Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Black Dice – Repo (2009; Paw Tracks, EUA)

blackdicerepo

O Black Dice foi formado em 1997 quando Bjorn Copeland e Hisham Bharoocha se conheceram na Escola de Design de Rhode Island. Completado por Eric Copeland, irmão de Bjorn, e Sebastian Blanck, o grupo inicialmente desenvolveu um som próximo do thrash e do hardcore, mas aos poucos foi pendendo para um uso mais experimental, abstrato e às vezes percussivo do noise. Ainda nos primeiros anos de atividade da banda, Blank saiu do Black Dice e Aaron Warren entrou em seu lugar. Em 1999 o Black Dice se mudou para Brooklyn, Nova York, fazendo parte da cena em volta do bairro e estabelecendo parcerias com grupos como Wolf Eyes e Animal Collective. Bharoocha saiu da banda em 2004, fazendo do Black Dice um trio. Além de uma série de singles e ep’s, alguns memoráveis, a discografia do grupo conta com os álbuns Beaches & Canyons (2002, DFA/Fat Cat), Creature Comforts (2004, DFA/Fat Cat), Broken Ear Record (2005, DFA/EMI), Load Blown (2007, Paw Tracks) e Repo.

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O que mais fascina dentro da obra do Black Dice é o fato de eles terem circunscrito, dentro do universo vasto e ainda pouco explorado do noise, uma certa orientação que singulariza completamente o som do grupo e, além disso, trabalha às margens da relação com a acessibilidade e, talvez mais importante, acaba de vez com a aura de densidade e pompa que uma faceta do gênero costuma ter. O noise é inicialmente um gesto de rebeldia, uma provocação, um intuito deliberado de fazer barulho e negar as convenções aceitas do que é e o que não é musical. Mas quando até o noise passa por um caminho de legitimação à medida que vai se constituindo uma história – o que é inevitável –, que caminho seguir com sua rebeldia, uma vez que a seara mais rebelde da agressão sônica pura e sem forma parece ter sido totalmente esgotada por Merzbow, Incapacitants, etc.? O Black Dice dá um passo atrás para dar dois pra frente: eles soam com a gratuidade e o frescor de moleques descobrindo o poder de incomodar batucando e tirando grunhidos de eletrônicos, guitarras e pedais, mas o fazem com uma disciplina soberba, uma economia certeira que cria esse efeito paradoxal de uma banda de som magro (raríssimos sons para “encher” e dar relevo às composições) e grande veemência. A cada disco, eles dão passos largos para se estabelecerem como uma das bandas mais interessantes em ativbidade. Broken Ear Record já era o disco de uma banda totalmente senhora de si, e Load Blown é muito possivelmente um dos discos da década. Repo não dá um passo adiante; dá, digamos, um passo lateral. Ao invés de retomar e lapidar à perfeição o que vinha sendo feito, eles decidem incorporar uma nova gama de sons, lidar com outras fontes de barulho e ver como tudo isso assenta no som do grupo.

Em Repo, não há uma reorientação no som do Black Dice. Há, no entanto, uma ênfase naquilo que vem sendo uma das singularidades do grupo, a percussividade. Por vezes, e isso é novo, acrescido de um diálogo com o hip-hop. “Earnings Plus Interest” é estruturada a partir de uma batida hip-hop anos 80 (mas depis, curiosamente, vira um ritmo que flerta com um sambinha), “Whirligig” e “Buddy” são colagens semelhantes a algumas experiências abrasivas de um Public Enemy dos primeiros discos e “Urban Supermist” parece um trecho de faixa do cLOUDDEAD. Não que isso torne o som do grupo diferente: isso é acrescido à estética do grupo, apropriadamente, e as intenções permanecem as mesmas, testar as possibilidades do noise em terreno bubblegum, como se fizesse uma música pop de outro planeta (por isso, provavelmente, que apesar das enormes distâncias de procedimento, o grupo lembre tanto os Residents).

Dessa vez não há nenhuma “Roll Up” ou “Manoman”, mas há algumas faixas que podem tranquilamente disputar lugar no panteão do Black Dice. “Glazin” é a mais vibrante do disco, iniciada com um loop de pop longínquo e em seguida dominada por vários barulhinhos, em que se destacam uma guitarrinha, um som de coro que lembra “Birthday” dos Beatles e uns momentos de graves dub que, junto com a marcação (e também por causa de certos sonzinhos “jogados”), remetem ligeiramente a “Blue Room” do Orb. Outro destaque é “Lazy TV”, estruturada a partir de um loop de voz bastante processada e batida, sobre a qual intervêm sonzinhos incidentais de piano e intervenções bruscas de eletrônica. Aos dois minutos e meio surge uma outra parte, sem o loop de voz, apenas batida e eletrônica, até sons assemelhados a um motor de carro entrarem arrebentando e voltar a mesma parte do começo, quase em efeito catártico. A própria “Nite Creme”, que começa o disco, é um perfeito momento introdutório, com seu beat r&b nada suingado, uma voz meio abafada no mix e o costumeiro uso de timbres eletrônicos estridentes e curtos que já se tornaram assinatura do grupo. O único ponto negativo é a inclusão de faixas que não acrescentam nada nem sozinhas nem à progressão do disco, como “Idiots Pasture” e “Ten Inches”, que mais parecem vinhetas estendidas. Em todo caso, isso não é suficiente para retirar o interesse nem a vitalidade desse disco que, mesmo não sendo genial por inteiro, é uma das audições mais instigantes e prazerosas desse começo de ano. (Ruy Gardnier)

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Quem tem medo da porcaria? Quem está disposto a morrer por seu “bom gosto”? De que importa a música? Ela pode vir a morrer, como prenunciam as teorias apocalípticas amparadas pelo capital e pelos órgãos de comunicação? Sim, pode! E daí? Antes de mais nada é preciso perguntar para aquele que enuncia o fim: mas de que música se trata, rapaz? A música como comércio? A música como ideologia, pensamento, como “promessa de felicidade”? Esta música, aquela outra? Nada mais do que inflexão religiosa embutida em reflexão metida a iconoclasta, a opinião dos arautos do fim da música mostra que eles se esquecem de que a “música” não importa (e, neste caso, utilizo o plural porque percebo que está opinião é comum…). Ela pode “acabar”, por assim dizer, e ser rebatizada com o mesmo nome: música. Ou ainda ser misturada a outros prefixos: protomúsica, submúsica, metamúsica… Não importa o que é a música, mas saber qual é a música, maestro! E também se ela exprime algo para além da ordem, da competência, da lei e do dinheiro. Perdoem o excesso deste primeiro parágrafo, mas ouço Repo na semana em se enuncia em moldes fukuyamescos o “fim da música”? Como, se me parece que ela está ainda começando?

Dois princípos se entrelaçam e norteiam o veredito dos arautos do fim: a ética da competência e a lógica da conservação. Ambas são responsáveis pela reprodução e sublimação de todos os elementos que, embora históricos e determinados, foram alçados por uma geração que ascende ao poder à qualidade de “eternos”. Em boa parte, este equívoco não leva em consideração o aspecto moral do conceito “boa música”, construído, de um lado, sobre a idéia de que a boa música é a conhecida ou reconhecível – e sobretudo, é a que “eu conheço” – e, de outro, de que se a boa música é realmente “boa”, todas as outras músicas que se opõem a ela são, portanto, a má música, a porcaria. E existem muitas maneiras de se opor à boa música, se levarmos em conta a “boa música” para aqueles que foram jovens nos anos 60: a bossa nova, o jazz, o rock and roll inglês, o soul, o funk, o afrobeat, a juju, as orquestras, o samba, o reggae, a salsa, etc, tocados numa determinada timbragem, respeitando certas inflexões, certos andamentos… A boa música para os que hoje tem entre 50 e 70 anos é uma música autoral, produzida de forma a afirmar um gênero, seja através de um aprofundamento de suas características, como no jazz, seja através de sua síntese com outros gêneros, como no caso do rock and roll, filho do blues e do rhythm and blues… Mas como este indivíduo pode compreender a música hoje, se hoje ela não procede somente através de aprofundamentos e sínteses? Como ele poderá entender o caráter precípuo da grande música hoje, que é a retorção e transfiguração de elementos históricos. A grande maioria dos artistas que produzem música inventiva e instigante hoje adotam este procedimento como perspectiva sobre o trabalho musical. Excesso de informação e facilidade de veiculação não estão embotando o processo criativo, mas modificando-o de forma a alterar de alto a baixo o estado de coisas da música. Mesmo uma banda como Charlie Brown Jr., aparentemente uma emulação insípida de bandas punks dos anos 80, pode ser avaliada como uma retorção de elementos destas bandas, adequada às aspirações do grupo – pode-se dizer, invertendo a fórmula de Paulo Emílio, que eles detém uma certa “competência criativa em copiar”. Um grupo como o Menahan Street Band, cujo álbum Make the road by walking foi lançado em 2008 mas soa como se fosse feito em 72, olha para o legado musical dos anos 60 de forma semelhante, ao passo que o Grizzly Bear já cria sua música a partir de uma transfiguração dos anos 70, mas coma habilidade de songwriter e arranjador de Daniel Rossen para soar como música contemporânea. A transfiguração como método de composição é portanto um caráter da música contemporânea que tanto dá conta de sua sensibilidade, como esclarece, à contragosto de Adorno e Nelson Motta, o vínculo entre criação e reprodutibilidade, pois requer do criador que ele disponha de uma bagagem consistente como fruidor, ao menos condizente com seus propósitos criativos (no fim da vida, o filósofo francês Gilles Deleuze afirmou que só lia para escrever…)

Afirmar que Repo, do Black Dice, é um disco que dá conta deste contexto é diminuí-lo, pois o que se ouve aqui é um passo além na música, que não só intercepta qualquer pessimismo preguiçoso, como também o desafia. Sua música é pura transfiguração (assim como a de Richard D. James, Shackleton, John Butcher, M. Takara, etc.): ao contrário da música realizada na primeira grande fase da música mecânica, “a era do disco” (isto é, quando toda a produção musical se tornou subscrita às dinâmicas industriais de registro e difusão, tornando-se também componente de grandes linhas de produção, ou gêneros), a música desta segunda fase não é produção genérica, nem movimento, mas comentário individual. O Black Dice tece em quarenta e cinco minutos seu comentário arrojado e irônico sobre a dimensão onírica da sociedade de consumo, em que dispomos e assimilamos diariamente uma gama de sons e imagens, que alteram consideravelmente a percepção e, portanto, a sensibilidade criativa. Mas isso é apenas uma explicação genérica e conceitual para um acontecimento experiencial que extrapola explicações: ouçam por exemplo “Earnings Plus Interest”, “La Cucaracha” ou a faixa de abertura, “Nite Creme”, que permitem entrever o método e a singularidade do som.

Mas talvez muitos achem essa música uma “porcaria”, o prenúncio do fim… Estarão certos ou errado? Mas isso também não importa! E, aqui, vale mais uma vez citar o poeta greco-romano Marcial, apud Augusto de Campos:

Só admiras os velhos, só a arte
Dos mortos move a tua pena.
Sinto muito, meu velho, mas não vale
a pena morrer para agradar-te

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Publicado às 2 de março de 2009 por em eletrônica, noise, rock e marcado , .
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