Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mi Ami – Watersports (2009; Quarterstick Records, EUA)

mi-ami

O Mi Ami surgiu das cinzas da defunta Black Eyes de Washington D.C., banda obscura que foi muito apreciada pelos poucos que a ouviram enquanto existiu. Dela saíram o líder, vocalista e guitarrista Daniel Martin-McCormick e o baixista Jacob Long que mudando para a Califórnia e recrutaram o baterista Damon Palermo fechar a formação da banda. Debutando com o 12” African Rhythms e mais alguns discos curtos de distribuição limitada, o Mi Ami tem em Watersports seu primeiro álbum de longa duração. (M.M.)

* # *

Ano passado já tivemos “African Rhythms” como uma das melhores coisas que então ouvimos e Watersports não vem trazer nada de essencialmente novo aquela sonoridade, investindo muito mais em aprofundar e expandir idéias. Mas ainda assim, a idéia de termos um álbum com aquele nível de vibração é tanto fabuloso quanto assustador.

Em suas premissas, o Mi Ami deveria ser uma banda engraçada (patética?) e fadada ao fracasso. Poderíamos começar pelos vocais esganiçados de Martin-McCormick que ultrapassam o falsete e se aproximam perigosamente de algo como o pastiche do Massacration. Claro, não se trata de nada disso, mas ainda resta o problema principal: as afiliações da banda, do pós-punk, cujo ressurreição nunca parece terminar (deveríamos ter um filme do George Romero sobre zumbis pós-punk) aos novos “tribalistas” cujos representantes famosos tanto expandiram e esgotaram a sonoridade que é temerário se aventurar pelas águas já saturadas pelas proezas cometidas pelo Animal Collective, Liars, Gang Gang Dance e até pelos padroeiros Boredoms. Cabe notar que por tribal se deve entender uma certa sonoridade, com pouca ou nenhuma ligação com outros sentidos da palavra. Até por que cada um dos citados criou um universo tão próprio apenas mencionar a idéia seria tolice.

Vindo de uma ótima e bem obscura banda de Washington D.C., a banda parece escolher os caminhos mais espinhosos. Se já não bastasse o acima referido, em seu álbum de estréia eles confirmam o gosto por faixas longas e saturadas. Ou seja, teríamos uma série de razões para riscar logo de cara o projeto como sendo excessivamente ambicioso e mal calculado. Faixas que dentro do formato adequado deveriam ser curtas e diretas são longas e repetitivas, mas também muito mais complexa que no 12” de “African Rhythms”.

Daí entra a música. Daí ouvimos a percussão insana, o baixo que ganha espaço fundamental, a guitarra afiadíssima e os vocais que funcionam como mais um instrumento a contribuir para a energia maníaca da banda e qualquer argumento contra cai como uma porta arrombada a chutes. Martin-McCormick parece possesso, seus vocais tem certa semelhança com os de Yoshimi à frente do OOIOO, caso esta sofresse de um surto psicótico; sua guitarra segue trajeto parecido, pois tentando fazer frente ao trabalho do baixo e da bateria, Martin-McCormick criar figuras muito mais contundentes que as que ouvíamos até “African Rhythms”. Aí reside um dos segredos da banda: foi preservada a potência da performance quase tosca do Black Eyes mas acrescentando uma complexidade que nem era imaginada àquela época.

Arrisco a dizer que o Mi Ami pratica uma forma de mini(maxi)malismo histérico, pois a densidade é tamanha que a célula rítmica forma uma parede e o fato de misturar de forma tão agressiva a percussão africanizada e as linhas angulosas de guitarra e baixo do pós punk termina por gerar um efeito contrário ao conseguido pela maioria das bandas que privilegiam a percussão: uma forma essencialmente abstrata; algo muito distante dos universos particulares das bandas antes apontadas. Para isto, o uso dos ruídos tem uma contribuição especial pois junto com toda a intensidade da performance e da coesão da cozinha da banda, uma série de ruídos e feitos vazão a todo momento do que ouvimos; como se a energia desprendida fosse tamanha que resíduos sonoros fossem produzidos aleatoriamente e derivassem à margem qual resultados de entropia.

A fórmula não funciona igualmente por todo o disco, nos momentos em que a velocidade da execução diminui a banda claudica na tentativa de manter a mesma intensidade da performance, falta alguma habilidade para deixar espaços como um Liars ou um Gang Gang Dance fazem tão bem ao manter o alto nível em qualquer “giro”. De qualquer jeito, mesmo nestes momentos, não falta riqueza à música e até podemos apreciar com maior atenção os detalhes, a complexa e intrincada riqueza de como tantos elementos díspares são amarrados. Um ponto que funciona para o bem e para o mal, nestas passagens as estruturas estão mais expostas.

Outro paradoxo da banda é que as composições parecem ao mesmo tempo ensaiadas e precisas quanto produto do abandono dos músicos que tem como único propósito acumular ruídos e criar figuras percussivas de crescente elaboração, não estamos no terreno da pura intensidade das performances punk com suas composições reduzidas ao osso nem nas improvisações do jazz. O método de gravação do disco influiu diretamente no resultado, a performance foi captada “ao vivo” em dois dias e meio de gravação e posteriormente outros elementos foram introduzidos e os próprios músicos reputam que esse segundo momento foi encarado como uma nova performance em cima do material bruto.

As principais faixas deixam a sensação de que a algum momento presenciaremos uma explosão – algo bem diverso do crescendo do pós-rock, onde aqui se busca altura, elevação, ali temos um tem desgovernado mas em velocidade constante. No fim, no lugar de pós-punk, música tribal, dub, música gamelã, noise, ou mesmo punk temos um híbrido que definitivamente não é original, mas dada a mistura tão peculiar, temos um frankenstein que a nada se assemelha diretamente. Se eles conseguirem se manter o equilíbrio de seus paradoxos, teremos mais uma potência a acrescentar ao panteão das bandas do Brooklin. De todo modo, uma bela e contagiante baderna. (Marcus Martins)

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Mi Ami é uma espécie de paraíso de pospunkeiros: ouvi-los evoca com naturalidade Liquid Liquid, Raincoats, Slits, Talking Heads, Gang of Four. E, ao mesmo tempo, o som do grupo está totalmente inserido no panorama contemporâneo de um rock abrasivo e intensamente percussivo, à maneira de artistas como Gang Gang Dance, Liars, Oneida ou o Rapture antes do primeiro disco. Imagine uma bateria pulsante o tempo inteiro, com marcações funky mas inteirada em punk, jazz/soul e ritmos terceiro-mundistas (o adorável myspace deles cita como influências música africana e partido alto), um baixo suingante e uma guitarra que alterna entre riffs de Andy Gill, ambiências inspiradas e estridências de funk de branco como David Byrne em ’77 ou Arto Lindsay no começo. Ah, e os vocais hiper-agudos e gritados do vocalista Daniel Martin-McCormick, que parece uma japonesa histérica.
O que mais cativa em Watersports é a intensa energia destilada pela bateria eternamente presente e pela dosagem perfeita entre noise e feeling alcançada pela guitarra. Se quiserem um acesso direto ao que eles fazem de melhor, é só checar a segunda parte de “New Guitar” e deliciar-se eternamente. Quando o andamento é rápido e o volume está alto (e eles via de regra são muito altos), tudo no Mi Ami funciona às mil maravilhas. As soluções instrumentais são tudo menos óbvias, e há uma concreção extremamente salutar no som do grupo: a percepção é clara de que não existe elemento decorativo, de que tudo na música deve servir um propósito muito claro ou silenciar. O que torna a audição de Watersports uma experiência muito direta.

Mas a inspiração do grupo claramente não é pelas composições. É pelas situações, sobretudo instrumentais, o que dá uma sensação de jazz punk, de improvisação, de música ao vivo, de um ritual sem crença. Nesse sentido, o grupo que mais vem à cabeça não é nenhum dos citados acima, mas os japoneses do Boredoms, com suas trips psicodélicas e maluquetes. Só que os Boredoms funcionam muito bem em todos os registros. A julgar por Watersports, o Mi Ami ainda precisa aprender a tornar interessantes suas músicas de andamento mais lentas. “White Wife”, por exemplo, representa o Mi Ami em seu aspecto menos interessante: uma música que aponta para lugar nenhum, uma jam interminável que almeja o climático mas não consegue chegar lá. Fiquemos, então, com as cinco primeiras e acachapantes músicas do disco, que são alguns dos momentos mais enérgicos e cheios de vitalidade que teremos ouvido nesse começo de ano, quiçá em boa parte dele. E 5 de 7, convenhamos, é uma boa média. (Ruy Gardnier)

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Segundo seu irmão Albert, o documentarista americano David Maysles considerava que o excesso de rigor metodológico poderia, por vezes, embotar a capacidade criativa. Pode-se até discutir se este preceito, metódico às avessas, contém algo de verdadeiro, mas é inegável que a arte do século XX deu fartos exemplos de descompasso, arbitrariedade e excesso de regras e procedimentos. Refiro-me mais particularmente à segunda metade do século, e ao que se convencionou chamar “artes plásticas”, nas quais o método muitas vezes se sobrepunha em interesse e criatividade a seus produtos – não me parece um acaso que o artista plástico seja convocado a explicar sua obra mais que qualquer outro artista… A julgar por Watersports, álbum de  estréia do Mi ami, o método que se infere destes dois trabalhos apresenta dois aspectos. O instrumental, calcado essencialmente na seara do pós-punk, mas com toques eletrônicos e noise, lembra talvez um Captain Beefheart conduzindo as músicas do Joy Division: convenções cruas e tresloucadas, parecidas também com as do Minutemen, contrabaixo agudo estilo Peter Hook e guitarras barulhentas, saturadas de delays e distortions fazem a cama para a segunda aposta metodológica do Mi ami: a voz de Daniel Martin-McCormick, que rouba violentamente a atenção nas sete faixas do álbum. Não é exagero afirmar que o indivíduo começa a gostar pelo menos de algumas faixas somente quando a voz de Martin-McCormick é assimilada. Caso contrário fica muito difícil repetir a audição do álbum. Neste caso, o método do Mi ami se afigura como uma faca de dois gumes: de um lado, apraz pelos momentos em que o instrumental radical, coberto pelo vocal gritado no melhor estilo Suicide, cria momentos sublimes como as três primeiras faixas: “Echononecho”, “The Man in Your House” e “New Guitar”. Por outro lado, embora seguindo o mesmo método, faixas excessivamente climáticas que marcam mais da metade do álbum, acompanhadas pela voz pentelha de Martin-McCormick. Se pretendesse com esta resenha me posicionar como tribunal, eu até aprovaria o trabalho do Mi ami, já bastante apreciado através do single African Rhythms. Mas faria a ressalva de que o grupo talvez se apresente de forma mais interessante através do formato EP. Se por falta de fôlego ou de método, somente o tempo e um segundo álbum dirão. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 19 de fevereiro de 2009 por em noise, rock, vanguarda e marcado , , .
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