Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

John Martyn – “Don’t Want to Know” (1973; Island, Reino Unido)

john-martyn

A morte de John Martyn (nascido Ian David McGeachy na cidade de New Malden, Surrey, Inglaterra), cantor, compositor e violonista, no dia 29 de janeiro deste ano, aos 60 anos, passou quase despercebida pelos veículos musicais: uma nota aqui, um obituário ali. É provável que o acontecimento ganhe um escrutínio maior em revistas inglesas, como a Mojo ou Uncut, mas dificilmente uma matéria de capa, o que, se tratando de um músico britânico de grande importância e influência, seria o mínimo aceitável. Mas John Martyn não morreu precocemente, como seu amigo Nick Drake, deixando apenas três LP’s de material original: ele envelheceu, ficou obeso, teve uma perna amputada e nunca parou de gravar, o que contribuiu para um discografia extensa e pouco chamativa depois dos anos 70; e sejamos sinceros, Martyn nunca gravou um álbum do nível de Pink Moon, Unhalfbricking ou Basket of Light e nunca teve a visão ou a audácia de um Incedible String Band ou Comus, grupos relacionados ao folk revivalista dos anos 60, assim como Nick Drake, Fairport Convention e Pentangle, de Bert Jansch e John Renbourn. Contudo, não minimizemos seu talento, singularidade e o valor de sua obra, que, assim como toda a safra do folk britânico, viveu o auge na transição dos anos 60 para os 70.

“Don’t Want to Know”, do álbum Solid Air, de 1973 – um de seus melhores momentos -, fica como um epitáfio para sua carreira e vida: “I don’t want to know about evil/Only want to know about love”, é o que canta Martyn em mais da metade dos três minutos de uma canção perfeita, construída a partir de dois fraseados, que ficam em torno, aproximadamente, de cinco notas.  O riff do violão, acompanhado pela voz, é repetido exaustivamente em toda a música, do mesmo modo que o refrão e, ainda assim, não é o suficiente: o ouvinte fica querendo mais; a melodia e as palavras reverberam infinitamente na cabeça. Outro fator chamativo de “Don’t Want to Know” é a aura espiritual que a envolve: desde a primeira nota ficamos hipnotizados pelo violão que dedilha os acordes tão delicadamente e depois pelo piano elétrico transcendental que entra quase despercebidamente e cria um pano de fundo etéreo, à la Sun Ra, para a canção, ou pelo barítono suave, meio uivante de Martyn (uma das gravações de voz mais bonitas que ouvi na vida), entoando tranquilamente o refrão, que já começa com um “and”, como se fosse uma melodia contínua, perpétua, que nunca se esvai, e o cantor está lá só para trazê-la de volta à superfície.  É assim na primeira metade da faixa, até que entra o resto da banda, com bateria e baixo para o piano fazer um pequeno improviso em cima do tema ubíquo. A voz de Martyn retorna, mantendo sua singeleza, mas o próximo refrão já é mais agressivo, persistente: ele reitera mais uma vez que não quer saber do mal ou nenhuma coisa sobre o mal, como canta mais para o final; quer saber somente do amor. O estribilho toma conta da canção e um coro acompanha Martyn até a musica se dissipar gradativamente e deixar sua melodia no ar, para ser cantada eternamente, não nos deixando nenhuma outra opção, senão querer saber apenas sobre o amor. (Thiago Filardi)

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Publicado às 7 de fevereiro de 2009 por em folk, rock e marcado , , , .
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