudo OK, mas ainda aguardo um álbum que definitivamente me convença de seu talento, para além de sua voz estranha e modos bizarros. (Bernardo Oliveira)

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De um artista do porte de Antony Hegarty – um dos cantores/compositores mais singulares e criativos da nova geração -, sempre se espera o melhor possível, ainda mais quando o álbum em questão é o sucessor, depois de quatro anos, do maravilhoso I Am a Bird Now e do EP igualmente belo, Another World, que já denotava novos direcionamentos na sua proposta estética e na maneira de compor (“Shake That Devil”).

Talvez um LP dos Antony and The Johnsons não seja algo fácil de digerir – demorei um pouco a gostar de I Am a Bird Now, apesar de desde sempre reconhecer sua unicidade musical. Mas não posso deixar de expressar minha frustração em relação a The Crying Light, o que se dá, principalmente, pela expectativa que coloquei em torno do disco, pois esperava canções do nível do EP recém-lançado.

Another World, além de ter me feito retornar vorazmente à música de Hegarty, deixou aquele gostinho na boca de que o que viria em seguida seria tão ou mais especial que seu material pregresso. E é nesse ponto que The Crying Light aparece como um desapontamento na obra do conjunto: nenhuma canção à altura de “Shake That Devil” ou “Hope Mountain”; e mesmo a lindíssima “Another World”, reprisada pelo cantor, ficou perdida no meio do disco – seu impacto como faixa de abertura era muito maior.

Longe de ser um álbum ruim ou medíocre, como eu colocaria nos meus dias de pouca tolerância, The Crying Light é, em certo sentido, o trabalho sucessor ao premiado I Am a Bird Now que todos esperavam. Não há grandes surpresas ou evoluções na composição: pelo contrário, Antony se mostra limitado não só para compor, mas para escrever as letras. Os arranjos, por outro lado, demonstram mais acuidade e sutileza da parte do cantor, que acrescentou belas cordas e pequenos detalhes de percussão ao longo do disco.

O problema maior de The Crying Light não chega a ser a falta de inventividade nas composições, mas a irregularidade embutida em cada uma delas: se Antony começa pouco inspirado, como na melodia enjoativa de “Epilepsy Is Dancing”, ele é capaz de trazer variações interessantes para a estrutura harmônica; ou então, se começa com um fraseado inspiradíssimo, como em “Kiss My Name”, põe tudo a perder logo em seguida, com vocais insossos e desprovidos de qualidade melódica. The Crying Light, além de conformista, é frouxo: não empolga, não comove e lhe falta coesão em diversos momentos. É possível, no entanto, que daqui a alguns meses eu o considere um bom disco, um grande disco até; mas, de modo algum, especial. Ao menos não da maneira como é a voz de Antony e sua persona. A pior notícia é que começo a achar que sua música esteja em vias de se tornar inferior ou ofuscada pelos seus dotes e particularidades artísticas. (Thiago Filardi)

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Publicado às 3 de fevereiro de 2009 por em pop, rock e marcado , .
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